| Capítulo 1 | Tempos de céu aberto com riscos de temporais
Tudo não passava de uma nova fase na minha vida. Era 2010, um ano marcado pelo início de mudanças que se desenhavam no horizonte e se materializavam no cenário ao meu redor: o colégio. Desde que cheguei há um mês, meus olhos absorviam cada detalhe, sentindo que aquele espaço guardava o prenúncio de algo maior.
Nunca imaginei que seria recebida por um espaço imenso e precário, com paredes sombrias e o ecoar de gritos de rebeldia vindos de turmas mais velhas. Quando pensava no ensino fundamental, logo me vinham à mente cenas de filmes sobre a época do colegial, e instantaneamente, meu anseio despertava. No entanto, ao me deparar com a realidade, percebi que a maior parte das minhas imaginações coloridas era coberta por tons melancólicos.
Mesmo diante de tudo isso, eu não renunciei às tonalidades vivas.
Porque elas ainda viviam dentro de mim.
Embora estivesse passando por aquela etapa, sabia que não estava sozinha. Afinal, havia outro alguém que também carregava a essência de uma inocência intacta. Era exatamente isso que me consolava, ver que podíamos compartilhar pedaços de um paraíso da nossa infância, formando um quebra-cabeça que, no final, resultava em uma imagem de encanto.
O encanto de uma amizade.
De braços entrelaçados, caminhávamos em passos sincronizados, enfrentando os locais tumultuados enquanto nossos ouvidos aquietavam as vozes que poderiam nos amedrontar. Assim que entramos, nos certificamos de que estávamos a salvo e rapidamente meus olhos se voltaram para o reflexo. O espelho mostrava a imagem de duas meninas, cujas feições rejuvenescidas e estruturas físicas eram ideais para quem estava prestes a completar onze anos.
Tirei a presilha em forma de laço e ajeitei meus cabelos, passei os dedos pela franja e, por fim, coloquei novamente o acessório, prendendo-o na lateral da cabeça. Camila, a garota que estava ao meu lado, desfez seu rabo de cavalo e reuniu novamente seus cabelos loiros. Em seguida, refez o penteado com o auxílio de seu rabicó de pompom.
— Que bonito esse lacinho! Combina muito com você — ela elogiou, sorrindo.
— Desde que minha mãe me deu ,eu nunca quis usar outro. E eu adoro essa cor rosa-choque — respondi, empolgada.
Ela voltou o olhar para o espelho e suspirou desanimada.
— Vou sentir saudades disso tudo aqui... — murmurou.
— Se eu fosse você, nem sentiria falta desse banheiro fedido, credo! — falei, rindo.
— Não tô falando do banheiro, dã.
Nos encaramos e soltamos uma risada.
— Eu também vou sentir falta de você... — admiti, sentindo um nó se formar na garganta.
Antes que outras garotas pudessem entrar no mesmo espaço que nós, saímos depressa e fomos para o longo corredor que dava acesso às salas de aula. Naquele momento, o barulho do intervalo já havia diminuído, e o silêncio voltou a se propagar pelas instalações.
— Só de pensar que vou ter que mudar de escola de novo, já fico com medo de ficar sem amigos... Queria tanto que a gente tivesse uma casa só nossa. Mudar toda vez que o aluguel aumenta é um saco! — Camila reclamou, chateada.
Não fui capaz de dizer uma palavra, apenas lamentei o que havia ouvido.
Diminuímos o ritmo dos passos à medida que nos aproximávamos da porta aberta. Ainda estranhava o ambiente, visto que seu tamanho era incomparável ao do primário. O cômodo tinha um aspecto mais simples, com capacidade para acomodar trinta alunos em carteiras um tanto surradas.
Enquanto a professora de inglês não chegava, a sala era preenchida pelos colegas. Por um momento, olhei ao redor e imaginei como seriam meus dias sem minha única amiga. Foi então que um arrepio percorreu meu corpo. Era a primeira vez que sentia algo alterar dentro de mim. Até então, pensava que seria apenas um período de transição, mas nunca imaginei que isso pudesse afetar tanto o clima interno que me habitava há tanto tempo.
Um clima aquecido pelo brilho do sol.
A tarde terminou e, com ela, um abraço que desmontava aquele quebra-cabeça precoce, construído em cerca de um mês. Ao vê-la caminhar pela rua com seu pai, uma sensação de vazio se instalou dentro de mim, arrancado pela raíz nosso vínculo repleto de encanto.
Estava tão absorta em meus pensamentos que nem percebi que minha mãe chegou para me buscar. Enquanto eu e ela caminhávamos de volta para casa, os passos pela calçada pareciam mais longos naquele dia, cada um ecoando a saudade que já se instalava.
