Capítulo 51 - Curral Eleitoral

Um ano depois...


Rio de janeiro, 15 de outubro de 2018.


A Favela do Carvoeiro viu-se alçada à condição de "comunidade" quando a força de um novo olhar, de um novo tempo, passou a exigir o uso de termos menos rudes, termos que não referenciassem ao colapso urbano através da desigualdade de renda, da falta de ação do estado ou do domínio de poderes obscuros, termos suaves para evitar a exclusão.

Doralice Forte há muito entendia que nasceu para combater a tirania e levar esperança onde o mau hábito enraizara-se de tal forma que já fazia parte do cotidiano das pessoas; o que todos nós deveríamos estranhar e que passamos a aceitar como algo corriqueiro. Ela, não. Tinha o sonho nobre de ver uma mudança tão radical em seu país que seria como vivenciar a parte mais significativa da história do Brasil, a parte em que ele é amado e bem cuidado por todos... Todos!...

Desde que perdera uma amiga, vítima de bala perdida, na comunidade do Carvoeiro, na zona Oeste do Rio de Janeiro, a vereadora vinha se dedicando a um território que não era o seu de origem. Ajudou na construção de um espaço comunitário subdividido em várias salas destinadas a realização de cursos, aulas de reforço, doações etc. Uma sala de palestras modesta, mas muito bem estruturada, era a garota dos olhos do que chamavam de Centro Comunitário de Estudo e Cultura do Carvoeiro. O lugar não era propriamente dentro da comunidade e sim na entrada desta.

Um certo político chamado Salomão Savoia, que comandava a área através da milícia¹, não viu com agrado a construção de tal empreendimento sem seu aval, nem tão pouco a intromissão de outra vereadora em seu domínio. Mas a força de algumas ONGs², associada a grandes empresas, e à mídia, fizeram-no se camuflar nas sombras e deixar o centro comunitário acontecer. De qualquer forma, ia mandar um aviso bem dado pra menina se situar e entender qual era o lugar dela na dinâmica da cidade. As conquistas de Doralice Forte no Carvoeiro se reverteriam para ele e, se não fosse assim, acabaria com ela.

Dora não sabia que a sombra da maldade rondava seus feitos. Feliz da vida, marcou o primeiro acontecimento que iria inaugurar a sala. Ela mesma mediaria um debate sobre a representatividade da mulher na política brasileira e convidou Júlia e Luísa para assistirem.

"Até que ponto valem políticas públicas ligadas à mulher totalmente elaboradas, discutidas e implementadas por homens?"

"Mulheres não se sentem confortáveis inseridas no ambiente político do país? Por isso, a porcentagem de mulheres na política é muito inferior à dos homens?"

Mais de 50 mulheres ocuparam o espaço e participaram ativamente do debate. As meninas se encheram de orgulho da amiga; Luísa era a mais animada. Estava estudando para fazer o ENEM³ e, se passasse na prova, no ano seguinte se mudaria para o Rio a fim de fazer faculdade de Gastronomia. Iria dividir o apartamento com Dora. Começava ali a sentir o clima de como seria morar com alguém tão despojado e engajado como Doralice. Já Júlia, quando saiu de Santa Helena, não disse a Caio que ia assistir a um debate no Carvoeiro. Não que ele mandasse em sua vida, mas preferiu não entrar em atrito, e isso muito por conta do histórico de aglomerações do passado em que ela e Dora estiveram e que deram errado; Luísa fez igual e Dora, mesmo sem concordar, fechou a boca, deixando Henrique na ignorância também.

Por fim, o debate deu certo e foi um sucesso. Ao final, as três e mais duas meninas do partido saíram pela porta lateral do prédio onde os carros estavam estacionados. E foi aí que tudo desandou.

Era uma rua pequena e pouco iluminada.

Encostados no carro de Dora, estavam quatro homens com porretes na mão. Quando a viram, vieram em sua direção. Pararam a poucos centímetros. Elas também pararam. Todas receosas, se entreolharam sem entender muito bem o que estava acontecendo.

