Capítulo 8

Minutos mais tarde escutei minha mãe gritar na porta dos fundos para meu irmão que fazia sopa e que eu estava ali. Logo ouvi os gritos de Isa e Duda pelo quintal. Elas apareceram, já de pijama, em seguida, vindo correndo em minha direção.

— Tio Ique! – gritaram pela sala.

— Baixinhas! – As abracei apertado, sem conseguir pensar que em breve eu poderia ter uma garotinha como aquelas que me chamaria de pai. Provavelmente teria os mesmos cabelos crespos e claros, talvez até mais claros, já que Andressa era bem loura.

Senti um nó na garganta e meus olhos ficaram molhados, mas controlei minhas emoções, como sempre fiz, e passei um tempo com minhas sobrinhas, tentando esquecer o que estava acontecendo em minha vida e me divertindo. Isa era a mais velha e acabava sempre traduzindo o que a irmã de quatro anos dizia, embora já desse para entender bem suas palavras.

Foi só depois que terminamos de comer que consegui ter coragem para dizer alguma coisa. Estavam todos em silêncio, as meninas haviam ido olhar televisão na sala e só os adultos permaneciam na mesa.

— Preciso contar uma coisa. – Suspirei, tomando coragem.

Todos os olhos se voltaram para mim, o que fez meu coração martelar ainda mais forte dentro do peito. Sabia que não haveria julgamentos, era algo que acontecia. Aconteceu com Gustavo e Isabel, não era algo novo na família.

— Vocês vão ter mais um neto – anunciei, sem pensar muito.

Os quatro continuaram me encarando em silêncio. Pareciam não haver entendido minhas palavras.

— Eu vou ter um filho.

— Vai comprar um cachorro? – meu pai zombou.

— Ou um gato? – implicou meu irmão. – Você tem muita cara de ser o tio dos gatos.

— É sério isso, Ique? – perguntou Isabel. – A Fê...?

Eu balancei a cabeça em negação, baixando os olhos para meu prato sujo de sopa. Mordi minha boca, tentando controlar o desejo de sair correndo ou dizer que era apenas uma brincadeira. Contudo, eles descobririam a verdade em algum momento, então era besteira esperar.

— Então quem? – Guto quis saber, parecendo começar a acreditar.

Eu os encarei por um instante antes de dizer:

— A Andressa, amiga da Cá.

Gustavo começou a rir, mas ninguém mais parecia entender a graça além de nós dois. Parecia mesmo uma piada, eu nem poderia culpá-lo. Meus pais provavelmente não se lembravam dela e com toda certeza não recordavam de minha adoração sem sentido pela garotinha que não me suportava.

— A Andressa do "eu vou me casar com ela quando crescer"?

Senti todo o sangue subir para meu rosto ao lembrar daquela frase. Eu tinha apenas oito anos e achava mesmo que depois de dois encontros malsucedidos, o primeiro, em que a empurrara do balanço, e o segundo, em que puxara seu cabelo e recebera um murro no rosto, ainda poderia fazer com que a menininha loira me olhasse de outra maneira que não fosse com raiva. Eu estava ansioso para o aniversário de sete anos de minha prima e minha mãe pareceu notar minha agitação dentro do carro.

— Você é sempre tão calmo, Henrique. Por que está assim tão empolgado com essa festa?

Eu pulava no banco de trás, entre meus irmãos, deixando-os com raiva. Já havia recebido uns quantos empurrões, mas não me importei.

— Não tem nada a ver com a Cá e tudo a ver com aquela amiguinha dela, mãe – explicou Gustavo, que, ao que tudo indica, era muito mais perspicaz que ela.

— Não é não! – gritei, dando um soco em seu peito.

— É sim, seu bocó! – ele respondeu, segurando meu braço com força.

— Parem vocês dois – pediu minha mãe, virando para nos encarar. – Senta de uma vez, Henrique. Ou eu vou voltar e deixar você em casa.

Finalmente me sentei no meio, emburrado. Perder a festa não estava em meus planos.

— O Henrique gosta da loirinha, mãe – falou Gustavo.

— Mãe! – choraminguei, enquanto meus irmãos riam de minha cara.

Minha mãe pareceu dar uma risadinha.

— Ela é muita areia para o seu caminhãozinho, bocó – implicou Ricardo, que estava há horas mal-humorado por ter que ir na festa ao invés de sair com os amigos.

— Cala a boca!

— Henrique, isso são modos?!! – Minha mãe se virou para trás, me olhando com fúria e me fazendo ficar quieto.

Alguns instantes depois, o silêncio foi quebrado pela voz de meu progenitor.

— Ela é bem bonita, né, Ique?

Eu sorri, encabulado, confirmando todas as suspeitas. Embalado pela fala de meu pai, mesmo contra todas as possibilidades, resolvi dizer a frase que me atormentaria por muitos anos:

— Vou me casar com ela quando crescer.

