Chapter Four

O final de semana passou rapidamente diante dos meus olhos, talvez com a mesma velocidade que as folhas caem das árvores nas tardes de outono. No sábado, Lindsay e eu fizemos uma boa faxina na confeitaria. Aproveitamos também para checar a data de validade de cada produto. E, como não dava mais para esperar, organizamos todos os alimentos da despensa e todos os utensílios dos armários. Ontem, domingo, fiquei em casa com a minha irmã e fizemos alguns biscoitos juntas. Passar esse tempo com ela me fez lembrar de quando nós duas éramos pequenas e ajudávamos o nosso pai na cozinha. Mamãe nunca foi de se arriscar quando o desafio envolvia culinária, ela sentava-se em uma das cadeiras e nos observava com uma taça de vinho nas mãos, especialmente nas noites de inverno. Obviamente, por causa da pouca idade que nós tínhamos, a nossa tarefa era seguir as instruções que o nosso pai nos dava. O meu interesse pela confeitaria surgiu por sua causa. Eu lembro perfeitamente que essa vontade de fazer doces nasceu em meu coração quando nós estávamos preparando um bolo para comemorar o aniversário de mamãe. Se eu tiver oportunidade, quero fazer essa receita na prova criativa para homenagear a minha família. Tenho fé que onde quer que os meus pais estejam agora, os dois estão torcendo por mim, como sempre fizeram. 

E por falar no concurso, hoje é o grande dia, a primeira etapa. A temida pré-seleção que, literalmente, é tudo ou nada, se eu não me sair bem posso dar adeus à oportunidade de fazer algo diferente esse ano. E, juntamente com esta oportunidade, irá também os dez mil dólares. Lindsay quando chegou à confeitaria disse que eu não precisava ter vindo trabalhar hoje, que era para eu ter ficado em casa preparando-me para o concurso. Qual lugar seria melhor para eu me preparar senão a cozinha? Estar aqui ajuda-me a ficar mais calma, desviando o meu foco do que me aguarda mais tarde. Enquanto eu estiver aqui posso permanecer relaxada, mas sei que quando eu sair a tensão voltará novamente. O meu trabalho repele o meu nervosismo. Coloco as mini cheesecakes na bandeja e vou para o salão tranquilamente, com passos cuidadosos.
 
— Eu já disse que você pode ir para casa, não disse? Não quero que se atrase. Ashley e eu damos conta de tudo. — Lindsay me julga com o seu olhar preocupado.
 
— Tudo bem, meninas. Não vou perder a hora. — abro a vitrine e procuro um espaço adequado para as cheesecakes — Ainda são dez horas e trinta minutos.

— E você precisa estar lá em qual horário? — Ashley pergunta. 

— Às treze horas, irei sair daqui às onze. Vocês vão ter que lidar comigo por mais trinta minutos. — digo.

— Não vejo nenhum problema. Aliás, não é como se eu fosse discordar da minha chefe no meu primeiro dia de trabalho. E, sabem de uma coisa, esse uniforme ficou bom em mim. 

— Cortesia minha, obrigada. — Lindsay diz e retira as fatias de torta de chocolate para pôr em outro espaço. 

— Preciso me ocupar com alguma coisa, estou nervosa. Eu não estou confiante com essa pré-seleção. Estive calma quando eu estava na cozinha, mas o nervosismo voltou. 

— Se você faz os outros doces tão bem quanto faz torta de limão, e eu garanto que sim, você vai conseguir, Emy.

— Ashley está certa. Você precisa ter mais fé em si mesma. Acho que isso pode lhe ajudar. — ela tira um cupcake de baunilha e chocolate da vitrine e coloca-o sobre o balcão — Pode comer, é por conta da casa. 

— Se você diz que pode ajudar, eu aceito. 

Levo o cupcake à boca e me ocupo com essa tarefa simples, comer um doce para aliviar o nervosismo. Um assunto vem à minha mente, lembrando que eu preciso colocá-lo na mesa, estou muito curiosa.

— Você ainda não contou como foi o seu encontro com o Nicholas. — começo o assunto. Ontem eu liguei para a Lindsay para saber como foi encontro, como prometi que ligaria, e ela disse que estava muito cansada e que preferia falar sobre isso hoje. 

