Capítulo 15

Dizem que o tempo é nosso amigo, e que ele cura tudo. Mas não acho que seja assim tão fácil. Porque, no entanto, nem ele foi capaz de me fazer esquecer aquilo que tanto eu não queria lembrar. Mesmo que tenha se passado anos. Mas especificamente há 15 anos, eu ainda me lembro perfeitamente daquele verão. O verão em Malibu na casa da minha avó, que mudou a história da minha vida para sempre.

Escuto alguém bater na porta do meu escritório, tirando os meus olhos da janela, com vista direta para o central park, onde me imaginei encontrando-o todos os dias depois da minha saída do trabalho, despertando-me dos meus pensamentos, retornando a mente ao local da minha realidade. Tentando deixar pra trás aquilo que todos os dias me faz sofrer tanto e que eu não consigo superar.

- Pode entrar.- anúncio empilhando alguns papeis em cima da minha mesa.

- Com licença Dra. Sasha. Sua mãe ligou pro escritório, e disse que quer falar com a senhora.- pronunciou minha secretária entrando na minha sala.- Vou transferir a ligação pra cá.

- Ok... Tudo bem... Já vou atender.- respondi sem olhá-la ainda, organizando os papeis em cima da minha mesa.

Beth é minha secretária desde que comecei a trabalhar aqui, em um dos escritórios em que papai trabalha, sua competência e dedicação me chamaram a atenção, fazendo-a fixa na empresa. Assim que ela sai da sala e fecha a porta, voltando para sua pequena mesinha de sempre, o telefone ao meu lado toca, e eu desvio os olhos das papeladas para atendê-lo.

- Alô!- indago assim que atendo.- Sim mãe. O que?- Me levanto da cadeira alarmada.- Eu vou ver o que faço.- passo as mãos no cabelo, andando de um lado para o outro aturdida.- Eu vou passar em casa primeiro, pegar algumas coisas, e depois passo na sua casa pra te pegar. Ok? A gente se vê mais tarde.

Coloco o telefone de volta no gancho com um aperto no coração, sentindo as lágrimas já rolaram. Não acredito que isso está acontecendo.

Não... Com ela não meu Deus.

Passo a mão na minha bolsa, e saio da minha sala apenas anunciando por alto a Beth que estou saindo mais cedo hoje, pra resolver alguns assuntos familiares. Ela apenas dá uma balançada na cabeça, me encarando com seus olhinhos castanhos assustados.

Vou até o estacionamento do prédio, no caminho procuro minhas Chaves dentro da bolsa quase tendo um surto por não conseguir encontrá-las.

Caramba. Porque que mulher tem que enfiar tanta coisa dentro da bolsa?

Dou um grito de alegria internamente ao conseguir encontrar as chaves, e aperto no botão de desbloqueio do carro, e abro a porta entrando no mesmo, jogando a bolsa para o banco do passageiro.

Liguei o carro saindo cantando pneu. Numa velocidade que se alguém estivesse na minha frente eu atropelava. Graças a Deus que não tinha ninguém, e a rua estava deserta a essa hora.

Minhas mãos soavam no volante. Meu coração palpitava parecendo que ia sair pela boca e pula no asfalto. A ansiedade para chegar logo em casa me consumia por dentro.

Estacionei o carro na garagem, e desci dele meio que correndo. Abri a porta da sala de estar e o baque da cena que avistei quebrou meu coração em pedaços, ainda que Jacob não tivesse me dito nada, seus olhos castanhos refletiam dor. Dor que ele guardava até o momento de eu chegar.

Ele se levanta do sofá e caminha vagarosamente com os olhos marejados na minha direção.

- Eu sinto muito.- sibila pra mim.

Me jogo pra cima de seus braços fortes ofegantes. Minhas lágrimas molham sua camisa azul polo. Passo horas em seus braços, sendo consolada com um afago na cabeça. As lágrimas já tinham secado, e o que me resta são apenas soluços.

- Minha mãe pediu para acompanhá-la até Malibu.

- Eu acho que você deveria ir.- beija o topo da minha cabeça.

