Capítulo V
Dois dias depois, Vincent Price, o duque de st. Albans, estava sentado em seu coche, rapidamente ajeitando as vestes de seu melhor amigo, enquanto voltavam do White's e contornavam a St. James Square.
Fizera seu melhor para que as cortinas da carruagem permanecessem fechadas, pois a luz daquela manhã parecia perfurar os olhos de ambos. Beber demais era uma de suas diversões, das quais se orgulhava por não prestar um vexame e manter certo apreço de seus companheiros, porém Phineas Black, lorde Montgomery, não poderia dizer o mesmo.
Se olhados de longe, eram uma dupla formidável por sua beleza, mas se visto de perto, as falhas começam a aparecer.
Na verdade, a maior falha de Phineas estava em ter perdido seu casaco em algum lugar do White's, e agora seu colete revelava-se imundo e azedo de uma bile viscosa que escorrera de sua boca conforme, de forma nem um pouco charmosa, vomitava em um dos vasos do clube de cavalheiros.
Viraram a noite bebendo em mesas de carteado e fazendo comentários duvidosos sobre certas mães que os caçavam, ansiando por pretendentes enquanto toda a dor de cabeça que lidavam no parlamento tinha de ser colocado em segundo plano. Por sorte, a situação para com Price era a oposta.
As mães é que fugiam dele como o Diabo foge da cruz.
E com razão.
Fazia dois dias que havia tomado a virgindade mais deliciosa e ainda conseguia sentir seus resquícios em seu corpo. O calor de Charity Blunt, o quão apertada ela era envolta ao seu membro e como seus gemidos e o chamar por seu nome foram deliciosos de ouvir.
Fora uma primeira vez espetacular, ele pensava, a tal ponto de ainda não ter definido quem seria sua próxima vítima. Seriai difícil de encontrar alguém tão interessante quanto ela, que conseguisse sustentar uma conversa diante dele sem desmaiar ou falar frivolidades.
Talvez por isso seus beijos tenham tido um gosto diferente.
Quiçá até mesmo fosse a razão de ainda a ter em pensamento.
Charity Blunt era, sem dúvidas, um diamante da alta sociedade. Um diamante que ele corrompera.
— Do que está... — um arroto — sorrindo, seu babaca? — Resmungou Phineas, bêbado e fedendo como um gambá.
Os lábios de Vincent se alinharam. Nem percebera que estava sorrindo.
— Cale a boca e não vomite em minha carruagem — aconselhou em uma ordem. — O que sua senhora esposa irá pensar vendo-o assim, hein? — Suas mãos tentavam ajeitar as roupas do rapaz; escândalos correm tão rápido quanto seus cavalos, e ele temia que a esposa dele já soubesse sobre sua patética postura no clube.
Vincent fora ao casamento. Cerimônia linda, diria, mas que nunca aconteceria para seu coração tão liberto. Veja só o caso de Phineas Black, um jovem tão promissor, que frequentara Covent Garden até esgotar seu cardápio seleto de prostituas, beberrão e ótima companhia — quando sóbrio — e agora tinha de voltar para a própria residência com a preocupação do que a esposa pensaria a seu respeito.
A esposa que o receberia com bile e o fedor de um homem derrotado antes que seus criados o levassem para um banho.
Ao menos, se colocasse a si próprio naquela situação vergonhosamente hilária, Vincent limpar-se-ia sozinho. Era dono de si, de seu mundo e destino.
Não havia espaço para um casamento em seus planos.
— Precisa ficar com a cabeça erguida, meu amigo — alertava-o conforme lhe dava pequenos tapas contra o rosto. — Ande, olhe para mim! Black!
Mas a cabeça de Phineas rodava e rodava, os olhos sem conseguir focar em nada, ainda que os lábios sorrissem, bêbados.
— Por sorte, o cheiro de xerez irá disfarçar... — Os olhos de Vincent fitaram-no com certo desgosto. — ...essa mancha.
O rapaz riu.
— Você... está... tão sério...
Vincent ergueu uma sobrancelha.
— Estou?
— Está.
— Você me mandou parar de sorrir.
O rapaz riu.
— E agora... você... me obedece... general?
O semblante de Vincent endureceu.
— Não me chame assim — vociferou, sem zombaria ou espaço para questionamentos.
A guerra acabara, mas levara uma parte de si com ela. Desejava que nunca mais ouvisse alguém chamando-o por sua patente, pois as vidas perdidas ainda lhe assombravam, tivessem sido elas de seu próprio pelotão ou os de Napoleão.
