Capítulo 1 - 1,2,3...10

O sinal havia acabado de tocar, indicando o fim do penúltimo horário de mais uma segunda-feira, mais conhecido como o dia odiado por todos, menos por mim. Para ser sincera, eu não gosto de nenhum dia porque minha vida não tem nada de emocionante, logo, nenhum dia é melhor do que o outro, todos são simplesmente iguais.

Fui em direção ao meu armário pegar o livro para a próxima aula, biologia. Eu odiava ir até lá, já que ele era longe de todas as minhas aulas e era ao lado do banheiro masculino, o que fazia com ele tivesse um cheiro horrível, mas eu me recusava a levar meu material para casa porque senão meus pais falariam que, já que eu não tenho amigos, eu deveria passar meu tempo livre estudando e me fariam estudar o dobro do que eu já estudo. Chegando lá, coloquei a senha no cadeado negro, que mais fazia meu armário parecer um cofre, e o abri. Meus livros estavam organizados por tamanho, indo do grande e grosso livro de inglês ao pequeno livro de bolso do Oscar Wilde que eu lia todos os dias durante o intervalo. A literatura era uma das minhas salvações da exclusão social, então eu lia um livro diferente a cada semana. Peguei meu livro de biologia, que estava entre o de matemática e o de química, e fechei a porta do armário, ainda com a mão na porta contei até dez e, depois, andei em direção á minha próxima aula.

Assim que entrei na sala do Sr. Wilberg, o sinal tocou novamente, indicando o fim do intervalo entre as aulas. Cinco pessoas entraram correndo pela porta, evitando que o professor as trancassem para fora, o que fez com que eu fosse empurrada. Como esperado, nenhuma das pessoas pediu desculpas, apenas foram rindo em direção ás bancadas.

Me sentei em meu lugar na segunda fileira e ao lado da janela e, como sempre, o lugar ao meu lado na bancada estava vazio, ou seja, todos tinham duplas menos eu, mas eu realmente não me importava, talvez só um pouquinho, mas nada demais. O Sr. Wilberg andou até a lousa e escreveu a palavra "GENÉTICA" no centro. Logo, se pôs a falar:

- Alguém sabe o que é genética? - todos na sala ficaram quietos, nem mesmo Adam Callit, o menino mais inteligente do colégio, respondeu, já que ninguém gostava do Sr. Wilberg - Eu já esperava por esse silêncio... A genética é o que faz de vocês quem são, é a identidade de vocês! Hoje, é isso que nós vamos fazer. - o silêncio dominava o local, só se podia ouvir Kristen Mitchell mascando chiclete no fundo da sala - Vamos fazer um teste para ver o tipo sanguíneo de vocês. - nessa hora se pôde ouvir Aaron Bennet, o menino mais popular da escola, e seus subordinados rindo da cara de Rose Trefan no fundo da sala, a coitada morre de medo de agulhas e se podia ver o quão branco seu rosto havia ficado ao saber o que iríamos fazer.

- Professor, acho que a Rose precisa ir à enfermaria. - disse Aaron, dessa vez soando realmente preocupado com o estado da menina.

- Aí querido, nem se preocupa, ela só está querendo chamar atenção. - Kristen disse com sua voz insuportável ao seu namorado.

- Você e suas burrices, ela pode desmaiar! - disse Adam, estranhamente se impondo e apenas comprovando minha antiga teoria de que ele gostava de Rose.

- Sr. Callit, por favor leve a Srta. Trefan para a enfermaria. - Adam se levantou com um sorriso no rosto, andou até aonde estava Rose e saiu da sala, acompanhando-a - Continuando... Vocês irão formar uma fila e eu espetarei o dedo de vocês com agulhas descartáveis, logo vocês voltarão para suas bancadas e colocarão duas gotas de sangue em uma pequena placa de plástico. Após este procedimento vocês irão pingar uma gota de anti-A em uma das gota de sangue e uma gota de de anti-B em outra. Caso o sangue com anti-A reaja, seu tipo sanguíneo é A; caso reaja com o anti-B, seu tipo é B; caso reaja com os dois, seu tipo é AB; e, por fim, caso não reaja com nenhum, seu tipo é O.

- Professor, eu tenho uma pergunta! - Kristen gritou do fundo da sala, o que causou uma surpresa de todos, já que a menina nunca se impunha nas aulas.

- Sim, Srta. Mitchell? - se podia notar o brilho no olhar do Sr. Wilberg por alguém finalmente se manifestar em sua aula.

- Se ninguém reage com a Charlotte esquisitona é porque ela não é o tipo de ninguém? - Kristen disse e me olhou com um sorriso sarcástico. Pude sentir meus olhos ardendo, mas me segurei para não chorar diante de todos.

- Mas você é burra mesmo, garota. Nem para fazer uma piada inteligente! Atrapalha a aula e constrange a menina que é uma pessoa muito melhor que você! - disse John Daffer, o menino que antes era a dupla de Adam; o que me surpreendeu, já que nunca havia falado com ele.

- Srta. Mitchell e Sr. Daffer, detenção para os dois hoje após o término da aula por terem me interrompido. - foi possível ouvir os dois reclamando em voz baixa - Bom, o material necessário está no armário ao fundo da sala, mas antes de começarmos... - o professor fez uma pausa e se virou para John - já que o Sr. Daffer está tão preocupado com a Srta. Finsbury, porque não se senta com ela? - John arregalou seus olhos e fez que não com a cabeça, mas pelo olhar do Sr. Wilberg foi possível notar que não havia outra escolha - Acho que eu não fui claro, VÁ SE SENTAR COM ELA AGORA PORQUE SUA DEMORA ESTÁ ATRAPALHANDO MINHA AULA, OU SERÁ QUE O SENHOR GOSTARIA DE MAIS UM DIA DE DETENÇÃO? - John pegou seu material o mais rápido possível e correu em direção à cadeira vazia ao meu lado. - Obrigado. Vamos começar? Peguem o material e formem uma fila, por favor.

