Capítulo 14 Alta de Heitor
Saímos do quarto do hospital, e meu coração parecia um tambor batendo contra o peito. O médico acabara de dar alta para Heitor, e isso deveria ser um alívio, mas o peso da presença de Omar ao meu lado tornava tudo mais difícil. Ele estava ali, atento a cada movimento meu, como se quisesse se certificar de que eu não escaparia.
— Posso segurá-lo? — perguntou, a voz baixa, porém firme.
Hesitei. Meu instinto gritava para não permitir, para protegê-lo, mas Omar tinha ficado do meu lado naquele momento difícil, eu não podia ignorar isso. Engoli seco antes de estender meu filho para ele.
Assim que os braços fortes dele envolveram Heitor, algo inesperado aconteceu. Meu bebê sorriu. Ele o encarava com aqueles olhinhos brilhantes, as bochechas coradas, e até balbuciava alguma coisa como se o reconhecesse. Meu estômago revirou. Não podia negar, Heitor gostava de Omar. Isso doía mais do que eu queria admitir.
— Ele é incrível. — murmurou Omar, sem tirar os olhos do meu filho.
Meu peito apertou, e a urgência de interromper aquele momento cresceu como uma onda gigante prestes a me engolir. Estendi os braços e, com delicadeza, peguei Heitor de volta.
— Preciso ir para casa. — disse, desviando o olhar.
— Eu levo vocês.
A oferta veio rápida, como se ele já esperasse minha recusa.
— Não precisa. — respondi sem hesitar.
Omar franziu a testa, estudando meu rosto como se quisesse decifrar cada pensamento meu.
— Emanuelle, sei que você não confia em mim, mas eu só quero ajudar.
Soltei um riso sem humor.
— Ajudar? Não esqueça que você quer tirar o Heitor de mim.
Vi o maxilar dele se contrair. Ele passou uma das mãos pelo cabelo, respirando fundo antes de falar.
— Quero que ele me conheça, que saiba quem sou. Ele é meu filho, você deveria entender minha situação. Procurei por meses por esse bebê e quando finalmente o encontro descobro que ele foi abandonado e adotado por uma desconhecida...
— Você pode até ser o pai biológico dele, mas fui eu que o adotei e estou cuidando muito bem dele sozinha. — meus olhos arderam, mas não permitiria que ele visse qualquer fraqueza em mim.
O hospital parecia menor, sufocante. Outras pessoas passavam por nós, mas minha atenção estava inteira em Omar e na batalha silenciosa entre nós.
— Você que quer tirar ele de mim. Não enxerga isso? — acusou, a voz carregada de amargura..
Engoli em seco.
— Não tenho culpa pelo que aconteceu com você, para ter perdido seu filho e ele ter ido parar em um orfanato. Heitor agora está sendo amado e não precisa de você. E é você que quer tirá-lo de mim.
Ele deu um passo à frente, e meu corpo enrijeceu.
— É, nós dois não temos culpa do que houve. Emanuelle, estou errado em querer meu filho comigo? Me diz por quê?
Minha respiração estava pesada.
— Omar não quero falar sobre isso. Estou cansada e só quero chegar em casa e descansar.
Os olhos dele escureceram, e por um instante, um silêncio se estendeu entre nós.
— Não vou desistir dele, quero que saiba. Que pai seria eu se desistisse do meu filho? Sangue do meu sangue, me diz? Heitor precisa ficar com a família dele verdadeira apenas isso.
Segurei Heitor com mais força, sentindo o calor do corpinho dele contra mim. Meu instinto gritava para correr, para me afastar de Omar antes que ele tivesse alguma chance de me dobrar.
— Também não vou desistir do meu filho. — murmurei antes de me virar, sentindo seu olhar queimando minhas costas enquanto me afastava.
Quando cheguei em casa com Heitor nos braços, e assim que a porta se fechou atrás de nós, uma sensação de alívio tomou conta de mim. Estávamos seguros, finalmente. Ele estava bem, e isso era tudo o que importava. O calor do meu lar, com suas paredes acolhedoras, parecia me abraçar, oferecendo uma pausa da tensão que vivíamos nos últimos dias.
Coloquei Heitor no berço, observando-o com atenção. Ele estava cansado, mas tranquilo, seus olhos começando a se fechar lentamente. Aquela expressão serena no seu rostinho me fazia esquecer por um momento as batalhas que ainda viriam, as disputas sobre ele, as ameaças que Omar representava. Ele estava bem, e, por ora, isso era suficiente.
Me afastei um pouco, encostando-me à parede com um suspiro. A recuperação de Heitor era um pequeno milagre, e eu estava grata por isso, mas sabia que a paz seria temporária. Mesmo com a alta do hospital, minha mente não conseguia se acalmar. Omar estava lá, esperando por uma oportunidade para se aproximar e tirá-lo de mim.
Mas, por enquanto, estava só eu e meu filho, e isso já era um alívio. O cheiro de casa, o som das paredes silenciosas, tudo parecia voltar ao normal. Meus ombros relaxaram um pouco, e olhei para o relógio, percebendo que já era tarde. Talvez fosse hora de descansar, mas uma onda de cansaço me envolvia, e eu sabia que o verdadeiro descanso viria quando conseguisse livrar-me de todo o peso daquilo que estava por vir.
Caminhei até o sofá, ainda olhando para o berço de Heitor, e me deixei cair. Fechei os olhos por um momento, tentando absorver tudo o que havia acontecido. A recuperação dele, a ameaça de Omar, o medo constante de perdê-lo. Era tudo demais, mas eu ainda estava ali, lutando. Ele ainda estava ali, no berço, respirando tranquilo.
— Você vai estar seguro, meu amor. — falei baixinho, quase como uma promessa para o pequeno.
O silêncio da casa me envolveu completamente. Olhei ao redor, sentindo que, por um breve momento, as paredes estavam guardando meu segredo, minha dor e minhas esperanças. Era assim que eu me sentia agora: escondida, mas decidida a manter Heitor a salvo de qualquer coisa que pudesse surgir.
Aquele árabe não podia tirar meu menino de mim.
— Vou vencer essa batalha, preciso crê fielmente nisso. — disse para mim mesma.
Viveria um dia de cada vez e focaria nos momentos maravilhosos que tinha ao lado do meu pequeno. Eu não estava sozinha, tinha amigos e minha família como apoio no que precisasse e com essa confiança seguiria em frente.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top