Muitos que lutaram ao lado daquele bostinha francês não tinham culpa, pensava ele, apenas seguiam ordens e lutavam pelos valores de outrem. Homens fracos, é claro, sem personalidade e real valor, mas ainda estavam vivos.
Ainda faziam parte da família de alguém.
De sua própria história.
E agora eram fantasmas em suas mãos.
Phineas fez menção de dizer algo, atraindo-o de seus devaneios sombrios, o indicador em riste, porém, um arroto escapou de sua garganta, pedaços da comida da noite anterior voando sobre as vestes impecáveis de Vincent, manchando os botões, as botas e o tecido do banco da carruagem antes que ele abrisse a porta.
— Olha... temos uma... comitiva! — cantarolou o bêbado esfregando as mangas contra os lábios sujos de laranja e amarelo, o gosto virulento dominando o paladar conforme os olhos embaçados tentavam focar nas duas figuras paradas na frente da casa.
Ele não precisava estar sóbrio para saber que eram a mãe e a esposa.
— Elas só vieram me receber, porque... vim com o senhor. — Ele apontou para Vincent, paralisado em cinismo em seu canto do coche. — Nunca me recebem quando chego soz...
Porém, antes que conseguisse completar a frase, os pés escorregaram no próprio vômito e seu corpo tombou em direção aos cascalhos da entrada, a cabeça batendo contra o piso conforme dois criados surgiam, chamando por Phineas, e a esposa começava a chorar.
Sua própria família parecia não ter palavras. A mãe sentia vergonha e tapava o rosto, desgostosa, e o coração da esposa apertava-se em ver seu marido naquele estado.
Mas nenhuma delas entendia o que passaram no inferno de Bonaparte, enfrentando-o onde a Coroa os mandava ir.
— Devo lhe agradecer por trazê-lo em segurança — disse a mãe sem lhe sustentar o olhar por muito tempo. — Sinto muito por seu casaco.
Depois, se retirou.
A esposa chorou por mais alguns instantes e, incapaz de tolerar tanta lamentação pelas escolhas do amigo, que muitas vezes não tivera escolha, Vincent revirou os olhos e subiu ao banco do cavalariço. Não seria possível voltar para seu flat no Albany com o cheiro dos fluidos impregnando o banco.
Seu casaco ainda tinha salvação, e ele torcia para que também tivesse.
O nome de Charity Blunt reapareceu em sua mente.
Céus... precisava corromper outra lady o mais rápido possível!
***
— Não entendo porque decidiu ficar aqui, Sua Graça — disse seu valete, o qual trouxera para a capital, satisfeito que sua companhia supriria o que precisasse até que retornassem a st Albans. — Com posses o suficiente para estar em Mayfair...
Vincent decidira fazer sua barba no exato instante em que entrara em seu loft, pedindo por água quente, seu sabão de barbear e sua navalha. Limpou a lâmina no instante que replicou:
— Com as jovens pombinhas? Já lhe expliquei, Yohan, nunca fico em meio ao que cobiço. É preciso admirar... — Seus olhos fitaram o próprio reflexo — ...de longe.
Yohan arrumava seu armário e separava as peças que usaria durante a tarde: uma casaca tom de areia, calças cinzas e colete branco, junto ao seu lenço de algodão que trouxera da França com seu par de luvas mais confortável.
— Outra forma de dizer que está fugindo delas, Sua Graça.
Vincent fuzilou-o pelo espelho.
— Vejo que detém muitas opiniões esta manhã.
— Sinto muito, Sua Graça.
— Não era uma reprimenda.
— Soou como uma.
— Não espere que me desculpe, mas reafirmo que não foi minha intenção — seguiu, passando a lâmina com cuidado sobre o maxilar, a espuma facilitando o corte tão delicado. — Há algum motivo especial para tantas opiniões? — reformulou.
— Os boatos correm, Sua Graça.
O sangue dele gelou por um instante.
— O que ouviu a meu respeito? Suponho que algo novo...
— De fato. Sobre o senhor e uma jovem...
O valete conquistou toda sua atenção. Com o coração saltitando e errando batidas, Vincent virou-se e o encarou. Estava parcialmente vestido e não tinha como disfarçar a forma com que seu peito se moveu pesadamente.
— O que ouviu?
— Soube que fez a srta. Hallow chorar, depois de tê-la chamado para dançar.