Explico rapidamente para a Ashley sobre o encontro que a nossa amiga teve ontem, agora que a senhorita Morgan faz parte da equipe, precisa estar a par das novidades. 

— Foi bom. — ela suspira um pouco desanimada — Mas Nicholas e eu não vamos dar certo agora. Conversamos e chegamos à conclusão que não estamos em um momento ideal para iniciar um relacionamento. 

— Por quê? — Ashley pergunta.

— Eu quero me dedicar a confeitaria e a dança. Não quero deixar o relacionamento como segunda ou terceira opção, entendem? — concordamos — Vamos tentar novamente em outro momento. 

— Espero que dê certo. Ele parece ser um cara legal. — comento.

— Uma vez a minha mãe disse que o amor surge em momentos inoportunos. — Ashley diz um pouco pensativa. 

— A sua mãe é uma mulher sábia. Mas, talvez, Nicholas e eu somos uma exceção à regra. — Lindsay fala. 

Colocamos um fim no assunto e eu volto para a cozinha mastigando a cereja do cupcake. Hora de limpar essa bagunça.

Antes de eu passar pela porta da Sweet Dream, recebi energias positivas e desejos de boa sorte. Ao sair da loja o arrependimento de não ter calçado luvas acertou-me em cheio. Acho que hoje é o dia mais frio da semana, apesar de hoje ainda ser segunda-feira. Mesmo sabendo que é uma má ideia, não hesito em colocar as minhas mãos dentro dos bolsos do meu casaco. Depois de virar algumas ruas e passar por diferentes pessoas, finalmente eu chego em casa. Só quando estou no meu quarto que eu lembro de uma coisa importante. Minha amiga e eu não avisamos a Ashley sobre as compras diárias da senhora Smith, se tudo sair como o planejado, às quinze horas ela vai descobrir sozinha. Após o meu banho extremamente relaxante, visto roupas quentes e uso o secador para deixar o meu cabelo mais apresentável. Decido calçar as minhas botas, mas ao contrário do par de botas pretas com saltos que a Ashley usa, as minhas não são barulhentas. Na bolsa apenas coloco os meus documentos, o celular e as chaves de casa. Não deixo de usar o pingente de coração que a minha mãe comprou para mim no meu aniversário de dezoito anos. É a forma que eu tenho de levá-la comigo, obviamente ela também estará em meu coração em todos os momentos, assim como o meu pai. 

Observo da janela do carro as ruas da minha cidade. O local onde o concurso irá ocorrer é no Central Business District, um bairro muito movimentado e conhecido. Há bares, hotéis, arranha-céus e restaurantes elegantes. Melissa estaciona em frente ao prédio que acontecerá o concurso.

— Você consegue, Emy. Só precisa ficar calma e concentrada. Seja qual for a prova, você irá passar. — Melissa diz e sai do carro.

Tiro o cinto de segurança, pego a minha bolsa e também desço do veículo. Faço uma breve oração silenciosa e aproximo da minha irmã. 

— Obrigada pela carona. Vou fazer o melhor que eu posso.

— Agradeça quando passar para a próxima etapa, irmãzinha. Agora vá, se atrasar estará desclassificada.

— Você tem razão. — nos abraçamos — Vejo você mais tarde. 

Vou até à entrada, mas antes de passar pela porta de vidro, olho uma última vez para trás e a minha irmã acena para mim, devolvo o cumprimento e sigo o meu caminho. Preciso deixar a minha marca, como prometi a mim mesma que faria. Apresento a carteirinha de identificação na portaria que chegou semana passada na minha casa. Liberam a minha entrada e sou orientada para seguir ao segundo andar. Se eu entendi corretamente, Paige Mikaelson, a principal organizadora do evento, estará esperando por mim. Subo as escadas e encontro-a no último degrau segurando uma prancheta. 

— Emily Grace Bennett? — ela pergunta para confirmar.

— Sim, eu mesma. — subo o último degrau da escada. 

— Ótimo. Siga-me. Não se preocupe, não sou da Família Original. 

