Capítulo 8 - Eu ainda te amo, idiota! (Parte Final)


Pov Laís - Final


Só faltavam apenas mais dois dias para que eu tivesse que voltar para casa, e pode ter certeza que os dias anteriores foram totalmente dedicados a não pirar, pois não eu não conseguia parar de pensar nem um segundo sequer se aquele rapaz era realmente Ele. Era idêntico. Nem um milímetro diferente. Era absolutamente idêntico. E era isso que mais me causava um nó no cérebro. Como seria possível alguém continuar idêntico tendo se passado seis anos?!

A dúvida me consumia da forma mais cruel possível. Mas eu não podia e muito menos conseguia ficar quieta. Eu não podia enlouquecer somente por estar em dúvida. Podia ser apenas alucinação da minha cabeça após sair de um brinquedo que me fez virar de ponta-cabeça vezes demais. E para não pirar, resolvi sair sozinha. Bruno já estava começando a mostrar suas reais intenções em ter aceitado a vir comigo nessa viagem e ficar sozinha com ele, naquele quarto de hotel, era perigoso demais. Não que ele fosse me pegar à força, afinal, o corpo é meu! Mas eu realmente não estava disposta a ouvir seu discusso de que deveríamos aproveitar que estávamos sozinho durante toda aquela semana e... Você sabe.

Fui para o shopping mais próximo comprar algumas coisinhas para levar de lembrança e também distrair um pouco minha mente, que não conseguia parar de pensar naquele dia, no parque. Entrei em várias lojinhas e a cada passada nessas lojinhas, eu comprava alguma coisa. Por exemplo, um perfume, com cheiro delicioso de flores. Esse seria pra mim. Também comprei um sapato de ir à igreja para meu pai, que por algum motivo passou a ser religioso após mudarmos de cidade.

Até então, desde que voltei à essa cidade não havia encontrado com nenhum conhecido da época que eu ainda morava aqui. Mas infelizmente, só até então mesmo.

— Laís, querida. Nem acredito que é você. Quanto tempo. Saudades! - Giovanna, uma antiga colega de vizinhança e também de colégio me abordou de surpresa após me ver sentando numa cadeira de uma das mesas da praça de alimentação.

Pena eu não poder dizer o mesmo, né querida? Dois anos nem é tanto tempo assim para sentir saudades de uma pessoa que dava em cima de seu namorado na maior cara de pau.

— Ah. Oi, Giovanna. Tudo bom? - tentei ser o mais educada possível, mesmo que minha expressão denunciasse totalmente a minha falta de interesse e desprazer de encontrá-la.

— Tudo ótimo! - seu jeito perua de falar me causava ânsia.

— Hm. Que bom pra você - digo simplesmente e dou um gole em meu refrigerante e faço questão de fazer aquele ruído enquanto sugo o líquido pelo canudo, só para me divertir da cara dela de nojinho.

— Então... - ela dá ênfase para sua voz se sobrassair ao ruído que faço enquanto bebo meu refri, praticamente ignorando a existência dela — Amanhã haverá uma festa em minha casa e você está super convidada a ir.

— Não, obrigada! - recuso prontamente, novamente tentando ser o mais educada possível, com minha melhor cara de paisagem.

Sua expressão demonstrou estar ofendida, mas como uma verdadeira perua, ela resolveu cutucar minha ferida.

— Tudo bem... Eu entendo. Você está com medo de conhecer outro cara, se apaixonar e... - ela deu um leve sorriso maligno e então conseguiu me desestabilizar - ele acabar fugindo de você também, igual o Lucas fez, não é?

"Fugindo"... Ela com certeza nem fazia idéia do que tinha acontecido naquela noite. Aliás, ninguém além de minha família, a família do Lucas e a polícia sabia do que realmente tinha acontecido. Me refiro àquele clarão, pois explicar mesmo como o Lucas sumiu... isso ninguém sabe.

— Olha aqui, sua vaga... - digo me levantando abruptamente da cadeira, pronta para voar no pescoço dela, não somente pelo o que ela acabou de falar, mas sim por tudo.