— Você está tão quietinha hoje... aconteceu alguma coisa, filha? — minha mãe tentou puxar conversa.
— É que hoje me despedi da minha amiga — respondi, baixando o olhar. — Ela vai se mudar pra bem longe e não vai mais conseguir vir pro colégio. A mãe dela arrumou uma vaga num colégio mais perto da nova casa — expliquei com a voz entristecida.
— Ah, entendi... — ela disse, com um tom compreensivo. — E você não tem mais ninguém pra lhe fazer companhia?
— Ainda não... Por enquanto, vai ser só eu mesma.
— Isso é passageiro. Tenho certeza de que logo você terá outra amiga. Quem sabe até mais de uma? — incentivou, sorridente.
O trajeto não era muito longo, já que minha casa ficava a alguns quarteirões de distância. Estávamos acostumadas com essa rotina a pé, sempre que ela me trazia e buscava.
Não demorou muito até que o portão fosse aberto manualmente. Sem esperar, entrei na sala de estar e logo percebi que minha irmã mais nova estava no sofá, assistindo a um desenho aleatório em um canal de TV a cabo. Larguei a mochila na poltrona desocupada e acenei para ela.
Como o período do fim de tarde despertava minha fome, fui em direção à cozinha para vasculhar os armários. Antes que pudesse encostar a mão no puxador, meus olhos se depararam com uma imagem que aumentou ainda mais meu apetite. Avancei em direção ao bolo e, com a ajuda de uma faca, cortei um pedaço. Não é todo dia que se encontra um bolo de chocolate em cima da mesa.
— Agora que percebi, o pai ainda não chegou?! — indaguei em voz alta, enquanto caminhava até a sala.
— Ele saiu do trabalho e foi direto para a faculdade. Parece que será assim todos os dias, já que não compensa ele voltar para casa e logo depois sair de novo. O trajeto de ônibus demora muito, ainda mais nesses horários de pico... Sem falar que, ultimamente, Curitiba tem um trânsito insuportável — tagarelava ela, lá do seu quarto. Já sentada no sofá, saboreava o bolo. — Mas, querendo ou não, é necessário um sacrifício. E o dele ainda vai durar mais dois anos — sua voz estava cada vez mais próxima, deduzi que ela estava se aproximando.
O ecoar dos seus passos revelou sua presença na sala de estar. Reparei que ela usava roupas mais leves, apropriadas para sua recém-iniciada profissão de atividade física.
Minha mãe tinha uma beleza serena que desafiava o tempo. Sua pele clara e os cabelos castanho-claros formavam uma combinação delicada e harmoniosa, destacando uma leveza natural que parecia só crescer conforme se aproximava dos quarenta anos.
— Só espero que, depois disso, ele consiga um emprego no setor administrativo e que nossas condições melhorem um pouco — ela continuou, enquanto checava sua bolsa.
— Ué, pensei que você dava aula em alguns dias da semana — falei, confusa.
— Meus horários ainda estão bagunçados, porque comecei há poucas semanas. Mas, tirando isso, estou gostando muito.
— Eu também gostaria. Ser instrutora de Pilates deve ser bem legal.
O ruído do zíper indicou que ela havia terminado de procurar e passou a bolsa para o ombro esquerdo.
— É legal, sim, mas leva anos para se especializar. — Suspirou, como se reunisse coragem para encarar mais uma aula. — Bem, vou nessa.
Como sempre, eu e minha irmã a abraçamos repentinamente. Depois disso, ela girou as chaves e, em seguida, a abertura da porta permitiu sua saída.
— E se comportem, hein? — avisou.
Sua voz me pegou de surpresa. Olhei para trás e reparei que seu rosto estava visível através da pequena fresta.
Após a porta ser trancada, a casa ficou com apenas duas companhias. Varri as migalhas do meu uniforme, embora não tirasse os olhos da televisão. Logo depois, me acomodei no sofá, ocupando metade do espaço.
— E aí, como está indo no colégio novo? — minha irmã perguntou, animada, enquanto balançava as pernas no sofá.
Um pouco entediada, separei uma mecha de cabelo e passei a brincar com os dedos.
— Ainda não me acostumei, mas, fora isso, está tudo bem... Só que, a partir de segunda, vou ficar sozinha. Minha amiga teve que se mudar — expliquei, num tom abatido.
— Ah, é aquela menina que veio brincar com você no sábado? — ela perguntou, franzindo a testa.
— Uhum... — murmurei, sem muita energia.
— Sei lá, estou com um pouco de medo da quinta série — confessou, baixando o olhar.