Gostei dela. Paige Mikaelson parece ser uma pessoa divertida. 

— É uma pena. Eu gosto dos originais. — comento. 

— Você não é a única, Bennett.

Saímos de perto da escada e fomos para um corredor, ela direciona-me para uma pequena sala. 

— Sente-se. — Paige sinaliza com o dedo indicador para uma cadeira. Em frente à cadeira está uma mesa de madeira. Faço o que ela pede — Eu sou responsável pela produção do concurso, estarei disponível para qualquer coisa que você precisar. Agora, eu preciso que você assine esse formulário. — ela tira uma folha da prancheta e coloca em cima da mesa, depois tira uma caneta do bolso da calça e entrega para mim — Creio que você já leu o formulário no site, mas é necessário a sua assinatura. 

— Tudo bem. 

Leio novamente o formulário. Passo os meus olhos atentamente por cada linha. Escrevo o meu nome no espaço indicado. Aviso para ela que já terminei e ela pede para eu acompanhá-la à outra sala. Dessa vez, a sala é bem maior. Há uma mesa com frutas, pães, bolos, biscoitos e chocolate quente. Paige diz que eu posso ficar à vontade e comer o que eu quiser. Cumprimento brevemente as pessoas presentes, os demais participantes, e procuro um lugar vago para me sentar. 

— Tudo bem. — Paige fala — De acordo com o que consta na minha lista, falta somente uma pessoa, Vincent White. Agora são doze horas e cinquenta minutos, espero que o tempo colabore com ele. — ela olha para trás, provavelmente está esperançosa que ele apareça a qualquer minuto. Eu espero que ele consiga chegar a tempo, ser desclassificado por atraso seria muito frustrante — Às treze horas eu voltarei para repassar alguns termos. Fiquem à vontade. 

A produtora sai da sala acompanhada de sua prancheta e deixa a porta completamente aberta. Pego um biscoito com gotas de chocolate da bandeja, mas antes de poder comer, uma garota aparece na minha frente, fazendo com que eu pare a minha mão com o biscoito no ar. 

— Oi! O meu nome é Olívia Clarke. Conversei com os outros participantes, só falta eu conhecer você e o Vincent White. — ela abre o maior sorriso que eu já vi hoje, acredito que ela é a pessoa mais animada entre todos nós.

— Olá! Sou Emily Bennett. Prazer. — ela aperta a minha mão direita, ainda bastante sorridente. Olívia Clarke é uma garota espirituosa.

— Eu sei. Fiz uma breve pesquisa sobre os meus concorrentes. Mas, não precisa levar tão a sério assim, não estou obcecada, apenas quero me divertir e talvez fazer novas amizades. — ela, delicadamente, ajeita o seu óculos. 

Ela senta-se ao meu lado e eu aproveito para comer o biscoito. 

— Sim, mas como você fez essa breve pesquisa? Como conseguiu informações sobre nós? 

— Na verdade, foi muito fácil. Depois que recebemos a confirmação da inscrição por e-mail, o site publicou fichas falando um pouco sobre cada confeiteiro, para as pessoas ficarem a par de tudo. 

— Ah, claro. Faz sentido.

— E, coincidentemente, logo depois eu vi um anúncio de uma confeitaria no Facebook, assim fiquei sabendo também que você é dona de uma confeitaria. Aliás, já preencheu a vaga de emprego? 

— Nossa. Estou surpresa. Sim, felizmente já encontramos uma pessoa. 

— Você acha que o Vincent White vai chegar a tempo? 

— Eu espero que sim. Vamos torcer.

— Imprevistos acontecem. Não podemos controlar tudo. Posso te pedir um favor? 

— Claro. O que você precisa?

— Nada de mais. — ela pega um donut — Quero que me chame de Liv. Olívia é muito formal. 

— Okay. 

Logo depois de terminar de comer o donut, Olívia faz uma pergunta:

—Emily, você está nervosa? 

— Com certeza. Mas estou aprendendo a controlar o nervosismo. O que está ajudando é pensar que vou estar fazendo o que eu gosto, excluo o fato de que é uma competição. — analiso-a e não encontro nenhum sinal de nervosismo — Você parece estar confiante e, principalmente, animada. 

