CAPÍTULO 47

    || Alexander Zorkin || 

       Se a cada situação de derrota, eu perder o controle da minha vida, o fracasso vem. Para ter um exército de homens é necessário ser sádico para que o temor caia sobre eles. Destinado a ser portador da gélida maldade que faz parte do meu interior, verbalizo a sentença dos negócios que faço com os mexicanos. 

— As garotas são novas e possuem apenas dezesseis anos, darão um ótimo lucro. — descarto o cigarro no cinzeiro enquanto falo. — E a sua oferta de compra está muito baixa. 

O olhei friamente. 

— Você conhece os termos da negociação. — completei. 

— Eu pedi cinco garotas de quatorze anos! E você traz oito garotas de dezesseis, quem você acha que sou para não cumprir a sua parte e achar que aceitarei essa violação nos negócios? — se altera. 

— Senhor, Ortega. Mantenha a voz baixa, não quero que as crianças se assustem. — Aviso de forma branda. — Tivemos um problema com o seu pedido, por isso a mudança. No final de tudo, você está lucrando da mesma forma. 

— Não haverá negociações. 

Inclino-me para frente e pego sorrateiramente a minha arma que se encontrava no meu colo e coloco na mesa de metal apontando o cano para o líder mexicano, seus homens empunham as armas. 

Sua expressão se franze sem entender. 

— Eu posso lhe conceder um minuto para pensar bem, na escolha. 

Silêncio. 

Faço um sutil sinal com a cabeça para um dos meus homens, que atira sem hesitar no peito do segurança do Ortega. 

— Tic... Tac... o tempo acabou! — bato as mãos na mesa e sorrio diabólico — O que decidiu? 

Ortega trava o maxilar e lança um olhar hostil em minha direção. 

— Tragam a outra maleta! — ordena. 

— Foi um ótimo negócio. As garotas será um ótimo investimento, são mais fáceis de serem domadas. — comentei. 

Um dos meus checa o dinheiro e depois da confirmação as garotas são entregues. Os mexicanos vão embora com a mercadoria, e em seguida Martim surge na minha frente. 

— Onde estão as garotas? — indago ao me levantar. 

— Já me certifiquei do envio. Ainda hoje chegarão na casa. 

— Não deixe vestígios da substituição, o senhor Ortega não gostará de saber que foi enganado. — solto um riso de escárnio. — Ele não gostará de saber que as garotas que está levando já são usadas. 

— Já está tudo resolvido. — diz. — O carregamento de drogas chegará nas docas hoje, Boris estará lá para receber. 

— Ótimo. E quanto ao outro assunto? Como anda? 

— Ainda está sendo resolvido. Devido a falha da senhorita Santoro, o perdemos de vista. 

Estalo a língua, desgostoso. 

— E onde ela está? Aquela cadela está brincando com a minha paciência. Não aparece quando solicitada e ainda falha na execução de uma ordem. — falo austero. — Vocês não conseguem cumprir uma ordem, parecem até um bando de crianças segurando uma pistola de água! Precisavam apenas executar uma ordem e não deixar um sobrevivente. 

Bufo. 

— Ela já está à sua espera. 

— Notícias do Luka?

— Nada senhor. Na usina também não encontramos nada. Não há rastros de passagem. — assinto inquieto.

Antes de entrar no carro, pergunto: 

— Alguma informação sobre o plano? 

— Sim, a primeira peça foi eliminada. Carmem White está morta. 

— Dê início ao segundo passo. — ordeno. — Avise a katarina que o próximo da lista é Hank Bennett e Dominic Ford. 

O carro saiu do velho galpão e com a mesma velocidade que deslizava pelas ruas da Rússia. O celular toca e ao atender acabo descobrindo algo que não me deixou com bom humor. 

Mantenho a calma interior, não adiantava cortar as ervas daninhas se as raízes não são jogadas fora, elas são conhecidas por serem invasoras. Pois novamente elas cresceriam e fariam ramos fortes.

