Epílogo - Os Antonelli
O tiro em Franco não o matou. Não...
Um homem como ele não morreria pelas mãos de um facínora!
Camilo ficou muito machucado na briga com Naja. Chegou até a ficar internado por três dias, sempre com os cuidados de Bia. Os pais da moça não queriam o envolvimento, mas ela, menina mimada que era, bateu o pé e ficou com o rapaz. Demorou um bom tempo para Bia se curar da paixão por Caio. Ele foi seu grande amor na adolescência. Um amor platônico, mas amor. E quando tudo já estava calmo, Camilo cuidando de um sítio que o pai lhe deu e ela fazendo planos para o futuro, o velho pecado cometido renasceu. Luísa, enfim, perdoou-o! Esse perdão se deu na forma de denúncia. Ela venceu o trauma, criou coragem e o entregou às autoridades.
Luísa mudou o rumo de sua vida e partiu para a cidade do Rio de Janeiro para cursar Gastronomia. Os pais de Dora presentearam-na com o apartamento que era da filha. Fizeram questão que aceitasse o presente. Henrique, depois de absolvido por legítima defesa na morte do bandido, foi morar com Luísa na capital e aproveitou para se reciclar. Jurou ao pai que ia voltar pra Ponta assim que terminasse a especialização em Gestão de Agronegócio, mas foi ficando, se interessando por outras áreas. E ele, que não tinha fé no povo, apenas no indivíduo, resolveu adotar a bandeira de sua amada perdida e entrou para a política. Fez parte de uma leva de políticos que trouxeram novos ares, ares mais limpos, para o distrito governamental. Franco estressou-se muito com isso, mas acabou aceitando e chegou a ter orgulho do filho e de seus projetos, de seus feitos. Por fim, o maior sonho de Henrique se realizou: viu Salomão Savoia ser julgado, condenado e sentenciado pela morte de Dora.
Que todo poderoso tenha o fim que merece!
O sonho não pode acabar!
Camilo também foi preso e, depois de alguns anos, saiu da prisão por bom comportamento e pela porta da frente. E lá estavam Bia, Franco e Morena. O pai gastou rios de dinheiro para protegê-lo dentro da prisão. E já que havia abandonado sua postura moralista no caso Naja, subornou quem tinha que subornar, foi de encontro à lei, mas manteve Camilo intacto e nunca se arrependeu do que fez.
Por muito tempo, os ânimos entre Alexandre Martinez e os Antonelli ficaram azedos. Franco e os filhos fizeram de tudo pra achar Celeste e nada. Ela simplesmente evaporou da face da Terra. Juravam que Alexandre sabia de alguma coisa ou até que havia ajudado na fuga, porém ninguém conseguiu provar qualquer uma das acusações. A raiva só passou quando Alexandre perdeu o pai. Dois anos depois da fuga de Celeste, o velho Martinez teve um mal súbito e morreu em seu cafezal. Franco viu aquele menino imaturo se tornar um homem feito e levantar a fazenda Martinez do abismo. No enterro, puxou-o e abraçou-o como a um filho. E tudo de ruim entre eles ficou pra trás. Por isso, Franco foi o escolhido para entrar com outra noiva no altar! Desta vez, foi Safira. Entregou-a a Alexandre, emocionado.
Fred deixou Santa Helena e foi ajudar a administrar a fazenda da noiva, Melissa Mattos. Eram dois queridos, que todo mundo gostava de graça. Ele e seu violão fizeram falta.
Aos poucos, todos em Santa Helena haviam perdoado Morena e nem se deram conta disso. Ela foi voltando à rotina com jeitinho, cuidando de todo mundo como fazia antes, reconquistando o velho amigo, os meninos, as meninas... O amor, este não aconteceu de novo. Sempre que lembrava, ria da ironia de ter pego o buquê da noiva no casamento de Ellen. O que não serviu de nada!
Crendices!!!
Júlia tinha fé no futuro!
Fé de que um dia haveria uma revolução educacional tão contundente que a pressão por números positivos e o fim de verbas mal utilizadas ficariam no passado. Sabia que seu sonho não a alcançaria em sala de aula, mas acreditava nas palavras de Doralice de que um dia a consciência seria elemento essencial do povo brasileiro. Sendo assim, deu o melhor de si na família, na carreira, no amor, na vida.
Com o passar dos anos, a administração de Santa Helena foi para as mãos de Caio. Dedicado, inteligente, astuto, fez as terras prosperarem em dobro. Aumentou a família com mais um menino, chamado Gael, e fincou o nome Antonelli na história cafeeira do país.
E Franco?... Viveu até os noventa e oito anos.
Amou suas mulheres, no entanto era Suzi que corria em suas veias. Foi muito, muito feliz com ela e viveram juntos até a velhice, mas ela partiu antes dele. Seu coração foi junto. Doeu mais que tudo. Sentiu-se cansado e sem forças, passou a contemplar o pôr-do-sol no Black, esperando sua redenção. E assim quatorze anos se passaram da morte de sua companheira.
Numa tarde fresca de setembro, sentiu o Sol ofuscar a vista e ouviu sua voz. O tempo havia tomado sua carne e sua mente. Ouviu de novo. O lago enganava-o, pois continuava o mesmo depois de anos, e anos, e anos.
- Franco...
Ele olhou pro lado e avistou-a caminhando em sua direção.
Ela!
A mesma Suzi do quadro que ele tanto amava.
Segurou em sua mão e o beijou.
- Estou sonhando? – Seu peito comprimiu.
Ela sorriu.
- Não... Esperei por você durante muito tempo.
Ele olhou o horizonte. Entendia o que a presença dela significava.
- Não sei se posso deixar Santa Helena.
Ela alisou seu rosto.
- Não se preocupe. Seus herdeiros cuidarão dessas terras com amor e devoção. Seu legado já tem raízes fincadas neste solo. O nome dos Antonelli cresceu e continuará crescendo com o progresso deste país. E você, meu amor, você é parte importante desta história. Tudo vai ficar bem.
Ele chorou.
- Como senti saudades de você, doce Suzi.
- E eu ansiei por este dia.
O vento soprou entre eles.
O Franco que ela viu pela primeira vez surgiu lindo e forte.
Beijou sua mulher com fervor e...
Do segundo andar, Caio viu seu velho cair às margens do Black. Correu desesperado pela casa, saiu pela varanda como louco e alcançou o pai já sem vida.
Mas não era o fim, porque histórias de verdade nunca acabam.
Ponta do Noroeste, 28 de setembro de 20...
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Até o próximo livro, amores
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