Capítulo 67 - Franco e Suzi, Simplesmente

Toda noite, Franco e Suzi deitavam na rede da varanda e ficavam se balançando e namorando como dois adolescentes. Franco perdeu a carranca tradicional e passou a sorrir mais. Não um sorriso aberto, escancarado para quem quisesse ver. Era algo como uma leve impressão de sorriso. Porém, pra quem conhecia o homem, aquele meio sorriso era um sorriso inteiro.

Conversavam e beijavam e conversavam e beijavam.

A conversa servia para entenderem a história pessoal um do outro. Os beijos vinham porque simplesmente não conseguiam ficar sem se tocarem. Já tarde, subiam para o quarto de mãos dadas ou para se amarem ou apenas para deitarem agarrados com a certeza de que aquela felicidade ia durar pro resto da vida.

- Queria te perguntar uma coisa.

- O quê?

- O que aconteceu com o pai de Júlia?

- O nome dele era Danilo. Era um rapaz bonito e bem inteligente. De família rica. Adorava praia, surfe e se drogar. Era um amor de pessoa, mas o vício acabou com ele. Nunca assumiu Ellen, apesar de dizer que a amava. Antes de Júlia nascer, sumiu no mundo e nunca mais apareceu.

- E a família dele? Não quiseram saber de Júlia?

- Não... Achavam que Ellen deu força pro vício dele. Ela não fez isso, muito pelo contrário, mas eles nunca quiseram conhecer Júlia e ela, por conseguinte, nunca quis conhecê-los também.

- Triste isso. E você?

Ela sorriu.

- Eu o quê?

Ele ficou quieto por um tempo. Criou coragem.

- Por que nunca teve filhos?

Ela pensou antes de responder.

- Demorei muito pra me decidir a ter, porque sempre estava em função de Júlia, com medo dos arroubos da Ellen e nunca tinha me apaixonado a ponto de querer construir uma família. Sentia que já tinha a minha com Ellen e Júlia. Quando comecei a pensar nisso, foi com João, mas... Bem, ele não podia ter filhos.

Outra história triste. Franco sentiu um aperto no coração. Achou que sua cara o entregou, pois Suzi logo chamou sua atenção.

- Não fique melindrado por minha causa! Houve uma época que fiquei um pouco mexida com isso tudo, mas passou. Júlia sempre supriu meus anseios maternos e, agora, tenho tudo o que quero aqui em Santa Helena. Sem tirar nem pôr. Você tinha razão quando implicava comigo. Às vezes, eu suplantava Ellen como mãe. Não era de propósito, mas o espaço estava ali, então eu acabava ocupando.

A mente dele registrou o "...tenho tudo o que quero aqui em Santa Helena." A força do sentimento que nutria por Suzi beirava o irracional, no entanto, não tinha o que falar porque gostava do jeito que era: recheado de autoritarismo e teimosia, de cumplicidade e paixão.

- Quando Ellen chegou em Santa Helena, espalhou fotos de Júlia por vários cantos da casa, mas nunca colocou uma foto sua em nenhum lugar.

- Porque, quando ela foi morar em Portugal com João, ela deixou a maioria das coisas pra trás e uma dessas coisas foram as nossas fotos. Só levou as da Júlia.

- O que você fez quando elas foram embora?

- No começo, chorei muito; depois, percebi que o trabalho era a solução. Virei craque no mundo virtual. Arrumei clientes no Brasil inteiro e conheci lugares maravilhosos e outros, nem tanto.

Franco riu. Olhou bem nos olhos dela.

- Como eu nunca te encontrei? – Ele falou mais pra si mesmo.

- Seu destino era encontrar Ellen primeiro.

Franco ficou pensativo.

- A primeira vez que eu te vi, foi no quadro do escritório em Portugal. Você deitada de bruços, com um lençol em cima da sua linda bunda. Então, sua voz veio mansa atrás de mim. Quando me virei, você estava lá. A verdade é que você mexeu comigo assim que eu te vi. Depois daquele encontro...

- Que, aliás, você me tratou muito mal!

- Eu sei. Fiquei com raiva de mim mesmo porque eu estava atraído de cara pela irmã da minha mulher. Odiei isso. Odiei. Não foi fácil. Daquele dia em diante não parei de pensar em você. Isso tudo só piorou meu humor. E você veio pra Santa Helena, foi ficando, me tirando do prumo, me deixando louco.

- E você? Não me deixou louca? Sentia algo forte e proibido por você e, ao mesmo tempo, achava que você me detestava por causa da Júlia.

- Júlia me enfrentava demais logo que veio pra cá. Achei que ela tinha sido influenciada por você e pelo pintor: raiva da mãe e desrespeito por mim. Que você a criou cheia de vontades. Por isso, eu te detestava. Assim que te conheci, misturei os dois. Desejava e detestava. Na minha cabeça, você atrapalhava a relação das duas. Mas tudo ruiu quando eu admiti pra mim mesmo que o que eu sentia era paixão.

Ela deu um sorriso doce. Ele continuou.

- Eu estava perdendo a razão! Quando Júlia tocou violão para Ellen na beira do Black, você saiu pela varanda pra se juntar às duas e eu te trouxe de volta à força... Peguei no seu braço, desci pro seu pulso e o senti acelerado. Eu queria acreditar que teu descontrole era por mim.

- E era. – Ela confessou baixinho.

Ele fechou os olhos e absorveu aquela informação como um tesouro.

- Suzi...

- No dia em que você foi embora de Portugal, quando eu estendi a mão pra me despedir e você me puxou e me deu um beijo no rosto... Foi naquele momento que eu senti algo estranho por você.

Eles se beijaram com paixão.

- Eu tentei fugir, Franco.

- E eu tentei me controlar, Suzi.

- Se Ellen tivesse se curado, eu teria ido embora para sempre.

- Se Ellen tivesse se curado, eu teria me separado e ido atrás de você.

A surpresa tomou seus olhos.

- Não fala isso.

- Eu não continuaria casado com ela, sentindo o que sinto por você. Mas eu só entendi isso depois que Ellen morreu. – Ele confidenciou. – Eu te amo e ponto final!

- Eu te amo e ponto inicial!

Ele sorriu com a admissão de amor dela.

- Suzi... – Ele sussurrou em seu ouvido, sabendo o efeito que causava.

- Franco...

- Fala meu nome de novo.

- Franco... Franco... Franco...

E foi depois de um fim de semana passado em Bonito¹ que Franco preparou uma surpresa pra Suzi. Quando voltaram de viagem, o quarto dos dois estava todo reformado e na cabeceira da cama o quadro que ele tanto amou dela, deitada de bruços e seminua. No centro da cama, uma rosa, um anel e um bilhete com um pedido.

Amar aquela mulher linda...

Ver sua pele arrepiar enquanto ele falava tudo o que ia fazer com ela naquela cama king Size, despi-la e ver seus seios ficarem rijos e acessos só por causa do olhar que a devorava, ouvir seus gemidos de paixão e suas súplicas para ser reivindicada ao tirar-lhe a última peça... Podia castigá-la mais um pouquinho com toques e sussurros. Não! Não tinha forças pra resistir se o que mais queria era tê-la.

Pedaço sexy e quente da minha vida!

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¹Cidade e centro de ecoturismo no estado brasileiro de Mato Grosso do Sul. A área circundante é conhecida pelos rios de água translúcida.


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O que dizer desse amor?


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