Arrependi-me de ter aberto minha boca grande assim que terminei de falar e uma explosão de risadas preencheu o carro. Fiquei completamente vermelho, de raiva e de vergonha. Como eu poderia saber que aquela possibilidade era tão absurda para eles? Na minha cabeça, isso era mais do que normal, nós crescíamos e nos casávamos com as pessoas que mais gostássemos (que, naquela época, eu pensava ser apenas alguém que achasse bonito). Prometi, naquele instante, nunca mais revelar meus sentimentos a ninguém, morrendo de medo de sofrer mais brincadeiras de meus irmãos do que já sofria normalmente.

Mesmo assim, teria que ouvir aquela frase por muito tempo depois. Gustavo parecia saber que, ainda que tivessem três anos desde que a dissera, eu só pedira para mudar de escola no sexto ano porque queria estar perto de Andressa e não de Carolina, como insistira com meus pais. Inventei que sofria bullying em minha antiga escola e que os professores eram muito ruins, por ser pública, até convencê-los de me matricular na nova. Eles provavelmente só o fizeram porque Ricardo havia ido embora para São Paulo e Gustavo não tinha a menor vocação para entrar em uma universidade nos próximos anos. Eu era o filho prodígio, o que gostava de estudar e que valeria o risco daquele investimento.

— Você não pode estar falando sério! – disse Gustavo, depois de rir muito, a ponto de chegar a lacrimejar. – A Andressa que fez você trocar de escola?

— Não foi por causa dela – contestei, irritado. Ele era sempre um imbecil. Parecia achar que eu é que era uma piada.

Poderia dizer várias verdades para meu irmão, como o fato de que ele estava cada dia mais gordo e até ficando careca, que não tinha a menor vontade de crescer na vida, achando que a vida de gerente de loja de móveis e eletrodomésticos era suficiente e se aproveitando de todo o esforço que sua esposa fazia para gerenciar um salão de beleza sozinha. No entanto, me mantive calado, guardando meus pensamentos apenas para mim.

— Bom, filho, parabéns – disse meu pai, sério. – O que mais você esperava que a gente dissesse?

— Vocês estão namorando, Henrique? Não quer trazer ela aqui amanhã pra almoçar? – sugeriu minha mãe.

— Não, mãe, a gente não tá junto, ok? Ela não vai vir aqui.

Depois disso foi um Deus nos acuda. Parecia que finalmente haviam aceitado o fato de que realmente eu teria um filho. Cada um fazia um questionamento diferente que nem sabia explicar. De quantas semanas ela estava, como se sentia, se tivera enjoo, se já pensara em nomes, etc. Depois começaram a fazer mil planos e até minhas sobrinhas acharam aquilo divertido, apenas eu que me mantinha quieto, só escutando e respondendo monossilabicamente. Saí de lá mais tonto e confuso do que havia chegado. Eles superaram meu melhor amigo no número de perguntas.

Ao voltar para casa, tudo aquilo que havia escutado na casa de meus pais voava em meus pensamentos como um bando de pássaros em direção ao verão, quase me deixando maluco. Por sorte Matheus resolveu me deixar em paz. Ele sabia que quando eu não queria falar, não tinha mais nada o que fazer e provavelmente era por isso que ainda éramos amigos, porque ele sabia quando ficar na dele.

Passei o domingo todo em meu quarto, tentando tirar aquele filho da cabeça enquanto me dividia entre comer, jogar online, assistir o futebol ou alguma série na televisão. Logicamente não foi o suficiente e tive que me convencer de que precisava tomar coragem para ligar para Andressa e conversar melhor sobre o que se passava conosco. Contudo, eu a imaginava chorando em todas as vezes, como havia acontecido na casa de Igor e Carolina. Sua imagem triste e desamparada havia me deixado muito chocado e não queria ter que presenciar aquela cena outra vez. Assim, decidi apenas enviar uma mensagem com todas as perguntas, estas que antes anotei em um papel para não esquecer de nenhuma: se já havia ido ao médico, se fizera algum exame, esse tipo de coisa.

A cada resposta dela, outras perguntas surgiam e assim ficamos alguns dias trocando mensagens, sem nenhuma briga, sem nenhuma piadinha, nada de errado. Era como se nunca tivéssemos discutido na vida, o que me deixou bastante tranquilo. Pensei que isso era um bom indício de que tudo podia funcionar. A única questão que não havia confirmado era sobre já ter marcado uma consulta com um obstetra. Ela parecia sempre desviar do assunto, o que, com o tempo, começou a me deixar preocupado. E se aquela maluca acabasse perdendo a criança por não se cuidar direito?

Então passei a insistir mais ainda e confesso que acabei sendo um pouco grosseiro. Posso até ter dito que ela seria uma péssima mãe, mas eu estava nervoso na hora e acabei me alterando. Logo quando me acostumava com a ideia, Andressa vinha acabar com minhas expectativas!

