Capitulo 5
Estou sentada na minha mesa, fazendo meia hora desde que sai da sala do meu chefe. Encaro o grande jarro de lírios rosa com manchinhas brancas, que descansa em meu balcão, pensando em como consegui derramar café no carpete e ainda ser capaz de ter causado tanto alvoroço. Bernadete está lá dentro, coitada, tentando limpar o estrago que fiz e já estou me sinto péssima por ela.
Sério? Que merda eu fiz noutras vidas para merecer um castigo desses? Era para eu estar feliz e me sentindo realizada por finalmente as coisas estarem dando certo para mim, mas tudo o que estou sentindo é indignação, nervosismo e medo de perder o meu emprego. Fecho os olhos e rezo para todos os santos praticamente implorando por clemência. Tento focar nas minhas preces, mas tudo o que me vem na mente é o momento que meus olhos se encontraram com os de Andrew. Parece tão surreal trabalhar diretamente com ele.
O telefone toca novamente e, pelo número do ramal, já sei que se trata de Beth. Observo o meu relógio de pulso e percebo que já se passou de meio-dia.
— Oi. — Já sabendo que é ela, poupo-me de formalidades.
— Bora comer? Preciso matar quem me mata, porque senão vou acabar matando o meu chefe! Porque aquele, sim, me irrita! — Ela solta um rosnado, o que me faz franzir a testa e rir ao mesmo tempo.
— Ok. Preciso sair daqui também. Bem rápido — falo já me levantando.
Encaminhamo-nos para um restaurante, que fica próximo do prédio onde trabalhamos, e entramos nele. O buffet é amplo, mas prefiro algo light. Pego uma posta de peixe, salada verde e uma colher rasa de tabule.
— Vai comer tudo isso? — Observo seu prato de pedreiro e gargalho. A quantidade de frituras e massas me deixou com água na boca. — Por isso é tão magra! — ela ri.
— Na verdade, no meu antigo trabalho, as refeições eram leves. Aprendi a comer pouco, porém, de três em três horas.
— E você trouxe comida para daqui a três horas?
— Não. — Penso na manhã estressante que tive com Gustavo. — Acho melhor eu comer mais alguma coisa. — Pego uma colher de arroz e uma concha de feijão e despejo no meu prato.
— Depois passamos em uma lojinha aqui perto e você pode comprar uma daquelas barrinhas de terra para comer mais tarde.
— Barrinha de terra? — gargalho incrédula. Beth tem um humor negro que gosto muito.
— É. Essas porcarias que vocês, modelos, fingem comer para logo depois se entupirem de chocolate! — fala enquanto nos sentamos numa mesa próxima da janela.
— Modelo? Quem me dera, trabalhei em casa de família durante anos.
— Sério? — ela pergunta e explico sobre os anos que trabalhei na casa dos Delamont. — Nossa, não me admira você ser toda sofisticada. Até os empregados deles são assim, é?
— Antes de Laura, minha amiga, sim. Mas depois que Nick e ela se casaram, muita coisa mudou naquela casa. Laura sabe que, às vezes, o simples pode ser melhor do que anos de estudo — comento enquanto tiro um filete do meu peixe.
— Cara, surreal essa parada de você conhecer o senhor Collins! Não conte isso pra mais ninguém, porque se cair nos ouvidos da Marla... ferrou! Ela, com certeza, faria da sua vida um inferno! Nem sei como ela te contratou para início de conversa. — Beth fala, depois de descobrir que eu já conhecia Andrew. — Aquilo lá é uma cobra!
— Já estou começando a me arrepender de ter vindo trabalhar aqui... — Sou sincera.
— Calma, fica na sua e garanto que nada vai te acontecer. — Beth é positiva, porém ainda não estou convencida. Um tempo depois, pagamos a conta e nos encaminhamos para a pequena loja de doces que Beth me indicou.
Compro algumas barrinhas de cereal e uma barrinha de chocolate para a felicidade dela. Beth, ao contrário de mim, arregaça no chocolate, na jujuba e no refrigerante.
Chegamos na empresa e, assim que viro o corredor para a recepção onde trabalho, dou de cara com Hanna. Ela está sentada na minha cadeira e ainda por cima parece estar mexendo no meu computador.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela fita-me com olhos raivosos, parecendo estar prestes a matar alguém. A loira vira-se para mim num rompante e junta as mãos na altura do queixo conforme me analisa.
