Capítulo 19 Sequestro frustrado

Emanuelle

A noite estava abafada, pesada como um aviso. Eu sentia um nó na garganta enquanto embalava Heitor nos braços, tentando ignorar a sensação de que algo estava errado. Ouvia somente o som ritmado da respiração dele e o farfalhar das árvores do lado de fora da casa. Foi quando escutei o rangido sutil da cerca se abrindo.

Meu coração acelerou. Coloquei Heitor no berço, cobri-o rapidamente e fui até a janela. Uma sombra se movia pelo jardim. O suor frio escorreu pela minha nuca. Agarrei o celular, pronta para chamar a polícia, mas antes que eu pudesse discar, a porta da frente tremeu com um baque seco.

— Quem está aí? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Silêncio. Então, outro impacto, mais forte.

Corri até a cômoda e puxei a gaveta, pegando a arma que nunca precisei usar antes. Minhas mãos tremiam. O medo batia contra meu peito, mas não tinha tempo para hesitar.

A porta foi arrombada de vez. Um homem encapuzado entrou com pressa, os olhos fixos em mim.

— Fique longe do meu filho! — gritei, levantando a arma.

Ele hesitou por um segundo, então, avançou. Disparei. O som do tiro ecoou pela casa, e ele cambaleou para trás, segurando o ombro.

A adrenalina me dominou. Peguei Heitor do berço e corri para os fundos. Eu sabia que não poderia ficar ali, que provavelmente ele não estava sozinho. Minhas pernas tremiam ao descer os degraus da varanda. A rua estava deserta. Meu carro estava na garagem, mas não havia tempo para pegá-lo.

Então vi um farol se acendendo a poucos metros dali. Um carro preto. O motor roncou, e reconheci aquela silhueta antes mesmo de ver seu rosto.

Omar.

Ele desceu do veículo com rapidez, os olhos varrendo a cena. Quando me viu com Heitor nos braços e a porta escancarada atrás de mim, não fez perguntas.

— Entra no carro!

— Não posso confiar em você! — apertei Heitor contra o peito.

— Agora não é hora pra isso! Anda!

Um segundo invasor surgiu da lateral da casa, correndo na nossa direção. Omar sacou a arma e disparou sem hesitação. O homem caiu. Eu nem imaginava que ele andava armado e me assustei ainda mais.

— Já chega de brincadeira. Entra no carro!

Dessa vez, não discuti. Corri até o banco do passageiro e entrei, segurando Heitor com força. Omar arrancou em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto.

Meus pensamentos estavam um caos.

— O que sabe sobre isso? — virei para ele, ainda sem fôlego.

— Depois. Agora a gente precisa sumir.

— Você já sabia que isso ia acontecer?

Omar apertou o volante. Seu maxilar estava tenso.

— Eu desconfiava.

— Filho da puta! — quis socá-lo, mas Heitor se remexeu em meus braços, e me contive.

O carro entrou em uma estrada menos movimentada, cercada por árvores. Eu tentava organizar as ideias, mas tudo que sentia era o desespero martelando minha cabeça.

— Eu vou matar esses desgraçados. — minha voz saiu mais baixa, porém carregada de ódio.

— Primeiro, você tem que proteger Heitor.

Omar parou o carro em uma cabana escondida entre as árvores. Era um lugar que eu não conhecia. Ele saiu primeiro, deu uma olhada ao redor e então fez um sinal para que eu o seguisse.

O ambiente dentro era simples, mas seguro. Omar acendeu uma única lâmpada fraca e trancou a porta atrás de nós.

— Não confio em você. — disparei, sentando-me no sofá com Heitor.

— Eu sei.

— E mesmo assim estou aqui.

— Porque sabe que não tem outra opção. 

Ele estava certo. E isso me irritava ainda mais.

— O que você não está me contando?

Omar respirou fundo, cruzando os braços.

— Isso não foi um assalto aleatório. Eles queriam Heitor.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— Quem? 

— Provavelmente minha mãe.

— Ela é louca assim?

— Emanuelle, ela é capaz de tudo agora que quer o neto com ela.

Minha mente girava. Heitor não era um bebê qualquer que eu tinha adotado, ainda assim, não estava disposta a ceder.

— Você sabia disso o tempo todo, não sabia?

Omar se aproximou, ajoelhando-se na minha frente. Seu olhar era intenso.

— Sabia que cedo ou tarde minha mãe poderia tentar um sequestro. Por isso estou aqui.

Meu coração martelava contra o peito.

— Agora que sei, me dê um bom motivo para confiar em você?

Ele hesitou por um segundo. Então, suavemente, colocou a mão no meu ombro.

— Porque eu nunca deixaria nada acontecer com você e com meu filho.

Engoli seco. Eu queria odiá-lo, queria afastá-lo. Mas, no fundo, sabia que, pelo menos por agora, precisava dele. Para mim seria uma noite muito longa...

O sol mal havia nascido quando Omar anunciou que iríamos voltar. Eu não queria sair daquela cabana, não porque confiava nele, mas porque sabia que, ao voltar para casa, enfrentaria o medo de frente.

Heitor dormia tranquilo nos meus braços, alheio a tudo que havia acontecido na noite anterior. Eu, por outro lado, mal conseguira fechar os olhos. Cada estalo, cada sombra projetada pela pouca luz da lâmpada me deixava em alerta.

Omar pegou as chaves do carro e abriu a porta.

— Vamos antes que alguém perceba que passamos a noite aqui.

Fiz que sim, mesmo odiando ter que seguir suas instruções. Me sentei no banco de trás com o meu filho. A estrada de terra era irregular, e a cada solavanco, meu corpo se retesava.

— O que foi? — Omar perguntou, os olhos fixos na estrada.

— Você parece que está me escondendo mais coisas.

Ele não respondeu de imediato. Seus dedos apertaram o volante, e ele suspirou.

— Não estou escondendo nada. Estou preocupado porque sei que isso ainda não acabou. Minha mãe não vai desistir devido a uma tentativa de sequestro fracassada.

Meu estômago revirou.

— Ótimo.

— Por isso vou ficar por perto.

Virei o rosto para ele, cerrando os olhos.

— Não quero mais sua ajuda.

— E você tem escolha? Eu conheço a mãe que tenho, estar comigo por perto é o melhor pra você e para o meu filho.

Me encostei no banco. Não queria admitir, mas parte de mim sentia um alívio estranho em saber que ele não ia simplesmente desaparecer depois daquela noite.

Quando chegamos à minha casa, a visão da porta arrombada e da bagunça no interior me fez parar no meio da calçada.

Omar puxou a arma do coldre e deu uma olhada ao redor antes de entrar. Respirei fundo e o segui.

Tudo estava tranquilo, menos meu coração, e eu sabia que minha vida estava cada vez mais bagunçada.

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