— Também estou nervosa, — Olívia revela — só não posso demonstrar. Fui criada pela minha avó e ela sempre diz que não importa o que eu esteja sentindo, é preciso cuidar da aparência, colocando um sorriso no rosto. Hoje ela fez questão de repetir isso várias vezes. 

Paige retorna à sala com a mesma prancheta de antes. Ela faz uma chamada em ordem alfabética para verificar novamente se estão todos presentes. Antes de a produtora dizer o nome da Olívia, eu desejo boa sorte para ela, talvez pode fazer com que ela tenha mais confiança.

— Muito bem! Quatorze pessoas estão presentes. Infelizmente o senhor White não chegou no horário. — Paige pega uma caixa média que estava escondida no canto da sala. Ela coloca essa caixa em cima de uma cadeira, depois utiliza uma tesoura para romper o lacre. Com cuidado, ela abre a caixa — Irei chamá-los para entregar o uniforme.

Assim que ela entrega o meu, abro o saco plástico para ver melhor o que tem dentro. O uniforme é composto por um avental bege com o nome de cada um escrito em marrom, uma faixa florida e um elástico, ambos para usar no cabelo. Depois da entrega, ela explicou novamente as regras que estão no formulário, segundo ela, para que não haja nenhuma dúvida. Olívia e eu fomos ao banheiro. Solto o meu cabelo para prendê-lo novamente, faço um coque baixo e em seguida coloco a faixa florida, arrastando-a para trás, fazendo com que todos os fios fiquem presos. Olívia e as outras garotas com cabelos longos fizeram o mesmo processo. Emma Murphy tem o cabelo mais curto, então ela apenas usou a faixa, dispensando o elástico. 

Lavamos as mãos e saímos do banheiro. Paige nos conduz para outra sala, onde há armários que podemos guardar os nossos pertences. Escolho o armário número sete para colocar a minha bolsa, mas antes disso, retiro o avental do saco plástico e guardo a embalagem dentro da bolsa. Coloco ela no armário e fecho o cadeado.

Deixo a chave do cadeado no bolso da minha calça jeans. Tivemos que assinar uma lista. Cada um de nós assinou no número respectivo ao seu armário. De acordo com a Paige, vamos usar os mesmos armários até o último dia do concurso, não podendo trocar de forma alguma. Optei pelo número sete por ser o dia em que o meu pai nasceu, pode ser que traga sorte, pois ele era muito bom na cozinha. Visto o avental e peço para que a Olívia faça um laço para mim. Eu estou acostumada a amarrar o meu próprio avental quando estou na minha cozinha, mas hoje eu quero que fique com um laço bonito. 

— Obrigada. — agradeço no momento em que ela termina de fazer esse pequeno favor — Quer que eu amarre o seu também? 

— Claro. 

Seguro as duas tiras do avental, faço um nó firme, mas sem apertar muito. E, para finalizar, um laço. 

— Prontinho.

Emma Murphy passa por nós e Olívia pergunta se ela quer que uma de nós duas prenda o seu avental. Com um tom arrogante demais e superior, ela responde com desdém:

— Não lembro de ter pedido a sua ajuda, Clarke. 

A senhorita Murphy continua seguindo o seu caminho com o seu mau-humor. 

— Ela trabalha em uma padaria. — Liv diz durante o nosso trajeto para a cozinha, novamente, estamos seguindo os passos da Paige, literalmente — Ouvi dizer que essa padaria perdeu alguns clientes por causa da delicadeza dela. 

— Você está mesmo muito bem informada, Liv. 

— A produção fez um bom trabalho com aquelas fichas. Quanto à perda de clientes, eu só ouvi dizer. Se são verdades ou boatos, eu não tenho certeza.

