Capítulo 34 Tentativa de sequestro evitada

Emanuelle

O vento batia suave no meu rosto, trazendo consigo o cheiro das flores do parque. Heitor estava tranquilo no carrinho, balançando os pezinhos gordinhos, enquanto Camila falava animadamente ao meu lado sobre as últimas novidades do trabalho. Sua risada era leve, um contraste gostoso com os sons infantis ao redor. Eu quase podia acreditar que, finalmente, minha vida estava voltando ao eixo.

— Olha só como ele tá esperto! — Camila se abaixou, fazendo caretas para Heitor, que respondeu com uma gargalhada doce. Meu coração aqueceu naquele instante.

Por um momento, me permiti relaxar. Eu estava sedenta por isso, por essa normalidade.

— A gente devia fazer isso mais vezes. — falei, soltando um suspiro. — Sabe, só andar sem rumo, sem pensar em nada.

Camila concordou com um aceno, seus olhos brilhando sob o sol da tarde. Mas, de repente, tudo mudou.

Eu não vi o homem se aproximar. Num instante, eu estava rindo, no outro, o mundo virou um borrão. Ele surgiu rápido, com mãos ásperas e um olhar vazio. Segurou o carrinho de Heitor com força, e o tempo pareceu parar.

— O que você tá fazendo?! — minha voz saiu embargada, quase irreconhecível.

Camila gritou, um som agudo que cortou o ar. Meus instintos entraram em ação. Segurei o carrinho, puxando com toda a força que eu tinha, mas o homem era forte. Ele rosnou algo, palavras desconexas, e um cheiro de álcool impregnava o ar ao seu redor.

Eu não pensei. Só agi. Minhas unhas cravaram na mão dele, e eu empurrei o carrinho para trás, tentando criar distância.

— Solta o meu filho!

Ele me olhou com ódio. Tudo parecia distorcido. Heitor começou a chorar, seu choro fino e desesperado, e aquilo me deu forças. Eu precisava protegê-lo.

Foi quando o vi. Um dos seguranças de Omar surgiu como um raio, jogando o homem no chão. Houve uma luta breve, brutal, e o sequestrador foi imobilizado. Pessoas ao redor começaram a se aproximar, algumas filmando, outras apenas assistindo, boquiabertas.

Eu caí de joelhos ao lado do carrinho, minhas mãos trêmulas acariciando o rosto de Heitor. Ele estava seguro, ainda chorando, mas seguro.

— Tá tudo bem, meu amor... Mamãe tá aqui... — eu sussurrava, tentando acalmar tanto a ele quanto a mim mesma.

Camila se ajoelhou ao meu lado, lágrimas correndo pelo rosto.

— Meu Deus, Emanuelle... Eu pensei...

— Eu também... — respondi, minha voz falhando.

O segurança estava ao telefone, chamando provavelmente a polícia. O sequestrador, agora imobilizado, soltava murmúrios desconexos. Olhei para ele, tentando entender o motivo, mas o vazio nos olhos dele me assustou. Não havia nada ali. Me questionei se era novamente a mãe de Omar tentando tirar à força o meu filho.

O parque, que antes parecia um refúgio de paz, agora era um cenário de pesadelo. As risadas das outras crianças soavam distantes, como um eco de uma realidade que eu não podia mais tocar.

— Emanuelle, você tá bem? — Camila perguntou, apertando minha mão.

— Eu não sei mais o que é estar bem... — admiti, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos. — Quando é que eu vou ter paz, Camila?

Ela não respondeu. Talvez porque soubesse que não havia resposta. A verdade era dura: eu estava presa num ciclo de medo, sempre olhando por cima do ombro, sempre esperando o próximo golpe.

A polícia chegou rápido. As sirenes preencheram o ar, e eu tive que dar meu depoimento, explicar o que aconteceu. Minhas palavras saíam desconexas, como se eu estivesse contando a história de outra pessoa.

— A senhora foi muito corajosa. — um dos policiais disse, tentando me consolar.

Eu somente assenti. Coragem? Não. Foi puro desespero. O tipo de impulso que só uma mãe tem quando vê seu filho em perigo.

Quando tudo se acalmou, o sequestrador foi levado, e as pessoas ao redor começaram a dispersar, o segurança se aproximou.

— Senhora Emanuelle, o Sr. Omar já foi informado. Ele pediu para levá-la para casa imediatamente.

Naquele momento eu sentia que precisava de Omar mais do que nunca.

— Vamos, Camila... — murmurei, me levantando com dificuldade.