— Shhh... - ela me interrompeu antes que eu começasse a falar — não precisa se irritar, lindinha. Dizem que estresse demais dá rugas. Mas ó, você sabe onde eu moro. O convite para minha festa ainda está de pé. Começa às onze da noite. Aparece lá se quiser se divertir um pouquinho - então ela saiu, rebolando, sentindo-se vitoriosa.

Tá aí uma coisa que não estava em meus planos quando resolvi vir ao shopping: levar desaforo pra casa junto das compras. Até parece que eu iria para essa festa idiota, cheia de pessoas idiotas e com uma vadia como anfitriã.

(...)

— Por que não? - Bruno me pergunta no dia seguinte pelo que me parece ser a milésima vez naquela semana por que eu me recuso a dar o próximo passo na relação. E com "próximo passo" sub-entenda que ele saber por qual motivo nós ainda não transamos.


De alguma forma, eu o entendo. Somos adultos e namoramos. O que tanto nos impede? Tento repetir mentalmente as palavras de Bruno para descobrir o porquê de ainda não termos ido adiante na relação. Mas não adianta. Eu simplesmente não me imagino tendo minha primeira vez com ele. É só isso. E é isso que eu tento o fazer entender.

— Bruno! Vem cá e senta aqui - dou uns tapinhas de leve na beirada da cama, indicando o lugar que ele deve sentar. Quando ele senta, olho diretamente em seus olhos e tento o fazer entender o meu lado. — Bruno, por favor, me entende! Eu sei que nós somos adultos, que namoramos há um tempo e que é isso que casais adultos fazem. Mas poxa, tenta me entender. Eu não me sinto pronta. Essas coisas são complicadas, especialmente pra mim.

Então fui surpreendida com uma pergunta que me deixou um tanto ofendida.

— Então por que me trouxe com você nessa viagem, em que ficariamos uma semana inteira sozinhos se não você não tinha a intenção de "dar o próximo passo"? - as aspas que ele usou para ironizar o que eu acabara de falar só me deixou mais ofendida.

Eu estava tão chocada quanto ofendida. Eu nunca o vi falando assim comigo. Certo que aquela não era a primeira vez que ele havia tentado transar comigo, mas falar assim? Nunca. Se ele não tivesse passado tanto tempo insistindo para eu o dar uma chance, eu já estaria começando a acreditar que ele só estava comigo para me levar pra cama com ele.

Por que? - digo bem séria, deixando bem claro a minha indignação - Sério que você ainda pergunta "Por quê?"?

— Claro que pergunto! Pois desde que começamos a namorar, eu sempre te tratei da melhor forma possível. Aliás, muito antes da gente começar a namorar, eu já te tratava como uma princesa. Sempre fiz o que você pedia, fiz o impossível para conseguir ficar com você - ele fez uma pausa, e o silêncio que se instaurou era algo absurdamente incômodo. Eu estava chocada demais com essa explosão dele para eu conseguir rebater algo. Até que ele resolveu quebrar o silêncio e continuar a falar suas idiotices. — E então surgiu essa viagem, e eu, trouxa como sempre, desmarquei todos os meus compromissos só para vir contigo nessa viagem por achar que você finalmente, nós... Iríamos adiante, nisso aqui que você chama de relação.

— Você está sendo injusto - e é tudo o que consigo dizer apesar de estar indignada com as palavras dele.

— Ah! Eu estou sendo injusto? Me diga como eu estou sendo injusto se tudo o que falei não passou da verdade? - sua expressão se contraía em raiva e seu olhar eu já não reconhecia mais. Era um Bruno totalmente diferente do que passou meses insistindo até me conquistar.

— Você está sendo injusto, Bruno! Desde o nosso segundo mês de namoro, parece que tudo o que você passou a fazer foi só para conseguir me levar para a cama, como se eu fosse abrir as pernas pra você só porque estava me tratando bem. As coisas não funcionam assim. Você está sendo injusto por me culpar de não te dar algo o qual sempre deixei claro que não iria acontecer agora, e você disse que ia esperar o tempo que fosse preciso. Mas desde que chegamos nessa cidade, tudo o que você sabe fazer é só me pressionar, me pressionar, me pressionar. Você não imagina o quanto isso é horrível - e tudo o que estava preso em minha garganta desde que ele começou a me pressionar dessa maneira, eu consegui falar, de uma só vez, sem respirar mesmo, para não dar chances dele me interromper.

