CAPÍTULO 50
|| JADE FORD ||
Saio do meu carro e pego as compras que havia feito, olho para o carro da polícia em frente a minha casa. Imediatamente sinto as batidas do meu coração acelerar e um choque percorrer o meu corpo. Dou alguns passos para trás e refaço o caminho para o meu carro, mas a voz da minha mãe, me faz parar.
Viro-me para olhá-la e vejo dois policiais ao encalço dela.
— O que você fez? — Sua voz dura me acerta em cheio.
Pisquei os olhos e senti minha mente percorrer as memórias escondidas, buscando trazer o meu segredo. Ao fitar os policiais vejo ela parada me encarando.
Abro a minha boca para falar algo, mas não consigo.
— Fala o que você fez! Eu quero ouvir da sua boca a verdade. — Sou chocalhada e encolho-me.
— Eu não fiz nada. — declaro nervosa.
Procuro por ela e a mesma permanece no mesmo lugar, dessa vez ela usava o vestido do baile.
— Manda ela sair daqui! — grito, olhando para onde ela estava. — Mãe, manda ela sair daqui.
— Do que está falando Jade? — Pergunta preocupada pela minha mudança de estado.
— Amélia, mãe. Manda ela sair. Eu não tive culpa de nada. — Digo chorosa, dando passos para trás até encostar no meu carro.
— Meu Deus, Jade! Você enlouqueceu?
Abaixo-me e levo as mãos à minha cabeça. O acontecimento daquela noite volta com tudo em vividas cenas.
— Senhorita… — ouço uma voz distante. — Estamos aqui porque você fez uma ameaça a Kristal Hernandez e pelas câmeras de segurança da casa das garotas apimentadas, vimos que o carro que a quase a matou é o seu carro.
Olho para o policial alto que estava próximo em modo de cautela.
— Mãe, eu não fiz nada. Foi tudo um acidente. — ela ainda estava presente. — Sai daqui! A culpa foi sua. — Grito e sinto as lágrimas descerem.
Isso não pode estar acontecendo, sinto uma falta de ar tomar conta de mim. Busco respirar profundamente e manter o controle, sinto as mãos delicadas da minha mãe nos meus ombros.
"A briga, o atropelamento, as alças do vestido rasgadas, o sangue escorrendo pela boca e a lágrima descendo."
Imagens embaraçadas me rodeiam.
— Filha, do que está falando? — ouço a voz da minha mãe ao longe.
"Seu corpo embaixo do meu carro, seu último suspiro e a inexistência de vida em seu corpo."
Mais uma vez as memórias invadem o centro da minha mente.
— Eu não quis matar a Amélia, mãe. — sopro as palavras não aguentando a tortura que as memórias me causavam.
Minha mãe se afasta em choque, leva as mãos a boca e vejo o momento que os seus olhos se enchem de lágrimas.
— Mãe, foi um acidente. — tento explicar.
— Jade Ford, você está presa em nome da lei. Tem o direito de permanecer em silêncio, tem direito a um advogado e tudo o que disser será usado contra você no tribunal. — Sou algemada imediatamente.
— Mãe, e-u sinto muito. Não foi a minha intenção. — digo desesperada.
Sou colocada no carro da polícia e vendo como terminaria, choro.
*
Olho para sala de interrogação, já havia passado uma hora de relógio. E até o momento ninguém conhecido veio me ver. Tamborilar os dedos na mesa não aplacava mais o meu nervosismo.
Uma mulher adentra a sala e senta-se na cadeira a minha frente.
— Sabe dizer se a minha mãe está lá fora?
— Não.— diz firme. — Mas vim aqui para pegar o seu depoimento.
Engulo em seco.
— Sou a detetive Lins. Você está sendo acusada de ameaças, tentativa de assassinato e assassinato. — Cruza as mãos em cima da mesa e fala:
— Você pegará prisão perpétua com direito a condicional. Então, sinta-se à vontade para começar a responder às nossas perguntas.