Um alívio súbito recaiu sobre seus ombros, e o mencionar do nome da afetada senhorita Sally Hallow o fez perder o interesse.
— Já fiz muitas chorarem — respondeu sem realmente se orgulhar de tal feito.
Era um canalha, mas, como fizera questão de explicar a Charity Blunt, não podia se responsabilizar pelas expectativas alheias.
Mesmo sendo um patife libertino, muitas sonhavam em se tornarem duquesas.
Curiosamente... a srta. Blunt não parecia o caso.
Na verdade, o fato de não estar casado recaía justamente em sua habilidade de ser intimidador. Poderia se pensar que todas as jovens eram dóceis e ingênuas, mas algumas tinham seus próprios planos e não foram duas ou três vezes que tentaram enganá-lo a cair em um matrimônio
Seu título falava acima de seus escândalos, para algumas famílias, e ele precisava ser o mais desprezível para escapar, ameaçando fugir do país e deixá-la arruinada, sem qualquer perspectiva de felicidade vindoura, se abrisse o bico.
O único impedimento para seus planos seria se alguma delas aparecesse grávida. Seria um caso do qual não conseguiria se esquivar, justamente, liberava suas sementes nas próprias mãos.
Sentia seu calor, seu poder e seu desejo e satisfazia-se na tranquilidade de saber que não engravidara nenhuma das... pombinhas adoráveis.
— Mas o pai dela, o barão de Stanford, ao que ouvi, deseja uma retração. Considerou intolerável o sofrimento da filha...
— Intolerável foi ela não entender que era uma cabeça de vento e nada mais — concluiu assim que terminou de se barbear, passando a toalha morna contra o rosto e admirando-se pelo trabalho. — É o que mais falta nessas jovens, Yohan, sabia disso?
— O quê, Sua Graça?
— Substância. — Caminhou até o quarto e despiu-se, sem qualquer vergonha da visão que o valete iria ter. — São sempre conversas frívolas, rasas, desinteressantes...
— Mas o senhor voltou muito depois da meia-noite no último baile, Sua Graça — pontuou Yohan conforme lhe vestia com a camisa e a prendia em suas calças, alinhando à forma esguia. — Presumo corretamente que encontrou uma jovem diferente?
Vincent mordeu o interior da bochecha.
— Ou talvez... um jovem? — arriscou.
— Isso deixei em Paris. Londres é... conservadora demais para entender — replicou no mesmo instante. — Não volte a insinuar de tal forma, fui claro?
Yohan, sabendo das liberdades que possuía em sua relação, provocou-o:
— Foi uma reprimenda, Sua Graça?
Vincent rechaçou no mesmo instante:
— É claro que sim, imbecil.
O valete riu e terminou de vesti-lo, passando a mão sobre seus ombros depois de colocar-lhe o casaco e certificando-se que a gola estava engomada o suficiente para entrelaçar o lenço.
— Uma jovem, então? — arriscou em terreno mais seguro.
Charity Blunt.
O nome quase escapou por seus lábios.
— Está pensando nela? — provocou o valete.
— Cale a boca — ordenou Vincent apanhando sua cartola. — Almoçarei fora, tente fazer algo de útil no tempo que não estou aqui.
Depois que bateu a porta atrás de si, o duque não viu a forma com que Yohan ria consigo próprio.
***
— Prometo que será nossa última parada, Trudy! — assegurou Charity ao ver a expressão cansada da aia pessoal, carregando as sacolas com seu novo chapéu, a sombrinha de renda, os leques de marfim da última coleção e um novo relicário.
Agora, a garota olhava para a imponência da livraria Lackington Allen and Co, na Finsbury Square, por onde tantas pessoas passavam e se admiravam com a variedade de livros que o proprietário, sr. Lackington, orgulhava-se de possuir e vender.
— Com o melhor preço de Londres! — celebrava quando o questionavam pela livraria.
— Como desejar, milady. Estou à disposição, milady — garantiu Trudy, mas Charity não desejava lhe tomar mais tempo.
Bastava encontrar um livro para presentear a melhor amiga, Gwen, que celebraria seu vigésimo aniversário na tarde seguinte, e poderia partir de volta para a residência Blunt.
Com um enorme balcão redondo ao centro, e tapetes circundando seus arredores, adentrar a livraria era como participar de um universo à parte, onde o aroma dos livros, recheados de promessas de histórias épicas e apaixonantes, pairava pelos ânimos dos leitores.
