Capítulo 56 - Inferno de Saudade
A festa mal tinha acabado e Suzi se recolheu a seu antigo quarto. Levou apenas uma pequena bagagem com o essencial para ficar de um dia para o outro. Depois da conversa no escritório, Franco continuou circulando com a tal Adriana, como se nada tivesse acontecido entre os dois. Foi um quase beijo, mas a atração ainda existia, ainda estava ali palpável e dolorida. Sentiu uma vontade enorme de chorar. Era culpada por ter ido embora pra tão longe? Por não o ter procurado quando mantinha contato com todo mundo? De ignorar como ele podia estar se sentindo?
Suzi abriu as portas da varanda e encontrou aquela enorme Lua de Santa Helena que não se via em outro lugar como ali. Soltou o coque dos cabelos e já ia tirar o vestido e tomar um banho bem relaxante quando bateram à porta. Assim que atendeu, deu de cara com Franco. O coração entrou em descompasso, a perna fraquejou e a respiração parou.
- Posso entrar? – Ele pediu.
- Sim. – Ela chegou para o lado a fim de dar passagem a ele.
- Vim ver se você está bem acomodada.
- Estou sim, obrigada. A vista da varanda é linda. Acho esse lago lindo.
- Achei que ia gostar de ficar no mesmo quarto de antes.
Ficaram se olhando.
Ela se deu conta e se afastou.
- Se precisar de algo...
- Não – ela o interrompeu – Estou bem mesmo, Senhor Antonelli.
Ela usou o Senhor Antonelli meio que de birra por causa da outra.
Ele entendeu.
Pensa que vai me tesar e não vai ter resposta? Está muito enganada!
Os olhos dele se estreitaram, no entanto, um sorriso cínico chegou aos lábios.
- Eu quase ia pedindo pra você me chamar de Franco, mas cheguei à conclusão de que prefiro ouvi-la me chamar de Senhor. A satisfação é maior.
Ele viu a indignação tomar as feições de Suzi e optou por uma saída estratégica.
- Com licença.
Largou-a lá, sem resposta e cheia de raiva. Ela não se deu por vencida e foi atrás dele fervendo por dentro. Alcançou-o ainda no corredor.
- Acha que pode falar o que quer e depois virar as costas pra mim?
Ele se voltou.
- Baixa o tom!
Suzi se assustou com a forma bruta como falou com ela e parou onde estava. Ele não gritou, muito pelo contrário, falou baixo. Bem baixo.
- Te esperei por muito tempo e você me ignorou. Pensei que sua dor por Ellen ia demorar a passar, mas não achei que ia me tirar da sua vida com tanta facilidade! Aliás, não achei que fosse me tirar da sua vida! Você desprezou o que existe entre a gente... Só que a verdade veio à tona quando ficamos sozinhos no escritório.
Ela, erroneamente, tentou insistir no descaso.
- Você está equivocado! Que verdade?! Não existe verdade nenhuma!
Ele a olhou com um esgar que tendia para uma fúria anunciada.
- A única verdade que existe é a de que só eu sei qual a sua verdadeira essência, porque você é o meu grande amor!
As palavras bateram forte. Sentiu medo da grandiosidade do que ele estava lhe dando. Suzi virou-se nervosa para sair em retirada, mas uma mão puxou-a e enlaçou sua cintura, enquanto a outra foi até a nuca.
- Ei!...
- Sem conversa, doce Suzi!
Uma boca assaltou a outra e o beijo tirou o ar dos dois.
Aquele seria o inesquecível beijo de sua história de amor.
Ela demorou, mas cedeu.
- Que falta louca de você! – Sussurrou.
- Teimosa! Deixou a gente se corroer neste inferno de saudade!
- Sinto coisas contraditórias... Medo e culpa... Vontade e...
Suspirou.
- Vou tirar esse medo e essa culpa e só vai restar a vontade.
- Eu...
- Xiii... Vou te seduzir a noite inteira, só que agora tem que ser urgente.
E mais um beijo...
Depois do beijo, veio o colo.
Depois do colo, veio o quarto.
Depois do quarto, a nudez, o sexo e o gozo.
E Franco tinha certeza de que iriam querer cada vez mais um do outro. E quiseram. Tomou-a mais de uma vez noite a dentro num sentimento de ânsia, como se pudessem apagar todo o tempo que ficaram separados. O casamento foi do filho, mas a noite de núpcias estava sendo dele e de Suzi.
Eles eram perfeitos juntos.
Ele acordou cedo. Tinha algumas coisas a fazer antes de levar Caio e Júlia ao aeroporto. Olhou-a cheio de paixão. Ela estava como da primeira vez que a viu retratada num quadro do pintor português: deitada de bruços, com o lençol em cima apenas daquele lindo traseiro. Ia deixá-la dormir porque devia estar bem cansada, afinal veio de Portugal há dois dias, daí para o casamento e, depois, passaram quase toda a noite acordados, ela dando conta dele na cama. Um sorriso sacana desenhou-se, mas logo sumiu quando sentiu a vontade premente de voltar a tê-la.
Respirou fundo, balançou a cabeça, resistiu à tentação e saiu do quarto antes que se rendesse.
O que ele não sabia era que ela ia acordar satisfeita, mas, logo em seguida, sentir-se-ia estranha por estar no quarto de Ellen, na cama de Ellen, tendo desfrutado a noite toda com o marido da irmã. Nem pensou nisso durante a noite, mas agora, sozinha, com a mente clareada... E Júlia? O que ia pensar? Tratou de correr dali como se perseguida pelo próprio capeta.