- Mais e você?- levanto a cabeça olhando em seus castanhos.- E Âmbar? Não posso deixar vocês.

- Vão ser só por uns dias.- alisa meu rosto delicadamente, colocando uma mecha do meu cabelo para trás.- E você podia aproveitar que ela vai entrar de férias e a levar junto também.

- Não sei se quero levá-la comigo pra aquele lugar.- levanto-me ficando de costas pra ele.- Aliás, não acho que esse seja um ambiente hostil para uma criança.

- Querida, Âmbar já não é mais uma criança.- Jacob se levanta e afaga meus braços sorrindo.- Além do que, acho que vai ser bom ter um apoio maior para você e sua mãe.

- Talvez você tenha razão.- suspirei encarando o chão.- Mas primeiro eu vou tomar um banho.

Entrei de baixo do chuveiro, e chorei mais do que tomei banho. Como não conseguia comer nada, coloquei meu pijama e fui direto pra cama tentar dormir.

- Posso entrar?- abro um olho espiando uma garotinha de cabelos escuros lisos, com a cabeça atrás da porta.

- Claro que pode meu amor.- sento na cama.

- O papai me contou o que aconteceu.- senta na cama de frente pra mim.- Eu sinto muito.- seus olhos castanhos claros meio esverdeados transmitiam dor e pena.- Você tá bem?- sua voz carregava preocupação.

- Vou ficar... Não se preocupe.- toquei em seu rosto com carinho.

- Papai me contou que você e a vovó vão para a Califórnia amanhã.- confirmei com um aceno de cabeça.

- Você quer vir junto também?

- Seria errado se eu disser que estou empolgada pra ir?- mordeu o canto do lábio apreensiva.

- Não.- rio acariciando seu rosto.- Eu entendo a sua empolgação... Califórnia é a cidade dos sonhos de verão.

- Dizem que lá tem as melhores praias do mundo.- começa a andar pelo quarto eufórica.- Mãe... Me perdoa.- senta novamente com os olhos marejados.

- Pelo o que? Não há nada em que te perdoar.

Âmbar deita a cabeça em meu peito me abraçando. Aproveito a oportunidade para desfrutar desse momento aconchegante em casa, nos braços daquela que fazia o meu mundo, por mais caótico que ele estivesse, se tornar o melhor lugar de todo o planeta.

Nunca imaginei que após ser mãe minha vida iria mudar por completo. No início tudo virou de cabeça pra baixo quando descobri a gravidez. Mas quando ela nasceu e vi pela primeira vez seus olhinhos castanhos brilhando para mim e seu sorriso genuíno, cada detalhe valeu a pena. E eu não me arrependo de nada dele.

- Eu vou deixar você dormir, e eu vou arrumar minha mala.- se levanta.- Boa noite. Te amo mãe.- fala antes de sair.

- Eu também te amo.

***

- Tem certeza que não quer mesmo que eu leve vocês ao aeroporto?- Jacob me abraça.

- Já disse que não precisa.- afago seus braços.- Não quero atrapalhar seu serviço... Além do que eu e Âmbar iremos pegar um táxi.

Faço um carinho na sua bochecha e depois o beijo.

- Eu te amo.- ele diz.

- Eu também te amo.- afirmei o beijando novamente.

- Já chega de beijo vocês dois.- Âmbar se intrometer no nosso meio.- Se despeça logo para irmos embora de uma vez.

- Eita, que mocinha apressada.- Jacob olha pra ela e alterna pra mim com a sobrancelha arqueada, em seguida pegando-a de surpresa com uma enxurrada de cosquinhas.

- Ela tem razão... Temos que ir antes que percamos o voo. Sabe como ela é enjoada.- revirei os olhos, implicante.

- Ei... Eu não.- defendeu-se ofendida, recuperando o fôlego .

Âmbar e Jacob se abraçaram se despedindo. E eu dei mais um beijo nele antes de partirmos.

- Não se esqueça de me ligar assim que chegar lá.- afirmo com um acenar de cabeça.

Entramos no táxi que acabara de chegar após guardar nossas malas no porta-malas e seguimos para o aeroporto a caminho de Malibu.

