Capítulo 6

Minhas lembranças, ainda que não tenham sido completas, começaram a aparecer por volta de uma semana depois do fatídico encontro com Andressa. Quando menos esperava, algum evento comum do meu dia, como derrubar um copo, subir uma escada ou ver um porta-retrato na casa de meus pais, fazia algum flash surgir em minha cabeça.

Tentava evitar pensar nessas memórias, mas era praticamente como tapar o sol com a peneira. Qualquer mulher com longos cabelos loiros que se parecesse um pouco com a demônia entrando no banco e indo em minha direção me deixava com o coração aos pulos. Eu quase temia por minha vida se ela finalmente percebesse que não havíamos nos protegido. É claro que sabia o quanto ela era esperta e ligada, então provavelmente estaria usando algum tipo de anticoncepcional, talvez até um DIU. Andressa nunca me pareceu alguém que quisesse correr riscos, e ter filhos certamente não estava em seus planos para um futuro recente.

No entanto, da mesma forma que acreditava fielmente nisso, ainda tinha muitos pensamentos pessimistas, imaginando que poderia ter me passado alguma doença venérea. Se seu ex a havia traído tantas vezes, eu não conseguia não pensar na possibilidade de que ela pudesse ter pegado alguma coisa dele e depois me passado. Por isso, comecei a olhar com mais atenção minhas partes íntimas a procura de alguma ferida. Qualquer coceirinha já me deixava alerto. Era ridículo ter esse tipo de pensamento, mas era prudente.

Assim que minhas emoções começaram a ficar normais e ela já não aparecia mais quase todas as noites em meus sonhos nem me fazia ficar excitado quando não deveria, Igor me chamou para ir a sua casa jantar. Não que não fosse comum visitá-los de tempos em tempos, mas achei bastante esquisito o fato de que não quisera convidar Matheus para ir junto. Imaginei que talvez eles tivessem algo para me contar que fosse segredo. Vindo daqueles dois, tudo era possível.

Cheguei todo sorridente ao apartamento, levando uma garrafa de vinho, à espera do que quer que tivessem para me contar. Estava contente, imaginando que seria algo como ser padrinho de casamento ou estarem esperando uma criança. Tinha três sobrinhos até então, um menino de Ricardo e duas meninas de Gustavo, que eram a minha felicidade. Meu irmão mais velho vivia em outro estado, embora o filho morasse ali na cidade, mas o do meio vivia com a família em uma casa no mesmo terreno de meus pais, por isso via minhas sobrinhas com mais frequência.

Eu adorava crianças. Sempre que possível as visitava e muitas vezes as levava para passear. Geralmente íamos apenas nós três, pois Fernanda sempre reclamava de já ter que passar grande parte de seus dias perto de um monte de pirralhos, evitando ao máximo ter que conviver com eles também aos finais de semana. Imaginava que falasse isso por ser realmente muito barulhento trabalhar em escola. Eu a tentava convencer, porém era muito difícil fazê-la aceitar. Sempre dizia que odiava aqueles programas, que não suportava as musiquinhas nem as gritarias. Acreditava que ela só não se sentia à vontade com minhas sobrinhas porque não eram parte de sua família, e que, quando fossem as nossas, se sentiria melhor e mais confortável. Eu pouco me importava com isso e aproveitava daqueles momentos para esquecer que era, na verdade, um adulto, cheio de problemas e contas para pagar.

O largo sorriso que esperava por boas notícias, entretanto, evaporou-se logo que percebi meu pior pesadelo em forma humana sentado no sofá da sala de minha prima. Andressa fingia que não me via, encarando as imagens da televisão ligada à sua frente. Seu rosto, porém, demonstrava o tamanho de seu mal-estar por ser também enganada pelos amigos sobre aquela noite.

Que merda é essa?!, pensei. Que porcaria ela faz aqui?!

Eu não sabia e tinha até medo de descobrir. Todavia, uma coisa pareceu me deixar um pouco mais calmo: a loira não estava com cara de quem queria comer meu fígado. Podia estar meio branca, um pouco desconfortável, sem nem me encarar, mas certamente não me olhava com aqueles olhos azuis pegando fogo, como todas as vezes em que brigamos. Isso devia ser algo bom. Ao menos sairia vivo daquele encontro.

Imaginei que, se não estava furiosa comigo, era porque provavelmente ainda não lembrava de tudo o que havíamos feito. Do contrário já teria me recebido com vários tapas. Isso me deixou um pouco melhor. Por outro lado, algo martelava insistentemente em minha cabeça: como controlar aquelas malditas memórias dali adiante e esquecer que conhecia cada parte do corpo por baixo daquelas roupas? Ela tinha um corpo perfeito demais para ser esquecido, mas eu não precisava ficar, além de ansioso e confuso, constrangido. A noite já parecia estranha demais.