Era só questão de espera e paciência. 

     Adentrei o salão determinado a dar uma lição nela, a mesma se encontrava ao lado das janelas que possuíam vidros coloridos. Vestida chamativamente, ela vira para mim. Seu sorriso se desmancha ao ver meus firmes passos em sua direção, seguro em seu pescoço e coloco força no aperto a fazendo reconhecer o quão animado estava com a sua presença. 

— Você precisava seguir uma ordem. —Seus olhos arregalados me fitam sem piscar — Uma única ordem. — friso. 

— Me perdoa... Zorkin. — pede baixo pela falta de ar. — Prometo que não irá se repetir essa falha. 

Encosto seu corpo perto da janela e olhando nos seus olhos, digo: 

— Não volte a falhar. Eu não sou de dar chances. — falo entre dentes. — Estou de olho em você. Se falhou com o seu pai, sua lealdade a mim é comprometida. Então, apenas cumpra a ordem que lhe for dada que continuará respirando. 

Ela assentiu, e quando a soltei a mesma levou as mãos até o pescoço e buscou ar para respirar normalmente. 

— Talvez isso sirva para alguma coisa. — entrega-me um pen-drive e diante do gesto que faço, sai às pressas da minha frente. 

Encaro o céu pelo vidro da janela, nem o tempo foi capaz de mantê-lo longe. E quem diria que o bastardo viria atrás de mim, buscando vingança pelos seus. Isso é tão patético que nem olhando de outro ângulo consigo sentir remorso do passado. 

Traidores morrem o tempo todo. 

A morte era o único ponto de partida que ninguém teria como se livrar, independente da maneira que a vida fosse ceifada. 

*

     O correr dos segundos no pequeno ponteiro do relógio de pulso, fazia um certo alarme soar invisivelmente perto dos meus ouvidos. Voltei meus olhos para as gravações das câmeras de segurança, esperando encontrar qualquer coisa. 

— Pode adiantar? — Bennett se manifestou impaciente. 

— Pode, mas se houver alguma alteração perceptível não será possível vermos. 

— Quais pessoas tiveram acesso à sala de vigilância? — pergunto. 

Sergei digita algo no tablet e depois me entrega e vejo a lista dos nomes que fizeram login na sala de vigilância. Volto a fitar as imagens da câmera, Carmen entra tranquila e os minutos seguintes nada muda, mas do nada a imagem da câmera falha e dois minutos depois volta ao normal. 

— Isso já aconteceu?

— Nunca foi relatado. 

— Procura as imagens dos outros blocos. — Bennett pede. 

— Espera! Quem é aquele? 

A câmera consegue pegar uma figura masculina, que usava um sobretudo preto e um chapéu preto. O mesmo estava de cabeça baixa e a mão no ouvido parecia se comunicar com alguém. Observo a maneira que anda e busco por cada detalhe importante. 

A busca por mais imagens continua, mas seja quem for, sabia sobre os pontos cego das câmeras de cada bloco. Novamente o mesmo homem aparece, olhando para os lados. 

— A pessoa que estava na sala de vigilância tinha apenas um trabalho a fazer, e assim que chegou o horário de agir, a câmera foi desligada... — comentei pensativo. 

Bennett solta uma respiração funda, demonstrando cansaço. 

— Estou falhando não só comigo, mas com os meus. — lamenta — A escolheram para mostrar que todos que me cercam irão sofrer as consequências. 

— Vamos pegá-los. Ele pode pensar que está nos derrotando, mas não sabe que das cinzas de uma perda renascemos mais fortes. — Cruzo os braços — A primeira já temos identidade descoberta. 

— A primeira? — indagou, surpreso. 

— É ela. Katarina Boselo, responsável pela corrupção dos membros e culpada pela morte de Carmem. — falei friamente — As provas serão enviadas para o seu e-mail. 

Hank Bennett apenas assentiu friamente e se levantou. 

