CAPÍTULO 41

    Fitei o céu por um breve momento e diante do imenso e suave azul que se unia ao cortante frio da manhã, me virei. Com passos calculados subi os degraus e adentrei a mansão do Olarv. Não era preciso muito para saber onde ele estava, Alan se despendia de um homem na frente do seu escritório. Me aproximei dele e cumprimentei o homem que passou rapidamente por mim.

— Mais que visita surpresa e agradável. — Gracejou — Eu sabia que havia um oculto sinal no céu. 

— Serei breve. 

O segui para dentro do escritório, e me sentei na cadeira diante do seu convite. 

— Imagino que sim. Aceita uma bebida? 

— Não, obrigado.

 — Que isso, Dominic. Somos da família.— O copo com uísque foi colocado na minha frente. — Não se rejeita um copo de bebida. 

— A diferença entre família e desconhecidos, é que eu conheço os meus, e sei até onde eles estão dispostos a ir. — Encostei minhas costas na cadeira, ficando despojado. — Os desconhecidos por outro lado tem uma irritante mania de desdenhar do seu oponente. 

— Você me lembra muito a sua mãe. Uma mulher desconfiada, vigilante e inteligente. Ela possuía atributos invejáveis, mas no fim, nada adiantou. — crispou os lábios,  inclinou-se para frente e apoiou os braços na mesa. — Sua recompensa foi a morte. — deu de ombros. 

— Tem algo a contar, Olarv? Caso tenha, saiba que sou um apreciador de velhas e longas histórias.

 — Uma vez uma amiga me falou que a melhor história é a que fica registrada na memória do tempo. Ela não é esquecida, apagada e duplicada. — ingeriu sua bebida e ponderou para falar. — Mas a melhor parte dessa história, é que as memórias são eternas e lembradas. É o que define os nossos passos, Dominic. 

— Não são as memórias, são as nossas escolhas. Você é o que escolhe ser.

— Creio que sim. Mas uma história vivida, ela tem que ser contada.— Alan abriu uma gaveta e tirou uma pasta de envelope vermelho. — Meu laço de amizade com sua mãe era estreito, a proximidade entre nós eram bem rasas e hostis. 

Peguei a pasta e ao abrir encontrei apenas três fotos deles em eventos e um documento assinado por ela. 

— Pode ficar, é todo seu. Eu iria entregar a sua namorada, mas ela tinha ficado tão abalada com as minhas palavras que temi que fosse rasgado. — Encarei as fotos enquanto o ouvia —  Afinal, andei observando que você não tem cuidado da sua namorada. Sempre sozinha em Moscou. — O encarei e vi o mesmo encostar as costas na cadeira de modo despretensioso. 

— Não é educado observar a vida alheia, uma hora pode ser pego em flagrante. — seu rosto endureceu — Cuidado com as ratoeiras, elas costumam ficar em lugares escuros. 

— Isso é uma ameaça? 

— Eu não faço ameaças…— ousei sorrir de lado — Procuro mostrar na prática o que faço. 

— Cuidado, cada ação impensada trás consequência. 

Desde o momento em que entrei mantive uma expressão indecifrável. 

— Deveria seguir seu conselho. Fazer ameaças a uma mulher, só revela o quão baixo você é. — Me levantei da cadeira e com a voz dura e séria, falei:

— Não chegue mais perto da kristal. Estou lhe avisando, caso você não obedeça, me certificarei de mostrar o quão sério foi o meu aviso. 

— Eu não ameacei a sua namorada, eu a alertei. — fiquei parado o olhando e ouvindo. — Ela está tão cega de amor, que quando perceber será tarde demais. 

— Não vou falar de novo. 

— Espero não te encontrar novamente, você não deveria ter voltado. 

— Esse também é o meu desejo. — Falei me referindo a suas primeiras palavras. 

À medida que o carro saia da mansão, senti uma fria e estranha sensação me rondar. Eu não confiava no Alan Olarv e tampouco em Cindy Nabokov, eram duas pessoas estranhas que faziam parte do meu passado e que não me passavam confiança alguma. 

*

    Quando despertei pela manhã sabia que era o último dia em Moscou. 