Balanço a cabeça aceitando.
— Porquê tentou matar Kristal Hernandez?
— Em parte ela fazia-me lembrar da Amélia, e a outra parte é que ela estava com o Dominic. — digo fria.
— Qual o problema dela namorar o Dominic Ford?
— Porque eu gosto dele. E o fato dela ainda respirar me leva para um passado que não quero lembrar, e faz com que o Dominic continue a amando. O que faz dela um obstáculo em meu caminho.
— Como matou Amélia Ford?
— Eu achei que ela havia saído de trás do carro, e ao dar a ré, escutei um barulho. Ao ver o que era, vi que era ela. Foi um acidente.
— Na investigação que fizeram, o caso foi encerrado por falta de provas concretas. — diz — Porque o carro que passou por cima dela não foi encontrado. O que você fez com o carro?
— Eu vendi para ter suas peças desmanteladas. E falei para minha mãe que fui assaltada.
— E como você fez para depositar o corpo em outro lugar?
Respiro fundo, falar mexia com as memórias.
— Arrastei o seu corpo e o joguei onde possuía arbustos altos. Ao voltar, limpei a pequena mancha de sangue com lenços e fui embora.
Algumas perguntas foram feitas e depois de um tempo, ela encerrou o interrogatório.
— Tem algumas pessoas que querem lhe ver. — diz antes de se levantar.
Ela abre a porta e quatro pessoas conhecidas entram: Célia e o seu esposo Richard, Dominic e a minha mãe. Mas suas expressões evidenciam uma mistura de tristeza e raiva.
— Como pode agir durante anos como se nada tivesse acontecido? — escuto tia Célia falar. — Você me viu sofrer e martirizar, achando que a minha filha podia ter sofrido uma tentativa de abuso! Amélia era minha vida e você tirou essa parte de mim, fingiu um falso luto quando não sentia nada além de frieza! — Richard a segura, vendo a possibilidade dela vir para cima de mim.
Sinto as lágrimas surgirem, mas não as deixo cair. Olho para a minha mãe que é aparada por Dominic e a mesma só faz chorar.
— Jade, não espere ajuda da nossa parte. A partir de hoje você não faz parte da família Ford. Você está sozinha. — diz — Você nos tirou uma parte da nossa vida e como um pai que perdeu a sua garotinha de modo cruel e frio, farei o possível para vê-la apodrecer na prisão. Onde receberá o tratamento que merece. — Suas palavras são duras e seu olhar mostrava uma grande tristeza emergindo.
— Mãe? — chamo-a.
— Eu não a reconheço como a minha filha, e me culpo por ter negligenciado na sua criação.
Ela vira as costas e sai da sala ao lado do Dominic. Eu fiquei na companhia dos meus próprios demônios, sem paz e sozinha. Condenada a pagar um preço pela minha ação do passado. O que tanto temi em acontecer acabou me devorando por completo.
Chorei sentido por fim a culpa preencher o meu ser. Porque no fundo sabia que ela não havia se afastado do carro.
Eu sou culpada pela morte de Amélia Ford.
*
Não fazia ideia do quão devastador uma ação poderia levar a uma revelação. Ao saber do que Jade tentará fazer a kristal e o que fez a Amélia, senti o choque percorrer o meu corpo. E ao escutar o seu depoimento, sentir desprezo e raiva por ela. Sua maneira fria em como detalhar e contar, feria não só a mãe dela, mas a minha também.
Ambas estavam abraçadas e choravam juntas.
O amargo cenário de dor atuou no momento em que a tia Denise chegou na casa da minha mãe e contou aos prantos o que tinha acontecido. A negação de aceitar que Jade tenha feito mal a própria prima, veio com toques de raiva, mágoa e angústia.
