Capítulo 1 - Visita Inesperada
Alexandre pensou muito antes de voltar à Ponta do Noroeste e antes de admitir para si mesmo que tomou todas as atitudes erradas. A oportunidade chegou para fazer a coisa certa. Saber sobre Ellen foi o que o trouxe à Santa Helena e, naquele preciso momento, admirava a enorme estante que ia de ponta a ponta na parede do escritório de Franco Antonelli.
O próprio entrou suado e tirando o chapéu.
- Que bom te ver, menino!
Alexandre levantou-se do sofá.
- Eu digo o mesmo, Franco.
Os dois apertaram as mãos.
- Quanto tempo!
- Quatro anos para ser exato.
- Quer beber alguma coisa?
- Não, obrigado. Já tomei uma água.
Franco sentou atrás da mesa de madeira, enquanto Alexandre ocupou a cadeira do outro lado.
- Está voltando de vez para a fazenda Martinez?
Alexandre deu um sorriso sem graça.
- Eu não estou voltando para a fazenda do meu pai, apesar de estar voltando sim para Ponta do Noroeste.
Franco não se fez de desentendido. Sabia que aquela visita tinha algum propósito. Então, perguntou na lata:
- Brigou com seu pai, Alexandre? Está procurando emprego aqui em Santa Helena?
Alexandre deu um sorriso mais sem graça ainda.
- Não, Franco. Mesmo porque, quando eu acabar de falar tudo o que eu tenho a dizer, talvez você não queira nem mais olhar para a minha cara.
Franco franziu o cenho. Previu que não ia gostar muito da conversa.
- Você pode ser mais direto?
- Há quatro anos, eu fui embora porque descobri uma história nada agradável sobre Celeste. E tem a ver com os Antonelli.
- O que sua irmã fez, Alexandre?
Franco começou a assumir o seu já conhecido ar de impaciência.
- Você lembra do jantar que você deu há quatro anos para apresentar os grãos especiais de café da fazenda?
- Sim. Foi na mesma noite em que infartei.
- Isso.
Alexandre abaixou a cabeça com culpa, mas logo levantou-a.
- Aquela problemática da vela no café foi causada pela Celeste. – Soltou a bomba e esperou para ver a reação de Franco que não foi nada boa.
- Como assim?! Sua irmã estava nos Estados Unidos na época!
Franco estava puto da vida.
- Verdade. Ela conseguiu armar tudo com a ajuda de Camilo. Eu sei que ele é seu filho, mas odeia os Antonelli. Depois que ele casou com a minha irmã, das poucas vezes que o vi, ficou claro para mim o ranço que ele tem de vocês. A forma desrespeitosa com que ele fala já rendeu briga feia comigo.
Franco ficou em silêncio por uns segundos.
- Eu gostaria que você explicasse melhor essa história.
- Antes de ir para os Estados Unidos, Celeste bolou um plano com Camilo para deixar Júlia numa situação desconfortável na fazenda. Ela era louca por Caio e queria ferrar com Júlia de qualquer jeito.
- Sempre achei que era uma paixonite idiota o que ela sentia pelo meu filho.
- Tenho que admitir que Celeste é perigosa. Ela descobriu que Júlia tinha umas velas aromáticas no quarto e que todo mundo sabia disso. Então a ideia foi pegar uma vela, jogar pedaços dela dentro do café que ia ser servido, deixar rastros pela cozinha e esperar que Júlia ficasse numa situação duvidosa.
Franco não escondia a irritação.
- E ela ficou.
- Você infartou no meio de uma discussão com Júlia e os planos de Celeste e Camilo deram mais do que certo. No final das contas, Caio pôs Júlia para correr de Santa Helena.
- Como é que é?!
Na hora, Alexandre percebeu que Franco desconhecia a forma como se deu a partida de Júlia.
- Você não sabia que Caio expulsou Júlia daqui?
Franco se corroía por dentro.
- Não! Praticamente, saí do hospital de Ponta direto para São Paulo para fazer uns exames mais complexos.
- Desculpa, Franco. Eu...
- Não pede desculpas! Se não fosse por você, eu nunca saberia o que aconteceu. Achei que Júlia havia voltado para Portugal porque era realmente culpada no caso da vela, que sentiu remorso e ficou com vergonha de dar de cara comigo por conta da discussão e do infarto. Pelo menos foi o que Ellen deu a atender. Depois disso tudo, ninguém mais falou o nome dela aqui na fazenda. E eu deixei quieto porque ela me afrontava demais. Deixei o assunto 'Júlia' morrer.
- Franco... Tem mais... Eu fui embora para o Paraná porque meu pai pôs a fazenda de lá sob meu comando como um cala boca para que eu ficasse em silêncio. – Ele admitiu constrangido. – E eu aceitei.
Uma sombra sinistra passou pelo rosto de Franco.
- O velho Martinez sabia?
- Meu pai apoiou.
Franco levantou mais puto ainda.
- Puta que pariu!
- Eu sinto muito.
- Por quê, Alexandre? Por que você está me contando tudo agora?
- Por causa da Ellen. Eu soube que ela está com câncer e isso me pesou. Até minha canalhice tem limite. Eu não sabia se a doença da Ellen era grave ou não, no entanto, fiquei com medo de ser fatal e Ellen morrer sem ter feito as pazes com a filha.
Franco amansou a voz: fria, baixa e carregada.
- Ellen já está curada.
- Eu não sabia.
Ele foi até a janela e, sem olhar para Alexandre, disparou:
- Vai embora antes que eu faça alguma besteira.
O arrependimento bateu bem fundo em Alexandre, mas sabia que, dessa vez, ia botar ordem na casa, na sua casa.
*****
E as verdades começam a aparecer.
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