Antes de tomar o café da manhã, despertei Dominic com pequenos beijos nas costas e o seduzi até que fizemos amor, mais uma vez. Organizei as nossas malas, que haviam aumentado pelas compras do Dominic e deixei tudo pronto. 

Tomei um banho quentinho e, depois, me vesti para a viagem. Enquanto Dominic não voltava, decidi permanecer na suíte. Sentada na espreguiçadeira da sacada, encarei a imensidão do azul do céu que se estendia com sutileza e não havia nenhuma nuvem, estava límpido e estranhamente senti uma sensação estranha tomar conta do meu âmago. 

Inquieta, comecei a balançar a perna e olhar a hora no relógio de pulso. Era estranho a louca vontade de ver Dominic, parecia que estava sendo induzida a me preocupar com ele e por um passageiro momento pensei no pior. Respirei fundo, certa de que a minha loucura era sem fundamento ou importância. Ele tinha seus seguranças e era um puto empresário que sabia fazer negócios, não havia nada de anormal nisso. Bom, tinha algumas peças que parecia não se encaixar no quebra cabeça, mas ainda não havia uma resposta clara para desvendar o mistério. 

Levanto-me da espreguiçadeira e decidi ir até a cozinha da suíte, beber alguma coisa. Sentia minha garganta arranhar, estava seca. Peguei um copo de vidro e o enchi com água, o bebendo logo em seguida. 

A porta da suíte foi aberta e Dominic adentrou segurando um envelope em mãos, estava bem e relaxado. Suspirei alto em alívio, de fato eu havia enlouquecido por um rápido instante e em parte, julgo ser pelo fato de aceitar que a bolha de felicidade em que me encontro possa não ser permanente. Já que nunca me considerei uma garota sortuda, e que há uma conspiração do universo para mim. 

Dominic se aproximou de mim, com seu andar faceiro e sorriso libertino no rosto. Seu corpo grande e viril, esbanjava confiança e uma fascinante masculinidade que me dominava por inteira. Quando seu corpo me prensou na pia, o seu carinho manhoso começou a despertar novas sensações em mim, através do calor dos nossos corpos. 

— Precisamos ir… — murmurou contra a pele do meu rosto. 

— Por que me trouxe? — perguntei curiosa — Você estava com raiva de mim, não trabalhei ou auxiliei no seu trabalho nesse tempo em que estive aqui. 

— Sinceramente? — olhou nos meus olhos — Não sei explicar com exatidão, mas a única coisa que me fez te trazer foi um  sentimento maior que ultrapassa a raiva…

Ficamos abraçados até o carregador de malas bater na porta. Depois nos dirigimos para o carro que iria nos levar ao aeroporto. 

*

   Quando o avião fez o pouso em Nova York, era noite. Ao descer a escada de embarque, fecho dois botões do meu cardigan rosê e pego o meu celular para mandar uma mensagem para Alicia, avisando que havia chegado em Nova York. Havia trocado algumas mensagens com ela e com minha mãe, mas devido ao fuso horário o contato foi pouco. Havia dois carros pretos metálicos à nossa espera e três seguranças ao lado do carro. Dominic abriu a porta do carro  e esperou eu me acomodar.

— Ian, não virá conosco? — perguntei ao ver o amigo do Dominic se dirigir para outro carro.

— Ah, o Ian ficará em outro lugar…— Apesar da sua voz não demonstrar cansaço, mas seus ombros estavam curvados, revelando o seu cansaço. — Tem um assunto a ser tratado com urgência.

Enquanto o carro deslizava pelas ruas de Nova York, encostei a minha cabeça no ombro do Nink. Fechei os meus olhos e apreciei o bom silêncio e o carinho que Dominic fazia no meu braço por um bom tempo. 

— Senhor, estamos sendo seguidos. — abro os meus olhos com o aviso do segurança, que se encontrava ao lado do motorista. 

— O quê? Como assim, seguidos? — perguntei, sentindo um medo desconhecido percorrer o meu corpo.

Estava atenta a toda situação, vi o momento em que pelo vidro escuro Dominic tentou flagrar qual era o carro que estava nos seguindo. 

— Merda! — Enquanto Dominic mostrava pensar em algo, tentei ver se o carro que estava em nossa cola, se aproximava.