- O que vocês querem? – Doralice perguntou, tentando não demonstrar o medo que estava sentindo.

- Viemos te dar um recado, vereaDora de merda! – Um deles debochou. – Esse curral eleitoral4   tem dono!!!

Uma das meninas, na mesma hora, saiu correndo para dentro do prédio.

Doralice, Júlia, Luísa e a outra menina que ficou se deram as mãos.

A menina do partido perguntou:

- Curral Eleitoral?!!! Tá vendo alguma vaca aqui por um acaso?!

- Tô! Vocês! E se falar de novo, vai virar carne moída!

Na hora em que Doralice ia rebater o que o homem falou, várias mulheres, que haviam assistido ao debate, começaram a sair da porta lateral do prédio e ganhar a pequena rua. De repente, a massa feminina se posicionou atrás das garotas. A menina que tinha corrido para dentro do prédio gritou:

- Esses caras chamaram nossa comunidade de curral eleitoral e disseram que a gente tem dono!

Os homens começaram a se intimidar assim que perceberam a multidão se inflamar.

- Vamos dar a vaca louca pra esses palhaços! – Outra gritou também. – Todo mundo 'mugindo'!

Todas elas avançaram pra cima dos covardes com o tom da agressividade no corpo e na voz. Eles se assustaram e correram com seus porretes murchos nas mãos, e assim reverteram a intimidação que queriam causar em uma menina jovem e cheia de ideais.


***

O pequeno apartamento sufocou com a discussão. Doralice não admitia interferência em sua vida e Henrique estava usando o fato de Luísa estar no Carvoeiro como desculpa pra verbalizar o que pensava.

- Se você quer se expor ao perigo sem pensar nas consequências é um problema seu, mas levar Luísa e Júlia junto já é outra coisa!

- As duas são maiores de idade, vacinadas, donas do próprio nariz, podem fazer o que quiserem!

- Nunca avalia onde seus atos podem te levar?! E agora arrasta outras pessoas com você!

- Eu convidei, não obriguei! – Nem percebeu que gritava. – Elas aceitaram o convite...

- Se fosse algo normal, sem problema nenhum, vocês não teriam feito segredo, mas não!... Se meteram na favela mais perigosa do Rio de Janeiro!...

Dora quase falou que tinha sido Luísa a pedir segredo, mas não ia fazer isso com a amiga.

Ele continuou no pique da discussão.

- Você não escuta ninguém, faz o que bem entende! Só que levar Luísa junto ultrapassou todos os limites!

Naquele exato momento, estavam se detestando.

- Você não é pai dela! Você é namorado!

- Nada disso!... Não é bem assim não! Ela dorme comigo todo dia no meu quarto... Ela é minha mulher! Acorda comigo, cuida de mim!... Nós fazemos planos! Me ouve e eu a ouço!... E você, Dora?! O que é minha?! Porque... Eu venho pro Rio, ficamos juntos, você vai pra fazenda, dorme comigo e com a Lu. Sua vida segue aqui, minha vida segue lá e só! – Ele finalizou num tom cortante.

Um sentimento enorme de exclusão cresceu dentro dela.

- É assim que você vê nosso relacionamento?

- Sabe traduzi-lo de forma diferente? – A raiva trouxe uma carga grande de crueldade nas palavras.

- Sei... Te amo, então te deixo livre nas suas escolhas, te amo e estou sempre de braços abertos para você e ouvidos atentos para te escutar, te amo e aceito que ame outra e aprendo a amá-la também...

A raiva passou com as palavras de Dora, a crueldade esvaiu-se e ele se sentiu medíocre diante do gigantismo da menina.

- Eu gostaria que você fosse embora. – Pediu num fio de voz.

- Dora!...

Ele tentou tocá-la. Ela se afastou.

O vazio tomou conto dos dois.

Ele colocou a mochila nas costas. Hesitou na saída, mas atendeu seu pedido.