Mas ele parecia estar realmente determinado a discutir, pois o que ele falou a seguir foi o que com certeza a gota d'água.

— Você fala tanto que estou sendo injusto - sua voz agora estava rouca e sarcastica -, mas esquece que inventou de passar uma parte das férias nessa cidade só por causa daquele seu namoradinho que sumiu, ainda cultivando a falsa esperança de reecontra-lo algum dia. E isso, você chama de quê? - ele se aproximou e colocou sua boca bem perto da minha orelha e sussurou: — Se eu estou sendo injusto, você está sendo completamente egoísta em me trazer para essa cidade na esperança de se reencontrar, de repente, com um fantasma.

— Aonde você está indo? - Ele perguntou parecendo estar surpreso ao me ver indo em direção à porta da frente.

É óbvio que eu não o respondi, continuei seguindo rumo à porta, mas antes de cruza-la, eu disse algo que já estava preso em minha garganta já havia um tempo e fez eu me sentir relativamente melhor após me libertar disso.

— Vai se foder, seu babaca! - agora imaginem o som da porta batendo atrás de mim.

E de repente, a festa da Giovanna deixou de ser uma idéia tão má assim.

(...)

Dizem que há males que vêm para o bem, mas eu nunca entendi bem o que isso significa. Afinal, como algo ruim pode vir para o bem?

De longe eu já conseguia ouvir a música alta da festa da Giovanna ecoando. Quanto mais eu me aproximava, mais eu me perguntava por que eu estava indo justo para a festa dela, sendo que eu a odeio. Mas sei lá, eu parecia não ter mais o controle sobre minhas pernas. Eu continuava a andar rumo à música alta, como se algo me arrastasse até lá. Além do mais, eu não suportaria olhar para a cara do Bruno por nem mais um segundo. Como eu pude aceitar namorar com aquele idiota?

Quando cheguei em frente à casa onde estava acontecendo a festa, fiquei meio confusa. A porta estava fechada. Eu não entendia o sentido de fecharem a porta sendo que aquela música alta fazia mais ruídos que a decolagem de um avião. Como se ninguém fosse perceber que, ali dentro estava tendo uma festa.

Antes de dar meia volta e desistir da idéia ridícula de vir a essa festa, resolvi ao menos dar umas batidas na porta, quem sabe assim alguém me permitia entrar. Então alguém abriu. E na primeira chance entrei. O que fez meu corpo se chocar contra o da pessoa que abriu a porta.

E então eu passei a entender perfeitamente o significado de: há males que vêm para o bem.

Se eu não tivesse me encontrado com a Giovanna no Shopping.

Se eu não tivesse percebido o idiota que o Bruno é.

E se eu não tivesse vindo à essa festa.

Se todas essas coisas não tivessem acontecido, eu não teria o encontrado novamente.

Lucas? - perguntei, mesmo tendo a certeza de que era ele. Mas eu não conseguia acreditar em meus olhos, que por sinal estavam arregalados.

Ele continuava o mesmo mesmo tendo se passado seis anos... Continuava com aquela mesma cara de bobo que eu era apaixonada. Continuava com aquele mesmo olhar penetrante que conseguia me decifrar facilmente. Era o meu Lucas! Ele estava ali, perante a mim, depois de seis longos e difíceis anos, em que eu tive de ouvir que ele não voltaria mais. Nós finalmente estávamos frente a frente outra vez. Eu tinha tantas perguntas para fazer...

De repente uma alegria tão grande começou a preencher meu coração, que era impossível segurar o sorriso que ia se instalando em minha boca. Sedenta de saudade, acariciei seu rosto, e por um instante eu o tive novamente para mim, mas foi apenas passageiro, como o sorriso que em meu rosto deixou de existir. Não entendi bem, mas meu toque em seu rosto o fez hesitar.

— Desculpa - ele disse, tirando cuidadosamente minha mão de seu rosto, parecendo estar travando uma luta interna entre tirar ou não tirar minha mão dalí —, mas eu não sou esse Lucas que você está falando. E-eu... Eu preciso ir agora.