Então os tiros vieram, chocando-se com o vidro blindado do carro. Um grito escapou da minha garganta ao perceber que a situação era séria. Dominic me abraçou, fazendo-me ficar abaixada. Quando notei que havia som de disparo saindo do carro em que estava, senti todo o meu corpo ficar em pânico.

Tiro. Velocidade. Pista movimentada. 

Não era uma boa combinação e parecia que nunca chegaria ao fim. Senti quando o calor de Dominic se afastou de mim, mas não ousei levantar a minha cabeça para olhar, mas ao sentir o vento da noite adentrar o carro com força, fazendo meus cabelos se desfazer do meu coque social, instintivamente, olhei para ele.

Paralisei ao vê-lo segurando uma arma, e disparar com habilidade em direção ao carro que estava nos perseguindo. Ele não hesitava em atirar de volta e a maneira fria e séria em que manuseava a arma, me trouxe nesse exato momento as lembranças horrendas que tive em Moscou. 
 
O vento bagunça o seu cabelo negro, levando em direções incertas. Dominic voltou a entrar dentro do carro novamente, e quando me procurou com suas belas e frias gemas celestes, percebi que por um momento ele ficou surpreso por me ver o encarando. 

— Anjo, tudo tem uma explicação… — o ouvi, não tendo certeza se teria. 

 Mas não cheguei a responder pois ao atravessar o sinal fechado um carro nos atingiu na lateral. O carro rodopiou e parou no meio da pista, a minha cabeça girava e por alguns segundos sentia tudo distantes e ecoando no vazio do tempo. Não conseguia ouvir o que sucedia à minha volta e respirava com dificuldades, as lágrimas já haviam tomado conta dos meus olhos e deslizavam pela minha face sem cerimônia.

Contei em voz alta até três, inspirei e expirei para normalizar a minha respiração. Sentindo-me capaz de processar tudo à minha volta, vi que já havia um carro e dentre as pessoas que estavam ao lado de Dominic, checando os corpos, Ian também estava. Retirei o cinto e com as mãos trêmulas enxuguei as lágrimas e busquei o meu celular, precisava sair dessa zona e só uma pessoa veio à minha mente. 

— Mel-anie, preciso que venha me buscar…— tentei não deixar a voz tão trêmula para passar a minha localização, que não foi difícil, já que a pista era conhecida.

— Kris, aconteceu algo? — sua voz apreensiva me tirou do torpor em que estava mergulhando.

— Eu… preciso que me tire daqui…— chorei enquanto pedia. — Por favor... 

— Já estou a caminho, logo chego.

A ligação foi encerrada, abri a porta do carro e deslizei para fora dele. Encarei atordoada os corpos no chão e dei passos para trás, quando os olhos de Dominic me encontraram.

— Kristal…— chamou em voz alta.

Continuei andando para longe dele e daqueles corpos. Muitos corpos. Não entendia o porquê de estar agindo assim, mas sabia que era o medo que me fez atuar dessa maneira. 

— Kristal…! — chamou mais uma vez, a diferença era que ele segurava o meu braço.

Puxei o meu braço do seu toque e dei um passo para trás por segurança.

— Isso...isso… não faz sentido…— murmurei e olhei em direção ao carro.

— Eu posso explicar, kristal. Há uma explicação lógica para o que acabou de acontecer, você só precisa me ouvir. — falou calmo em meio ao caos que eu havia presenciado.

Ele atirou sem hesitar.

— Eu não quero explicações! Você atirou em um homem! E vem dizer que há explicação? — gritei, extravasando o que sentia. Ele se arriscou a se aproximar e me tocar. — Não me toque e não se aproxime! 

Ele atirou.

Puxo o ar com força e volto a inspirar e expirar. Olhei a nossa volta ainda anestesiada e em um estalar de dedos as peças que não faziam sentido algum, começaram a se moldar naquele cenário caótico. Suas falas carregadas de segredos e sombras. 

— Eu sei que é muita coisa para você processar, mas você precisa se acalmar e deixar que eu explique tudo. — havia urgência na sua voz em meio a calma que tentava manter.