Charity nunca se empolgou muito com letras impressas em uma página amarelada e encadernação de couro, porém Gwen era legitimamente uma leitora voraz e dedicada para com as histórias que lia.
Justamente, lhe dar de presente a nova edição de As Aventuras de Huckleberry Finn, escrita pelo sr. Mark Twain, seria um presente mais do que adequado! Ao menos sob seus olhos.
Havia opiniões fortes de cavalheiros que eram contra as leituras femininas, e até mesmo chegaram a criar livrarias que separavam seus públicos e detinham edições diferentes. Por sorte, a loja do sr. Lackington recebia bem a todos, e Charity não teve problema algum em caminhar pelas estantes, tão altas que alcançavam o teto, com títulos a se perder de vistas e alguns alcançados apenas por escadas que deslizavam de um lado ao outro.
Não estava em um ambiente familiar, nem por isso deixou de sentir acolhida.
Pega em um ímpeto de boa fortuna, decidiu que o presente para Gwen tinha de ir além da obra do sr. Twain. Havia tantos mundos a erem descobertos, e conseguia imaginar a amiga vagando pelas páginas por horas a fio.
Estava decidida! Iria lhe presentear com quantos exemplares encontrasse e julgasse de bom tom. Não lhe daria nada escrito por Byron, é claro, pois seu pai a expulsaria, mas poderia arriscar alguma história com tom de imoralidade.
Nem tudo precisava ser enfadonho, afinal, e mesmo páginas com letras impressas poderia entreter.
Quem sabe apanhasse um livro para si própria.
Descobrira que um libertino poderia não representar muito, apesar das palavras tão sedutoras, então por que não arriscar com uma obra onde as palavras só aguardavam para serem descobertas? Poderia se surpreender...
A presença da pobre Trudy estava sendo muito útil, segurando os livros em seus braços conforme Charity empilhava os volumes para presente e procurava por aquele que capturaria sua atenção.
Elas caminharam por entre as altas prateleiras da livraria, descobrindo um novo cômodo conforme o adentravam, deparando-se com cantos confortáveis para leitura, espreguiçadeiras, longas janelas retangulares que davam vista para a rua e permitiam o vislumbre do mundo real enquanto tantos mergulhavam em viagens distantes.
Charity desejou apenas ficar ali, por mais tempo, e até apertava as próprias saias em indecisão, virando a cabeça para a esquerda, correndo os olhos pelas lombadas e tantos títulos, depois resolvendo voltar para a direita, cerrando os punhos, arregalando os olhos, rejeitando biografias, livros teóricos até desacelerar sobre assuntos de alquimia e medicina. Um cavalheiro olhou-a de rabo de olho, julgando-a, claramente.
Antes que pudesse pensar em lhe dizer algo, viu-se capturado por um romance em específico, aprisionado em uma estante no outro corredor. Seus pés apressaram-se até ele, Trudy correndo à sua sombra e equilibrando os exemplares.
Seus dedos traçaram a lombada e então o livro pareceu voar de suas mãos, fazendo-a franzir o cenho conforme seguia-o com os olhos.
— Perdão, senhor, mas eu ia pegar este livro — comentou estranhamente surpresa, contornando a divisória da estante e alcançando seu outro lado.
— Falou perfeitamente, "ia". — A resposta foi grosseira, mas não fora ela a paralisar a garota.
Ali, no paraíso de uma livraria, estava o próprio Diabo.
— Ora, srta. Blunt — cumprimentou-a Vincent Price com um sorrisinho cretino no rosto.
— Sua Graça. — Uma mesura perfeita permitiu-a ter tempo de recuperar-se da surpresa.
Os dedos dele, grossos e alongados, cujas falanges estavam cobertas por pequenos pelos castanhos, bateram contra a capa do livro.
— Está me seguindo? — perguntou.
Charity arqueou as sobrancelhas.
— É evidente que não!
— Chego a pensar que poderia estar.
— E por que estaria?
— Sabe bem o porquê — rebateu, mordiscando os lábios macios.
A respiração dela falhou por um instante, baseando-se em pura inconformidade pelas baixarias que ele implicava por terem um segredo, mas ali não era hora nem lugar, e só provava seu caráter puramente insensível.
— Asseguro-lhe que não estou.
— Curioso, pois juraria tê-la visto ontem, também.
— Então, talvez seja o senhor a me seguir — replicou, erguendo o queixo, orgulhosa a ponto de não se intimidar. Já havia visto e sentido o que aquele duque poderia fazer.