John se levantou e foi em direção ao armário no fundo da sala para pegar o que iríamos precisar, era bom finalmente ter alguém para fazer o trabalho comigo, por mais que fosse para tirar sangue. Enquanto isso saí da bancada e andei até a fila, logo atrás de mim estava Aaron com Kristen com os braços ao redor do pescoço dele.

- Pelo visto a Finsquisita é o tipo de alguém, querido. - disse Kristen com sua voz aguda, seu namorado permaneceu calado e eu tentei me manter calma enquanto aguardava na fila.

Fiquei o resto do tempo tendo que ouvir a irritante mastigação de chiclete de Kristen, até que finalmente chegou a minha vez de furar o dedo para fazer o teste. Na verdade, "finalmente", já que nunca é legal furar o dedo. Acho que deveria ter fingido ter medo de agulhas para fugir dessa aula, mas isto provavelmente faria com que as pessoas tirassem ainda mais sarro de mim.

O professor deu uma leve espetada com a agulha em meu dedo e pude ver uma gota de sangue sair lentamente de minha pele, caminhei de volta à minha bancada e fiz conforme o professor havia dito. Quando estava prestes à pingar as gotas com os anticorpos, John chegou com seu dedo já espetado e se sentou com uma cara de dor.

- Odeio agulhas, odeio sangue. Que ideia maluca a desse velho. Me recuso a fazer isso.

- Agora que você já fez a pior parte, vai desistir? - perguntei com o objetivo de fazê-lo perceber o que ele estava fazendo.

- Verdade, deveria ter desistido antes...

- Eu também pensei em desistir, mas pensei ANTES de furar meu dedo. - eu disse rindo - Hm... obrigada.

- Pelo quê?

- Por antes, quando você me defendeu, você realmente não precisava ter feito aquilo.

- Eu sei que não precisava, mas eu já não aguentava mais a Kristen criticando tudo e todos, principalmente você. - ele disse sorrindo e eu dei um sorriso de lado. - Será que você pode me ajudar, porque eu praticamente dormi durante a explicação?

- Como assim? Você é um dos meninos mais inteligente da escola! Você não pode dormir na aula! - eu disse brincando.

- Quando se trata da aula do Sr. Wilberg, nem eu aguento. - ele disse rindo.

- Tudo bem, tudo bem. Está justificado. Bom, você tem que colocar duas gotas de sangue aqui. - eu disse e apontei para a placa de plástico que estava à sua frente, então ele fez conforme eu havia dito - agora, essa parte eu ainda não fiz, mas você tem que colocar os anticorpos no sangue, desse jeito. - pinguei as gotas de anti-A e anti-B como o professor havia falado, logo notei que o sangue com o anti- A começou a reagir.

- Isso quer dizer que você é tipo A?

- Pelo que o professor disse... sim!

- Legal, vamos ver qual é o meu. - ele fez exatamente a mesma coisa que eu fiz e seu sangue permaneceu exatamente como estava - O que eu fiz de errado? - ele disse triste.

- Nada! Isso quer dizer que você é tipo O.

- Nossa, que sem graça esse tipo, nem reage. - eu comecei a rir, mas em seguida percebi que ele realmente não havia gostado, então tentei animá-lo.

- Se eu fosse você eu ficava feliz por ser tipo O.

- Porquê?

- Simplesmente pelo fato deste tipo sanguíneo ser considerado o doador universal.

- Sério? Então eu posso ajudar todas as pessoas que precisam de doação sanguínea? - pude notar o quão alegre ele havia ficado ao saber disso.

- Não é bem assim. - seu sorriso desapareceu - você depende do fator Rh, ou seja, se seu sangue for O+, você só pode doar para as pessoas com Rh+, mas se você for O-, aí sim você pode doar sangue para todo mundo. - percebi que ele havia ficado bastante esperançoso.

- Tomara que eu seja O-, eu quero muito poder ajudar as pessoas. - ele disse com um grande sorriso no rosto.

- É muito legal da sua parte, se eu fosse tipo O eu também iria querer ajudar o maior número de pessoas possível.

- ATENÇÃO TODOS GUARDEM SEUS MATERIAIS, A AULA JÁ VAI TERMINAR. SR. DAFFER E SRTA. FINSBURY VOCÊS IRÃO SER UMA DUPLA ATÉ O FINAL DO SEMESTRE. - disse o Sr. Wilberg e John sorriu ao ouvir essa informação e eu tenho quase certeza que minhas bochechas ficaram vermelhas. Será que finalmente terei um amigo?

- O professor se tornou o cupido dos excluídos, mas que romântico. - ouvi Kristen dizer isso no fundo da sala seguida da risada de suas amigas.

- Bom, acho que teremos um bom tempo para nos conhecermos... - disse John um pouco tímido.

- Pois é, acho que sim - eu disse sorrindo, logo tocou o sinal indicando o fim do último horário de aula - boa sorte na detenção hoje e me desculpa.

- Pelo quê?

- Bom... você só está na detenção por minha causa, já que se você não tivesse me defendido- fui interrompida por John.

- Você não tem que se desculpar, acredite em mim quando eu digo que valeu a pena - ele disse e eu sorri.

- Bom, então... até amanhã?

- Até.

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