— Lembra da Andressa, né, Ique? – perguntou Carolina, depois de me abraçar, como se realmente acreditasse que eu não fosse lembrar.

Tentei sorrir para ela, mas foi mais algo como um leve arquear de lábios. Não havia como ser simpático depois do que havia rolado entre nós. Ela tinha sido bastante enfática sobre esquecer de tudo o que havia se passado, além de ter se mostrado bastante enojada com a situação, quase como se eu fosse uma doença venérea.

— Eles se viram há pouco tempo, Cá – disse Igor. – Lembra, no meu aniversário, há um mês?

Puta que pariu!, gritou meu cérebro. Aquela frase despretensiosa me fez acessar imediatamente as imagens de Andressa em seu apartamento, sua pele macia, o sorriso diabólico, as risadas, os gemidos. Por dentro meu coração dava saltos acrobáticos querendo pular para fora de meu peito. Por fora, engoli em seco e tentei espantar os pensamentos. Precisava me manter calmo. Se não a encarasse muito, talvez conseguisse fingir que não havia mais ninguém ali.

Igor logo me ofereceu uma taça de vinho, que aceitei sem pestanejar. Azar que estivesse de carro. Bebi provavelmente a garrafa inteira sozinho enquanto minha prima e o namorado falavam sem parar. Tentei socializar da melhor forma, o que não sei se realmente consegui.

Depois de comermos a lasanha que Carolina havia feito, ela pareceu exaltada demais, falando sobre ter esquecido a sobremesa e precisar descer para buscar na padaria. Não entendi nada. Quando percebi, ela e Igor haviam saído porta afora, me deixando sozinho com Andressa no pequeno apartamento, completamente embasbacado.

Alguma coisa muito estranha estava acontecendo e eu tinha uma leve impressão de que tinha a ver com o que fizéramos quase um mês antes. Andressa não era uma mulher que ficasse tanto tempo calada. Aquele era o meu papel. Mesmo assim, ela passara grande parte do tempo respondendo apenas com um balançar de cabeça, fingindo beber o vinho, ainda que sua taça estivesse cheia desde o início.

A última vez que a vira assim tão quieta havia sido na vez em que eu tropeçara em uma pedra torta e lançara em seu vestido branco um pedaço de melancia madura, deixando-a furiosa. Ela achara que havia sido de propósito, mas eu apenas tentara ser gentil, seguindo a sugestão de minha mãe de oferecer alguma coisa a ela. Porém, desastrado como era, acabei metendo os pés pelas mãos.

Fiquei um bom tempo encarando a porta do apartamento como se fosse a obra de arte mais linda de um museu. Tinha consciência de que Andressa estava bem ao meu lado na mesa, exceto que não a podia ver por estar na sua frente em relação à saída. Não ouvia nem um suspiro.

Fazia anos que Carolina já havia desistido daquela ideia absurda de me juntar com sua melhor amiga. Por um bom tempo eu havia concordado silenciosamente com seu plano, fazendo tudo o que pedia, sem nunca admitir que gostava de Andressa mais do que demonstrava. Porém, quando finalmente me dei conta de que a loira não era nada do que eu supunha, que era mesmo muito mal educada, grosseira e psicopata, pus fim a todos nossos encontros, inventando todo tipo de desculpa para não ter que me aproximar dela. Desde então, minha prima desistira, compreendendo que não havia a menor chance de isso dar certo. Aí estava minha confusão sobre aquele jantar.

— O que foi isso? – questionei. – A Carolina continua tentando nos juntar depois de tantos anos?

A mulher ao meu lado continuava calada, o que era bem raro.

— Será que ela ainda não notou que não funcionaríamos juntos? – Me virei para Andressa, tentando me convencer que era tudo uma brincadeira de mau gosto. – Ela esqueceu de todas as vezes em que brigamos? Não estou entendendo nada. Por que ela voltou a fazer isso depois de tanto tempo?

Ela me encarava com as sobrancelhas baixas, parecia se sentir culpada pelo que estava acontecendo, o que não fazia o menor sentido. Tinha certeza de que Andressa não arquitetaria um encontro comigo de boa vontade, a não ser que estivesse ficando louca. O mais provável é que os dois estivessem mesmo planejando nos aproximar. Mas isso só seria possível se tivessem alguma ideia do que havíamos feito naquela noite.

— Você contou, não foi? – soltei, me sentindo contrariado. – Você deu com a língua nos dentes e contou o que aconteceu, não foi? E ela acha que porque estamos solteiros pode nos obrigar a alguma coisa?