— Senhor, conseguimos rastrear todos os negócios que a dragão sangrento opera. As informações que estavam no pen-drive ainda mostram-se ativa. — Kelly se manifesta.

 A sala de controles é enorme mas só estavam presentes aqueles que foram avaliados e investigados.

— Temos as contas bancárias e todo o ramo de negócio que a máfia dragão sangrento possui. 

— Continuem monitorando cada ação. No momento certo iremos agir. — disse e saiu. 

Se o momento propício nos fazia enxergar o fim, a luz sempre tenta mostrar-se presente no meio da escuridão. Levanto-me e saio da sala de controle e sigo para o pátio onde teria contato com um pouco da natureza. 

*

    Sentado perto da estátua da deusa têmis que se encontrava no centro do pátio. Encarei a foto dela e suspirei baixo, senti tanta saudades. Podia enumerar em cada palavra o por que de levar os meus pensamentos a ela, mas o único motivo que se destacava era que perto dela não me sentia um monstro cruel. Perto dela conseguia me sentir um pouco humano para amar e sentir que por poucos minutos ao seu lado os demônios do passado não atormentavam a minha alma. 

Amá-la foi baixar a guarda e permitir que além do amor, um pouco de luz e paz adentrar na minha alma. Mesmo não havendo redenção  para o que escolhi ser.

Seria possível um monstro aprender a amar? Dominic Ford é uma fachada para manter-se à margem da sociedade e olhando cada momento do meu passado, revejo que ao escolher fazer parte da corporação para vingar o assassinato da minha mãe, também escolhi mentir para as pessoas que amo. O preço alto deve ser pago e com a dureza da realidade, precisa ser feito dia após dia.

 Sem ela os dias são turbulentos, cinzas e monótonos de sombras. 

Sem ela a minha vida era só um ponto escuro no centro do universo. 

Mesmo que ela não saiba, eu a valorizo e a sua vida possui um grande valor para que eu a mantenha a meu lado correndo perigo. E daí, que outro surgisse e a fizesse feliz? Ela merecia. Ela merecia uma vida feliz e tranquila. 

Revejo nossos momentos, mas o que fiz ao longo da vida também surge ecoando no meio das memórias. Eu sou egoísta, mas com ela não podia ser. Nunca a envolveria na vida que escolhi ter. Sendo assim, nunca a  manteria perto de mim. 

Eu a amo, e por esse amor decido que é melhor outro cara a fazer feliz a mantendo segura. Fecho os olhos, travando novamente a dor que surge no meu coração, não há cura e não há alguém para livrar-me da dor. Estou sozinho e tudo que me resta é sobreviver em meio ao caos que é a minha vida.

Eu perdi o meu lindo e belo arco-íris, eu perdi a minha aurora boreal. 

Eu perdi o amor da minha vida, e escolhi respeitar a sua vontade. 

Mesmo sabendo que não a teria mais em minha vida. 

Aceitei perder e experimentei pela primeira vez o que é a perda de algo tão valioso em minha vida e saber que a qualquer momento não faria parte das suas mais belas memórias, fazia o coração doer. Cairia no esquecimento e não teria nenhum valor, seria apenas uma cinzenta e translúcida lembrança a vagar pelo eco da sua mente. 

Esse ponto final é doloroso e nem o tempo é capaz de curar, dessa vez. 

— Ela é linda. — escuto a voz de Lisa e bloqueio rapidamente a tela do celular. 

— Sim, ela é. — respondi, dando espaço para que ela se acomoda-se. 

*

    É sexta-feira e o melhor, folga na floricultura. O dia amanheceu e como já fazia parte da minha rotina, fiz a corrida matinal com Alicia e Charlie. E mais uma vez Alicia estava com a paranoia de estarmos sendo seguidas, parei de correr e esperei encostada na árvore o carro se aproximar. Sério, eu já estou a ponto de surtar e me prender dentro de casa, achando que estou correndo perigo. 

