único

Kuroo estava nas nuvens quando notou que estava apaixonado pelo garoto loirinho extremamente tímido com quem conversava em seus treinos de vôlei as vezes quando Kenma se permitia dizer algumas palavras.

O maior também notou que a maneira de Kenma o observar era diferente dos outros rapazes do time, ele era especial de alguma forma para o coração que batia dentro de seu peito. Desde o começo eles já sabiam que iam muito além de uma simples amizade.

Mas quando saiu o primeiro beijo o mundinho de Kuroo se transformou completamente. Ele tinha uma fama ruim pelo colégio de ficar com todo mundo que surgia e não queria que Kenma, alguém tão diferente de si, fosse sugado para essa parte caótica que o maior possuía.

Ao contrário do que Tetsuro acreditou que fosse acontecer, o menor gostou desse tipo de contato e a partir de então passaram a ficar mais tempo juntos pelo colégio. Seja com o pessoal do time, dois amigos que tinham em comum ou então simplesmente sozinhos tomando sol entre os intervalos das aulas.

Era gostoso esse tipo de relação que eles tinham. Era leve e cheio de piadas bobas além de terem a companhia um do outro para tudo o que fazia, não importa onde era, desde a ida no mercado até mesmo uma viagem para treinar com outros times, tudo era feito juntos.

Se Kenma saísse sozinho para ter uma tarde de vídeo game com Hinata, ele fazia questão de divagar sobre Kuroo para o ruivinho que apenas escutava sabendo que isso era a melhor coisa que ele faria pela amizade que tinham.

O loirinho era ótimo em elencar todos os sentimentos que sentia pelo maior e principalmente, a maneira como se sentia seguro e amado quando estava dividindo algum pensamento complicado com o namorado. Certamente era isso que os unia ainda mais e não apenas por serem o primeiro namoro sério um do outro.

Eles estavam tendo várias primeiras vezes entre eles, mas mesmo que não fosse oficial como o primeiro beijo ou o primeiro jantar a luz de velas, de certa forma, era a primeira vez que Kuroo fazia tais atos sentindo o amor, sentindo que estava se dedicando a pessoa certa e não apenas para suprir algum vazio dentro de si.

Com Kenma tudo era diferente. Até mesmo esperar que Kozume pensasse no que responder era diferente de todas as outras pessoas com que Kuroo já havia se relacionado, era algo muito estranho se sentir tão bem e pela primeira vez, sentir que estava caminhando na direção certa.

Às vezes, tarde da noite, eles chegavam a falar sobre sonhos em comum que tinham e a vontade que acendia no coração deles de conseguir realizar em algum momento nos próximos anos. Sendo um deles o de começar uma família, de gerar um filho e poder nutrir todo um amor especial por aquele pequeno serzinho que nem ao menos conheciam até então.

Falavam sobre como seria o casamento deles, como seria ir ao altar sendo acompanhados por um casal de amigos muito especial, Bokuto e Akaashi, e sobre a escolha das flores que teriam ao redor, a prova dos doces e as músicas que iriam escolher para a entrada. Até mesmo a escolha de padrinhos tentavam definir com anos de antecedência.

Mas quando completavam seis anos juntos as coisas começaram a ficar mais complicadas e uma nova leva de primeira vez estava novamente entre o casal, dessa vez de lutas e batalhas na vida pessoal de cada um e agora como adultos responsáveis por eles mesmos ao invés de meros adolescentes estudantes.

Kuroo era dono de uma empresa de marketing digital e Kenma era a cabeça de tudo. Amando falar sobre investimentos, como engajar novos públicos e até mesmo formas diferentes de apresentar algum novo produto que estavam produzindo para pessoas idosas.

Todos da empresa sabiam que a dinâmica do casal era algo que deveria ser muito respeitada, mas quando Kenma começa a passar mal durante as reuniões e Bokuto se vê obrigado a carregá-lo até o hospital próximo dali, o medo havia se instalado no coração de cada um que estava ali.

Kuroo sentiu pela primeira vez o medo irracional de ter que deixar Kenma partir enquanto estava andando de um lado para o outro na sala de espera com os olhos preocupados de Akaashi e Kageyama sobre si. Temia que seu próprio corpo não suportasse a ideia de vê-lo em uma cama de hospital.

