Capítulo 60 - Franco e Seus Filhos
A situação do país era complicada. Dividido ao meio e enganado por informações desencontradas ou falsas, com valia de inquestionáveis. Como nem todo mundo sabe verificar a fonte ou se importa com isso, o que é falso vira verdadeiro e o que é verdadeiro vira falso. Uma pena que a morte de Dora tenha caído no meio desse cânion¹ como mais um elemento de divergência. Franco e todo o país viu pela TV a marcha por justiça – por descobrir quem havia encomendado sua morte – bater de frente com outra marcha – a que se posicionava contra que a imagem de Doralice se tornasse representação de lisura, justiça e luta. Tudo questão ideológica, partidária, ou qualquer outro motivo menos importante, mas com ares de supremo. De um lado, um grande cartaz "Dora Vive!"; do outro, uma placa com o nome da vereadora na mão de um homem qualquer. O sujeito levantou a placa no alto e, a seguir, desceu-a com tudo na coxa levantada, quebrando-a no meio. Ele foi aplaudido de um lado e vaiado do outro.
Tudo isso não fez bem a Henrique. Dessa vez, quem ia tomar uma atitude era Franco.
O abraço de ferro veio às margens do Black, as palavras de incentivo e de força saíram com autoridade, a lembrança de que a menina não agiria daquela forma se estivesse no lugar dele trouxeram-no pra realidade.
- Se você se afundar nas profundezas, eu vou mergulhar nelas e te trazer de volta. Pega o que te faz cair e torna isso a tua força. Você é um Antonelli! Lembra disso e volta!
E todo dia de manhã, os dois ficavam às margens do Black por cerca de meia hora, às vezes no silêncio, às vezes nas amenidades. Caio veio junto.
E foi como o pai falou: a dor, um dia, virou uma cicatriz. Uma cicatriz que latejava e que o acompanharia pra sempre.
Em seu caminho de pai, Franco tornou-se rocha e talhou os filhos para seguirem seu exemplo. Havia sim uma ovelha perdida, mas esta, aos poucos, também começava a encontrar seu caminho. Num dia qualquer, lá estava Camilo em Santa Helena sem ser convidado. Surpreendeu o pai no meio do cafezal. Disse que só queria conversar sobre café. Franco sentiu seu coração aquecer e passou a tarde com o rapaz explicando, trocando informações, admirando o conhecimento do filho, torcendo, por dentro, pra que ele realmente estivesse mudando.
Já Caio passou uns dias dormindo no quarto de hóspedes. Todos perceberam, mas ninguém falou nada. Os ânimos, por aquela época, andavam descontrolados. No terceiro dia, foi pra varanda, já bem de noitinha atrás do pai.
Franco não conversava com Morena, mas voltou ao velho hábito de tomar café com ela tarde da noite na varanda.
- Há algo te aborrecendo, filho?
Ele pensou um pouco antes de falar.
- Júlia anda estranha. Vive irritada, reclama de tudo... Agora deu pra dizer que meu cheiro enjoa ela!
Morena olhou pra Franco e os dois caíram na gargalhada.
- O quê?!... Tão achando graça?! – Caio ficou puto.
- Desculpe, Caio..., mas... – Morena nem conseguia completar e, de novo, começava a rir.
- Meu filho!... – Franco falou limpando as lágrimas de tanto rir. – Eu acho que você vai ser papai de novo!
Caio demorou a assimilar a informação.
- Será?!...
De repente, o riso acompanhou Morena e o pai.
- Bem... Não é como se não fizéssemos nada pra que isso acontecesse.
Mais risos.
Caio abraçou o pai e deu um beijo na testa de Morena antes de entrar. Ela se retesou. Ele, que mal olhava em sua cara, deu-lhe um beijo carinhoso. Esqueceu-se dos azedumes quando fez isso. O sonho de ser aceita novamente estava se concretizando.
E Caio foi dormir no quarto de hóspedes sem reclamar. Logo, logo, teria certeza do estado interessante da esposa.
A vida na fazenda ia, aos poucos, voltando ao normal. Apenas um assunto continuava em pendência: Suzi.
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¹Cânions são vales profundos com encostas quase verticais, que podem se estender por centenas de quilômetros e atingir até 5 mil metros de profundidade.
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A força de um pai presente faz a diferença
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