Capítulo 7
Ficamos um bom tempo naquela posição, Andressa com o rosto em meu ombro, chorando baixo, e eu segurando minhas próprias lágrimas, sem acreditar na merda que havíamos feito. Eu seria pai. Pai! Meu Deus! Pai!
Ainda esperava que fosse uma pegadinha, que estivéssemos naquela realidade alternativa maluca, mas não era o caso. Era real. Eu teria mesmo um filho com a demônia de olho azul. Teria que aguentar seus gritos, seu sarcasmo, seus olhares cortantes e sua mania de achar que era sempre melhor em tudo. Pior do que isso, teria que suportar aquela maldita atração que tinha por ela.
— Você achou tão ruim assim a ideia de ter um filho meu? – a pergunta saltou de minha boca sem que pudesse antes pensar.
Tinha plena ciência de seu ódio por mim, porém esperava que no fundo Andressa soubesse que eu não era uma pessoa ruim e que poderia sim ser um bom pai. Eu não deixaria faltar nada ao meu filho e faria de tudo para amar aquela criança como se tivesse sido planejada. Além disso, faria o possível para não discutir com sua mãe de forma que nunca soubesse que um dia havíamos nos detestado. Tentaria mudar minha maneira de falar e agir com ela, tentaria ser alguém melhor. Quem sabe um dia não acabássemos nos dando bem?
Ela ouviu meu questionamento e se afastou para me encarar. Ainda limpou o rosto e os olhos com os longos dedos antes de me responder:
— Não queria que o pai do meu filho me odiasse – choramingou, com uma voz fraca, quase infantil.
Minha boca involuntariamente se curvou e precisei de muita força para segurar aquele sorriso. Por muito tempo a quis em meus braços daquela maneira, entregue, indefesa, mas nunca pensei que seria daquele jeito.
— É claro que não odeio, Andressa – discordei, embora não tivesse realmente certeza do que sentia por ela. – A gente pode fazer isso funcionar, não pode?
A loira assentiu e logo fomos despertados pelo barulho da chave na porta do apartamento, indicando que aqueles dois dementes e péssimos atores haviam finalmente voltado. No susto, soltei-a de meus braços, me afastando. Estava tão desconsertado que não sabia reagir de outra maneira.
— Se acertaram? – perguntou Carolina assim que abriu a porta.
Depois disso apenas escutei enquanto minha prima e o namorado falavam empolgados sobre o bebê que chegaria, sem se importar com o fato de que tanto eu quando Andressa estávamos em frangalhos. Não prestei atenção a nada do que diziam. Queria ficar sozinho, refletir sobre o que fazer a seguir. Precisava refazer todos os meus planos para o futuro. Aquela ideia maluca de ir para Curitiba atrás de Fernanda talvez não fosse a melhor naquele momento. Talvez nunca tivesse sido.
Também precisava mudar minhas atitudes em relação à mãe de meu filho. Ou filha. Eu não conseguia parar de pensar em como seria ter uma menininha que se parecesse com aquela boneca de cabelos e olhos claros que era Andressa quando nos conhecemos, como eram Duda e Isa, as filhas de Gustavo. Será que ela seria assim tão turrona e sem papas na língua como Andressa? Ou herdaria meu gênio?
— Acho que já vou indo. – disse a loira depois de algum tempo naquela discussão. – Foi um prazer fazer parte dessa espécie de intervenção.
Desperto por suas palavras, imediatamente me levantei para ir embora também. Perguntei, por educação, se queria uma carona, embora esperasse sua recusa. Não estava com cabeça para ser simpático depois de tudo. Ela, graças aos céus, não aceitou, pedindo logo um carro por aplicativo.
Descemos as escadas com nossos amigos nos acompanhando e logo entrei em meu carro, depois de me despedir de todos com um leve aceno. Não tenho certeza de como cheguei em casa. Estava no automático e assim fiquei até o dia seguinte, quase sem pregar os olhos durante a noite. Não me dei conta de como estava estranho até que Matheus me jogou o controle remoto da televisão e por pouco não acertou meu rosto.
— Tá dormindo ainda, seu lesado?
Eu o encarei, confuso. Levei um tempo para entender o que era aquilo em minhas mãos e que meu café já havia esfriado na xícara. Ele continuava me fitando com um olhar divertido enquanto seguia até a cafeteira.
— O que você tem, hein? – ele insistiu, coçando a barba cheia. – Tá mais esquisito do que normalmente.
