Capítulo 30 Papai primeiro que mamãe
Eu estava no tapete da sala, brincando com Heitor, quando ele começou a balbuciar seus sons fofos e incompreensíveis. Eu adorava ouvi-lo, mesmo sem entender uma palavra do que dizia. Cada risada, cada suspiro... Era como música para mim. Omar estava na cozinha, mexendo em algo no fogão. De repente, Heitor parou, olhou na direção do pai e balbuciou algo que fez meu coração quase parar.
— Papai!
Congelei. Será que eu tinha ouvido certo? Heitor tinha acabado de falar sua primeira palavra... e não foi "mamãe". Meus olhos imediatamente foram para Omar, que largou o que estava fazendo e virou na nossa direção, com a expressão mais chocada e emocionada que eu já tinha visto.
— Você... você ouviu isso? — perguntei, meio sem acreditar.
Omar caminhou devagar até nós, como se estivesse com medo de que qualquer movimento brusco quebrasse o encanto do momento. Ele se ajoelhou ao lado de Heitor, que sorria daquele jeito banguela irresistível.
— Fala de novo, meu filho... — a voz de Omar estava embargada, os olhos brilhando de emoção.
Heitor balançou os bracinhos, animado com a atenção, e repetiu:
— Papai!
Omar levou as mãos ao rosto, rindo e chorando ao mesmo tempo. Eu nunca tinha visto aquele homem tão vulnerável. Senti um calorzinho no peito ao testemunhar aquele laço tão puro entre eles. Contudo, a surpresa ainda estava lá, misturada com um leve toque de ciúme que eu não consegui evitar.
— Primeiro "papai"? Sério, Heitor? — brinquei, tentando soar descontraída. — Depois de tudo o que a mamãe faz por você?
Omar riu, enxugando os olhos.
— Ah, Emanuelle, não fica assim... Você sabe que ele te ama.
— Ah, é? Então por que "papai" primeiro? Eu cuidava dele sozinha até você entrar nas nossas vidas... e você leva o crédito?
Omar se aproximou.
— Parece que sim. — ele piscou, adorando claramente a situação.
Fiz uma careta exagerada, o que só fez Heitor rir ainda mais. Meu coração amoleceu na hora. Não tinha como resistir àquela risadinha.
— Tá bom, tá bom... Você venceu, Heitor. Mas só dessa vez.
Ele me olhou com aqueles olhinhos brilhantes, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo. Puxei-o para o meu colo, enchendo-o de beijos, fazendo-o gargalhar ainda mais.
Omar se sentou ao meu lado, passando um braço ao redor dos meus ombros. Foi estranha aquela atitude, no entanto, simplesmente deixei. Estávamos ali, os três, juntos, rindo e nos emocionando com uma palavra tão simples, mas que significava o mundo para nós.
— Você sabe que agora ele vai ficar repetindo isso o tempo todo, né? — falei, fingindo um tom aborrecido.
— E você vai ter que aguentar. — Omar sorriu, com aquele ar vitorioso. — Não tenho culpa se sou o favorito agora.
Revirei os olhos, segurando o riso.
— É, por enquanto. Espera só ele precisar de comida de madrugada. Quero ver quem vai continuar sendo o favorito.
Rimos juntos, enquanto Heitor continuava a balbuciar alegremente, repetindo "papai" sempre que via o rosto do pai. Eu não conseguia parar de olhar para aqueles dois. A cena era tão perfeita que parecia um sonho. E, apesar do pequeno ciúme, meu coração transbordava de amor.
Eu sabia que aquele momento ficaria gravado na minha memória para sempre. A primeira palavra de Heitor. Não foi "mamãe", como eu esperava. Mas foi perfeita do jeito que era.
— Acho que tenho um time formado contra mim agora. — suspirei, fingindo derrota.
— Ah, Emanuelle... Você é o coração desse time. — Omar me olhou com ternura. Não importava a ordem das palavras, o importante era que o meu menino estava crescendo e formando suas primeiras palavras.
Observei Heitor ainda balbuciando "papai" enquanto Omar o jogava para cima, fazendo-o rir alto. O ciúme já tinha passado, dando lugar a um carinho imenso por aquela conexão tão linda entre eles. Suspirei, percebendo que esse era o momento perfeito para uma pausa.
— Vou tomar um banho. Você cuida dele?
Omar me olhou com falsa indignação.
— Você ainda pergunta? Ele já me escolheu, lembra?
Revirei os olhos, rindo.
— Tá bom, senhor favorito. Boa sorte se ele resolver trocar de lado enquanto eu estiver fora.
Levantei-me do tapete, alongando o corpo. Minhas costas estavam tensas após ficar tanto tempo ali brincando. Antes de sair, me inclinei para beijar Heitor na testa.
— Se comporte com seu pai, mocinho.
Ele somente sorriu, provavelmente sem entender nada, mas eu gostava de fingir que sim.
Caminhei até o banheiro, fechando a porta atrás de mim e soltando um suspiro aliviado. Momentos como esse eram raros ultimamente. Eu amava ser mãe, mas precisava admitir que, às vezes, só queria alguns minutos de paz. Liguei o chuveiro e esperei a água esquentar antes de entrar. O calor relaxou meus músculos instantaneamente.
Fechei os olhos, deixando a água cair sobre meu rosto, lavando qualquer vestígio de cansaço. Era engraçado como, depois da maternidade, pequenos momentos como esse se tornavam preciosos. Antes, um banho era apenas uma rotina. Agora, era um verdadeiro spa.
Fiquei ali por um tempo, aproveitando o silêncio. Mas, claro, a tranquilidade nunca durava muito. De repente, ouvi uma risada abafada vinda da sala, seguida de um grito animado de Heitor.
Sorri sozinha. Era impossível não me derreter com aqueles dois juntos.
Lavei o cabelo rapidamente e terminei o banho, sentindo-me renovada. Peguei a toalha e me enrolei nela, saindo do banheiro e indo direto para o quarto. Vesti uma roupa confortável e passei a toalha nos cabelos, ainda ouvindo as vozes abafadas da sala.
Quando voltei, encontrei Omar deitado no sofá com Heitor sobre seu peito, ambos parecendo completamente relaxados. Meu coração se aqueceu com a cena. Seria tudo tão mais fácil se fossemos uma família de verdade, porém, não era o caso.
— Então foi isso que aconteceu enquanto eu estava fora? — perguntei, cruzando os braços e me encostando no batente da porta.
Omar abriu os olhos e sorriu preguiçosamente.
— Ele gastou toda a energia me chamando de "papai". Agora cansou.
Aproximei-me e sentei ao lado deles, acariciando os cabelos finos de Heitor. Ele piscou devagar, lutando contra o sono.
— Você realmente me trocou, né, Heitor?
Mesmo quase dormindo, ele sorriu, e eu soube que, apesar da brincadeira, nada poderia mudar o amor que existia entre nós.
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