Caminhamos até o carro preto que esperava na saída do parque. As janelas escuras escondiam o mundo lá fora, e eu senti insegurança novamente, pensei que as coisas estivessem seguras, porém, ainda não estavam. Até quando eu teria que ter medo da mãe de Omar?

Heitor adormeceu no meu colo, seus dedinhos ainda fechados ao redor do meu cabelo. Olhei para ele, para o rostinho sereno, e uma mistura de alívio e tristeza me invadiu.

— Eu só queria um dia normal... — sussurrei, mais para mim mesma do que para Camila.

Ela não disse nada, só pousou a mão no meu ombro. O carro arrancou, e eu fechei os olhos, tentando encontrar um fio de paz no meio de todo aquele caos.

Eu estava exausta, cada músculo do meu corpo implorando por descanso, mas minha mente ainda estava presa àquele momento no parque. As mãos do homem, o choro de Heitor, o medo que parecia ter se enraizado em mim.

Quando chegamos na minha casa, Camila desceu primeiro, segurando minha mão para me ajudar a sair. Heitor ainda dormia no meu colo, o rostinho afundado na curva do meu pescoço, como se aquele contato fosse o suficiente para mantê-lo seguro.

Quando meus pés tocaram o chão, vi Omar parado na porta. Seu semblante, geralmente inabalável, estava marcado pela preocupação. Ele deu alguns passos rápidos em nossa direção, e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti seus braços ao nosso redor.

— Graças a Deus... — sua voz era um sussurro abafado. — Fiquei louco quando soube.

Me permiti afundar naquele abraço. O calor dele parecia empurrar para longe a sensação gelada de pânico que ainda corria nas minhas veias.

— Foi horrível, Omar... Eu achei que... — minha voz quebrou, e as lágrimas finalmente caíram.

— Shh, já passou. Vocês estão aqui, comigo. Ninguém vai te machucar, Emanuelle.

Heitor se remexeu no meu colo, e Omar se afastou o suficiente para olhar para o filho. Com delicadeza, ele passou a mão pelos cabelinhos macios do bebê, seu rosto suavizando ao ver que ele estava bem.

— Eu tô tão cansada... — confessei, o peso do dia inteiro me atingindo de uma vez.

Camila, que assistia tudo em silêncio, deu um passo à frente.

— Eu vou indo, Manu. Qualquer coisa, me chama.

— Obrigada por tudo, Camila. — apertei sua mão, grata pela presença dela naquele momento.

Ela me deu um sorriso suave e um último abraço antes de sair, deixando-nos a sós.

Omar me conduziu para dentro da casa, sempre mantendo uma das mãos nas minhas costas, como se precisasse daquele contato tanto quanto eu. Ele me levou direto para o meu quarto, onde o ambiente parecia sereno, com as cortinas filtrando a luz do fim da tarde e uma brisa suave entrando pela janela.

— Deita aqui. Eu vou pegar o Heitor.

Relutante, entreguei o bebê para ele e me sentei na beira da cama. Meus dedos trêmulos puxaram os sapatos, e, antes que eu percebesse, Omar já estava de volta.

— Ele tá bem? — perguntei.

— Tá sim. Só cansado, igual à mãe. Agora ele está dormindo no berço dele. Não se preocupe com mais nada.

Senti o colchão afundar ao meu lado quando Omar se sentou. Ele me puxou para perto, e eu não resisti. Deitei a cabeça em seu ombro, deixando o silêncio preencher o espaço entre nós.

— Eu não sei o que teria feito se você não tivesse mandado os seguranças... — minha voz saiu baixa, quase um pensamento em voz alta.

— Eu sempre vou proteger vocês, Emanuelle. Não importa o que aconteça.

Fechei os olhos, tentando absorver aquelas palavras. Parte de mim queria acreditar nelas, queria aceitar essa promessa de segurança. Mas a outra parte, sabia que Omar estar ali na minha casa era temporário.

— Eu só queria um dia normal... — repeti, sentindo o cansaço me puxar para baixo.

— E você vai ter. Eu prometo.

Omar se deitou ao meu lado, suas mãos firmes segurando as minhas. O calor do corpo dele, o som ritmado da sua respiração, tudo contribuía para aliviar o peso no meu peito.

— Dorme, Manuzinha. Eu tô aqui.

E, pela primeira vez em muito tempo, deixei meu corpo relaxar. Minha mente, ainda hesitante, finalmente cedeu ao sono, aninhada naquela sensação rara e preciosa de proteção.

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