O olhei e tentei reconhecer o Dominic em que havia aberto e demonstrado todo o meu amor, mas eu só conseguia enxergar um homem cheio de segredos sombrios. Sinto as lágrimas querer ultrapassar a linha dos meus olhos, mas consigo não desabar na sua frente.

—Não há nada para explicar e não me procure. — a raiva havia tomado conta da minha alma, ao perceber que havia me apaixonado por um personagem criado por ele. — Você não tinha o direito de me enganar, fui sincera com você desde o princípio, Dominic! E o meu presente é ser manipulada para amar, você é um grande filho da puta. 

Enquanto falava vi sua expressão mudar. Sua mandíbula travou e seus lábios permaneceram em uma linha fina. Dominic se aproximou seu rosto do meu:

— Sente medo de mim? — perguntou  sombrio e brando — Eu não sou o herói dessa história, kristal! Não me idealize como um salvador da pátria, sou cheio de defeitos e ando em caminhos tortuosos. — sua voz estava dura e fria. 

Uma buzina chama a minha atenção e quando olho para ver, vejo que é o carro da Melanie. Encarei novamente Dominic, e apesar de não querer admitir o que sentia no momento, falei:

— Sinto, e justamente por conhecer esse outro lado seu que escolho não estar mais ao seu lado. — deixei que o meu olhar denunciasse a mágoa da minha alma. — Parabéns, você conseguiu o que queria com seus joguinhos de sedução. 

Seu olhar havia mudado assim como sua expressão. Lendo a sua postura corporal que ficou rígida depois de ouvir as minhas palavras, ele deu um passo para trás. Desistindo. 

— Isso é o melhor que você fará…

Dei as costas para Dominic e andei em direção ao carro da Melanie. O coração quebrado em pedaços repartido como estilhaços de espelhos. Mesmo que as lágrimas teimam em deslizar pelo meu rosto, mantive a cabeça erguida até entrar no carro e desmoronar por completo. Melanie me abraçou, dando-me apoio e consolo. Ela estava ali do meu lado.

Eu havia confiado em Dominic, depositei em suas mãos o meu amor e tudo que recebi foram mentiras e uma farsa asquerosa. 

Amar era uma droga, a mesma droga que mantinha-me viva, era a mesma que me afogava nos meus próprios sentimentos quebrados. Melanie não me levou para casa, me levou para um lugar que segundo ela, ajudaria a descarregar tudo o que sentia. E ela estava certa, eu precisava e queria muito descarregar toda carga negativa e pesada que eu sentia, pois parecia ser infindo, como o universo. Sem fim para acabar.

Eu pelo menos pensei que funcionaria. 

*

|ALICIA LOPEZ ||

   Seguro a grade de bebidas nas mãos antes de descer do táxi, olho bem para o endereço fornecido pela Melanie e fico de boca aberta, literalmente. A casa era enorme e se encontrava em um bom bairro. 

— Ei, moça. São trinta e cinco dólares. — Olhei para o taxista espantada. 

— Isso é um absurdo! Nem demorou trinta minutos para chegarmos aqui, e dá um valor desse? Isso se chama extorsão de dinheiro! — irritada, peguei o dinheiro e o entreguei — tenha uma ótima noite, senhor! 

— Eu, hein… garota surtada. 

Ouvi no momento em que havia saído do carro e fechado a porta, e indignada com o que havia acabado de escutar, estiro em sua direção o dedo do meio. 

— É você, filho de satã! — gritei enquanto o táxi se afastava. 

Soltei o ar de maneira dramática e ando em direção a casa, que dava sinais de estar passando por uma reforma. Abri a porta da casa e o barulho de algo sendo quebrado, preenche o meu ouvido. Não me atentei aos detalhes ao meu redor, apenas seguir em direção ao barulho. 

Adentrei a sala e senti a minha cabeça girar em uma confusão desnorteada, com a cena à minha frente. Me aproximei de Melanie para entender o que estava acontecendo e depositei a grade de bebidas em cima do banco do piano. 

— O que aconteceu? — perguntei sem tirar os olhos de kristal. 

— Ela não falou muita coisa. O que posso dizer é que a briga foi seríssima e acho que ela terminou com Dominic. 

— Quê? Como assim? — sussurrou, mas a vontade foi de gritar com a revelação. — Está falando sério? 

