Capítulo 27 Criticas sociais
Emanuelle
Olhei para Heitor dormindo no berço antes de sair. O rostinho sereno, os pequenos dedos fechados em punhos sobre o peito. Ele tinha a expressão mais pacífica do mundo, e isso me confortava, mesmo quando tudo ao redor parecia um caos. Respirei fundo, tentando afastar a pontada de preocupação que insistia em me cutucar.
Omar estava na sala, distraído com o celular. Ele parecia desconfortável, como se não soubesse o que fazer ali. Eu ainda não sabia se estava tomando a decisão certa ao deixá-lo cuidando de Heitor, mas precisava tentar. Precisava confiar. Se eu não desse essa chance, nunca saberia se Omar era digno de confiança.
— Se precisar de alguma coisa, me liga. — a minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Pode deixar. Eu dou conta. — ele forçou um sorriso, mas eu vi a tensão no olhar dele.
Apoiei a bolsa no ombro e hesitei na porta, lançando um último olhar para o quarto de Heitor. Uma parte de mim queria ficar, não por desconfiança, mas por medo de estar abrindo mão de algo precioso demais. Só que eu precisava respirar. Precisava sair um pouco daquela bolha sufocante que se formara desde que Omar e eu nos beijamos. Eu precisava esquecer e era por isso que aceitei um convite para jantar fora, acreditei que seria uma boa.
O restaurante estava movimentado, cheio de risadas altas e conversas que se misturavam no ar. Meus amigos já estavam na mesa, gesticulando com entusiasmo enquanto falavam. Assim que me aproximei, os olhares caíram sobre mim, curiosos, analisando cada detalhe. Sentei-me ao lado de Rafaela, que me lançou um sorriso caloroso.
— Finalmente resolveu sair da toca, hein? — ela brincou, dando um gole no vinho.
— Achei que ia enlouquecer se ficasse mais tempo trancada em casa. — tentei soar despreocupada, mas a imagem de Heitor adormecido não saía da minha cabeça.
Lucas me olhou com a testa franzida.
— E como você conseguiu sair? Deixou o Heitor com quem?
— Com o pai dele. — soltei, tentando soar casual.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu sabia que eles tinham opiniões fortes sobre Omar, mas esperava que respeitassem minha decisão. Rafaela foi a primeira a reagir, arqueando as sobrancelhas.
— Com o Omar? Você enlouqueceu?
— Ele é o pai, Rafaela. Preciso dar uma chance pra ele. — minha voz saiu firme, mas por dentro eu estava tremendo.
Lucas soltou uma risada incrédula.
— Pai? Ele passou meses longe do menino até pouco tempo! Não tem a menor ideia de como cuidar de uma criança.
— Ele está tentando... Ele quer fazer parte da vida do Heitor. — tentei justificar, mas a sensação de estar sendo julgada me deixou desconfortável.
— E você vai deixar? Vai entregar seu filho assim? — Rafaela me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— Ele não é só meu. — as palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Imediatamente me arrependi.
Lucas cruzou os braços.
— Na verdade, ele nem é seu de verdade.
Aquelas palavras bateram em mim como um soco no estômago. Senti o sangue fugir do meu rosto enquanto olhava para Lucas, incrédula.
— Como é que é? — minha voz saiu trêmula.
— Ele é adotado, Emanuelle. Você fez um gesto lindo, mas isso não muda o fato de que o Omar é o pai biológico. Se ele quer a guarda, talvez você devesse considerar...
— Você acha que eu deveria devolver o Heitor? — minha voz subiu um tom, atraindo alguns olhares das mesas ao redor.
— Eu só acho que você precisa ser racional. Se o Omar quer ser pai, não é justo impedi-lo. — Lucas respondeu com a calma irritante de quem acredita piamente no que diz.
Rafaela segurou minha mão, tentando amenizar a tensão.
— Ninguém aqui tá dizendo que você não é a mãe dele, Emanuelle... Só que... você precisa pensar no que é melhor pro Heitor.
— E vocês acham que eu não faço isso o tempo todo? — Minha voz saiu embargada. Senti meus olhos queimarem, mas me recusei a chorar na frente deles. — Eu penso no que é melhor pra ele desde o momento que coloquei os olhos nele naquele orfanato. Desde que assinei aqueles papéis... Desde que ouvi aquele chorinho dele.
O silêncio voltou, denso, quase sufocante. Eles não entendiam. Não podiam entender. Heitor não era apenas um papel assinado, um ato de caridade ou um capricho passageiro. Ele era meu filho. Cada sorriso, cada choro, cada conquista... Eu estive lá. Segurei sua mão nas noites febris, embalei ele até dormir.
— Você é mãe dele, Emanuelle. Isso ninguém pode tirar de você. — Rafaela tentou, mas o dano já estava feito.
— Vocês acham que ele não é meu de verdade. — minha voz saiu fraca, derrotada. — Acham que só porque o Omar apareceu, tudo o que eu fiz por Heitor de repente não importa mais.
— Não é isso... — Lucas tentou explicar, mas eu já não queria ouvir.
Me levantei tão rápido que a cadeira quase tombou. Rafaela tentou me segurar, mas eu me desvencilhei, sentindo o peito apertado. Eu precisava sair dali. Precisava respirar.
— Emanuelle, espera! — ela chamou, mas eu já estava me afastando, com os olhos embaçados de lágrimas.
Caminhei para fora do restaurante, sentindo o ar frio da noite bater no rosto. Minhas mãos tremiam, o coração disparado. Respirei fundo, tentando conter o choro que insistia em sair.
A dor não era somente pelo que disseram. Era pelo medo que eu carregava desde que Omar apareceu. O medo de perder Heitor. De perder aquele amor que crescia todos os dias dentro de mim.
Olhei para o celular, hesitando. Será que estava tudo bem em casa? Será que Omar estava dando conta? Parte de mim queria voltar correndo, me certificar de que Heitor estava seguro.
Mas não era só isso. Eu queria abraçá-lo. Queria sentir o cheirinho dele, o calor do seu corpinho nos meus braços. Queria ter certeza de que ele era meu.
Porque, apesar de tudo que disseram, Heitor sempre seria meu filho. E nada no mundo poderia mudar isso. Por mais que existissem pessoas com palavras cruéis, ainda existiam aquelas que me apoiavam e isso era o mais importante.
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