— Eu vou ser pai – respondi, sabe-se lá como. Acho que essa frase não parava de ser repetida em minha mente há pelo menos dez horas.
Matheus soltou uma gargalhada, sem acreditar em minhas palavras e encheu sua xícara em seguida. Ele ficaria ainda mais surpreso quando descobrisse com quem teria esse filho.
— Juuura. E eu vou ser a mãe – brincou, vindo em direção à mesa.
— Tô falando sério, cara. Não brincaria com uma coisa dessas.
— Cala boca, Henrique. Você mal sai de casa, como vai ter engravidado alguém? A não ser que... espera! – Ele se inclinou para frente na cadeira antes de continuar, com os olhos arregalados. – A Fernanda descobriu depois só agora que tá grávida?
Quem dera fosse assim tão simples. Isso resolveria muitos dos meus problemas.
— Eu não pretendia falar nada sobre isso, porque não tinha nada a ver... – comecei, antes que ele entendesse mais do que devia. – Mas naquela noite do aniversário do Igor... Você nem dormiu em casa, então não sabe, mas eu meio que passei a noite fora...
— Meio?
— Bem, certo, eu passei a noite toda fora.
— Ô, seu merda, você tá falando sério ou tá de sacanagem com a minha cara? Você passou mesmo a noite com uma gata? E pra piorar, ela tá grávida? Tá difícil acreditar nisso, hein? O Henrique que eu conheço nunca pegaria uma mulher sem estar bem preparado.
Dei de ombros, sem querer entrar em detalhes. Em algum momento ele teria que mudar de ideia.
— Mas foi, tipo, alguém conhecido ou você conheceu no Tinder? – Matheus quis saber, depois de beber alguns goles do café e começar a passar manteiga em um pedaço de pão.
Ora, Tinder. Meu amigo até havia me convencido a baixar o aplicativo com a promessa de que eu conheceria muitas garotas e me divertiria muito. Para ele poderia até funcionar muito, já que passava a maioria das noites fora. Mas isso para um cara que não tinha medo de ser ridículo e que era bastante comunicativo. Para mim a história era bem diferente. Mal tivera coragem de dar match, não queria mostrar de cara que estava interessado, o que era justamente o sentido do app. Imaginava que nenhuma mulher realmente interessante gostaria de alguém como eu. Além disso, só a ideia de que para namorar novamente eu teria que ficar mandando mensagenzinhas de bom dia e boa noite já me deixava revoltado. Preferia gastar meu tempo trabalhando, estudando ou jogando um pouco.
Achei melhor antes me acostumar com a ideia de que seria pai do que jogar logo a verdade, nua e crua, em seus ouvidos. Eu não tinha muita certeza se Matheus tinha mesmo superado o fato de que o impedira de ficar com Andressa na época do colégio. Na ocasião ele parecia bem apaixonado por ela, e vice-versa. Mas vê-los juntos só me fazia mal. Todas as vezes em que estavam por perto, eu e a demônia acabávamos implicando um com o outro. A situação foi tão séria que ela decidiu desistir, e meu amigo sabia que era por minha causa. Ficamos um tempo meio afastados, mas no fim fizemos as pazes e esquecemos de tudo. Ele nunca entendeu por que nos odiávamos tanto e continuaria sem entender.
— Ahm, nos encontramos no bar àquela noite – expliquei, sem entrar em detalhes novamente.
— Puta merda, Henrique! De todos os meus amigos, você seria o último que eu imaginaria tendo um filho fora de um relacionamento e sem nenhum planejamento. Mas conta aí, foi só aquela vez mesmo ou vocês andam se encontrando?
— Não – foi tudo o que respondi antes de levantar e levar minha louça suja para a pia, encerrando o assunto.
Ele continuou fazendo perguntas que eu apenas ignorei. Voltei para o meu quarto para dar uma pesquisada na internet. Precisava de mais informações sobre tudo o que estava acontecendo e o que Andressa esperava de mim.
A questão foi que, no meio de tantas informações, percebi que Andressa não tinha realmente me dito muita coisa sobre a gravidez. Não me mostrara o teste, não dissera o tempo, como se sentia, nada. Eu precisava de mais dados, não que não acreditasse nela, porque, por mais estranho que possa parecer, eu acreditava. Porém, não fazia ideia do seu número de telefone, já que não éramos próximos há mais de dez anos. Logo, me senti na obrigação de enviar uma mensagem para Carolina, que prontamente enviou o contato da amiga.