O carro se aproxima devagar e antes que passe direto, vou em sua direção e bato no vidro escuro. O carro para e o vidro é aberto, um sujeito desconhecido abre e começa a rir, mas ao olhar para trás vejo a cara da minha barbie que não consegui decifrar. 

— Seu filho de ares! Isso é brincadeira que se faça? — avança pra cima do rapaz. — Eu deveria te esfolar vivo. Não, melhor! Te colocar no baú e jogar no mar, já que é claustrofóbico. 

— Ainda continua pirada! Ainda bem que lhe conheço e sei que tudo isso é apenas saudades. 

— Eu com saudades de você? Nem morta! 

— Aceitarei essa resposta como um " Ai, priminho estava com muita saudades". — Afina a voz no final. 

— Eu não falo assim. — dá outro tapa no loirinho. 

Acabei rindo de toda a cena, ela solta uma exasperada respiração e sorri largamente, falsinha. 

— Kris, esse é o meu primo Luciano. — apresenta — Luciano, essa é a minha irmã kristal. 

— Prazer. — diz e estende a mão e apertando a sua mão, digo:

— Igualmente. 

— Agora me diz porque estava nos seguindo? — Alicia questiona brava. 

— Eu não iria seguir, mas eu vi você olhando tanto para trás que pareceu a garota do exorcismo. — a gargalhada que soltei foi inevitável. 

— Ah, que graça. — nos encarou fingindo rir. — Você continua um idiota, Luciano. 

— Ali, foi uma brincadeira. Você estava olhando tanto para trás que parecia que certificava-se de não estar sendo seguida. E como não vi nada a seguindo, eu te segui. — explica. — Eu vim te ver, ficarei por alguns dias e quero te convidar para irmos à balada. 

— Quase me convenceu. — diz fingindo pensar. 

— Eu arco com suas despesas. 

— Agora ficou bem melhor. — colocou as mãos na cintura e bateu os cílios de forma meiga — Viu, como nos entendemos muito bem. A nossa comunicação é transparente como água. 

— Oportunista! — não havia dúvidas que ambos são primos. 

— Eu recebo como um lindo elogio. — seu sorriso se amplia. — A kristal vai comigo. 

— Não, não… tenho trabalho. 

Ela solta um muxoxo e me encara com os olhinhos brilhando. 

— Como diz Justin Bieber, Sorry. — falei. 

— Ali, te busco a noite. E kristal, nos vemos depois. 

Aceno, e o mesmo vai embora. 

— O gene Lopez é encantador. — comentei. 

— Não há dúvidas. 

Voltamos a correr, dessa vez rindo e relaxada. Um alívio havia preenchido o meu corpo e pude respirar sossegada com o fato de não ter ninguém nos seguindo, e que era motivo de agradecimento ser apenas o primo de Alicia. 

*

     Adentro a cozinha sentindo um cheiro muito bom de empadão de frango. Céus, estava morrendo de fome. 

— Sabe quem perguntou por você ontem à tarde? — Alicia faz a pergunta se contendo para não falar logo. 

— Se você não falar não irei saber. — sento-me na banqueta e apoio os meus braços na ilha da cozinha. 

— O Matteo. Ele perguntou como você estava. 

— Não dê informações sobre mim, o cara é um ótimo amigo, mas se pensar que tem chance com uma garota é bem pegajoso. 

— Credo, ele não parece ser assim. 

— É só a carinha. —  a fitei, lembrando que tinha algo para a falar. — Ali, preciso falar com você. 

— Ah, não. Espera eu comer, porque esse tom de voz indica que não é nada bom. 

— Ok, ok... — falei sorrindo. 

Não tínhamos um cardápio saudável de alimentação, café da manhã, almoço e jantar, dependia dos nossos desejos do momento. Empadão de frango e a gelada limonada como café da manhã, mostrava o quão fitness éramos. 