Paige avisa que podemos entrar na cozinha, ouço exclamações de surpresas dos meus colegas. Se a minha melhor amiga estivesse aqui, ela diria que está tudo perfeito, esse adjetivo é a sua palavra favorita da semana. E, devo ressaltar, que perfeito realmente descreve essa cozinha, que é incrível. Jornalistas estão presentes tirando fotos e fazendo gravações curtas. Todo esse material será disponibilizado no site do concurso e no jornal da cidade. Quinze bancadas estão estrategicamente organizadas no espaço amplo. Há uma árvore de Natal alta em um canto com várias caixas para presentes ao seu redor. A decoração natalina trouxe um charme para o ambiente e, para as pessoas que gostam do feriado, com certeza sentem-se felizes. Oito bancadas estão do lado esquerdo e sete bancadas ao lado direito, resultando no número total. Um corredor estreito separa os dois lados. Recebemos autorização para ficarmos onde quisermos. Olívia escolhe ir para a primeira bancada do lado esquerdo e eu decido ficar ao seu lado, na primeira bancada do lado direito. Achei interessante que há quatro cores diferentes para as batedeiras, a minha é amarela.

Assim que a euforia acaba, Tiana Petterson, a apresentadora, entra na cozinha acompanhada de sua elegância e simpatia. 

— Boa tarde, confeiteiros! Estou muito lisonjeada por estar participando dessa competição, que tem o poder de realizar sonhos. Mas, sem delongas, quero chamar as nossas juradas que irão avaliar todos vocês com sabedoria, pois possuem experiência na área. Então, Becca James e Stacy Evans, podem entrar.

Aplaudimos quando as duas juradas entram, e não foi somente elas que apareceram, um frio na barriga se instalou em mim e toda a plenitude que eu estava esforçando para ter, desapareceu e a preocupação voltou com toda força e, dessa vez, com mais intensidade. 

— Eu estou ansiosa para conhecer a experiência, o talento e o amor que vocês têm pela confeitaria. — Becca diz e Stacy concorda com as palavras dela — Faça o melhor de vocês, prestando atenção a cada passo, leiam a receita quantas vezes for necessário. 

— A Rebecca tem total razão. — dessa vez,  Stacy diz — Fiquem atentos com o tempo também, façam tudo como deve ser feito, mas sem esquecer do prazo. Lembrando que somente dez de vocês vão voltar para a próxima etapa, que ainda será esta semana. 

— Vocês não tiveram acesso à nenhuma das receitas ainda. — a apresentadora retoma a sua fala — Já que estamos em Nova Orleans, nada melhor do que comer um beignet fresquinho. E por quê não iria ter essa receita em nossas provas? Faz todo sentido, certo? A prova que irá selecionar os dez participantes é exatamente isso. Vocês terão que preparar beignets. E, detalhe, só terão duas horas para realizar a prova. Juradas, vocês têm alguma dica para os confeiteiros? 

Não acredito. Eu não faço esse doce justamente porque acho que os meus não ficam tão bons quanto os da minha madrinha Jenna. E a minha última lembrança que envolve beignet não é boa.

— Temos sim. Usem óleo de algodão ou óleo de canola. — Becca orienta — Pode parecer uma dica boba, mas é importante porque esses tipos de óleo são mais estáveis à temperatura alta. 

— Muito bem! Façam um bom uso dessa dica. A despensa fica aqui atrás, acredito que vocês já estão cientes disso. — enquanto a apresentadora segue com as instruções, um rapaz da produção deposita uma cópia da receita em cada bancada — Peguem uma cesta para colocar todos os ingredientes. Nas gavetas estão os utensílios necessários. Agora as nossas juradas irão embora e voltarão para a degustação às cegas, acompanhadas do jurado misterioso. Esse relógio digital vai marcar o tempo. — Tiana aponta para o enorme relógio na parede. — Estão preparados? — gostaria de dizer que não estou, mas não posso desistir agora — Então, mão na massa, confeiteiros!

O tempo começa a ser contado e eu rapidamente pego a folha de papel para ler a receita. Passo os meus olhos atentamente, como fiz com o formulário, decoro facilmente os ingredientes que preciso ir buscar. Por causa do meu trabalho, adquiri essa habilidade. Olívia não está em sua bancada, somente Laura Newton e eu ainda não fomos para a despensa. Vou em busca dos ingredientes, agarro uma das poucas cestas que restaram e procuro nas prateleiras o que eu preciso. Tenho um pouco de dificuldade para lidar com as outras doze pessoas que estão na mesma situação que eu. Peço licença algumas vezes, mas depois de poucos instantes consigo colocar tudo o que eu preciso dentro da cesta, incluindo o óleo de algodão.

