Capítulo 8 Medo de sequestro

Emanuelle

O dia estava estranho desde que acordei. Meu peito parecia pesado, como se algo estivesse para acontecer. Ao abrir a cortina da sala, notei algo que congelou meu sangue: dois homens parados, vestidos de preto, bem próximos ao portão da minha casa. Olhavam fixamente para a entrada, com mãos cruzadas, e, embora não demonstrassem agressividade, era impossível ignorar a tensão que exalavam.

Corri para o quarto, onde Heitor dormia tranquilamente no berço. Ele parecia tão pequeno, tão frágil, que meu coração apertou. Passei a mão pelo rostinho dele, sentindo um misto de amor e desespero. Será que eles estavam atrás dele? Seria possível que o suposto pai biológico tivesse enviado alguém para levá-lo?

Peguei o celular com as mãos trêmulas e liguei para minha irmã, Sofia. Ela atendeu no terceiro toque, com a voz habitual de quem estava ocupada, mas tentando disfarçar.

— Manu? O que foi? Tá tudo bem?

— Não sei, Sofia, acho que não. Tem dois homens na frente da minha casa... Parece que estão vigiando.

— Vigiando? Como assim? Quem são?

— Não faço ideia! Eu tô apavorada. E se... e se for ele? E se o suposto pai do Heitor mandou essas pessoas para tentar levá-lo de mim?

Minha voz falhou, e um nó se formou na garganta. Sofia ficou em silêncio por um momento, mas logo respondeu com firmeza.

— Ele não é louco, Emanuelle. Ele nunca faria uma coisa dessas sabendo que pode ferrar com a vida dele.

— Você não entende! Desde que o conheci sabia que ele era capaz de qualquer coisa. Ele não tem limites, Sofia! Ele quer o meu filho e acredito que fará de tudo.

Fui até a janela da sala, tentando espiar sem ser vista. Os dois homens continuavam lá, imóveis. Meu coração disparava como se estivesse prestes a sair pela boca.

— Emanuelle, olha pra mim. — disse Sofia, como se pudesse me enxergar do outro lado da linha. — Respira, tá bom? Talvez eles nem tenham nada a ver com isso. Às vezes, é paranoia sua.

— Paranoia? Sofia, eles estão parados bem na frente da minha casa há horas! Isso não é normal. Não é só coisa da minha cabeça.

Ela suspirou, e por um instante, senti o peso da preocupação dela através do telefone.

— Tá certo, talvez seja estranho, mas você não pode se deixar dominar pelo medo. Você não tá sozinha. Quer que eu vá até aí?

Olhei novamente para Heitor, que agora estava se mexendo no berço. Ele tinha o sono leve, e cada ruído fazia com que o rostinho franzisse.

— Não sei, Sofia... Não quero que você corra perigo.

— Perigo? Para com isso. Emanuelle, escuta, eles não fariam nada assim, a luz do dia, na frente de todo mundo. Você tá se precipitando.

— Eu preferia me precipitar e estar errada do que subestimar e me arrepender depois! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e logo tentei me acalmar. — Você não entende o que é ter que proteger alguém tão pequeno, tão indefeso.

Sofia ficou em silêncio por um momento, e então falou com mais calma.

— Eu entendo, sim. Você é a mãe dele, Manu. E tá no seu direito de sentir medo, mas não pode agir no impulso. Olha, se isso te deixar mais tranquila, chama a polícia. Não precisa enfrentar isso sozinha.

Pensei na ideia por alguns segundos. Chamar a polícia parecia a coisa certa a fazer, mas a ideia de envolver autoridades me deixava desconfortável. E se isso só piorasse as coisas?

Enquanto conversávamos, o interfone tocou. Quase derrubei o celular de susto. Meu corpo ficou tenso, e senti o suor escorrendo pelas costas.

— Sofia, o interfone tá tocando...

— Então atende, Manu. Pode ser qualquer coisa.

— E se não for?

— Você tá imaginando o pior. Vai lá, eu fico na linha.

Respirei fundo e fui até o aparelho, com passos hesitantes. Peguei o fone com as mãos ainda trêmulas e levei até o ouvido.

— Quem é? — perguntei, com a voz mais firme que consegui.

— Boa tarde, dona Emanuelle. Somos da segurança contratada pelos moradores da rua. Estamos verificando as câmeras e notamos algo suspeito. Podemos conversar?

Senti meu coração desacelerar um pouco, mas não o suficiente para me tranquilizar.

— Segurança da rua? Desde quando temos isso?

— É um serviço temporário, senhora, até resolverem os recentes problemas de invasão na área.

Olhei para a janela novamente. Os dois homens continuavam na mesma posição, mas algo nos semblantes deles parecia mais claro agora: não estavam olhando para a minha casa, mas sim para os arredores. Pareciam atentos, quase como se... estivessem protegendo algo.

Voltei ao telefone com Sofia.

— Eles disseram que são da segurança da rua, que alguns moradores contrataram eles, mas eu nunca vi isso antes.

— Então vai lá falar com eles.

— Você acha que devo?

— Sim, Manu. Vai acabar enlouquecendo se ficar aí só imaginando coisas.

Depois de muito hesitar, decidi abrir o portão. Ainda segurando o celular, com Sofia na linha, me aproximei dos homens. Eles perceberam minha presença imediatamente, mas não se moveram.

— Boa tarde, senhora. Somos da equipe de segurança da rua.

Um deles mostrou um crachá, e o outro me entregou um panfleto. Li rapidamente. De fato, era um comunicado oficial, explicando que os moradores haviam contratado uma empresa de vigilância temporária devido a um aumento de furtos nas proximidades.

— Por que não fui avisada antes?

— Pedimos desculpas pela falta de comunicação, mas tentamos priorizar a rapidez na implementação da segurança. Estamos aqui para garantir a sua proteção e a de todos os moradores.

Ao ouvir isso, senti o peso sair dos meus ombros. Era como se uma nuvem escura tivesse começado a se dissipar.

Voltei para dentro com o coração ainda acelerado, mas agora um pouco mais tranquila. Heitor estava acordado, olhando para mim com aqueles olhinhos curiosos, e fui direto até ele. Peguei-o no colo, sentindo o calor do seu pequeno corpo contra o meu.

— Tá tudo bem, meu amor. Mamãe tá aqui.

Sofia ainda estava na linha, e eu suspirei, aliviada.

— Parece que era só isso mesmo, Sofia. Segurança da rua.

— Eu disse! Você tá tão acostumada a lutar contra o mundo que qualquer sombra vira uma ameaça.

— Talvez você tenha razão... Mas é difícil desligar isso, sabe?

— Eu sei, Manu. E você vai ficar bem. Agora, tranca tudo, cuida do Heitor e relaxa.

Sorri, mesmo que ela não pudesse ver.

— Obrigada, Sofia. Por tudo.

— Sempre estarei aqui.

Desliguei o telefone e abracei Heitor com mais força. Naquele momento, percebi que, apesar dos medos e das inseguranças, eu faria qualquer coisa para protegê-lo. E, mesmo que o mundo parecesse assustador, eu ainda tinha a mim mesma — e à minha irmã.

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