Franco voltou do Rio com suas malas. Não pensou duas vezes quando as pousou em seu quarto, achando firmemente que ela iria passar a dormir com ele. Uma cabeça masculina muito simplista para o que ocorria ao seu redor. A negativa dela causou uma discussão violenta e, como sempre, a última palavra foi dele.
- Pensa o quê? Que vai esquentar minha cama e posar de menina pudica pros outros ao mesmo tempo? Se deita comigo, mas me esconde?! Hipócrita dos infernos!!! Não quer?! Tem quem queira!!! – Disse dando-lhe as costas e soltando fogo pelas ventas.
Ele tinha aquela mania irritante de falar o que queria e sair sem ouvir a resposta. Ela remoeu ressentida, por horas, tudo o que foi dito. Não ia mais engolir suas explosões. Foi atrás dele no cafezal. Franco viu-a saltar do carro e andar a passos largos até ele. Parecia bem irritada. Sem trela para Suzi. Disse o que disse e pronto.
Ela chegou perto e soltou:
- Se eu sou hipócrita, você é um canalha! Quer dizer que se eu não esquento sua cama, você logo põe alguém no meu lugar! Pois pode ter certeza que se trouxer aquela tal de Adriana pra Santa Helena, não vai ter santo que me impeça de ir embora desta fazenda na mesma hora!
Quando ela deu as costas, ele a puxou de volta.
- Vem de vez pro meu quarto pra esquentar minha cama. – Ele pediu.
Ela vacilou.
- Franco!... Ellen era...
- Eu amei Ellen e, antes dela, amei Rose. Mas você sabe muito bem o que sinto por você desde que te vi pela primeira vez. Se Ellen estivesse viva, nunca que eu tentaria algo com você, estando casado com sua irmã; mesmo sentido essa coisa avassaladora dentro de mim. Mas ela não está mais aqui. Nós, sim. O nosso tempo é agora.
- Acontece Franco que existem outras pessoas que podem ficar magoadas.
- Você quer dizer Júlia.
- Sim! Júlia! Ela...
Se impacientou.
- Chega! Quando você quiser conversar sobre a gente, sem meter Júlia, Ellen ou qualquer outra pessoa, me avisa!
Ele virou as costas e saiu andando com as narinas dilatadas, a prepotência levantando o queixo e com a razão de quem ama e não quer perder tempo.
Suzi correu até ele e o puxou pelo braço.
- Eu não sou Ellen que abaixava a cabeça a cada ultimato seu!
Franco estudou seu rosto por segundos e logo notou que estava num maldito quebra-cabeça onde as peças começavam a ganhar forma e, por assim dizer, fazer sentido.
Resolveu tirar a limpo o que passou por sua cabeça.
- O que você pensou da sua irmã quando ela lhe roubou o pintor?
- O quê? Por que essa pergunta agora?
- Eu quero saber! Responde!
Ele foi se aproximando dela como que crescendo em sua inquisição.
Suzi ficou sem palavras.
- Responde! – Franco, mestre na pressão.
- Não sei onde você quer chegar.
Ela já ia dar meia volta.
Não! Você não vai fugir!
Ele não deixou. Se enfiou no caminho dela.
- Sabe sim! Ficou com raiva? Esbravejou contra sua irmã?
Suzi parecia que ia explodir de tão vermelha que estava.
- Pensou que Ellen era uma vagabunda que estava tirando seu homem? Fodendo com sua vida? Com seu amor? A vagabunda que você acha que está virando agora?!
Franco soou mais incisivo e muito mais agressivo.
Ela não se conteve. Sua mão voou direto no rosto dele; depois, arregalou os olhos e tapou a boca com as duas mãos, contendo um gemido de desespero.
Nem ele esperava por isso, mas não se fez de surpreso.
Olhou-a com inclemência, antes de dar seu veredito em uma voz profunda e firme.
- Seu medo é ser comparada a Ellen. Não quer ser tachada de vadia. Não quer sair do papel de vítima de sua irmã e me assumir para não ser julgada. Só tem uma coisa: Ellen não está mais entre nós, o que é uma lástima, porque, por mais que ela estivesse errada em muitas atitudes, em muitas escolhas, eu admirava sua coragem de ir atrás do que queria, sem ligar pra convenções ou pro que iam pensar ou falar dela.
Terminou o discurso encarando-a com olhos acusadores.
Por muito tempo, Suzi consertou os erros de Ellen para que, agora, ela própria saísse queimada enquanto a irmã ganhava as vezes de heroína.
A raiva cintilou em seus olhos.
- Pois bem, Sr. Antonelli! A coragem da sua querida Ellen só trouxe desamparo para Júlia e desgaste e dor para mim! Então, fique com sua admiração que eu me reservo o direito de pesar os prós e os contras e dar ouvido aos meus receios.
Empurrou-o com toda sua força.
Franco pegou Suzi pela nuca e a puxou para ele.
- Lute por mim! É isso o que eu quero! Que você lute por mim! Que passe por cima de seus medos, dos preconceitos e das desaprovações! Lute, Suzi! – Ele implorou.
- Eu só preciso de um tempo pra conversar com Júlia e...
Ele se afastou dela com raiva.
- Pois eu não tenho tempo a perder. Sei muito bem o que quero da vida. E você, com a idade que tem, já deveria saber também! Então, fique com o seu tempo que eu me reservo o direito de pesar os prós e os contras e procurar uma mulher que tenha fibra suficiente para ficar ao meu lado.
Suzi estava totalmente vermelha.
- Vai me bater de novo, doce Suzi? – Franco debochou.
- Você não merece nada de mim.
Ela virou as costas e saiu correndo dali antes que perdesse seu orgulho e suas lágrimas.
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"Eu quero gozar no teu céu, pode ser no teu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno..."
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