Para tentar amenizar, perguntei se não queria uma indicação de médico, que eu teria que perguntar a Isabel, porque eu sequer conhecia um. Ela finalmente respondeu que já tinha e que havia marcado uma hora. Claro que tive que pedir para me dizer quando e onde seria, porque queria ter certeza de que era verdade e que a demônia apareceria. Do jeito como ela falava, não parecia estar nem um pouco empolgada com o bebê. Eu até a entendia, não era como se eu mesmo estivesse soltando fogos com notícia. Como o tempo, tinha certeza, mudaria de ideia.

No dia da consulta, avisei a Carina, minha superiora, que precisava ir ao médico, sem entrar em detalhes, pois ninguém mais precisava saber sobre o que estava acontecendo em minha vida privada, e fui até o endereço indicado por Andressa. Ela não pareceu nada contente em me ver na sala de espera, o que era um absurdo. Afinal, por que razão havia me contado tudo se não queria que eu fosse? Além disso, eu era o pai, também queria saber como o bebê estava.

— O que você tá fazendo aqui?

Lancei um olhar para a secretária, que parecia absorta, com a cabeça baixa, sem nem prestar atenção ao que falávamos, embora a sala fosse bem pequena. Andressa não precisava ser tão arrogante, mas ela parecia não conseguir ser agradável nem se quisesse.

— Vim pra consulta – sussurrei, incomodado. – Você levou uma vida para marcar um horário. Quis ter certeza de que viria e que faria tudo que a médica solicitasse.

— Bem a sua cara mesmo – gracejou, contorcendo os lábios e nariz.

Ela se dirigiu ao balcão de atendimento e voltei a me sentar enquanto ela fazia seu cadastro. Logo depois, voltou para me ofender mais um pouco. Não era à toa que a chamava de demônia em minha mente, não havia nada de bom por trás daqueles olhos azuis. Aquela fachada de mulher linda não me enganava mais.

— Você é um ridículo. Eu sei me cuidar, se quer saber. Já sou bem grandinha.

— Pois não pareceu – comecei a dizer, mas fui logo interrompido pela secretária, que chamava Andressa para a consulta.

A teria acompanhado, mas fui surpreendido:

— Você fique aqui. Quando ou se eu quiser, peço pra te chamar.

Juro que por um instante não ignorei o fato de que ela carregava meu filho no ventre e a joguei pela janela, mas pensei que então eu nem teria a oportunidade de entrar na consulta. Suspirei fundo e voltei a me sentar, com cara de tacho. Cheguei a contar até cinquenta tentando controlar a ira que aquela mulher despertava dentro de mim. Se ela achava que criaria aquele filho sozinha, estava muito enganada. Se queria mesmo me impedir, que nunca tivesse me contado sobre a gravidez. Agora era tarde, eu já havia internalizado a ideia de que seria pai e nada no mundo me tiraria aquela criança.

Cheguei a imaginar que só veria Andressa no final do atendimento, quando saísse apenas com a requisição dos exames. Todavia, depois de alguns minutos folheando uma revista muito interessante sobre gestantes, a secretária da médica me chamou para que entrasse e visse a ultrassonografia. Senti o choque do nervosismo dominar meu estômago ao constatar que veria de verdade se havia algo dentro da loira. E não estou falando do fato de ela ter um vazio no lugar do coração, algo que disse a ela várias vezes na vida.

Pensei que seria como em todos os filmes, com aquele gelzinho na barriga, mas ao entrar na salinha escura, me deparei com a mãe de meu filho vestindo um avental de tecido com as pernas abertas e erguidas, o que me deixou pouquíssimo à vontade. Me lembrava muito com outras cenas que eu preferia apagar de minha memória mas que não estava tendo sucesso em fazer.

Com certo esforço de minha parte, resolvi me aproximar, parando bem ao lado da cama onde a demônia estava deitada.

— Você pode sentir algum desconforto, mas isso é normal. – disse a médica, inserindo o aparelho em Andressa – Vamos ver...

Depois de mexer um pouco a câmera, uma imagem de uma bolinha mais escura apareceu na dela. Dentro dela aparecia um pontinho branco, que, dizia a obstetra, era nosso filho. Era tão pequeno que mais parecia um feijão. Não parecia em nada com uma criança, mas ela mostrou o tamanho e o suposto tempo de gestação. Isso até me confundiu um pouquinho, porque dava duas semanas antes do meu encontro com Andressa. Eu já ia dizer alguma merda como que aquele filho era do ex dela e não meu quando a doutora, vendo meu olhar espantado, explicou que se contava desde a última menstruação, o que, sinceramente, não fazia sentido, mas achei melhor não responder.

Só após apertar em um botão na tela é que pudemos ouvir um ruído de batidas rápidas e constantes.

— Isso já é o coração? Tão rápido?! – perguntei, sem acreditar que era mesmo real. Eu teria um filho! Com Andressa, mas teria. Parecia tão louco, mas incrivelmente bom. Quando notei, eu estava sorrindo, sem conseguir segurar minha emoção depois de tantos anos me controlando em frente à demônia de olho azul.

Não é possível que seja só eu me apaixonando por esse Henrique fofo! O que acharam dele criança apaixonado pela Andressa e agora morrendo de ódio dela?

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