Meus pais estavam beirando a linha tênue da dor e apesar do momento ser tão doloroso, meu pai manteve-se firme. Ele estava sendo a âncora da minha mãe, pois a lamentável revelação foi como uma bomba nuclear para ela. Sinto a tia Denise se afastar de mim e sair na frente, ela parecia não saber absorver toda a realidade.
Passo mais uma vez com a mão nos cabelos, inquieto e preocupado com a minha mãe. Olho meu pai se afastar e entrar na sala da detetive Lins e sigo na direção da minha mãe que chorava sentada no banco de espera.
— Mãe. — Sento-me ao seu lado, e a puxo no abraço lateral.
Não falamos nada, apenas abracei e deixei que o silêncio agonizante falasse por nós. Acariciei os seus cabelos e beijei a sua testa, fiz do meu abraço o seu refúgio e se fosse possível, me colocaria em seu lugar. Se existisse uma maneira de transportar toda a dor que corrói a sua alma para ser colocada em mim, não hesitaria em aceitar.
— Tantos anos se passaram e a assassina da minha filhinha estava bem debaixo do meu nariz. — Sua voz entoava uma dura fúria. — Eu falhei com a Amélia. Eu deveria ter insistido para que as investigações prosseguissem, mas eu não consegui. — Sua voz volta a embargar. — Eu… não conseguia suportar toda aquela dor que me consumia dia após dia.
Apertei ainda mais o abraço.
— Eu sinto muito, mãe. — murmurei baixo.
Olhei para a sala onde meu pai estava e o vejo conversando com a detetive.
— Eu falhei como mãe… — murmura mais uma vez.
— Não mãe, você não falhou. Você lutou até onde deu e isso é uma prova do quão forte você foi para ter chegado até o ponto final. — digo. — Você é uma guerreira. E guerreiros sobrevivem as mais violentas batalhas.
— Obrigado, filho. — diz baixinho. — Eu amo você, Dominic. Você foi a melhor coisa que a vida me deu.
Sinto os meus olhos ficarem emocionados, travei a mandíbula e olho para os polícias que olhavam algum documento. Ver pessoas que amo sofrer é doloroso, é o tipo de dor que também enraíza a minha alma.
Meu pai se aproxima e através do seu olhar sei o que ele fez. Assenti dando apoio a sua decisão, meu pai havia deixado claro para a detetive que Jade não teria nenhuma ajuda da parte da família.
— Meu amor, vamos para casa. — Minha mãe aceita a mão que meu pai estendeu e se levanta. O vejo plantar um beijo no cabelo dela e dizer:
— Serei a sua âncora sempre. Não importa a velocidade da tempestade que nos cerca. Eu amo você. — fala e depois enxuga as lágrimas que insistiam em cair novamente. — Serei o seu porto seguro e juntos enfrentaremos essa batalha.
Minha mãe o abraça e depois deixa um beijo na bochecha do meu pai.
— Sem vocês não faço ideia do que seria de mim. — O olha e depois faz um carinho na minha bochecha.
Sorrir serenamente e depois saímos da delegacia, a tia Denise estava perto do carro e olhava para o céu que se estendia em um azul cobalto e cheios de nuvens onduladas. Soltei um suspiro triste e entrei no carro, tomando conta da direção. Deixaria todos em suas respectivas casas e seguiria para a instalação.
*
No dia que voltei de Washington, entrei em contato com Otto Walker e conversei assuntos que só seriam abordados hoje. Ele aceitou a minha proposta e pude respirar aliviado ao saber que tudo ficaria bem com ele no comando.
Os únicos da minha turma de formação, são o Russell e a Jenkis. Os demais eram de turmas diferentes e não tenho o que falar deles. Tirando Simmons Ward que se corrompeu e nos traiu, matando o George, a equipe que liderei é composta por homens e mulheres leais e íntegros. Honramos o nosso juramento e os nossos ideais, lutar pelos inocentes que sofrem nas mãos de criminosos.
Todos estavam sentados na sala de reunião, onde sempre nos juntamos para debatermos sobre a operação que aconteceria. Sentando na cadeira da ponta e com os braços apoiados na longa mesa retangular.