— Célia Ford fez uma entrevista sobre o projeto com Simone Garrett, e olha essa foto que saiu na primeira coluna do jornal? Simplesmente maravilhosa. — Alicia vira o jornal para mim. 

— Ela está belíssima. — e vê-lá trás Dominic em minha mente. 

E eu senti saudades. 

Perco-me no tempo das memórias, viajando por cada uma delas e sentindo saudades dele. Levo as mãos até o centro do peito e ao massagear, sinto o colar que ele me deu. Toco o pingente e fecho os olhos para tentar acalentar a saudades que sentir repentinamente do nada. 

Estranhamente parecia ser uma intensa ligação, multiplicava e se duelava para que uma memória nossa tomasse o centro da minha mente. Ainda de olhos fechados, pude senti-lo me olhando e um leve arrepio percorreu o meu corpo. As lembranças especiais que havíamos colecionado mostravam-se intensas e fortes para que eu o pudesse esquecer. 

Abri meus olhos e fitei Alicia, podia sentir os meus olhos lacrimejar. 

— Será que tomei a decisão certa? 

— Oh, meu amor. Só o coração pode responder. 

— O coração duela com a razão, e sinto-me tão confusa. 

— Precisa encarar de frente. A resposta está bem na frente você só precisa vê-la. 

Alicia pega a minha mão e com o polegar faz um carinho. 

— Eu estava com medo… — deixo sair. — Achei que era o certo e o mandei ir como se ele não significasse nada para mim. 

Mordo o  lábio inferior e sinto a lágrima descer. 

— Mais ele significa, Alicia. E apesar dele ter escondido coisas de mim, eu continuo o amando cada vez mais. — inclino a cabeça um pouco para baixo, sentindo-me ridícula por tudo o que fiz. — Eu o tirei da minha vida e nem procurei ouvir a sua explicação. Céus, eu não o mereço Ali. 

— Não diz isso, você reagiu no torpor do medo. 

—  Desta vez realmente o perdi. 

— Meu amor, você reconheceu e sabe qual é a melhor parte disso tudo? É que poderá fazer diferente. 

— Não é mais possível, Ali. Foi eu que coloquei o ponto final e o vi desistindo bem ali na minha frente. — Me lembrei do momento que ele deu um passo para trás. 

— Ei, enxugue essas lágrimas e coloque na sua mente e no seu coração, que amores vem e vão, mas o amor verdadeiro nem o tempo é capaz de separá-los. — enxugando minhas lágrimas ela sorri carinhosamente. — O que queria conversar comigo? 

— Por favor, não me ache ingrata ou algo do tipo. — pedir antes de falar — Estou voltando para Piscataway. 

Alicia me encara e eu tento decifrar a sua expressão. 

— Por que pensaria que você é ingrata? Eu sei que seus pais precisam de você, se os meus estivessem vivos e precisassem de mim não pensaria duas vezes. 

— Obrigada, Alicia. — A abracei. — Mas antes de ir, enviarei uma carta para Dominic. Preciso fechar esse ciclo e tentar mais uma vez. 

— Isso ai, força e determinação. Nada de desistir sem tentar uma única vez. 

Dando o café da manhã por encerrado, arrumamos a casa e fomos tomar banho. Alicia usando a banheira, como de costume. E eu no box, usufruindo dos mornos jatos de água. 

— Eu já sei como vou me vingar do Luciano. — diz decidida. 

Busco a toalha e enrolei-me, escovo os meus dentes e vejo Alicia brincar com a espuma da banheira. 

— Eu posso saber como será? 

— Não posso contar, o encanto se quebra quando contado. 

— Ah, é mesmo? Não me diga. — falei brincalhona. 

— Vou contar no momento que der certo. 

Balanço a cabeça sem acreditar nas ideias da Alicia, mas não duvidava da merda que iria acontecer. Lolita entra no banheiro e mia manhosamente. 

Alicia estica o braço e a chama. 

— Vem cá, neném da mamãe. 

A gatinha cheira o dorso da mão de Alicia, e ao reconhecer que está molhada, sai correndo. 

