Capítulo 4 - Arrependido?

Papai! Olha pra mim, papai! Eu estou andando de bicicleta, olha!

Eu estava num parque, sentado em um banco, sozinho, exceto pela presença de um homem adulto e um garotinho extremamente feliz, que estavam dentro de uma quadra de esportes, que ficava bem em frente ao banco onde eu estava sentado. O garotinho parecia ter finalmente aprendido a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio. Ele dava voltas e mais voltas ao redor da quadra, ainda cambaleante, mas sempre satisfeito, chamava a atenção do pai para mostrar o seu mais novo feito. Eu não me lembrava de como tinha parado ali, naquele banco, mas algo naquele momento de afeto entre o pai e seu filho me prendeu a atenção de um modo tão estranho e envolvente, que não quis parar de observar aquela cena. O homem e seu filho trajavam roupas de frio, devido ao clima chuvoso que predominava naquele dia, impedindo que eu pudesse ver bem seus rostos. Apenas conseguia ver seus corpos em movimento. O garotinho parecia não cansar, ao contrário do pai que veio em minha direção e logo se sentou ao meu lado, mas seu rosto ainda era uma incógnita para mim. Me senti um pouco intimidado, mas ainda assim tentei puxar assunto.

Parece que seu filho adorou andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio - digo de forma simpática, sorrindo levemente.

Sim, é verdade. Você sempre adorou andar de bicicleta.

Como? - perguntei confuso.

Você sempre adorou andar de bicicleta. Eu sempre te trazia para andar de bicicleta, aqui.

Eu realmente não estava entendendo nada. Até achei que meus ouvidos estivessem me traindo devido ao frio que estava fazendo. Mas o homem insistiu.

Vai dizer que não se recorda desse dia?

Que dia? - perguntei já pronto para me levantar e ir embora.

Esse dia! - então ele apontou para o garotinho que agora olhava para nós, pelo lado de dentro da quadra, desta vez sem o capuz sobre sua cabeça.

E então, eu vi seu rosto.

E então, eu vi que aquele garotinho era eu, e que aquele parque era o mesmo que o meu pai me levava sempre para brincar, que aquele dia era o dia em que tinha aprendido a andar de bicicleta. Eu conseguia sentir a mesma emoção que senti dentro de mim nesse dia.

E então, eu percebi que aquele homem era o meu pai, que estava comigo, me ajudando a aprender a pedalar sem as rodinhas de apoio.

E então, eu percebi que aquilo era um sonho.

E então, eu despertei!

(...)

Acordei de forma abrupta, assustado com o barulho estridente do despertador informando que já era dia. Meio dia, para ser mais exato. Eu estava todo suado. Havia sido uma noite muito difícil. Aliás, desde a viagem, basicamente tudo estava sendo muito difícil. Descobrir que meu pai havia morrido, e basicamente por minha culpa foi de longe a coisa mais difícil que vivi. Me fez pensar se essa viagem no tempo foi realmente a coisa certa a se fazer.

O sonho foi tão real... Tão real quanto a lembrança daquele dia que revivi no sonho.

Após me informar sobre a morte de meu pai, minha mãe chorou junto comigo. Choramos abraçados, compartilhamos a mesma dor um no ombro do outro. A dor de relembrar a morte de meu pai deve ter sido tão forte que, logo ela foi para seu quarto e se trancou lá, como se eu não tivesse desaparecido por seis anos, como se eu estivesse durante todo esse tempo lá. Mas eu entendia. Eu também estava sofrendo muito com a morte de meu pai. Por isso, tentei respeitar o espaço dela. Afinal, aquilo só estava acontecendo por minha causa e teríamos muito tempo para matar a saudade depois.

Foi impossível não me perguntar se o quarto ainda estava da mesma forma de quando ele estava vivo, assim como a sala, que permaneceu milimetricamente igual desde o dia que viajei. Para muitos, manter lembranças de algo que não está mais lá pode parecer uma cruel tortura. Mas assim como é pra mim, para a minha mãe, as lembranças daquilo que partiu são capazes de nos levar a uma viagem no tempo ao nosso próprio passado. Diferente de uma tortura, poder reviver aquilo que um dia nos marcou de forma positiva nos faz nos sentir melhor nos momentos em que a saudade resolve nos visitar. Nos acalenta em meio a solidão do vazio que aquilo deixou. Entende?

Quando finalmente me observei no espelho do banheiro, levei um tremendo susto. Ainda que Einstein já tivesse dito em uma de suas teorias que, se alguém viajar na velocidade da luz por... Por exemplo, seis anos, diferente das pessoas que não viajaram, a pessoa teria a mesma idade de quando viajou, eu fiquei muito surpreso ao notar que ele tinha a total razão. Eu estava exatamente do mesmo jeito! Diferente da cidade, que pareceu ter virado uma cidade futurista. Diferente da minha mãe, que visivelmente envelheceu alguns anos. Eu estava do mesmo jeito! Isso me fez pensar na Laís... A última vez que a vi, ela ainda era uma garota de quatorze anos, tímida. E agora... Agora ela deve estar uma mulher. Se realmente se passaram seis anos, ela agora tem vinte anos.

Vinte anos...

Teria sido tudo tão mais fácil se tivéssemos nos apaixonado nessa idade. Não sofreriamos o preconceito das pessoas. Não poderiam nos proibir de namorar. Seria somente nós dois e aquilo que um dia tanto desejamos: Liberdade!

Mas essa liberdade me custou um preço muito alto. Um preço que jamais conseguirei pagar.

E se a Laís realmente tivesse encontrado outro cara e não quisesse mais saber de mim? E se eu tivesse me tornado apenas poeira em seus pensamentos? Eu não iria resistir a isso. Eu não sei se eu iria suportar mais um baque de perder outra pessoa que eu tanto amo.

Eu e a Laís sempre corremos riscos um pelo outro. Mas desta vez, eu realmente não tinha certeza se arriscar era a coisa certa a se fazer. Diferente de quando puxei a alavanca e parti rumo ao futuro, em que eu estava repleto de coragem, agora eu estava com medo e receio. E isso me levava a somente duas opções:
Ou eu ia atrás dela e tentava descobrir se ela ainda me amava; ou eu desistia dessa história de amor proibido e a deixava seguir sua vida, como ela deve ter feito durante todos esses anos, sem mim.

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