— Ai, Alicia! Quer que eu desenhe ou escreva? — disse nervosa. 

— Eu estou tentando entender essa situação. Não tenho culpa se as vezes o meu nível de inteligência não trabalha conforme o andar da carruagem. 

Melanie suspirou cansativa, cruzou os braços e fitou a kris, antes de falar:

— Desculpa, hoje literalmente foi um dia de cão. Para encerrar a noite com chave de ouro, vi algo que nunca pensei em presenciar. 

— E? 

— Eu não posso julgar o Dominic pelo o que vi, o cenário ao qual encontrei podia ser interpretado de outras formas: uma tentativa de assalto, sequestro ou ele pode ser um agente do governo. Na pior das hipóteses um mafioso. Kris não falou nada a respeito e preferi não tocar no assunto. Ela apenas falou sobre seus sentimentos que foram quebrados. — Diante do que ouvi dei um passo na direção da minha irmã. — Não, Alicia. Esse momento é dela. 

— Mas… 

— Não se preocupe, ela ficará bem. Mas ela precisa desse momento libertador. Espere, se acalme e teremos o momento certo para irmos até ela. 

 Eu queria abraçar a kristal, mas escutar o conselho da Mel, vi que ela possuía a razão. 

— De quem é essa casa?

— Da piranha da minha priminha. — respondeu com desdém. 

— A que roubou seu ex-namorado?— A vi assentir e fiz uma careta entendendo em parte o porquê de estarmos aqui. — Garota, amei a perversidade que habita em você. A ladra de namorado, vai pirar… — soltei um riso baixo imaginando a cara da Luísa. 

— Sorte nossa de haver ferramentas aqui, se não teríamos que improvisar. 

— Não seria tão ruim assim. Somos boas em improvisar.

— Somos mesmo. — Selamos com um soquinho de mãos. 

Mesmo repleta de perguntas para fazer a Melanie, escolhi manter a mente quieta e a boca fechada. Observo tudo que está acontecendo à minha frente com atenção. Havia uma metáfora naquela ação da Kris, pude entender o significado dela perfeitamente. 

*

      À medida que a marreta se encontrava com o concreto da parede recém reformada, pude sentir uma parte de mim, se esvaziar. Segurei firmemente no cabo de madeira, e quando a base quadrada de ferro bateu novamente, a parede desabafou em pedaços. Encarei os escombros no chão e inconscientemente relacionei aquela cena ao meu coração. 

Deixei que a marreta deslizasse de minha mão, provocando um baque surdo e seco pelo cômodo. Senti o peito apertar com cada sentimento que se enrolava, em uma gigante bola de neve. Turbilhões de emoções cresciam dentro de mim e lutavam para ganhar espaço.

 Então, as lágrimas vieram mais uma vez. Me fazendo não pensar em nada menos do que chorar e desabar no chão. Chorei para recolher cada pedaço dos meus sentimentos, chorei prometendo a mim mesma um recomeço. 

Enterrei o rosto entre as minhas mãos, e sem reservas, permiti que as lágrimas caíssem livremente. As meninas se aproximaram e colocaram a grade de bebidas na minha frente, Alicia deu dois tapinhas no meu ombro e Melanie fez um carinho no meu cabelo.

— Dói tanto… dói — solucei, fitei o chão por um tempo e depois levei meus olhos para o anel anelar que ele havia me dado. — Eu me entreguei sem reservas, dei meu coração e recebo mentiras, segredos? Eu.. Eu… me sinto enganada e em nenhum momento ele pensou em como eu ficaria? — a voz saiu embargada. 

As lágrimas desceram rasgando a dor e lavando o coração, chorar trazia um suspiro de alívio para alma. 

"Eu vou ficar bem." 

Recitei cinco vezes em minha mente com calma até sentir minha respiração voltar ao normal e o choro cessar. Alicia pegou três pequenas garrafas no aleatório e deu para mim e Melanie. 

— Aos dolorosos recomeços… —  Melanie se pronunciou. 

Diante do momento silenciei a dor da alma. Não lamentaria o que aconteceu, já havia chorado o bastante. Era o ciclo da vida, os amores vem e vão. Sei que nada é eterno, havia ciclos que não seguiam na ordem, ciclos que são interrompidos e que não foram feitos para durar. 