Mas foi quando Oikawa indicou que Kuroo entrasse na área restrita para conversarem melhor, o mundo de Tetsuro pareceu cair sobre seus ombros. Estava em choque por vê-lo ali, isso era um fato, porém sabia que para um médico chamar o acompanhante dessa forma, era algo péssimo acontecendo.

— Ei! — Kageyama gritou chamando a atenção do médico. — Não ouse machucar esses dois.

— Não acho que a minha função seja essa, Tobio. — Oikawa respondeu simplista levando Kuroo para dentro.

As palavras, as datas e as consequências da conversa que teve com o médico de seu marido ficaram completamente nubladas a partir do momento em que escutou algo sobre estágio terminal, gravidez e tratamento paliativo. Tetsuro apenas se entregou a dor que dominou seu peito agarrando a região com tamanha força que o médico podia jurar que Kuroo estava infartando diante de si.

Tetsuro ficou algumas horas em observação, curiosamente, no mesmo quarto que Kenma, os dois não conversaram nos primeiros dias como uma forma de tentarem, pela primeira vez, traçar um plano sobre como iriam vencer o impossível naquele momento, como iriam lutar contra algo que estava fadado a acontecer sem que pudessem mudar a realidade.

Parte de Kenma estava realizada em poder realizar seu sonho de gerar uma vida, estava de quase quatro meses e com isso em pouco tempo conseguiria saber o sexo do bebê, sentiria os primeiros chutinhos, iria comprar as primeiras roupinhas e talvez até montar o quartinhos para o bebê, mas a outra estava devastada em saber que seu tempo estava contato.

Não deveria ser assim, não foi assim que ele sonhou e pediu para acontecer. Talvez se tivesse pedido um pouco mais ou até mesmo rezado para que a sua vida continuasse pelo caminho que estava, isso nunca iria ter acontecido, mas ele nunca saberia de fato como as coisas iriam acontecer e com isso não iria ver como o amor de Kuroo por si era tão intenso e poderoso.

Tetsuro se provou ter sido o melhor marido que Kenma podia ter escolhido. Ele foi a maior base de apoio e segurança, tentando deixar as coisas mais leves e criando uma atmosfera especial para que o bebê deles não sentissem toda a situação complicada que estavam vivendo na reta final da vida de Kozume.

Os amigos faziam questão de estar por perto, acolher e brincar com o loirinho. Amavam ficar por perto de Kenma, cozinhar para ele, conversar sobre o mundo do vôlei e suas evoluções além de Oikawa fazer vídeos para perguntar de Kenma e até mesmo para ficarem próximos nesse tempo longe do hospital.

O corpo de Kenma estava cada vez mais fraco conforme o tempo passava, ele sentia dores com frequência ainda mais intensas e temia não conseguir ao menos segurar até a trigésima sétima semana, onde teoricamente, era mais seguro poder fazer uma cesárea de emergência e dar um pouco de descanso a todo o seu corpo que estava terrivelmente sobrecarregado.

Foi Hinata quem contou sobre como Tetsuro estava se sentindo em relação a esses últimos meses que viveram enquanto fazia crochê com Kenma em um dia particularmente bom em relação às dores e a disposição que Kozume estava tendo e pela primeira vez o loirinho notou que de fato havia vencido na vida. Não somente em relação a toda proteção que tinha em relação ao marido, mas em como ele era tão guerreiro com as próprias dores que sentia.

Tarde da noite nesse mesmo dia, Kuroo se permitiu desabafar sobre como não via a mesma vida sem Kenma ao seu lado, sem tê-lo por perto, sem poder abraçá-lo em dias tempestuosos como Tetsuro amava fazer para acolher o loirinho de seu medo, ou até mesmo quando compartilhavam a banheira ficando longos minutos trocando massagens e falando sobre possíveis cenários para viverem em algum momento.

O maior nunca havia chorado tanto na frente de Kenma que chegava a ser assustador, foi a primeira vez que o viu tão quebrado assim. Também havia sido a primeira vez que abraçou o corpinho delicado de Kenma com força implorando entre sussurros para que a parte dos dias contados fosse um sonho ruim e que quando acordassem apenas teriam a linda família que sonharam ainda quando jovens.