Volto para a cozinha e as juradas não se encontram mais aqui. Lavo as minhas mãos e uso um pano de prato para secá-las. Depois, abro as gavetas à procura de um copo de medidas para medir a quantidade necessária de farinha de trigo. Realizo esse mesmo processo com todos os ingredientes, para facilitar o meu trabalho. Na tigela da batedeira, coloco o açúcar, o fermento e a água morna, seguindo as instruções que consta na receita, preciso deixar bater por quinze minutos, é importante que o açúcar e o fermento dissolvam na água, formando uma espuma. Adiciono o restante dos ingredientes quando os quinze minutos chegam ao fim, utilizo o gancho para massas para que a massa fique  homogênea. De acordo com o enorme relógio, levei dois minutos para a massa ficar na textura adequada. Assim que deixo a massa coberta pelo filme plástico, Tiana aparece na minha bancada. 

— Então, como está a sua situação? Teve alguma dificuldade ou tudo está ocorrendo de forma tranquila?  — ela pergunta. 

— A massa está descansando, vou aproveitar esse tempo para reler as próximas instruções. Até agora está tudo certo. Estou seguindo a receita à risca para não acontecer nenhum imprevisto. 

— Ótimo. Segue a dica da jurada Becca também. Boa sorte! — ela diz e segue para a bancada atrás de mim, onde a Emma está. 

— Emily, vem aqui, por favor. — Olívia me chama.

— Algum problema, Liv? — saio do meu lugar para ir até ela. 

— Você acha que a minha massa está no ponto para fritar?

— A massa dobrou de tamanho?

— Não exatamente. — ela responde. 

Olho a quantidade de massa que tem na tigela da sua batedeira e comparo com a minha. 

— Acho melhor você aguardar mais um pouco. 

Fui obrigada a seguir o mesmo conselho que dei a ela. Precisei esperar aproximadamente meia hora para a massa crescer. Não sei se fiz algo de errado, pois fui cuidadosa em seguir todos os passos, mas algumas pessoas já estão com a massa na frigideira e só agora eu vou começar a cortar a massa. Da última vez que tentei fazer essa receita, não deu muito certo, se eu for eliminada do concurso por causa deste doce, espero que a tia Jenna não fique desapontada comigo. Mas, de qualquer forma, assim que eu tiver um tempo livre, vou pedir para ela passar algumas dicas e me dar uma aula prática desta receita. Despejo um pouco de farinha de trigo para abrir a massa mais uma vez, corto-a em oito porções, verifico se o óleo está na temperatura correta e coloco os dois primeiros beignets na frigideira, torcendo para dar tudo certo.

A produção organizou os nossos pratos em uma enorme mesa para a degustação às cegas. Para identificar os pratos, colocaram uma pequena placa com o nome de cada confeiteiro, como os jurados vão estar atrás da mesa, não poderão ver as placas de identificação. Eu consegui terminar os beignets faltando cinco minutos para o prazo final, por um momento cheguei a pensar que não conseguiria ao menos entregar a prova, mas quando lembrei do meu passado, dos momentos em que meu pai e eu cozinhávamos juntos, eu fiquei motivada a fazer o meu melhor e a não desistir. Olívia segura a minha mão e sorri para mim, retribuo o sorriso também. Estamos todos sentados em ordem aleatória, eu estou na sexta cadeira e o meu prato é o penúltimo da mesa. A distância entre a mesa e a gente provavelmente é de no mínimo um metro. 

— Já está tudo pronto para a degustação às cegas, — Tiana diz — está na hora dos jurados avaliarem os doces. Rebecca e Stacy vão voltar para a cozinha, mas dessa vez acompanhadas pelo o jurado misterioso. Rebecca James, Stacy Evans e John Morgan, podem vir. 

John Morgan?