— Se aconteceu? — Franzo uma sobrancelha vendo-a levantar-se da cadeira bruscamente e direcionar-se até mim com o tom de voz mais alto. — O que aconteceu foi que seu chefe te ligou, assim que acabou a droga da reunião, e quando não encontrou a bonita no seu posto — ela aponta para a mesa —, ele fez questão de ligar para mim perguntando onde cargas d'agua você estava e começou a gritar comigo quando eu não soube dizer sobre o seu repentino sumiço. E para completar, ainda me perguntou como te deixaram sair para o almoço, sem que ele — ela frisa bem a palavra ele — te liberasse.
Engulo em seco, e Hanna continua: — Pelo amor de Deus, garota, ouça bem o que vou te dizer: não saia nem para almoçar sem antes soltar um sinal de fumaça, entendeu? Você é secretária do dono da empresa e ganha muito bem para isso. — ela diz irritada enquanto eu pisco os olhos atordoada e tento assimilar cada uma de suas palavras. — Agora eu vou almoçar! E o Dr. Collins te espera na sala dele. — Ela ri em deboche e sai da recepção logo em seguida.
Sem muitas alternativas, corro para a minha mesa e nem mesmo penso quando ligo para Beth. Ela atende no primeiro toque.
— Já tô sabendo! Que merda! — esbraveja. — Ele nunca fez isso antes, aconteceu alguma coisa, eu tenho certeza!
— Com certeza, aconteceu! Ele já me conhecia e agora deve estar querendo me mandar embora! — digo, suando frio, pensando no quanto eu não posso sonhar em perder esse emprego. — O que eu faço?
— Bate duas vezes na porta dele, escuta o esporro calada e procura sempre afirmar com a cabeça que ele está certo.
— Sério? — pergunto, incrédula. — E se ele me xingar?
— Agradece e faz a Kátia.
— Queeeê? Ainda vou ter que agradecer por ele ser um babaca comigo a troco de nada?
— Sim, e vai logo, merda! Quer o emprego? — Respondo que sim, e ela continua: — Então faz logo essa boa ação do dia e, no ruim de tudo, xinga ele no final. — ela gargalha.
— Cara, você é demais! Me deseje sorte! — Desligo o telefone e respiro fundo antes de me levantar. Ando a passos de formiguinha até a sala do meu chefe, sentindo as minhas pernas tremerem de nervosismo.
Bato duas vezes na porta e, ao escutá-lo esbravejar um "in between", entendo que é para eu entrar. Pelo o que eu me lembro, Andrew — ou melhor —, Dr. Collins é americano. Porém, é naturalizado brasileiro desde o dia em que foi adotado pela família de Nikolas, pelo o que Laura havia me contado há alguns anos. Luce havia feito questão de perguntar isso a ruiva, em um dos ensaios de seu casamento, só para implicar comigo dizendo o quanto ele era bonito e interessante. Ela sempre fazia piadinhas sobre mim e o irmão de Nikolas, porque não gostava de me ver com Gustavo. E fazia questão de falar no Deus de Asgard — como ela adorava apelidá-lo — na frente do meu ex namorado apenas para afrontá-lo. Na época, confesso que gostava quando Gustavo escutava as piadinhas sem graça dela, porque ele se mostrava irritado e demonstrava gostar de mim. Hoje, depois das reuniões com Marisa e depois de muito refletir, confesso que vejo o seu comportamento como machismo. O pior que muitas das vezes eu me aproveitei disso, pois era apenas o Andrew aparecer para alguma festa familiar, que eu aproveitava para provocar o meu ex namorado. Deixava Luce ou Laura engatar numa conversa com o gringo, e me aproveitava para entrar no assunto, deixando Gustavo possesso de ciúmes.
Sou cautelosa, e abro a porta devagar encontrando-o sentado em seu assento de couro, tão charmoso quanto seus cabelos dourados presos num coque alto, enquanto parece analisar alguns papéis. Sou minuciosa até em minha pequena análise, observando a sua barba espessa e o alargador escuro que traz na orelha, mas disfarço quando vejo que ele finalmente parece perceber a minha presença. Seus olhos tempestuosos recaem sobre mim e suas safiras fitam-me carrancudas. Lembro-me de encará-las numa época não muito distante enquanto era guiada por esse mesmo homem na valsa que nós, os padrinhos de Nick e Laura, fomos obrigados a dançar. Olhos que naquela ocasião eram doces e complacentes, totalmente o contrário do que vejo hoje.
