Capítulo 69 - A Adaga
O silêncio dentro do carro era carregado e enervante, contudo, ninguém queria falar. Mais uma vez, o telefone de Franco tocou.
"Pai!"
"Camilo, não é uma boa hora."
"Sei de um lugar onde Celeste pode ter levado Júlia. Fui uma vez com ela lá antes da gente casar. É uma casa velha no alto da colina Colibri. Bem no meio do mato."
Franco teve um vislumbre de esperança.
"Lembra como chega lá?"
"Sim."
"Vou te pegar na praça de Ponta daqui a 10 minutos."
"Tudo bem."
"Camilo... Como você soube?"
"Alguém viu Luísa e Henrique entrando na delegacia e isso se espalhou como pólvora por Ponta. Pensei que ela fosse me entregar, mas não. Depois, caiu na boca do povo o sequestro de Júlia."
"Entendo."
Franco desligou o telefone.
- Caio, muda de rumo e vai pra Ponta. Camilo acha que sabe onde Celeste está.
Caio estava enclausurado no silêncio e apenas fez o que o pai mandou.
Franco percebeu.
- Vai dar tudo certo, Caio.
Não respondeu.
- Vou ligar pra Henrique e pedir pra pegar Alexandre e levar pra tal da casa abandona. Talvez, ele consiga deter a irmã maluca.
Continuou sem resposta.
***
Celeste não chegou nem perto de sentir pena de Júlia. A menina chorava e se abraçava encostada na parede. De repente, Júlia se contraiu e gritou. Um líquido desceu por suas pernas e a primeira contração, já fortíssima, aconteceu.
***
Henrique ficou com Luísa até Ataíde chegar na delegacia para buscá-la. De lá, ia direto para a Martinez.
A polícia foi bem eficiente ao emitir um alerta com a descrição de Naja e Celeste e com as características e a placa do carro. Mesmo que eles imaginassem que isso podia acontecer, não iriam muito longe pelas vias principais. E as vias secundárias, essas retardariam sua fuga em mais da metade do tempo. A vantagem não tendia para o mal.
Nunca pensou que o assassino de Dora estaria vivo e viria em sua direção. Então, as blasfêmias que lançou contra Deus reverteram-se em justiça e o único destino para Henrique seria manchar as mãos de sangue.
***
Celeste se ajoelhou na frente de Júlia e, muito rápido, subiu-lhe o vestido e arrancou sua calcinha.
- Fica de cócoras!... O bebê vai sair mais fácil! – A ansiedade falou.
- Não!
Mais um grito de Júlia e uma contração.
- Não tenta prender sua bebê na barriga... Ela pode sufocar!... Entrar em sofrimento!... Não retarda o inevitável!
Júlia ficou com medo das palavras de Celeste. Deslizou pela parede e ficou de cócoras.
***
Enquanto retirava algumas coisas do carro, Naja pensou ter ouvido algo no meio do mato. Se afastou da casa por um momento até ouvir um grito. O grito de Júlia. Voltou, pegou as bolsas e entrou. E nem deu tempo de perceber que havia alguém ali.
***
Caio enfiou-se num casulo de dor e fúria. Não pensou nem o pior, nem o melhor. Somente trouxe à memória a aura demoníaca do bandido quando o viu pela primeira vez e, muito mais que espelhar-se nele, superou-o nas trevas.
***
Júlia, cansada e com dores, encostou a cabeça na parede e tentou respirar devagar.
Celeste estava ali, à sua frente, também de cócoras, não vendo a hora de colocar as mãos em sua filha.
Naja entrou e viu o que estava acontecendo.
- Me chama quando acabar.
Virou as costas e saiu.
- Eu quase posso sentir suas contrações e quase posso sentir a bebê em mim.
- Doralice!... Aiiiii!... O nome da minha filha é Doralice! – Disse isto e trincou os dentes.
- Enlouqueceu?! Essa bebê é minha e vai se chamar... Não sei como vai se chamar ainda, o que sei é que ela vai me chamar de mãe e nunca vai saber que um dia existiu na vida dela outra mãe que não fosse eu! Vou cuidar do seu primeiro machucado e vou levá-la ao seu primeiro dia na escola...
- Ai!... Não!...
- Seu sofrimento é meu prazer. É comigo que ela vai se confidenciar e chorar na tristeza e gargalhar na alegria. - Sorriu sonhadora. – Mas uma coisa é certa: assim que minha filha nascer, eu vou acabar com você. Não quero correr o risco de ser assombrada novamente pela sua presença.
O cano gelado da arma de Naja encostou em sua têmpora.
- Desfazendo tratos, Celeste?
***
Camilo entrou no carro e deu as coordenadas de como chegar a casa no alto da colina.
- Obrigado, filho.
Camilo olhou do banco de trás para Caio que nem se mexeu. Não se importou em nada com o tratamento que Franco deu a ele.
- Se quiser, posso ligar para o delegado Juarez e explicar onde fica a casa.
- Não! – Franco respondeu. – Se realmente Naja e Celeste estiverem lá com Júlia, nós não vamos querer polícia no meio.
Franco agindo fora da lei?!!!
- Por quê?!
