CAPÍTULO 54

      Ali nos seus braços pude repousar a minha alma e o meu coração, não havia dúvidas que ele era o meu bem querer. Ao seu lado novas sensações surgiam e cresciam.

— Obrigada, por estar aqui.

— Meu amor… — disse com tanta ternura que meu coração se espremeu em meu peito. — Não existe outro lugar que eu queria estar que não seja ao seu lado.  Apesar de ter respeitado a sua decisão, seguir sem você é quase impossível, não tem muito sentido a minha vida sem você. Na realidade, é impossível seguir sem você ao meu lado.

Sua mão levanta lentamente a minha cabeça para olhar em meus olhos que já estavam emocionados.

— Você foi o meu ponto de partida que dissipou a escuridão da minha alma. — falou. — Eu te prometo que a partir de hoje, não haverá mais segredos entre a gente. Serei o primeiro a ir embora se essa promessa for quebrada.

— Eu amo você, e Nink… — o olhei demonstrando sinceridade na minha fala. — Eu te aceito com todos os segredos obscuros que você tem, e não importa se você não é um herói salvador da pátria.

Suas gemas celestes brilharam e eu acariciei a sua nuca em um suave toque.

— Não vai precisar, anjo. Eu não faço mais parte desse mundo obscuro. Eu não quero envolver você em algo tão sombrio, corromper sua doce natureza não faz parte do meu plano. — com o dedo mindinho uma carícia foi feita perto da minha temporã. — Eu a quero no meu futuro Maria Kristal e nada é tão importante quanto tê-la ao meu lado.

Suspirei cansada e ali entre os seus braços, observei as folhas das árvores dançarem no embalo do vento.

— Vem, vamos entrar. — O convidei.

Abri a porta e dei passagem para ele entrar, seus olhos analíticos observava tudo com atenção.

— Quer alguma coisa? Sanduíche, água, café, suco?

— Não, obrigado.

Toquei em sua mão o guiando para a sala. O calor e a pele macia em contato com a minha, fez borboletas rodopiarem em meu estômago.

Sentamos no sofá branco, o crochê da minha mãe estava no centro ao lado da foto da família e pude novamente sentir a avalanche querer emerge no peito.

— Meu pai morreu… — sussurrei corroída pelo luto da alma.

— Eu sinto muito, meu anjo. — disse e sentir o seu abraço se apertar mais um pouco.

Meus lábios tremeram e para não soluçar chorando, os espremir um contra o outro.

— Sabe o que mais dói? — fito a janela da sala e encaro a mudança do tempo. — Eu me preocupei tanto em ter um trabalho para ajudar os meus pais, que no final o mais importante da minha vida foi tirado de mim. Eu perdi momentos ao lado da minha família, momentos que não terei e que ficará apenas registrando na linha do tempo.

— Anjo, você os ama. Esse amor não irá desaparecer do seu coração, o tempo enraizará ainda mais forte ao coração. Hoje dói, amanhã você ainda sentirá essa dor, mas com o tempo ela será substituída pela serena saudade. Tudo que vocês viveram se torna eterno.

Infelizmente esse era o preço da vida, a dor da perda era dilacerante e o preço alto demais. Fechei os meus olhos quando os lábios de Dominic deixou um terno beijo em minha testa, e o escuto dizer:

— Eu estou aqui, te amando e cuidando. — sussurrou — Não importa o temporal, estaremos juntos para ajudar um ao outro. Sua dor é minha dor, somos um só.

Ainda de olhos fechados, me aconcheguei ao seu corpo cheio de músculos e lutei internamente buscando forças para o restante do dia. Eu precisa ser, minha mãe e meu vozinho contam comigo.

*

      A noite anterior havia passado lentamente, as pessoas vieram dar as condolências, mas aquelas três palavrinhas não diminuíram a dor.

As minhas irmãs vieram e estavam ao meu lado, dando o apoio e o amor que sentíamos uma pela outra. Meu avô conheceu Dominic e ambos se deram super bem, meu vozinho já o considerava da família. Detalhe, Dominic havia passado no teste do aperto de mão.

O cemitério de Piscataway estava dominado pelo verde da grama e das árvores, o vento soprava as folhas para longe em um suave balanço. Para o fim de uma vida, o lugar estranhamente me transmitiu paz.

As pessoas já haviam ido embora, e as últimas eram a minha mãe e eu. Porque o adeus era tão doloroso a ponto de fazer a alma sangrar e o coração pulsar com sofrimento? A verdade é que nunca estamos preparados para perder quem amamos e viver ao lado delas era um claro lembrete da vida nos dando uma lição de amor e do valor da vida.

O tempo não poderia ser considerado o vilão, pois na medida que corria, também não mostrava pressa para passar. Ele simplesmente passava no seu tempo e nos mostrava que uma vez passado, jamais voltaria atrás.