Eu não iria ficar chorando nos cantos e remoendo as feridas. Seguiria o conselho do meu paizinho: Não lamente pelo que perdeu, se erga e seja extraordinária. 

Um conselho dado quando eu tinha quatorze anos e havia pela primeira vez tirado nota baixa na disciplina de História. Eu só precisava encontrar o caminho que me levaria a apertar o play e definitivamente não seria nada fácil. Porque eu o amo. É justamente por amá-lo que essa dor parece não ter fim, por hora havia apenas uma solução à minha frente que iria me fazer esquecê-lo. O pensamento tão atraente e satisfatório me fez erguer a garrafa colocando meu pensamento em prática. 

Terminei de beber a garrafa e busquei pegar outra. Dane-se, se o que me aguardava era uma bela ressaca, eu só precisava esquecer por hora os últimos momentos que passei e de qualquer vestígios que o trouxesse à minha mente. Ao ingerir a bebida consigo identificá-la: gim. 

— Ok… Acho que devemos fazer um brinde a nós. — Alicia levantou a sua garrafa de vodka e limpou a garganta antes de falar:

— Eu quero brindar a força e superação que há dentro de cada uma de nós, brindo não só pelo recomeço mas pelas lições que nos faz ser mulheres independentes e livres de qualquer conceito dito pelos homens… — Seus olhos transmitiam um brilho inspirador e as suas palavras eram motivadoras e encorajadoras. 

Brindamos mais uma vez e mergulhada naquele momento, senti que tudo ficaria bem tendo as minhas irmãs ao meu lado. Dizem que o tempo é a resposta para tudo, até para curar cicatrizes que foram feitas por farsas e mentiras. 

Só espero que quem diz "O tempo é o remédio para curar todas as feridas" esteja realmente certo do que fala. 

*

     A deixei ir, mesmo sendo difícil vê-la partir e não lutar para reverter o quadro. Ao me deparar com a inocência dela, diante de corpos e todo o seu conceito comum de humanidade, desistir de tentar falar a verdade. Não queria admitir que as palavras de kenzie rondou os meus pensamentos e também que ela estava certa, eu sabia que mentir não era uma solução correta, mas não podia arriscar a vida dela com informações tão sigilosas. 

É preferível ela pensar que a enganei e que apenas a seduzir para ser mais uma, do que se iludir ao pensar que sou um dos mocinhos. Solto um suspiro cansado, eu estava na Instalação e a equipe estava aqui. Bom, menos kenzie e Simmons. 

Já estava na quarta garrafa de cerveja, e o meu objetivo era ficar bêbado para não lembrar do rosto, nome, corpo e cheiro daquela feiticeira. Eu a queria longe da minha mente, e a única forma seria ficar bêbado para esquecer. Apagar por completo para quem nos meus sonhos ela se atravesse a colocar os pés. Ainda bem que estava conseguindo porque desmoronar não era uma opção.

Afinal, ela escolheu colocar um fim e diante de tudo o que estava acontecendo, aceitei. 

— Não somos um príncipe encantado… —  Luke se manifestou e levantou a sua garrafa. — Somos falhos e cheios de defeitos, mas amamos e protegemos quem é especial para nós.

Entre a troca de tiros, consegui entrar em contato com minha equipe, que presenciaram o término. A situação foi resolvida e conseguimos que tanto a mídia quanto a polícia não se envolvessem. Os homens que morreram tinham a marca de um dragão no pulso direito e tudo ficou esclarecedor para mim. 

Entre Alan Olarv e Cindy Nabokov, estava o espião.

— Foda-se o conceito moralista… 

— Ivan, a garota não tem ideia do que somos. — Vasti o interrompe. 

— Vocês não entendem… — Defendo a maneira da kristal pensar. — Kristal, não sabia de nada. A única coisa que ela conhecia foi o que decidi mostrar. Não a julgue pelo pensamento dela não ser igual ao nosso, existem outras pessoas que também seguem a mesma linha de pensamento dela. 

Continuei bebendo até sentir que realmente havia ficado bêbado, meus pensamentos se embolam em uma maldita luta entre ir atrás dela e contar tudo ou escolher que as coisas permaneçam do jeito que está. 