Dei de ombros.
— Não tem nada demais, Flávia. É só escola, como qualquer outra.
— É que... ouvi umas coisas — ela disse, hesitando.
Instantaneamente, deixei a distração de lado e, com um movimento repentino, corrigi minha postura no estofado macio. Meus olhos se fixaram no rosto infantil de Flávia, que, em contraste com seus cabelos escuros, refletia uma combinação singular de entusiasmo e ingenuidade, revelando a essência de sua faixa etária.
— Que coisas? — perguntei, curiosa.
— Minha amiga falou que o irmão dela sofre muito na escola. Disse que os colegas vivem zombando dele e que a mãe dele sempre é chamada na diretoria.
Revirei os olhos, impaciente.
— Ai, Flavia, nada a ver! — retruquei. — Esquece essas histórias, sério. Eu estou lá todo dia e não tem nada disso. E outra, você só tem nove anos. Quando chegar na quinta série, vai ver que não é nada do que você imagina.
Ela arqueou uma sobrancelha, rindo.
— Nem você tem onze ainda, sabe-tudo.
Aquilo despertou meu espírito travesso. Não disse nada, apenas deixei que a almofada atirada em sua cabeça respondesse por mim. Porque, se havia algo que aquelas tonalidades infantis eram capazes de fazer, era pintar momentos de diversão a qualquer instante.
Depois do adeus, minha vida havia dado início à segunda temporada. Com um enredo voltado para a solidão, meus episódios soavam como descobertas a cada canto que explorava daquele colégio.
E o que já estava acinzentado ficava cada vez mais escuro.
As revelações surgiam com ousadia, expondo-me aos comportamentos atrevidos de alguns alunos, alto-falantes de celulares antigos poluindo meus ouvidos com músicas no volume extremo, e a cena entediante de garotas desfilando em grupos, procurando exibir espinhos como forma de ameaça e guardando as pétalas para atingir seus alvos, ou seja, garotos.
Depois que mais um acontecimento entrou para o acúmulo, iniciei a segunda semana sem previsão de que aquela temporada chegasse ao fim. Durante aquela vivência contínua e assustadora, houve um dia em que as cenas reprisaram em meus pensamentos, principalmente quando passava pelo corredor após o sinal anunciar o encerramento do intervalo. Já contava com a presença do mar de vozes na minha sala, uma vez que o descontrole havia assumido o comando, provocando um tsunami de algazarra. Tudo isso em pouco menos de uma semana.
Encarava a lousa à minha frente, com a intenção de não ceder visão às atitudes de alguns colegas. Assim que a voz aguda da professora preencheu os cantos da sala, a aula de Artes começou de maneira incômoda, principalmente para aqueles que não se encaixavam nas ondas movidas pela rispidez. Ao longo dos minutos, houve variação conforme os pedidos para tornar o ritmo das conversas mais ameno. Até que, para minha surpresa, uma leve batida na porta, acompanhada de um pedido de licença, interrompeu qualquer movimento e palavra. Tudo ficou em um estado de calmaria.
— Boa tarde. Desculpe atrapalhar sua aula, mas venho aqui para resolver um problema que teve queixa pela maioria dos professores — falou uma voz, que parecia ser de uma mulher adulta.
Reparei no semblante da professora, que transparecia esperança misturada com gratidão.
— À vontade. — Gesticulou para que ela entrasse.
A porta foi fechada cuidadosamente e a mulher deu três longos passos para frente, até ficar no meio da sala, onde estava a lousa. Desde então, sua imagem manteve-se imobilizada. Lá estávamos nós, diante da pedagoga.
— Não é de hoje que recebo reclamações sobre essa turma, tampouco pedidos para tomar alguma providência. Portanto, a partir de hoje, mudarei alguns alunos de carteiras, para que os demais possam ter uma aula digna — declarou ela, enquanto analisava cada rosto perplexo.
— Começando pela fila da parede — confirmou.
A partir disso, acompanhamos seu dedo apontando para cada colega, indicando a ordem da troca de lugar dos alunos selecionados. Aos poucos, o cenário ganhou uma nova disposição, afastando amizades e até mesmo pequenos grupos barulhentos formados por aqueles que se encontravam próximos.
A última alteração foi na fileira da janela. Meus olhos percorreram aquelas imagens dos estudantes estáticos. No entanto, a escolha durou pouco, pois ela fez menção diretamente para o único ponto bem na mira de seus olhos.
O ruído suave da cadeira sendo arrastada revelou os primeiros movimentos de uma garota de cabelos ondulados. Com os materiais reunidos, ela se deslocava vagarosamente, aguardando a ordem. No final das contas, o lugar escolhido foi nada mais nada menos que a carteira vazia na minha frente.