— É por isso que os levo no pet shop. — comento antes de sair do banheiro. 

Charlie fazia bagunça na hora do banho, e Lolita via a água como a sua inimiga. A dupla nessa hora se dava super bem, parecia até uma conspiração de ambos contra mim. 

*

     O dia foi incrível, junto da Alicia e do Charlie, fizemos um pequeno passeio na central park e bom, acabamos almoçando em uma das barraquinhas que ficam circulando pelo local. Um dos momentos engraçados, foi quando dois esquilos passaram correndo e sem esperar Charlie foi atrás e a corrente acabou soltando da minha mão. Depois de corrermos por alguns longos minutos, conseguimos pegá-lo e cansadas caímos sentadas no chão dando risada da situação. 

Sorrio com a lembrança, o dia tinha sido incrível. 

Depois de pagar o táxi, vou na direção da entrada das garotas apimentadas e passo pelo segurança, as luzes do teto e do piso estavam ligadas, e à medida que eu dava um passo uma cor neon acende substituindo a florescente. 

Faço todo o percurso para ir até a segunda área, e quando chego, vejo Morgana sentada perto do bar. Vou em direção a ela e sento-me do seu lado. 

— Hey, tudo bem? — perguntei a vendo de cabeça baixa. 

— Tentado manter o equilíbrio. 

— O que aconteceu? 

— Lauro me pediu em noivado. — diz simplesmente. 

— E isso não é bom? — perguntei sem entender. 

— Deveria ser, mas não me sinto pronta para dar um salto desse na relação. 

— Conversa com ele, o lauro vai entender o seu lado. Ele é um cara bacana e é totalmente apaixonado por você. 

— Esse é o problema. Como falar sem magoar. 

— Você saberá o momento certo. — afago suas costas e deixo um beijo em sua temporã. 

— As meninas estão te esperando no camarim, já aviso que estão agitadas. 

— Obrigada pelo aviso. 

Quando cheguei no camarim a cena estava uma loucura, o falatório alto e as diversas opiniões que se misturavam, acabavam sendo engolidas e não ouvidas. 

— O que aconteceu? — perguntei à Rúbia. 

— A Suellen está com uma virose, e não pôde vim. E agora estão tentando colocar uma garota no lugar dela, mas só tem desculpas para não entrar. 

— E porque não você? — sugerir. 

— Porquê eu fico no pole dance. Estamos sugerindo a clara, mas ela não está aceitando. 

— Coloca a Susan, ela esteve do lado da Suellen a todo momento na dança do ensaio e são os mesmos passos. 

— Oh, pessoal… — Aumenta a voz  e chama mais duas vezes até ter a atenção. — A kris, indica a Susan. Já que durante o ensaio fazia o reflexo de Suellen nos passos. 

— Susan, você aceita? — perguntei. 

— Claro que sim. Só precisamos fazer uma adaptação na apresentação, já que na segunda parte os passos da Suellen mudam. 

Respirei aliviada e logo em seguida  começamos a nos arrumar. Enquanto maquiava o meu rosto, recebi uma mensagem de Thomas, convidando-me para comer em algum trailer de lanche. 

Então o convidei para vim me buscar, já que aqui perto tinha um trailer e os lanches eram maravilhosos. Eu sentia falta de conversar com o meu amigo. 

*

      A noite foi normal dançamos seguindo o roteiro adaptado e deu tudo certo, e a Susan conseguiu tirar de letra a primeira parte que seria apresentada por Suellen. Nunca na minha vida cogitei dançar mas hoje vendo-me realizando algo que nunca foi arquitetado, me sinto realizada. 

— Kris, tem certeza que não quer vir conosco hoje? — Rúbia pergunta. 

— Sim, vou me encontrar com um amigo no trailer de lanches. 

Os sorrisos maliciosos surgem. 

— Amigo? — Clara questiona. 