Havíamos concordado com não contar a ninguém sobre aquilo. Eu mesmo não teria coragem de falar sobre aquilo em voz alta. Pensei mesmo que Andressa tivesse odiado tudo. Não conseguia entender por que abrira a boca justamente para Carolina e Igor, as criaturas mais insensatas que conhecia.

— E... e.... eu...

— Você concordou que ninguém podia saber de nada, Andressa! – gritei, me levantando da mesa.

Sentia que precisava me afastar daquela demônia o suficiente para não cair na tentação de esganá-la. Eu morreria antes de fazer com que aqueles dois desistissem de zoar a minha cara pelo que havia acontecido. Seríamos piada por um século, no mínimo: os dois quase inimigos que resolveram dar uma trégua para transar.

Virei para a janela atrás da mesa e me apoiei no vidro gelado, incapaz de encarar Andressa. Ela devia estar rindo da minha cara junto dos outros dois. Será que estavam gravando minha reação? Massageei a testa com a mão livre, sentindo um calor incomum subindo à minha cabeça. Sabia que a qualquer momento explodiria.

Contudo, a explosão pareceu retroceder quando escutei o que pareciam soluços. Voltei-me para o local de onde o ruído vinha e me deparei com a loira escondendo o rosto entre as mãos, toda encolhida. Meu coração acelerado pareceu ficar confuso e fora do ritmo por causa da cena. Nunca a vira chorar daquela forma. Fiquei tão desconcertado que nem sabia o que fazer ou pensar. Seria eu o causador daquele sofrimento ou era apenas mais uma parte do roteiro daquela pegadinha? Deveria me aproximar, dizer algo, tocá-la? Tinha a impressão de que qualquer coisa que fizesse pudesse ser usada contra mim mais tarde. Sempre havia sido dessa forma no passado, logo preferi me manter no meu canto.

Enquanto a observava, constrangido, algumas perguntas começaram a surgir em minha mente. Por que Andressa estaria fingindo chorar? E se fosse verdade, por que estava chorando na minha frente? E se não conseguia controlar suas emoções diante de mim, seria eu o causador de sua aflição? Não lembrava de alguma vez na vida ter dito ou feito algo suficientemente ruim para deixá-la assim tão mal. Além disso, os últimos anos haviam sido de quase completa paz. Não éramos mais dois adolescentes bobos e implicantes. Nossa última interação fora apenas no aniversário do Igor, mas não foi uma briga assim tão séria a ponto de fazê-la chorar quase um mês depois.

Com esses pensamentos, me peguei pensando na possibilidade mais que doida de que ela pudesse ter ficado tão abalada a ponto de não conseguir parar de pensar em mim naquelas semanas. Era loucura, eu sei, mas se eu mesmo pensara tanto nela, por que não poderia ter acontecido o contrário?

Essa ideia sem pé nem cabeça pareceu tomar forma em minha mente, me fazendo acreditar que Andressa tivesse mesmo esperado por alguma mensagem minha depois que saíra de seu apartamento, o que fez eu me sentir um pouquinho culpado. Eu era realmente péssimo em entender as mulheres. Por mais que fosse esquisito, ainda assim me pareceu plausível. Quer dizer, minha performance não poderia, de jeito algum, ser considerada ruim. Ainda mais para duas pessoas completamente alcoolizadas.

— Você não... – tentei dizer. – Isso... tem a ver com o que aconteceu entre nós? Você... ficou esperando que eu... te ligasse ou algo do tipo?

Ela levantou o rosto, agora vermelho, o que deixava seus olhos ainda mais azuis do que nunca, e me encarou, piscando.

— Você por acaso confundiu o que aconteceu? Você ficou esperando me encontrar de novo? – perguntei, incrédulo.

— O quê?! – ela disse, alto o bastante para saber que não havia gostado de minha sugestão. – Mas era só o que me faltava mesmo! Você só pode estar louco por imaginar que eu ia querer um repeteco!

Por mais que quisesse rir de suas palavras, dei um passo para trás, um pouco receoso de que ela começasse mais uma discussão daquelas do passado. Ali não havia ninguém para se meter no meio de nós dois, então era melhor não cutucar a onça com vara curta. A essa altura eu tinha certeza de que não era uma pegadinha.

— Então por que diabos tá chorando? – eu quis saber. – Por que nos convidaram para esse jantar? Por que nos deixaram sozinhos, Andressa? Se eles não sabem, por que...

— Porque eu tô grávida, porra! – me cortou.

Tudo que mais temia naquelas últimas semanas tinham a ver com a possibilidade de uma doença. Nunca, em nenhuma hipótese, achei que havia chances de ela engravidar. Caso contrário, teria dado um jeito de entrar em contato para que pudesse fazer alguma coisa, como usar uma pílula do dia seguinte. Afinal, ter essa ligação com Andressa não estava em meus planos.