Busquei a mão da minha mãe, entrelaçando. E no pequeno intervalo de tempo unimos o nosso luto e a nossa dor. E juntas nos despedimos em uma silenciosa despedida, marcada pelo amor de uma família que sempre foi unida.

O que não poderia ser visto era apenas sentido.

*

   Os dias seguintes se passaram arrastando. Tanto Alice quanto Melanie foram embora no dia anterior, conversamos muito e matamos a saudade que sentíamos. Minha mãe amou revê-las, mesmo que o momento fosse delicado.

Olhei para a janela do meu quarto, os raios de sol clareava todo o cômodo e sem vontade de sair da cama me encolho, para me aquecer mais. Apesar dos raios de sol, o vento que entrava estava gélido e nem para isso eu tinha coragem de me levantar para fechar a janela.

Ouço batidas na porta e murmurei um "entre".

— Bom dia, princesa. — Escuto a voz do Nink e o fito. — Sua mãe permitiu que eu subisse. Mas ela está bem ocupada para saber que não ficarei apenas na porta.

Seu sorriso sedutor apareceu e os seus olhos emanam paixão, saudades e carinho. Sorrio, mesmo sabendo que ele não veria, pois o cobertor cobria a minha boca. Dominic sentou-se na cama e afastou o cobertor do meu corpo devagarinho. Um carinho foi feito na minha bochecha, seu rosto se aproximou do meu e nesse momento pude sentir meu coração dançar.

Sua respiração fazia uma massagem macia em minha pele e o beijo saiu saudoso. Experimentando cada área da nossa boca como se fosse a primeira vez, aprofundei o beijo ainda mais, quando mordisquei o seu lábio inferior levemente. Sua mão se agarrou ao meu cabelo e um suspiro escapou dos meus lábios.

Uma parte do seu corpo ficou sobre o meu, e pude sentir o seu calor, e cada gominho do seu abdômen. A mola da cama fez um grande barulho e o grito da minha mãe ecoou pelo andar de cima.

— DOMINIC ACHO BOM VOCÊ ESTÁ BEM AFASTADO DA CAMA!

Ele riu baixinho e eu o acompanhei em uma gargalhada.

— Agora entendo o "De preferência é melhor ficar perto da porta."

— Você deveria tê-la ouvido.

— E você poderia ter explicado. — disse e puxou meu nariz levemente.

Seu sorriso sumiu, mas seus olhos continuaram me encarando como brasas vivas.

— Eu senti sua falta, anjo. — sussurrou e meu coração partiu, porque eu causei a nossa separação.

— Eu também senti a sua. — falei ao acariciar a sua barba por fazer. — Não desejo experimentar novamente a distância, ela dói. Você me completa em todos os sentidos.

— É bom saber, porque os meus planos envolvem nós dois casados.

— Eu estou amando esse plano… — falei e beijei o seu queixo.

— Vamos tomar café, antes que sua mãe coloque-me para fora e eu não seja mais o genro preferido dela.

— Mas você é o único.

— Justamente por isso, não quero mais ninguém no meu lugar. Nem no seu coração e tão pouco roubando a exclusividade de ser o genro dos sonhos da sua mãe. Eu gosto de ser único.

Soltei uma risadinha abafada e me levantei, e quando a coberta saiu do meu corpo, Nink comentou:

— Seu egocêntrico. — falei risonha.

— Eu vou descer antes que sua mãe tenha um motivo real para me expulsar daqui. — beijou a minha testa e saiu.

Depois de tomar um banho, escovar os dentes e hidratar a minha pele, vesti um vestido de mangas curtas, que possuía pequeninos quadrinhos em todo o vestido. O tamanho do vestido chegava nas minhas coxas e como o dia seria frio coloquei uma meia calça grossa e calcei as minhas pantufas.

Antes de sair do quarto, arrumei a minha cama e depois seguir para a cozinha. Ao me aproximar, escuto minha mãe conversando com Dominic. A conversar parecia ser séria.

Engulo em seco, adentro a cozinha e vejo que tanto a minha mãe quanto Dominic estavam sérios. Me aproximo dele e coloco minhas mãos em suas costas.

— Olha Dominic, admiro o seu amor, cuidado, atenção e respeito pela minha filha. Mas mocinho, aqui na minha casa tem ordem e disciplina, se você quer avançar os sinais antes do casamento, então terá que se casar. — minha mãe o olhou bem séria.

Dou um tapa de leve nas costas do Dominic ao ver um pequeno sorriso brotar em seus lábios.

— Casamento não parece uma má ideia. — diz me encarando. — Eu só não sei se haverá um sim da outra parte.

Sorri e o olhei descaradamente antes de falar:

— Você não fez o pedido. — e desviei o meu olhar para frente.

— Levarei essa resposta como um sim. — falou.