Não liguei para ela de imediato. Achei melhor digerir um pouco mais daquela ideia. Eu seria pai em, ao que tudo indicava, oito meses. Teria apenas esse tempo para decidir o que fazer de minha vida.
Sentia pela segunda vez em três meses que meu mundo ruía. No ano anterior, quando achava que tudo estava em perfeita sintonia, decidi que estava mais do que na hora de fazer um investimento dos mais arriscados. Coloquei todos os números no papel e resolvi que sairia de vez do apartamento de Matheus para ter meu imóvel próprio. A ideia era comprar um ainda na planta, usando do dinheiro que há anos guardava, e surpreender Fernanda com um pedido de casamento depois que tudo estivesse bem esquematizado. Eu sabia que ficaria extremamente nervoso, sabia também que ela ficaria doida se fizesse algo muito extravagante ou em público, então planejei algo simples, como levá-la até o local de nossa futura moradia e perguntar se queria morar comigo. Rápido e objetivo, como fora todo o nosso relacionamento.
Contudo, antes mesmo de escolher onde seria esse local, minha namorada resolveu revelar, sem derramar uma lágrima, que havia passado em um concurso federal lotada em Curitiba e que se mudaria para lá assim que estivesse tudo nos conformes, mais especificamente, dentro de trinta dias. Tentei argumentar, pedir que reconsiderasse, mas sabia que seria inútil, e ela simplesmente me deixou. Ainda passei aqueles dias todos até sua partida tentando fazê-la mudar de ideia quanto ao término, que poderíamos namorar à distância, que eu poderia tentar uma transferência para a mesma cidade. Eu a amava mais do que qualquer outra garota que tivesse passado em minha vida e queria construir todo meu futuro com ela. Dediquei cinco anos de minha juventude àquele relacionamento, errei algumas vezes, mas aprendi muito. Acreditei mesmo que Fernanda tivesse o mesmo tipo de sentimento por mim, porém estava equivocado. E levei muito tempo para encarar essa verdade.
Desejava saber o que de tão ruim havia feito para que a Fê tivesse me esquecido dessa forma. Ela me iludira, poderia ao menos ter dito isso antes de ter feito tantos planos. Ao menos não me sentiria tão magoado. Ou achava que não me sentiria. Sempre tive muita dificuldade em sair do caminho que havia traçado, e ter que começar tudo outra vez me deixava pra lá de ansioso.
Quando estava recém no início de uma nova caminhada, com algumas ideias para um novo planejamento, uma delas que incluía pedir transferência e ir atrás de minha ex-namorada, obrigando-a a me aceitar de volta, aquela diaba loira reaparecia como a maldita pedra de Carlos Drummond de Andrade, me fazendo ter que contorná-la. Agora eu teria mais alguns dados para inserir na minha planilha de gastos, como consultas, fraldas e brinquedos. Que inferno!
Maldita hora que resolvi ir naquele aniversário afogar meus dramas em álcool! Mas era tarde demais para reclamar de algo que eu era o maior culpado. Porcaria! Eu sentia meu corpo inteiro pedindo que fugisse para uma ilha paradisíaca no meio do Caribe, qualquer local em que pudesse ficar tranquilo e isolado, sem ter que aguentar meu melhor amigo o dia todo me perguntando sobre a mãe do meu futuro filho e contando para todo mundo.
Sem ter mais para onde ir, acabei indo parar na casa de meus pais.
— Oi, filho, o que tá fazendo aqui? – perguntou minha mãe quando cheguei lá sem ter avisado.
— Vim jantar – expliquei, aceitando seu abraço.
Ela me largou e entrei na casa, já sentindo o cheiro de sopa. Seguimos para dentro da sala, onde meu pai via o jornal na frente da televisão. Gustavo e minha cunhada Isabel não estavam lá com as meninas, mas sabia que logo iam aparecer, assim que soubessem de minha presença.
— Vou pôr mais água na sopa – minha mãe avisou.
— Como se ela já não fizesse para um batalhão – debochou meu pai. – E aí, Ique, estava entediado?
— Tipo isso – respondi, fazendo careta.
Ficamos algum tempo em silêncio, assistindo ao telejornal. Meus pais estavam aposentados e, por mais que tivessem meu irmão todos os dias, gostavam muito quando eu aparecia. Isso acontecia com frequência, eu gostava de visitá-los. Entretanto, naquele dia eu me sentia meio nervoso. Sentia que precisava dizer logo o que estava acontecendo, mas não sabia por onde começar.
Quem tá esperando pela reação da família dele?
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