Esse nome parece ser, de certa forma, familiar. As juradas caminham até a mesa e, o jurado misterioso, aparece logo atrás, vestindo um suéter azul e uma postura arrogante, com as mãos enfiadas nos bolsos do jeans. Ele passa os seus olhos por todo o ambiente, quando ele percebe a minha presença, fica tão surpreso quanto eu. Ele fica completamente neutro depois disso, como se o dia em que discutimos no French Market, fosse completamente apagado das suas lembranças, sigo o seu exemplo para não demonstrar que já nos vimos antes. Não lembro de ter lido nenhuma regra sobre ser permitido que amigos ou parentes dos jurados participem do concurso, mesmo que eu não esteja em nenhuma dessas duas categorias, para eu não correr o risco de ser desclassificada, pois podem pensar que ele vai me favorecer, é melhor eu fingir que nunca o vi em toda a minha vida, incluindo o dia em que ele foi na minha confeitaria. Infelizmente eu não posso deixar a minha preocupação de lado. Se um jurado desconhecido deixou-me preocupada, como irei lidar com o senhor Morgan sendo um jurado crítico? Com o temperamento que ele tem, é bem capaz de ele colocar defeito em tudo. 

— Vamos analisar todos os pratos e depois estabelecer um ranking, selecionando quem de vocês vai continuar na competição. — Stacy diz.

— Exatamente. Quero ser surpreendida por vocês. — Rebecca James constata. Até agora, o jurado misterioso, que já foi revelado, não disse nada. Permaneceu observador e quieto. 

A degustação inicia. O primeiro prato a ser experimentado são os beignets que o Josh Watson fez. Ele está sentado ao meu lado. Stacy leva a colher à boca, analisando a sua expressão facial, parece que não está tão bom. 

— Quem fez esse doce, provavelmente fritou em fogo alto, porque os beignets estão dourados por fora e crus por dentro. É uma pena não ter prestado atenção neste detalhe. 

— Sim, — Becca fala — esse confeiteiro ou confeiteira não deve ter se organizado de acordo com o prazo, consequentemente, não fritou os doces na temperatura e tempo adequado e, por essa razão, escolheu fritar em fogo alto para acelerar o processo. — enquanto ela fala, o senhor Morgan prova uma colher do prato do Josh. 

— Está horrível! — ele fala — Estou torcendo para que os outros treze não estejam tão ruins quanto este.   

Josh Watson engole em seco e baixa a cabeça, totalmente frustrado pelo seu desempenho. Há uma grande chance de ele não passar para a próxima etapa. Stacy e Becca foram mais gentis com as palavras, acho que a forma que o senhor Morgan usou para se expressar, foi bastante rude. 

John Morgan é tão doce quanto um limão. 

O próximo prato a ser avaliado, é o da Candice Adams, ela balança os pés para frente e para trás, se continuar demonstrando sua inquietação e seu nervosismo, os jurados vão perceber que é o prato dela. Não posso julgá-la. Talvez na minha vez não vou conseguir fingir que estou tranquila, principalmente agora que sei o método que o John usa para dar sua opinião a respeito dos nossos doces. As juradas avaliam os beignets da Candice e distribuem alguns elogios. Mas, já era de se esperar que o John seria direto e sucinto, e ele foi, com apenas uma única palavra: 

— Bom. 
 
Depois do seu veredito, a senhorita Adams cochicha graças a Deus para a Olívia. No lugar dela, eu também estaria aliviada. E foi dessa forma que seguiu a degustação às cegas, com elogios e críticas sensatas pelas duas juradas e palavras diretas demais pelo jurado. Agora é a minha vez de ser avaliada, mas eles não sabem disso, sem me dar conta aperto a mão da Olívia com mais força, peço perdão para ela depois. Sinto o meu coração bater mais rápido e a minha respiração ficar mais acelerada, respiro fundo para tentar controlar a minha ansiedade, estou parcialmente tensa. 

Tudo bem. Talvez seja melhor admitir a verdade. Estou muito tensa. 

Dessa vez, John Morgan é o primeiro a experimentar. 

— Senão fosse pelo excesso de óleo, estaria bom. — ele afirma.