Não se impressionara.
— De que forma, senhorita?
— Eu não tive a infelicidade de percebê-lo nos arredores, se eu o estivesse seguindo, isso me faria puramente...
— Estúpida.
Aquela bendita e insuportável palavra novamente!
O rosto dela ferveu, as bochechas queimando.
— Pardon?
Francês pouco o impressionava, tal que sua reação fora de puro desdém com o arquear de uma sobrancelha.
— Este livro não é adequado para mulheres — falou antes que os segundos em silencio se tornassem minutos desconfortáveis.
A súbita mudança de assunto fez com que desdém escapasse da voz dela.
— E o que o senhor saberia sobre o que é adequado a uma mulher, Sua Graça? — Havia uma malicia em sua frase que o duque não fora capaz de notar por não fazer ideia do quanto Charity não havia aproveitado de sua performance.
Na verdade, se não estivesse com a fiel aia trás de si, e em um ambiente público, talvez lhe dissesse duras verdades!
Tolice, é claro, e vulgaridade, já que quebrava sua promessa para com a viscondessa. Tê-lo encontrado não fora culpa sua, é claro, mas estava encorajando-o a seguir naquela conversa...
— Bem, sei que este livro não é indicado a jovens damas — O duque rapidamente folheou as páginas. — Dizem que é tão escandaloso e pungente que vai contra todos os valores sociais.
Os grandes olhos azuis pareciam se divertir, reluzindo aos dela, fitando-a displicentemente conforme apoiava o peso do corpo sobre a estante, cruzando as canelas.
Como um duque, possuía uma atitude firme e presença louvável, o que o tornava apenas intolerante de se presenciar.
— Justamente, por isso o desejo ler — insistiu Charity.
Uma das sobrancelhas de Vincent se ergueu.
— Pode ser considerada imoral se for vista lendo este livro.
A garota sentiu a raiva subindo por seu corpo. Tudo o que não precisava era um homem — aquele, especialmente — ditando-lhe o que fazer.
— Se o sr. Flaubert escreveu esta obra, certamente foi para ser lida — defendeu ela.
— É o que pretendo fazer — replicou ele, sorrindo, fazendo menção de se mover, porém Charity colocou-se diante seu corpo. — Não vamos repetir aquela noite, espertinha — sussurrou para provocá-la.
— Ah! — exclamou ela em absoluta perplexidade. — Poderia, ao menos, pedir desculpas.
O duque estreitou o olhar e inspirou fundo, cruzando os braços, o livro preso entre a dobra deles enquanto a mente parecia deliberar por qual razão requisitavam suas desculpas.
— E pelo que eu deveria me desculpar, milady? — resolveu inquerir. — Por te magoar?
— Talvez por ter um humor de uma criança! — Sua voz tornou-se firme diante tamanha provocação. — Por ser tão indecente!
— Indecente!? — Ele fingiu estar surpreso, passando a mão direita pelo contorno firme de seu rosto. — Não era justamente a senhorita que estava tentando apanhar um livro sobre adultério e fornicação, milady?
As bochechas de Charity acenderam-se em uma mistura de raiva e indiscrição, ouvindo Trudy chamando-lhe, alertando sobre a impropriedade de tudo aquilo.
Já conversava tempo demais com um homem de reputação duvidosa e sem a companhia de um homem de confiança...
Mas o fogo que acendeu dentro da garota não seria apagado com presunção e prepotência de um duque que apanhou o livro que queria.
— Viu que eu estava em posse deste livro.
— Lamento, mas não sabia.
— Agora sacrificará a verdade?
— Na verdade, a senhorita está a mentir... — Um sorriso ardiloso comprimiu seus lábios. — Espertinha.
— Peço que pare de me chamar assim — disse com o ranger dos dentes.
— Chamá-la como?
Suas narinas bufaram e Charity praticamente sibilou sua resposta:
— Espertinha.
— Ora, mas é o que a senhorita aparenta ser, milady — Os olhos dele, perigosos e instigantes, correram seu corpo de cima a baixo.
A cada vez que seus lábios finos e macios se direcionavam a ela, era como se as bochechas da garota se transformassem em bules de chá ferventes.
— Sabe que o está usando para um escárnio pessoal.
— Na verdade, uso-o para mostrar o quanto esse livro não lhe cabe a leitura... — Os olhos dela desafiaram-no a prosseguir, a chamá-la de espertinha mais uma vez, porém Vincent apenas sorriu, fazendo-a engolir em seco. — Mas se desejar, poderia lhe dizer o que é ainda mais impróprio.