O Andrew que conheci era educado, galanteador e extremamente afetuoso, simplesmente o oposto do sr. Collins sentado à minha frente.
— Com licença, doutor, mandou me chamar?
— Sim! Sente-se, senhorita Teixeira. — Observo que ele não parece me olhar de fato, mesmo tendo seus olhos em minha direção.
Faço o que me pede e ficamos frente a frente novamente. Sinto minhas mãos suarem conforme a sala parece extremamente menor. Sempre tive dificuldades em ser posta no centro das atenções, nunca gostei de trabalhos da escola nem da faculdade, muito menos de ser chamada a atenção por algum problema.
Ele me encara com olhos mais atentos agora, e me perco alguns segundos no azul que eles possuem. Seu rosto quadrado parece mais fino desde a última vez que nos vimos, e gargalho por dentro ao finalmente perceber a semelhança que ele possui com o Thor, Deus de Asgard. A única diferença é que o Deus a minha frente usa um terno cinza e bem cortado enquanto o Deus do trovão deveria usar apenas uma túnica branca deixando praticamente amostra as partes mais interessantes de seu corpo.
Gargalho com o meu pensamento pecaminoso.
— O que é tão engraçado? — Sua testa franzida apenas deixa seu rosto mais charmoso. Puta merda!
— Nada demais, senhor! — Desvio os olhos sentindo o meu rosto esquentar.
— Bom, serei curto e grosso. Sei que se lembra de mim da casa de Nick, mas de antemão informo que aqui seremos chefe e funcionária. É assim que as coisas funcionam neste escritório.
Pisco os olhos algumas vezes e engulo em seco.
Ele pensou que seria de outra forma? Tenho vontade de indagar, mas prefiro me abster de futuros problemas. Sem alternativas, apenas assinto.
— Nós temos amigos em comum, mas não somos amigos! — Levanto uma sobrancelha e penso no quanto a beleza dele desceu alguns degraus na minha mente.
É obvio que não somos amigos, se fôssemos não estaríamos tendo esta conversa.
— E por favor, coloque um uniforme! — Franzo a testa, deixando o olhar recair sobre a minha roupa. Procuro disfarçar o incômodo e solto o ar aos poucos tentando não deixar as lágrimas apontarem nos meus olhos. Será que estou malvestida?
— Eu passarei na confecção mais tarde para pegá-lo, não se preocupe, doutor — comento sem graça. Encaro-o, mais uma vez, notando que seus olhos se demoram em minha blusa. — Algo a mais? — Ele desvia os olhos e responde rapidamente:
— Acredito que não!
— E quanto ao meu horário de almoço? — pergunto vendo-o franzir a testa, aparentemente, sem entender nada. — Meu horário correto, doutor, para que não haja mais contratempos.
— Seu horário permanece o mesmo. Quem te disse ao contrário? — Sua pergunta me pega desprevenida, e vejo que ele ainda possui um resquício de gentileza em sua alma.
— Disseram-me que o Doutor estava me procurando. Que ficou chateado por eu ter saído e.... — Ele me corta:
— Não me chateei, seu horário permanece o mesmo. — É taxativo. — E outra coisa, a senhorita pode ter começado na empresa hoje, porém seu cargo aqui é tão importante quanto o dos outros funcionários. Nunca deixe que a diminuam por isso. — Pisco os olhos completamente atordoada por sua mudança repentina, mas não digo nada e ele completa: — Agora já pode sair! — Seu dedo longo aponta para a porta e não me resta outra alternativa do que me levantar e sair em seguida.
O resto do dia é cansativo, marco algumas reuniões importantes para os meus chefes, conserto suas agendas virtuais e começo a fazer uma cotação para uma viagem para fora do Brasil.
No fim do dia, sinto que me sobrou apenas o pó do meu esqueleto. Olho para a minha cama, ao chegar em casa, e penso apenas em me jogar nela.
— Mas primeiro um banho — falo para ninguém em especial encaminhando-me para o chuveiro.
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