— Ótimo, assim vocês podem avançar quantos sinais quiserem quando estiverem casados. — minha mãe falou e olhando ainda para Dominic, disse:

— Você é um bom homem, e não é só pelo que a mídia diz. Porque não são ações sociais de caridade que fazem uma pessoa boa, e também não é algo que acontece por acaso. Você simplesmente é, e por isso sei que fará a minha garotinha feliz e como um coração de mãe também te abraço como um filho. — O sorriso da minha mãe apareceu docemente e meus olhos cintilavam em uma explosão de alegria pela sua aprovação.

— Tem a minha palavra que a farei feliz. Pode ficar tranquila que ela também é a dona do meu coração e do meu amor.

Minha mãe apenas sorriu e estendeu uma bandeja de biscoito para nós, era uma receita antiga de família que segundo a minha mãe é passado de geração a geração. O sabor do biscoito era simplesmente divino, havia pequenas gotas de chocolate na parte superior e o sabor doce dominava completamente o paladar. Dominic pareceu ficar distante ao provar o biscoito, seus olhos possuíam um resquício de lembrança ao encarar o biscoito.

Minhas mãos tocam as suas costas e suavemente massageiam. Ele não me olha, apenas volta a comer o biscoito.

— Minha mãe costumava fazer esses biscoitos, quando era pequeno. — confidenciou.

— São pouquíssimas as famílias que possuem essa receita. — minha mãe diz arrumando a mesa.

Sentamos todos à mesa, e nos servimos de tudo que estava na mesa. Meu vozinho não pode aparecer, pois como sempre ele tirava um dia no mês para visitar o asilo de idosos.

O dia foi tranquilo, apesar do amargo luto nos fazer lembrar a todo instante que a pessoa que tanto amávamos não estava mais entre nós, eu sabia que cada lembrança que tenho com o meu paizinho permanecerá em meu coração assim como o meu amor por ele e isso nem o tempo será capaz de roubar de mim, pois esse amor é ligado a um pedaço do universo que se conecta ao infinito.

*

    Tarde da noite, refletida em meus pensamentos, minha mãe bateu na porta e diante da minha permissão, entrou.

— Meu amor, podemos conversar? — pediu suscita.

— Claro, mãe. — me sentei na cama e dei espaço para que ela fizesse o mesmo.

Sentada, minha mãe suspirou encarando as mãos.

— Filha, eu realmente espero que você não odeie a mim e ao seu pai. — diz me olhando — Antes de você nascer prometemos que nunca contaria a você, mas à medida que você foi crescendo o segredo parecia pesar sobre nós. Nós te amamos muito, kristal. Se o seu pai pediu para te contar, é porque ele também percebeu que continuar escondendo é um erro que não merece ficar oculto.

— Mãe… — a interrompi — Não importa o que seja, sempre irei amar vocês.

Seus olhos se planteiam em lágrimas.

— Você sabe que tanto eu quanto a minha mãe, tivemos problemas para engravidar. Tínhamos a fertilidade baixa, mas no meu caso ainda tinha outro problema. Depois de tanto tempo tentando engravidar, seu pai decidiu fazer um exame e foi comprovado que ele era estéril. — respira fundo. 

Sinto meu coração bombear com a notícia.

— Desde o início parecia ser um segredo que não teria nenhum significado para você, mas quando você foi estudar em Nova York, percebemos que você tem o direito de saber. Pois esse segredo também te pertence.

Ela enxuga as lágrimas e depois aperta as mãos uma contra a outra, nervosa.

—  A ideia de fazer uma inseminação pairou por longas noites em minha mente. Quando contei para o seu pai sobre o procedimento de inseminação com o sêmen de um anônimo, ele aceitou. Apesar das porcentagens de não engravidar de primeira, serem baixas, você veio. — suspirou fundo — Você é o nosso milagre, filha.

Me aproximei ainda mais e segurei as suas mãos, eu havia entendido o porquê do meu pai às vezes ter um olhar reflexivo. E entendo o que o soneto trouxe em sua mente.

— Onde foi feito o procedimento?

— Uma clínica de Nova York...

Ouço suas palavras enquanto tudo dentro de mim tenta assimilar a revelação, minha mãe fala o nome da clínica e pede perdão por ter escondido por tanto tempo.

— Mãe, eu te amo e não será esse segredo que mudará o que sinto. — nos abraçamos, o choro silencioso da minha mãe fatiava a minha alma, e ali chorei.

Não de mágoa, mas conseguia sentir que o seu choro se ligava a perda do papai. Sentíamos o nosso mundo cinza, desbotado de todas as cores que a realidade pode nos oferecer.

As pinceladas de dor nos cerca em meio a escuridão da noite que ocultava a luz do luar, e ali nos sentimos pequenas demais para suportar tanta dor que enlaça nossa alma.

   

2376 palavras

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