— Amigo. Apenas um amigo. — digo com bastante afirmação. 

— Ok, nos vemos na segunda. 

Nos despedimos, atravessei a rua e como a rua estava vazia não fui para a calçada. Com as mãos no bolso do casaco, mergulhei nos pensamentos buscando um rosto. Eu só precisava tentar uma última vez e se acaso não conseguisse nada, seguiria minha vida sem arrependimentos. Antes tentar do que viver se martirizando por não ter tentado. 

*

|| JADE FORD ||

     A noite fria, combinava perfeitamente com o estado da minha alma e com o que aconteceria. Apesar de não estarem mais juntos, ela ainda era um fantasma real e com ela vivendo seria a sombra na minha vida, trazendo de fato a verdadeira Amélia dos mortos. 

O carro estava ligado, os faróis desligados e apenas o silêncio exterior, e a escuridão dentro do meu carro fazia com que os demônios do meu passado me encorajassem a executar o meu plano. Fazia três semanas que eu tinha estudado a rotina dela, vendo a maneira mais fácil para acabar de vez com a sua existência. Nas corridas matinais com a amiga e com cachorro, não tinha nenhuma brecha. Eram sempre juntas e o caminho era o mesmo. 

Mas conforme conhecia os seus passos, notei que na terça e na sexta à noite, ela não voltava para casa com a amiga de carro. Ela se despedia de umas garotas, e seguia andando até um trailer de lanche. Era tão patética e sem graça a rotina dela, que me dava pena de tamanha simplicidade. 

Nunca entenderia o que Dominic enxergou nela, talvez fosse só um passatempo divertido em meio ao estressante trabalho. Bem, em todo caso ele estava solteiro no momento e se eu o queria devo agarrar a chance. 

E lá estava ela se despedindo das garotas e se separaram como sempre faziam. Ao sair do acostamento, troquei a marcha do carro determinada a executar a minha decisão. 

Selaria o passado e o presente, ambos estavam na minha frente e conforme ela andava pude ver a versão de Amélia mais madura. Pisei no acelerador e segurei a direção do carro com firmeza, mas antes que o carro se aproximasse, ela olhou assustada em minha direção e um homem desconhecido a puxou, tirando-a do meu caminho. 

— Merda! Merda! Droga!  — comecei a xingar sem acreditar no que aconteceu. — Droga! 

Não! 

Não! 

Isso não pode ter acontecido, sinto a raiva tomar conta do meu coração. Esse tormento nunca acabará, preciso de paz! Sinto meus olhos serem inundados pelas lágrimas, e lembranças daquela noite invadir minha mente. 

“ baile de formatura do terceiro ano do ensino médio, os  jovens estavam animados. E hoje seria uma noite maravilhosa para mim, havia programado cada passo até esse momento. Com ajuda de Amélia consegui mudar a opinião da minha mãe para poder comparecer na festa. 

E finalmente criando coragem fui atrás do garoto que gostava, precisava falar dos meus sentimentos por ele. E eu estava disposta a arriscar, não importando se a garota que ocupa  o coração dele é a minha prima. 

O mesmo estava afastado das pessoas e parecia esperar alguém, pois estava ansioso e nervoso. Tão lindo e tímido ao mesmo tempo, que o fazia ser ainda mais atraente. 

Ele a esperava. 

— Gabriel, podemos conversar? — peço. 

Ele olha para mim e depois a nossa volta. 

— Prometo não demorar. 

Insisto, e dou um passo à frente. 

— Ok, seja rápida por favor. Logo a pessoa que espero chegará. 

Assinto, e preenchida de coragem, me aproximo mais e falo: 

— Serei breve. — Encaro seus olhos âmbar e depois o seus lábios. — Eu sempre gostei de você. Mesmo sabendo que você gosta de outra. — Aproximo meu rosto devagar do seu e beijo seus lábios em um beijo lento. 

Ele não correspondeu. 

Seus olhos piscaram e o mesmo se afastou. 