E foi com essas palavras que eu lembrei do que aconteceu minutos antes de entregar a prova. Eu estava completamente preocupada e o último beignet que eu tirei da frigideira, eu esqueci de tirar o excesso do óleo com o guardanapo. E foi exatamente este que ele escolheu para experimentar. 

Droga!

— Sim, realmente, mas não está entre os piores. — solto um suspiro ao ouvir isso, então quer dizer que ainda há esperança para mim. 

— Concordo com o John e a Stacy. Bom, essa experiência serviu para ter um pouco mais de atenção. Não é nada grave, com certeza nós iremos relevar.

Obrigada, Becca. 

O responsável pelo o último prato é Dylan Fox, e assim como a Candice, ele recebeu elogios. Depois dos comentários a respeito do prato dele, é a vez de Tiana Petterson continuar comandando o concurso. 

— A degustação acabou. Chegou a hora dos nossos jurados escolherem os cinco confeiteiros que irão dar adeus a competição, infelizmente. Estão prontos, jurados? 

— Fizemos nossas escolhas e não houve nenhuma discordância. Ficou muito claro quem vai sair do concurso. Os pratos um, quatro, oito, dez e doze, infelizmente vocês não vão continuar no concurso. 

— Então, Josh Watson, Austin King, Amanda Gilbert, Charlie Grant e Daniel Lee, despedem-se da competição. Tivemos a ausência de um participante, Vincent White, mas isso não anula a escolha dos cinco que não tiveram um desempenho tão bom como deveria. — como foi orientado, eles retiram-se da cozinha, Amanda Gilbert sai limpando as lágrimas com a barra do avental — Os demais podem ficar tranquilos. Candice Adams, Emma Murphy, Lisa Russell, Emily Bennett, Laura Newton, Olívia Clarke, Liam Sparks, Jim Anderson e Dylan Fox, vocês continuam na competição! — somente quando ouço o meu nome na lista dos aprovados, que a ficha cai que ainda estou no concurso — Para a prova criativa da próxima etapa, vocês precisam enviar uma receita de biscoitos para o e-mail do concurso, a produção irá explicar melhor depois. Agora, que tal tirarmos algumas fotos para o site e o jornal?

Em aproximadamente uma hora, tiramos as fotos, prestamos depoimentos para os jornalistas e depois tivemos uma reunião curta com a Paige, ela nos explicou sobre como funcionará a próxima etapa e nos deu até às dezesseis horas de amanhã para enviar as receitas por e-mail. 

— Eu sei que o prazo é curto, pessoal, por isso não percam tempo. Enviem a receita e fiquem atentos com a caixa de entrada do e-mail de vocês, pois podemos entrar em contato. 

Quando tudo acaba e finalmente fomos liberados para ir para a casa, abro o meu armário e pego a minha bolsa, retiro o meu celular de dentro dela, ignorando todas as notificações que eu recebi nas últimas horas, vou diretamente para a agenda e ligo para a única pessoa que quero que me explique um detalhe. Ela atende e eu faço a pergunta que não quer sair da minha mente desde o momento que começou a degustação às cegas. 

— Ashley, por que você não disse nada sobre o seu irmão ser o jurado misterioso? 

Com um tom totalmente despreocupado, ela responde: 

— E estragar a surpresa? Acredite, foi a melhor escolha que eu fiz essa semana, talvez a segunda melhor, porque aceitar a sua generosa oferta de emprego está em primeiro lugar. E, se eu lhe contasse, John não seria mais um jurado misterioso. 

Solto um suspiro cansado em resposta. Afinal, Ashley Morgan está coberta de razão. 

— É, você está certa.


Este capítulo é gigante, espero que não se importem. Já estamos no capítulo quatro. O que estão achando do concurso? Gostaram dos novos personagens? Eu estou muito curiosa e ansiosa para saber as opiniões de vocês, é muito importante. São os leitores que fazem o sucesso da obra, por isso é muito significativo a divulgação, os votos e os comentários.  E, por falar em votos, aproveita para deixar a sua estrelinha.

Vejo vocês no próximo capítulo. Não posso falar muito para evitar spoiler haha.

Faltam dezoito dias para o Natal!

Beijos e bengalas de açúcar!

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