Apesar das circunstâncias, Âmbar estava na maior empolgação. Me contando tudo o que queria conhecer na Califórnia. Só que infelizmente, eu não consegui prestar atenção em nada. Minha cabeça estava aérea, perdida em outros lugares. Eu fingia que entendia, e acenava com a cabeça concordando algo que eu não fazia ideia do que poderia ser.

- Sabe que não vamos ficar por muito tempo lá, né?

- Aí eu sei.- respondeu frustrada.- Mas mesmo assim não posso deixar de me empolgar com a minha cidade favorita do mundo todo.- bateu palmas animada.

Âmbar era como eu. Adorava sol e praia (até mais do que)... E principalmente, adorava a Califórnia, mesmo nunca tendo ido lá. Por isso a empolgação.

Até o presente momento ela só tinha visto a cidade do verão em filmes, livros, na televisão ou em qualquer coisa que eu contava a ela. Desde pequenininha ela adorava ouvir minhas histórias sobre a Califórnia. É claro que eu escondia algumas partes, e ficava curiosa para conhecê-la.

Assim que pousamos no solo do aeroporto de Los Angeles, os olhos dela se iluminaram com um brilho fantástico de entusiasmo, o que me fez sorrir também.

Senti um breve aperto no peito e uma sensação de nostalgia ultrapassou meu corpo lembrando-me dos momentos que passei aqui a quinze anos atrás.

- Você está bem mãe?- Âmbar olha para mim preocupada.

- Estou.- respiro fundo.- Foi só um friozinho na barriga.- sorrio.

Pegamos um táxi e ele nos levou direto para Malibu, para casa de vovó.

Confesso que quando o taxista chegou meu coração imaginou ser ele vindo me buscar como na primeira vez. E nem sei porque me decepcionei com isso.

No instante que sai do carro, e meus pés tocaram o chão, e avistei a casa branca ao longe, um frio percorreu minha barriga, provocando sensações de lembranças que eu poderia encontrar aqui.

- Mamãe, acho que a senhora não está bem- Âmbar me segurou com o semblante preocupado- Acho melhor nós descermos e entramos logo. Você não parece legal desde que saímos de casa.

Minha filha me ajudou a descer os degraus que conduziam até a areia quente, dando uma nova vista para o mar imenso e azul. O barulho das ondas ecoando em meus ouvidos me fazia pensar em muitas coisas. Coisas que ao subir as escadarias da casa de vovó a muito tempo eu não queria pensar.

Respirei fundo esticando o peito mais alto que podia, soltando em seguida todo ar pra fora.

***

- Esse lugar é incrível.- confessou Âmbar após volta da varanda frenética.

Eu não disse nada, apenas esforcei um sorriso, sentada no sofá da sala, admirando a vista do mar tomando um delicioso café.

- Depois eu vou querer dar um pulo lá na praia.- disse ela com euforia.

- Depois que terminamos as coisas aqui, você pode fazer o que quiser.

- É sério?- seus olhos se arregalaram sem acreditar.

- Só lembre que não ficaremos muito tempo aqui... É só questão de deixarmos tudo resolvido e voltamos logo para casa.

- Eu sei... Mas até lá acho que dá tempo de eu dar um mergulhinho no mar.- fecha um olho olhando de relance para as águas do outro lado da janela.

Toco seu rosto sorrindo por fora mais com um enorme aperto dentro do peito.

Não tem como negar que minha filha puxou tanto eu quanto o avô. E que é impossível alguém resistir às águas do mar de Malibu. Não a julgo por isso... No entanto, a vontade que tenho de sair daqui o mais rápido do que cheguei não sai de dentro de mim. Com medo do que poderei encontrar se ficar mais um segundo sequer aqui.

***

E aí batatinhas. Tudo bom?

Que capitulo emocionante não é não? Mas me digam o que vocês acham e esperam desse capítulo. Quero muito saber dos comentários de vocês.

Também não esqueçam de votar clicando ali na estrelinha. Um forte abraço e um beijo. E até a próxima.

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