Franco sentiu tomar aquela atitude na frente de Camilo. Lutou muito para que o filho tomasse o caminho certo mesmo que doesse, mas, infelizmente, não poderia seguir a lei. Se fosse uma questão só de justiça, continuava sendo um homem justo, pois o que iam fazer com Naja era pura justiça. No entanto, se ia cometer um crime, então era um criminoso. Não dava para ter dois pesos e duas medidas.
E Franco explicou:
- Como alguém me disse hoje, Naja já fugiu várias vezes da prisão. Ele vai ser preso, vai fugir e vir atrás de Júlia. E de novo, e de novo, e de novo! Nunca vai haver sossego em Santa Helena, nem em qualquer lugar que Júlia esteja. Nem Caio, já que ele ameaçou meu filho de morte.
- Então, vocês pretendem...
- Isso! – Franco interrompeu. – Isso mesmo!
***
E um outro cano de arma foi encostado; só que agora, na cabeça de Naja.
- Acho melhor se afastar dela e deixar a arma no chão.
Naja era louco, mas não era bobo.
Largou a arma no chão e se afastou de Celeste. Viu um homem que não conhecia apontando uma arma para ele.
Celeste se levantou.
- Justino!
- Vim te buscar.
- Você o conhece?! – Naja vociferou enfurecido.
- Eu sou o homem dela e sei quem você é.
- Se sabe quem sou, também sabe que deve tomar cuidado comigo.
Naja fez um movimento em direção a Justino que imediatamente apontou a arma pra Júlia.
- Mais um passo e atiro na cabeça dela!
Naja recuou.
Júlia fechou os olhos e, mentalmente, implorou por Caio.
- Eu vou com você, mas preciso esperar a criança nascer.
- Não! – Enfezou-se. – Filhos?!... eu tenho uma porção espalhados por aí. Tenho até filho sem mãe... Que a tia cuida, que a avó cuida! Você vem comigo e vem agora! E se recusar, atiro mesmo na cabeça dela! Aí, não vai ter nem mulher, nem criança pra alimentar a obsessão de vocês dois!
- Vai com ele! – Naja gritou. – Vai!... Porra!!!
***
Suzi reparou no nervosismo de Morena e na movimentação atípica fora da casa.
- Tem algo errado. – Afirmou.
Foi quando Luísa chegou.
***
A picape dos Antonelli parou em frente ao cavalo de Justino.
Caio viu Celeste na garupa e já saltou com a arma na mão, o que fez Justino empunhar a sua. Franco e Camilo também desceram do carro.
- Cadê minha mulher?!!!
Celeste se encolheu atrás de Justino.
- Calma, Antonelli! Tua mulher tá lá na casa abandonada com o tal do Naja.
- Desce daí, sua ordinária! Você vai pra cadeia!!!
- Não vai não! Ela vai ficar comigo! E, se insistir, vai ter tiro!... É melhor esquecer Celeste e se apressar, porque tua mulher entrou em trabalho de parto e tá sozinha com o assassino lá no alto da colina.
- Vem, Caio! – Franco chamou. – Deixa esses dois irem embora. Depois, a gente vai atrás dela.
Quando o cavalo de Justino passou ao seu lado, Camilo e Celeste se olharam pela última vez. Depois, disso nunca mais ele a veria.
***
Naja arriou na frente de Júlia e idolatrou-a em suas contrações. No começo, não queria vê-la parindo o filho de outro, porém, agora, percebeu como aquela experiência era fascinante.
- Ouvi dizer que há partos que duram horas.
Ele passou a mão em seus cabelos molhados de suor, tirou uma adaga da cintura e mostrou-a para Júlia.
- Foi esta adaga que tirou a vida de Doralice Forte. Engraçado... Vai ser esta mesma adaga que vai cortar o cordão umbilical de sua Doralice. Viu uma Dora morrer, vai ver outra Dora nascer.
***
E mais uma vez, Justino encontrou uma barreira em seu caminho.
Henrique havia deixado seu carro na Martinez e seguiu com Alexandre a cavalo que era o meio mais rápido de se chegar à velha casa do alto da colina.
Os três se encararam.
- Vadia! – Henrique disparou para Celeste.
- Se controla, garoto! É melhor ir atrás dos outros Antonelli... O tiro vai comer lá em cima! E vai logo porque você ainda está bem longe da casa.
- Vai, Henrique! – Alexandre pediu. – Preciso resolver a questão da minha irmã.
- Se você deixar ela fugir, Alexandre, a gente vai atrás!
Henrique não vacilou mais. Saiu em disparada para o alto da colina.
- Celeste, ficou maluca?! Vem comigo! Eu vou arrumar um bom advogado...
- Para, Alexandre! Eu não vou com você! Eu vou com Justino pra onde ele quiser!
- Celeste...
- Me deixa ir! Se ficar, vou acabar cometendo uma sandice pior que a de sequestrar Júlia.
- Eu vou cuidar bem dela e domar essa loucura que está entranhando em sua cabeça.
- A polícia vai atrás dela.
- Não me importo! Sou criminoso e nunca fui pego.
- Ela é conhecida, de família respeitada e já foi deputada.
- Nós vamos sumir e nunca mais você vai ver sua irmã. Eu lhe garanto.
Alexandre viu súplica nos olhos da irmã. Não disse mais nada. Deixou-a ir sem ter certeza de que fazia a coisa certa.
****
Agora, bem próximos do fim
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