***

Júlia montou em Charlote e foi atrás de Caio. Desde que soube do Carvoeiro e do que passaram ficou meio distante. Ela deu um tempo, mas não ia dar mais. Ele sempre estava em casa quando Dani chegava da escola, mas dessa vez, sem razão nenhuma, não apareceu. Encontrou-o pelo cafezal, onde Ataíde falou que o patrão estava. Emparelhou a seu lado e ficaram um tempo quietos. Ele, sério; ela, sem jeito. Bem... Alguém tinha que falar primeiro.

- Caio, eu queria te pedir desculpas por não ter contado sobre o debate no Carvoeiro.

- Por quê? Por que não me contou?

- Eu queria muito ir, mas achei que pra isso eu ia ter que encarar uma mega discussão com você. Queria ir e participar sem qualquer peso de desavença entre a gente antes do debate.

Caio parou o cavalo, mas não desmontou.

- Nós vamos casar daqui a duas semanas. Não quero que haja qualquer possibilidade de desentendimento entre mim e você e desejo muito, muito mesmo, que você confie em mim, que não me esconda as coisas. O passado...

- O passado não tem nada a ver com isso! Eu não falei nada... não porque não confiasse em você. Não falei porque sou uma tonta. Nesse um ano que estamos juntos, eu... Cada vez mais eu te amo, Caio... E muito...

Ele prendeu o ar. Ela prosseguiu.

- Não quero te ver triste comigo. Você é um pai maravilhoso, ama nosso filho, me ajudou a voltar ao mercado de trabalho... Se sou uma profissional realizada com as minhas aulas e minhas traduções de francês, eu devo muito disso a você, que me ajudou, me incentivou... Você e Dani são tudo pra mim... E eu confio em você de olhos fechados. Nunca mais... ouve... nunca mais vou mentir ou omitir qualquer coisa... Você me desculpa? – Fez beicinho.

Ele riu.

- Depois dessa declaração de amor! Claro que sim!

Ele encostou Cardeal em Charlote e deu um beijo apaixonado em sua garota.


***

O Obscuro

O encontro foi num velho galpão empoeirado. Ratazanas circulavam no lugar. Muito próprio para reunião entre cobras.

- Quinhentos mil.

- Ela vale isso tudo?

O homem se aborreceu.

- Ela não vale nada!

- Quinhentos mil por alguém que não vale nada? – O outro ironizou.

- Está recusando dinheiro, Sr. Naja?

- Um milhão.

- O quê?!!!!

- Sem rastros, nada que te ligue ao assassinato e serviço garantido. Se eu for pego, meu silêncio vai ser precioso.

- Só te procurei porque me disseram que o melhor dos melhores havia voltado, mas a esse preço!...

Naja, que sabia ser escória, tinha nojo daquele tipo de homem que era pior que ele.

- Pode ir embora se quiser, mas não me procure mais porque não gosto de perder meu tempo.

Salomão Savoia se contraiu de raiva. Não estava acostumado a ser tratado com tanto descaso, mas precisava se livrar daquela peste.

- Tudo bem! Eu pago!

O risinho de Naja ecoou pelo galpão. Só aceitou o serviço porque descobriu que colocar as mãos em Doralice Forte era brincar com a sanidade de sua Júlia.

Que os jogos comecem.


****

¹A milícia é um poder paralelo, que não integra as forças armadas ou de polícia de um país, composta por militares, paramilitares ou civis armados. De acordo com a Anistia Internacional, as milícias utilizam da força para extorquir a população em determinados territórios urbanos ao redor do mundo.


²As Organizações Não Governamentais (ONGs) são entidades que não têm fins lucrativos e realizam diversos tipos de ações solidárias para públicos específicos. Elas podem atuar nas áreas da saúde, educação, assistência social, economia, ambiente, entre outras, em âmbito local, estadual, nacional e até internacional.


³Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma prova do Governo Federal que avalia o desempenho individual dos participantes e serve para acessar as universidades no Brasil.


4Grupo de eleitores que votam sistematicamente no mesmo candidato para cargos eletivos. Em dia de eleição, local onde se concentram os eleitores de um candidato ou partido, recebendo alimentação e transporte aos locais de votação.


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O que fazer quando consequências ruins advêm de escolhas certas?

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