Capítulo 59 - Um Novo Raiar do Dia
Da varanda de seu quarto, Franco viu Henrique, às margens do Black, de cabeça baixa e espírito quebrado. Há mais de um mês seguia assim, com uma tristeza infinita no coração. Calado, amuado, sem reação. Sempre, de manhã, era aquele ritual. Talvez rezasse, talvez blasfemasse, mas, se fazia qualquer um dos dois, tudo era em sua mente, nada externo. Depois, caía no trabalho da fazenda, quase sem descanso. Evitava fazer as refeições com o restante da família. Queria silêncio. Por fim, se refugiava nos braços de Luísa numa melancolia que preocupava todos a sua volta. Franco daria a vida para tirar o filho da letargia que o envolvia, daria a vida para que ele não tivesse passado por todo o trauma que passou. Franco sabia que a dor ia virar cicatriz, mas seria proeminente e, em muitos momentos, latejaria e isso seria até o fim de sua vida.
A fazenda mudou.
Luísa só não desabou porque viu-se responsável por Henrique; mesmo assim, chorava na solidão.
Júlia ficou trancada no quarto por vários dias. Sentia-se culpada pelo que aconteceu com a amiga. A obsessão de Naja cobrou seu preço e o medo instaurou-se nela. O pânico veio forte. Não queria que Dani fosse para a escola ou que Caio se perdesse pelos campos de café, pedia pra tia e Luísa não saírem de casa e se encolhia na cama, numa apatia que dava dó.
Por incrível que pareça, foi Morena que deu o primeiro passo para que Júlia começasse a vencer o desastre em que sua vida havia se tornado. Numa manhã ensolarada, pegou a menina pelo braço, em meio a protestos, e levou-a para o Sol. Ela se debateu e a casa parou. Caio levou Dani pra longe e ninguém se meteu no que estava acontecendo.
- Minha avó já dizia que o Sol é vida e cura muitos males!
Morena disse isso enquanto a arrastava para fora de casa.
- Acha que vou deixá-la se afundar em remédios e sono? Você tem filho pra criar, marido pra cuidar, aula pra dar! Vai perder seus alunos e suas traduções?! Já te fiz mal um dia; agora, vou te fazer bem!
Franco não queria, mas acabou aprovando silenciosamente a atitude da velha amiga. Suzi, em uma situação normal, não concordaria, mas já estava desesperada. Torceu para que o tratamento de choque de Morena funcionasse. E funcionou. Sol, caminhada, chá, a meiguice do filho, o amor do marido... Começou a reagir. Mas o que sacramentou sua recuperação foi algo inesperado: encontraram o corpo de Naja numa vala com outros corpos num matagal na Baixada Fluminense¹. O estado do corpo era lastimável, só conseguiram fazer o reconhecimento por conta de uma tatuagem.
Era o fim da cobra!
E Santa Helena viu um novo raiar do dia.
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¹A Baixada Fluminense é uma região geográfica do Rio de Janeiro, pertencente a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, chamado de Grande Rio.
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Respirar... Livre do medo
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