Toda sua atenção voltava-se àquele sorriso irritantemente constante, tal que Charity voltou a quebrar sua promessa e encorajou-o ao perguntar:
— O que seria?
Deleitando-se com a deixa, o duque jogou o rosto para trás e disse:
— Manter sua criada segurando tantos livros quando não segura nem ao menos um. — Então, de repente, tocou a lombada de um livro na estante e puxou-o para o lado, derrubando-o sobre a garota, rindo conforme ela desesperava-se para segurá-lo. — Tenha um bom-dia, espertinha, e pare de me seguir.
Aproveitando a deixa de sua distração, desviou das senhoritas sem se despedir e caminhou até o caixa, pagando por seu exemplar e deixando a loja.
Trudy olhou-a surpresa, os olhos arregalados e os lábios entreabertos em um silêncio que dizia muito, diante a perplexidade do encontro.
— Acredita no que ele fez!? — reclamou Charity conforme percebia o livro que o duque derrubou sobre ela. — Roubou...
Porém suas palavras evaporaram pelo ar conforme os olhos liam o nome de Gustave Flaubert gravado em dourado na capa de couro vermelho.
— Está tudo bem, milady?
Os cílios da garota se agitaram. Não reparou em nenhum momento que ele havia trocado os livros e que deixara com ela o exemplar que tanto desejava.
— Milady?
Charity engoliu em seco.
— É... é claro — gaguejou ainda atônita, percebendo como os braços de Trudy já tremiam pelo peso dos livros e as sacolas. — Deixe-me ajudá-la com eles.
— Não se preocupe, milady...
— Permita-me. — A garota apanhou os livros e viu o alívio nos olhos da aia, a qual, agora, dividia os exemplares e as sacolas entre os dois braços. — Creio que aquele homem não teria bons modos nem se lhe caíssem na cabeça!
— Não duvido disso! — completou a garota conforme caminhavam na direção do balcão da livraria, onde um senhor simpático, de nariz vermelho, redondo, e cabelos que saíam em tufos perto das orelhas as cumprimentou com um bom-dia.
— Milady...
— Sim?
— Posso lhe fazer uma pergunta?
Charity sentiu o nervosismo em seu sangue mais uma vez, assistindo à criada apanhando a quantia o suficiente para tantos presentes e seu exemplar.
— Faça-o, Trudy.
Demorou algum tempo até que dissesse:
— Não pude deixar de notar, milady, e peço desculpas pela indiscrição, mas... milady, tratou-o por Sua Graça?
Os olhos da jovem procuraram pelo duque por um instante, pois odiaria que ele notasse que falavam a seu respeito, mas Vincent parecia apenas ter desaparecido.
— Aquele homem... repreensível! Argh... ele é um duque — explicou. — O duque de st. Albans.
Os olhos de Trudy se arregalaram. Já devia ter ouvido muito a respeito dele, porém, na posição que detinha, nunca o teria visto pessoalmente se não fosse por aquele inoportuno incidente.
— Agradeceria se não comentassem sobre o ocorrido, aqui, Trudy — pediu Charity com um olhar sério. — Poderia manter este pequeno ocorrido em segredo?
— É claro, milady! Certamente! Homens censuráveis existem aos montes! Ele não será o primeiro com que cruzaremos.
Ah, sim, Charity Blunt resguardava muita certeza diante disso. Libertinos caíam aos montes, por aí, mas, de alguma forma, aquele sorriso e seus olhos indecentemente instigantes gravaram-se em sua mente...
...assim como os beijos em seu corpo...
...e a frustração em sua mente.
Não importava quantos existissem, algo a dizia que nenhum outro seria como Vincent Price, em grau de insensibilidade ou boniteza, tal que mesmo que mil homens imorais cruzassem seu caminho, Charity tinha certeza de que jamais os confundiria com o duque.
Assim, declarou convicta à criada:
— Tem razão, aquele homem não tem senso de honra!
E depois a si própria:
— Ficarei longe de libertinos como ele.
Seria possível se ater a uma parcela de sua promessa na esperança de remontá-la? A resposta era tão estupidamente óbvia quanto o fato de que era apenas uma questão de tempo até que voltassem a se encontrar.
*Mais um capítuloooo, e espero que estejam amando por onde nossos personagens estão caminhando hehehe não esqueça de votar e deixar um comentário, hein!!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top