Aquilo acendeu minhas expectativas.
Com a despedida da pedagoga, a aula retomou seu percurso em um silêncio agradável. Sorri timidamente com o ocorrido. Com o caderno de desenho aberto, continuei a concentração.
— Ei, qual é o seu nome mesmo?— a garota perguntou, sussurrando.
Aquilo me pegou de surpresa. Ergui a cabeça.
— Alana — respondi timidamente. — E você é a Sabrina, né?
Ela concordou com a cabeça.
Antes que alguma palavra saísse de sua boca, ela virou para frente. Presumi que ela se certificava de que a professora continuaria a deslizar o giz sobre a lousa, assim não teria com o que se preocupar em ser advertida.
— Você também tá sozinha? — continuou a conversa, em voz baixa.
Assenti com a cabeça.
— Eu tava com a Camila, mas ela teve que ir embora do colégio... agora você ficou no lugar dela — expliquei, no mesmo tom de voz.
— Eu sabia que tinha uma guria loira, do mesmo tamanho que eu, mas não lembrava quem era.
— É, era ela — confirmei.
— Ah! Aquela criançona — confirmou. — Ela usava umas coisas muito ridículas, né? — Riu de maneira suave.
Um sopro de maldade atingiu o clima que me habitava. E de tão inevitável que era, senti as nuvens se moverem à distância.
Fiquei em silêncio e apenas concordei.
— Nossa, não aguentava mais ficar atrás daquele piá... — ela começou a falar com um pouco mais de força, mas logo baixou o tom. — Ele era tão grandão que eu não conseguia ver nada do quadro. Ele podia sentar lá atrás, no fundo, ou pelo menos parar de comer tanto. — Sabrina riu.
De forma inesperada, senti o peso daquelas palavras. Olhei em direção a ele e lamentei a forma como foi julgado. No entanto, meu outro lado irradiava uma claridade derivada de uma referência inofensiva, como se tudo não passasse de uma brincadeira, ou até mesmo, que aquilo fosse o jeito humorado dela de se expressar.
Não demorou muito para que ela virasse para frente. Como não havia mais nada que pudesse me atrapalhar, continuei a concentração, acompanhando atentamente a explicação da matéria, que ocorria de maneira sucinta e objetiva.
De repente, fui surpreendida por um papel dobrado caindo sobre a minha mesa. Franzi a testa, confusa. Desdobre-o cuidadosamente e logo me deparei com uma pequena mensagem escrita com uma caligrafia impecável:
"Achei você bem legal. Quer ficar comigo amanhã no intervalo? Assim não vamos mais ficar sozinhas."
Direcionei a caneta até o quadrado e assinalei com um "X" na resposta "Sim". Sorridente, refiz a dobradura e enviei em total sigilo. Em pouco tempo, ela voltou a encarar meu rosto inocente e sorriu de maneira simpática.
E o que antes se modificava ao meu redor também começou a atuar em minhas emoções, iniciando a chegada de novos tempos que estavam por vir.
Tempos em que algo desconhecido se aproximava da minha claridade.
Só não sabia o que era.
Notas da autora: E o primeiro capítulo já fecha o tempo para Alana.
Estou feliz por reescrever o livro e dar à vocês uma nova história! Prometo que vou esforçar para colocar os capítulos em dia. E também vou logo avisando que os capítulos a seguir serão longos, pois é o meu jeito de escrever.
E assim, embarcamos nas linhas temporais, onde a primeira parte do enredo estreou no ano de 2010. Quem esperava a chegada de Elisa logo de cara, sinto muito, mas nossa Alana precisa encontrar sua magia e levantar voo, antes de ir ao encontro da sua melhor amiga.
Para os leitores que estão chegando agora, gostaria de esclarecer alguns pontos sobre o livro:
A Parte 1 terá uma passagem de tempo de 5 anos, começando em março de 2010, quando Alana tem 11 anos, e se estendendo até julho de 2015, quando Alana estará com 16 anos. Por isso, alguns acontecimentos ocorrerão de forma mais acelerada. A Parte 2 começará no capítulo 16 e abrangerá o período de fevereiro de 2016 a janeiro de 2018.
A narração é feita em primeira pessoa, com o objetivo de permitir ao leitor uma compreensão mais profunda dos sentimentos da protagonista e de sua jornada de superação. A obra possui uma escrita mais "madura", já que é narrada por Alana aos 20 anos, refletindo suas experiências passadas. A linguagem informal estará presente nos diálogos, juntamente com as variações regionais (diatópicas) e sociais (diastráticas).
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