Pisco os olhos diante da claridade do local onde estávamos, as pessoas estavam turvas diante dos meus olhos e as vozes pareciam ser um eco distante. Eu sei que tivemos sorte hoje, se o carro tivesse capotado o cenário poderia ter sido diferente. Nenhum dos meus morreram e só pelo fato de estarmos vivos, já é um bom motivo para ser grato a Deus. 

— Vem, eu te levo para o seu apartamento. — Vasti e Otto ajudam-me a levantar e me guiam até o carro de vasti. 

*

Com a ajuda de vasti seguimos para o elevador. 

— Olha, se você a ama, não coloque um ponto final de imediato. Não deixei que o amor escape assim como se ele não significasse nada. — Vasti digitou o número do meu andar e continuou me apoiado para ficar em pé. — Amar é um sentimento precioso, e quem tem a oportunidade de desfrutar desse sentimento descobre que é a cura para todas as cicatrizes da alma. 

— Tentarei lembrar das suas palavras… — brinquei para esconder a dor. 

Vasti balançou a cabeça enquanto soltava uma risadinha abafada. 

— Bobo, quando entrar no seu apartamento, toma um banho e tenta comer algo leve. Vai ajudar um pouco. — aconselhou. — Dom, não deixe o orgulho dominar sua mente e coração. Dê um tempo a ela e com isso pense em tudo o que te falei. Como sua amiga, quero apenas o seu bem. 

Assenti, e preferi não escolher dizer nada. No fundo, bem nas profundezas da alma, estava magoado pelo simples fato dela colocar um ponto final sem me ouvir. Eu estava disposto a falar, a quebrar um código de sigilo, mas para ela parecia não ser importante.

 Eu não decidi mentir por puro capricho, eu a estava protegendo de predadores que não se limitaria a acabar com a vida dela. Porque quanto menos se sabe, os segredos permanecem nas sombras de onde nunca devem ser revelados. 

As portas do elevador se abrem, encaro o quadro da moça com brinco de pérola e solto uma respiração cansada, o cansaço já tomava conta do meu corpo e senti os meus olhos começarem a pesar. Virando à esquerda, sou completamente arrastado por vasti até a porta do meu apartamento, onde faço procedimento padrão para colocar a senha . 

— Consegue chegar até o quarto? 

— Sim, obrigado… 

— Tenha uma ótima noite, e lembre-se de pensar com clareza no assunto.

— Pensarei, obrigado novamente. 

Assim que vasti foi embora, retirei os sapatos na sala e o sobretudo. Deixando a bagunça no chão da sala, o breu do apartamento parecia dobrar o silêncio. Subi as escadas segurando no corrimão para não cair escada abaixo, estava embriagado além da conta. Ao chegar em frente a porta do meu quarto a vejo entreaberta. Eu podia estar fodidamente bêbado, mas lembrava muito bem de ter deixado a porta fechada quando saí para ir ao aeroporto. Susana não vem aqui, quando estou viajando. 

Abro a porta lentamente esperando o pior acontecer, o escuro dominava o quarto. Franzi as sobrancelhas, havia um perfume doce no ar e diante da ideia dela está aqui no meu quarto, abro a porta de uma vez por todas. 

A luz do abajur é acesa e sentada na borda da cama está ela. Apenas usando um robe preto, saltos e com os cabelos soltos ela olhou para mim e sorriu de lado. Pisquei os olhos, achando que estava diante de uma miragem. Mas era real, e de repente, senti que estava sendo usado por ela. Ela diz com todas as letras que queria distância de mim, e agora estava aqui no meu quarto. 

Senti uma raiva crescer no meu âmago e se misturar com a mágoa. Havia um duelo dentro de mim, causado por essa maldita feiticeira que parece brincar com os meus sentimentos! Ela não possuía o direito de brincar com meus sentimentos de falar que não me queria mais e depois estar aqui. No entanto, era preferível que fosse só um delírio da minha mente. 

Marchei em direção a ela que já estava em pé me esperando. Não havia para onde correr, a minha história estava traçada pelas mãos do destino.
  

4748 palavras...

Aí, gente. Terminei esse capítulo assim: 😧😰😱🥺😳

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