O mundo pareceu sumir embaixo de meus pés. Me senti flutuando em algum lugar distante no que se parecia muito mais com o inferno do que com o céu. Não era possível que aquilo estivesse mesmo acontecendo. Andressa grávida! De um filho meu! Achei que a lasanha fosse voltar a qualquer momento.

Sempre gostei de crianças, isso é verdade. Poucos meses antes acreditava que em breve, antes dos trinta, poderia ter alguma correndo por minha casa. Essa ideia foi morrendo aos poucos quando Fernanda decidiu, por nós dois, que um relacionamento a distância estava fora de cogitação, me deixando sozinho e completamente sem respostas. Todavia, descobrir daquela maneira que em alguns meses seria pai de uma criança que certamente poderia nascer com aqueles mesmos olhos azuis que tanto me atormentaram no passado parecia mais com uma facada no meio do peito.

Eu poderia dizer muitas coisas a ela, mas nada se formava em minha cabeça. Então apenas balancei a cabeça para cima e para baixo, encarando a loira diante de mim sem outra alternativa, e, depois de um longo suspiro, falei:

— Ok.

— Isso é tudo que vai me dizer? – Ela se levantou e apoiou as mãos entre o encosto da cadeira e o vidro da mesa. – Você não vai gritar? Dizer que não é seu?

Era lógico que era meu. Eu não tinha a menor dúvida sobre isso. Lembrava de cada detalhe daquela noite como se tivesse sido horas antes. Sabia que era culpa minha. Sabia que para sempre Andressa jogaria na minha cara que eu era o culpado por aquele filho quando se lembrasse do que havíamos feito.

— Tenho certeza que não teria motivos para dizer que é meu – disse, depois de dar um passo à frente, imitando sua pose com a minha própria cadeira.

— Você não vai ficar furioso? Dizer que sou uma irresponsável, uma imbecil, uma vadia? – sugeriu. – Não vai exigir que eu aborte?

Era um absurdo ela sequer cogitar uma coisa dessas de mim. Andressa parecia tão perturbada com a situação que não me restava mais nada a não ser concordar com tudo. Qualquer coisa que dissesse poderia deixá-la pior. Tinha certeza que não seria fácil para mim, mais uma despesa, toda a questão de ter que conviver com a demônia outra vez, mas nada se comparava ao fato de era ela quem ficaria com a maior parte do problema.

— Por que eu faria isso? Imagino o quanto deve estar sendo difícil pra você aceitar que vai ter um filho. E mais difícil ainda vir até aqui para contar que é meu.

Minhas palavras, no entanto, surtiram um efeito contrário do que o planejado. Esperava confortá-la, fazê-la ver que estaria lá com ela, presente, no que precisasse. Ao invés disso, o que vi foi uma Andressa ainda mais abalada do que antes, tão frágil, tão mal. Nunca a tinha visto assim. Por mais que antes tivesse pensado em dizer muitas coisas horríveis, depois daquela notícia e de ver tantas lágrimas, eu mesmo estava a ponto de chorar.

O que faríamos dali em diante? Como seria nossas vidas agora que havia mais uma ligação entre nós do que apenas uma prima/melhor amiga? Um filho era algo para a vida toda.

Contudo, achei que Andressa não precisasse de alguém fraco diante de si. Ela precisava de força, que dissesse que tudo ia ficar bem, que não precisava se preocupar com nada, porque ela se sentia sozinha e desesperada. Assim, contornei minha cadeira e me sentei de frente para a loira, puxando-a para que se sentasse também

— Você não tá sozinha, Andressa – murmurei, com a voz embargada. – Vou estar com você. Vou assumir esse bebê, tá? Pode contar comigo.

Depois disso, a trouxe para perto de mim, em uma posição que me deixava extremamente desconfortável. Não me sentia à vontade com aquela proximidade, com seu calor, seu cheiro tão perto, mas sabia que era o que ela precisava. Não tinha muita certeza de onde colocar minhas mãos, de onde colocar minha cabeça. Ela, no entanto, não reclamou do contato e logo se aninhou em meu peito.

Poderiam existir mais Henriques no mundo, não? Tudo seria mais bonito.

O que acharam na reação dele com a notícia?

Ninguém estava esperando por este capítulo, tenho certeza, já que hoje é sexta-feira. Mas, né, sextou e foi mesmo com S de saudade, porque, enfim, acabei de escrever essa coisa mais linda que eu chamo de Livro do Henrique. Vai levar um tempo pra revisar, então vou continuar colocando um capítulo toda semana para que vocês possam rir e se divertir com as burradas desse protagonista. 

Beijos da Lari

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