— Jade, eu sinto muito não poder corresponder os seus sentimentos como deseja. Mas o meu coração pertence a outra pessoa. 

— Jade? 

A voz surpresa de Amélia surge pegando-me de surpresa. Os olhos de Gabriel estavam arregalados e o mesmo foi até ela. 

— Amélia, eu posso explicar. Não é o que parece. 

— Não precisa explicar! Eu vi o bastante. E sai daqui Gabriel. — diz ríspida. — E você, como ousa ser tão baixa? Eu confidenciava os meus sentimentos a você, eu confiei em você! 

Agarra o meu braço e me puxa pela saída lateral. Puxo o meu braço do seu aperto e sigo para o local onde os carros estavam. 

— Jade, para. Você precisa me ouvir. — continuo andando. — O que você fez hoje foi imperdoável. Eu contava dos meus sentimentos pelo Gabriel a você, contava dos  primeiros encontros e você faz aquilo? 

Farta de ouvir sua voz e de ouvir que o que eu tinha feito era imperdoável, parei. Me virei para ela e falei: 

— Tudo isso por causa de um garoto? Que baboseira. 

— Não! Ele não é qualquer garoto. Sabe muito bem que sou reservada para gostar de qualquer garoto. — decreta. — Você me decepcionou. E sinceramente eu não esperava isso de você. 

Entro no carro e a deixo falando sozinha, minha mãe não sabia do carro. Para ela, eu tinha vindo de táxi. 

Respiro fundo, ao escutar Amélia batendo no fundo do carro. Abaixo o vidro do carro e coloco a cabeça para fora, e grito: 

— Sai de trás, agora! Sua voz está me fazendo perder a paciência. 

Bufei enraivada, fechei o vidro e as batidas cessaram. Dei a ré no carro e ouvi o impacto de algo sendo derrubado, e ao tentar frear acabo acelerando. Senti o carro passar por cima de algo e quando desço do carro, e vejo o que aconteceu todo o meu corpo fica trêmulo. 

— E-u... — lágrimas descem pelo meu rosto. — Me perdoa. Eu não quis. Foi um acidente. — cai de joelhos e não conseguia fazer mais nada, eu estava paralisada. 

Seus olhos abertos encaravam o céu, sangue escarlate descia da sua boca e uma lágrima desceu pela sua face. Eu vi quando o último suspiro deixou o seu corpo. Vozes passam por perto, me despertando e fazendo-me encarar a tragédia. 

— Isso é culpa sua! Eu pedi para se afastar. 

Despejei em cima do seu corpo sem vida. Minhas ações seguintes foram totalmente impensadas, agir simplesmente pelo medo de ser presa. Liguei o som do carro e por sorte havia aceitado colocar as luvas nas mãos. Arrastei o seu corpo até o mato que havia ali perto e o joguei, rasguei as alças do seu vestido e não dei ouvidos para a minha razão. Olhei à minha volta para certificar-me que ninguém viu e com o caminho livre voltei para o carro. 

A mancha de sangue estava no chão e desesperadamente procurei por alguma coisa que me ajudasse a limpar o chão, havia uma caixa de lenço no banco de trás e foi com a caixa de lenço que consegui limpar. 

Ainda tremendo, entro no carro e antes que o vidro se feche novamente, assusto-me com o surgimento do Gabriel. 

— Cadê a Amélia? — Abro o vidro e cruzo meus braços para não mostrar a tremidez. 

— Ela foi atrás de você. 

— Ela não está na festa. 

— Eu não sei onde está. Ela só disse que iria te procurar. 

Apesar das investigações terem permanecido abertas por um tempo, eu consegui sair ilesa das suspeitas. Não havia provas ou imagens que me incriminasse, apesar de terem visto a nossa discussão, todos viam o quanto éramos próximas e unidas. 

Não houve culpado e depois de meses investigando, o caso foi encerrado." 

4922 palavras...


Até o próximo capítulo.. ❤️⏰

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