— Antes de tudo, quero agradecer a cada um pela lealdade depositada nessa equipe e na corporação. — todos me olham tentando entender onde eu queria chegar. — Sendo direto ao ponto, quero dizer que estou saindo da corporação. Minha breve passagem aqui é para informá-los da minha decisão.
Colton levanta a mão e assinto para que ele prossiga.
— Eu também quero informar da minha saída. Decidir seguir apenas com a minha profissão de médico. — diz — O senhor Bennett está ciente, também deixei claro para ele que se qualquer um de vocês precisarem de ajuda médica, estarei à disposição.
— Não acredito no que estou ouvindo! — Vasti exclamou designada.
Direcionei meu olhar para ela automaticamente.
— Somos uma equipe a tantos anos, nunca nos separamos. O primeiro a deixar a ausência foi o George e quanto a ele sabemos que é impossível brigar com a morte. — Se levanta e entendo perfeitamente o seu sentimento. Ela estava chateada com a situação.
O vínculo criado começava a afoguear as suas emoções.
— Vasti, vivi muitos anos caminhando em dois mundos distintos. Hoje, quero apenas ser um homem comum que tem planos para o futuro que não envolve vinganças. — revelei, ela assentiu e a vi sair da sala. — Diante da minha da saída, Otto Walker fica como líder de vocês.
Todos assentem e parabenizam Otto.
— Dom, sabe que se em algum momento precisar da nossa ajuda, pode contar conosco. — Otto diz.
— Eu sei que sim.
Me despedir de cada um com um abraço e depois seguir para o estacionamento da instalação. Vi Vasti ao lado da sua kawasaki ninja, a mesma encarava o capacete de maneira pensativa.
— Vasti? — a chamei.
— Olha, Dominic. Me desculpa pelo modo como agir ao saber da sua saída. Aconteceu tantas coisas dentro da organização e com a saída de dois membros que tenho muito carinho... só não reagi bem. — sorrio de lado presunçoso.
— Vai, pode falar que sou o seu favorito.
— Prefiro ingerir ácido que elevar o seu ego.
Solto uma gargalhada e ela me acompanha.
— Ok, aceito a sua resposta como um "Sim, Dominic, você é o único e inigualável brilho desse lugar e do meu coração.".
Recebo um tapa estalado nas costas e massageio o lugar, mulher dá mão forte!
— Nunca diria isso e eu não falo assim. — disse firme.
Balancei a cabeça e a vi suspirar.
— Não se preocupe, Otto será um ótimo líder para vocês. Eu confio nele.
— Ótima escolha. — Seu sorriso se desmanchou e uma carranca surgiu em seu rosto. — Caralho! Aqueles dois ganharam a aposta. Filhos de uma mãe!
— Aposta? Do que está falando?
— Faz muito tempo já. Mas apostei que se um dia você saísse, o Ian ficaria em seu lugar. Mas o Ian e a kenzie apostaram no Otto.
Ergui a sobrancelha e a encarei fingindo seriedade.
— Vasti, porque escolheria o Ian?
— porque não? É seu melhor amigo!
— E quem ficaria no lugar dele para dar cobertura através da tecnologia?
Sua testa se franze e seus lábios são espremidos um contra o outro.
— Droga! Como não pensei nisso?
— E sim, Ian é o meu melhor amigo. Mas quando se trata da organização não visamos o privilégio, olhamos para a capacidades e habilidades que temos. E cada um de vocês tem uma inteligência única dentro de si, são fortes e permaneceram fiéis ao que acreditam.
— Sempre bom com as palavras, né? — brinca. — Vou sentir sua falta.
— Eu também sentirei a sua.
Trocamos um soquinho de mão, um costume apenas nosso. Me afastei dela e fui em direção ao meu carro.
2537 palavras
Até o próximo capítulo... ❤️❤️
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