A tempestade caia sem piedade alguma do lado de fora do pequeno apartamento que dividiam e Kenma não sentiu medo dos barulhos causados pela chuva, não temeu que um raio os atingissem e tão pouco que a energia acabasse, mas sim temeu pela vida do seu bebê quando uma dor dilacerante irrompeu pelo seu baixo ventre seguido pela sensação de algo quente e em grande quantidade atingir a região das suas pernas. Com o ar indo embora de forma repentina, Tetsuro sabia que tinha que levá-lo rapidamente para o hospital ou tudo acabaria ainda pior do que já estava.

O loirinho estava perdido entre as dores que pareciam navegar por todo o seu corpo, tentar respirar da melhor forma que podia e a sensação úmida aumentar cada vez mais na sua perna. Ele sabia que aquilo era uma hemorragia e a fraqueza que o dominava tornava a situação ainda mais complicada do que já estava. A vontade de fazer força como seu corpo mandava e a voz do seu médico dizendo que em hipótese alguma deveria ter um parto normal devido o alto risco que Kenma corria pelo seu corpo já estar muito abatido para lidar com isso, tornava cada minuto ainda mais lento do que deveria.

Via em Kuroo todo o desespero e pavor que o dominava ao mesmo tempo que esse dirigia ou melhor, corria pela estrada, dizendo algo sobre como estavam próximos e que tudo ficaria bem quando fossem atendidos por Oikawa. O primeiro e único filho deles estavam para nascer e como consequência isso podia tirar para sempre seu primeiro amor verdadeiro, sua primeira razão de viver e aquele que fez todo o impossível para mudar seu coração e até mesmo a sua forma de pensar. Kenma havia sido e ainda é o maior divisor de água na vida de Tetsuro.

O maior não teve tempo de chegar ao hospital com o marido, afinal Kenma implorou por ajuda uma vez que sentia algo de errado acontecendo. Kuroo se obrigou a ligar para Bokuto e o médico que se aprontaram para chegarem ao local o mais rápido possível em uma tentativa urgente de tentarem ajudar a salvar a vida de Kenma que estava por um fio. Ele tremia de maneira descontrolada, deixando que as lágrimas escapassem ao mesmo tempo que seu corpo tentava fazer a expulsão do bebê.

Foi naquele momento que tudo se tornou, como no dia que recebeu o diagnóstico de Kenma, um intenso borrão. Kuroo não sabe ao certo como que o bebê, em questão de alguns minutos, chorava a pleno pulmões foi colocado diretamente no peito de Kenma que sorria ao vê-lo ali, bem e saudável.  Seu corpo estava tão fraco que mal tinha forças para segurar seu próprio bebê, então, seu marido o auxiliava com isso. Estavam estacionados no meio do nada, com uma tempestade caindo sobre eles, mas por um momento foram dominados pela felicidade de trazerem a filha deles ao mundo.

A menininha tinha as mãozinhas agarradas a camisa de Kenma com força, Kuroo espalhava beijinhos suaves pelos fios loiros do marido enquanto sussurrava sobre o quão forte ele havia sido, mas então o corpo de Kozume passou a tremer violentamente novamente obrigando o maior a retirar a bebê de cima do peito alheio sem saber ao certo se tentava socorrer Kenma da convulsão que estava sofrendo ou a filha deles que chorava em pura agonia ficando completamente arroxeada conforme seu choro ficava ainda mais alto.

E a escuridão rodeou Kuroo de uma única vez, não ceifando a vida apenas de Kenma e a menininha recém nascida deles, como também acabando com tudo o que ele possuía de precioso na fase da terra. Não aguentava ir para casa sozinho sem ter seu primeiro amor e a primeira filha, então, pela última vez após longos dias chorando dentro do maldito cemitério onde deixou metade sua familia após o enterro das duas pessoas mais importantes para ele, Tetsuro se permitiu dormir para sempre em uma tentativa de encontrar a sua família e viver uma vida como tanto sonhou com eles desde a adolescência.

Ele não havia considerado a ideia de como seus amigos iriam ficar tão devastados com mais uma perda que ficariam meses sem ter nenhum contato entre eles como nunca ocorreu em tanto tempo e pela primeira vez eles brigaram sério tentando, inutilmente, achar um culpado por tantas mortes dolorosas em um curto período de tempo. Era claro que o enterro, dessa vez de Bokuto por ser o que mais se culpou apesar do próprio marido ser a prova viva de que não era assim, ceifou a vida unida que todos tinham.

Foi ali a última vez de todos juntos ao menos em uma tentativa de que todos continuassem vivos.

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