Então, ele passou por mim praticamente correndo, e então o perdi de vista quando ele cruzou a esquina.

(...)

Foi bem difícil me olhar no espelho do banheiro na manhã seguinte quando acordei e vi minha aparência. Meus olhos estavam inchados e vermelhos, com olheiras tão profundas que me senti um verdadeiro panda. Digamos que isso aconteceu devido eu ter passado a noite toda em claro e ter chorado até o sol dar sinais de que já era dia. E toda aquela dor que eu sentia por conta da ausência do Lucas que eu achava que já havia passado veio à tona e me destruiu.

Afinal, por que ele fugiu? Eu não conseguia encontrar nenhuma resposta para isso. Mas talvez a resposta fosse tão simples quanto a soma de dois e dois. Haviam se passado seis anos. Ele não tinha obrigação de continuar gostando de mim depois de todo esse tempo do mesmo modo que eu gosto dele. Eu o amo! Mas infelizmente, talvez as pessoas estiveram sempre com a razão, ele estava fugindo de mim, desde o início, eu que nunca quis enxergar.

Na noite anterior, após ficar cara a cara com o Lucas e ele sair correndo, eu voltei, atordoada, para o hotel em que estava hospedada com Bruno. Eu não tinha estômago para olha-lo na cara de novo depois da discussão que tivemos e sem contar que eu necessitava ficar sozinha, não me pergunte porquê, eu apenas me sinto melhor em algumas situações quando estou sozinha, e o Bruno que se virasse, pois ele teria de dormir em outro lugar, bem longe de mim de preferência. Mas acho que ele me conhece melhor do que eu imaginava, pois quando cheguei, nem ele e nem suas coisas estavam mais lá. Apenas um bilhete deixado sobre a cama por ele, que dizia "Vazei"
Se eu não estivesse tão mal naquele momento, eu até riria desse bilhete ridículo.

Após sair do banheiro, vi minha mala no chão, próxima da cama, desfeita, e lembrei que teria de voltar para minha nova cidade, pois seria uma viagem longa e no dia seguinte eu teria aula na faculdade. Eu já estava atrasada para pegar o ônibus, já que o Bruno não teve nem a decência de deixar o carro para que eu pudesse voltar e não precisar depender de ônibus de viagem, mas isso é esperar demais de um cara como ele. Por isso, tive de arrumar a mala em tempo recorde.

Peguei todas minhas roupas e as soquei dentro da mala de qualquer jeito, pois não tinha tempo para dobrar. Em uma das remessas de roupa que eu joguei dentro da mala, acabei deixando cair alguma coisa. Meu diário! O peguei rapidamente e tentei lembrar como ele foi parar ali, já que nunca mais eu havia escrito nada nele e muito menos de ter o colocado ali dentro.

Esse diário foi idéia da Dra. Laura. Após o desaparecimento do Lucas, eu acabei me afastando um pouco do mundo. Pois o mundo não está nem aí pra sua dor. O mundo é apenas uma pessoa curiosa que te ouve e depois zomba de você por contar aquilo. Por isso, ela me recomendou um diário para escrever tudo o que estava sentindo para depois trabalharmos aquelas emoções transmitidas através do diário. E só de ter aquele pequeno amontoado de palavras escritas sobre o papel já amarelado, gasto pelo tempo, me causava um nó na garganta e uma dor dilacerante no peito, pois que ali estava escrito tinha somente um enredo: o sumiço dele.

Abri devagar, com as mãos tremulas, em uma página aleatória e dei de cara com um poema que escrevi há três anos atrás numa noite estrelada. E esse poema conta uma verdade que me acompanha até hoje:


Eu ainda te amo, idiota!

O tempo está passando
Mas de nada está adiantando
Mesmo sem você, é em você que eu continuo pensando
E por mais que eu lute, é você que eu continuo amando
Dia ou noite
Não importa o momento
Recebo visitas suas em meu pensamento
E diferente da frase de um livro que eu li, que dizia "Isso também passará" o meu amor por você, este, nunca irá acabar.

Escrito 23 de outubro de 2029

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top