Capítulo 2

Andressa talvez tivesse razão sobre eu precisar daquela bebida. Mesmo assim, resolvi não exagerar, tomando apenas um shot e recusando o próximo, ainda que ela ficasse me provocando sobre não ser forte o suficiente para isso. Foi assim desde criança, sempre me convencendo a fazer besteira apenas por não acreditar que eu era capaz. E eu, como o imbecil que era, demorei anos para perceber que ela fazia de propósito apenas para me ferrar de todas as formas, porque esse era seu grande prazer de vida. O motivo, nunca descobri.

De qualquer maneira, a loira já estava bastante fora de si, tendo esquecido completamente nossa antiga rivalidade. Estava diferente, é verdade, toda sorridente, se divertindo com tudo o que eu dizia. Confesso que me deixei levar por sua personalidade alcoolizada como se fosse mesmo uma pessoa distinta. A cada toque de seus longos dedos em meu antebraço, perdia mais um pedaço de minha armadura metálica, tão bem construída nos longos anos de brigas. Cada risada reverberava com um som diferente em meus ouvidos. Não escutei nenhum sarcasmo, nenhuma ofensa, e aquilo tudo pareceu me distrair muito mais do que o necessário, inclusive deixando de lado minha prima e Igor.

Quando ela disse que precisava ir ao banheiro, depois de alguns minutos do que eu considerava um início de jogo de sedução, levantei-me junto e aproveitei para fazer o mesmo. Pouco tempo depois, ao sair de volta para o salão do bar, percebi que nossa mesa estava vazia e nossos amigos haviam sumido.

Andressa parou ao meu lado, observando a mesma situação que eu, embora, penso, tivesse levado mais tempo para chegar a mesma conclusão.

— Onde foi todo mundo? – ela perguntou.

— Acho que o bar tá fechando. Foram embora.

Ela me encarou, com a cabeça ladeada e os olhos cerrados, como que desconfiada de minhas palavras. Só então notei o quanto estava alta, com saltos imensos que a deixavam com alguns centímetros a mais do que eu. Isso me fez ter algumas memórias ruins do tempo em que me chamava de anãozinho de jardim, o que era bem ridículo, já que eu tinha um metro e oitenta de altura. Contudo, como já disse anteriormente, aquela mulher era bastante ridícula, então não dava para esperar grandes argumentos, assim que resolvi deixar essa e outras desavenças de lado e me concentrar apenas no que acontecia naquela noite em especial.

— Ah...

Ficamos mais alguns instantes encarando a mesa vazia, em silêncio. Me sentia um pouco tonto, porém nada que não conseguisse me virar sozinho.

— Acho que vou pagar minha conta e ir então – sugeri, embora depois daquela meia hora de paquera, esperasse que Andressa me convidasse para fazer algo melhor.

— Acho que eu também.

Concordei com a cabeça e ela me seguiu até a fila do caixa, que tinha mais três pessoas. Esperamos que cada um pagasse sua conta até que chegou a minha vez. Foi quando entreguei meu cartão para o atendente que senti o corpo de Andressa se encaixando em minhas costas e ela colocar sua cabeça e uma mão em meu ombro.

— Não queria ir embora...

Sua voz era baixa, quase um choramingo. Senti o cheiro da cerveja misturado ao seu perfume, mas isso não me incomodou. O que realmente me deixou tenso foi aquela proximidade repentina. Eu não tinha a menor ideia se por trás de sua frase havia algum convite implícito ou se estava ficando maluco.

O atendente me estendeu o comprovante da máquina e o peguei, agradecendo. Logo, com certo esforço de minha parte, saí da frente de Andressa, fazendo-a sair de minhas costas para pegar o dinheiro em sua pequena bolsa a tiracolo.

— Tá tarde – falei, esperando para ver o que ela respondia.

— Eu sei... – concordou, entregando seu cartão ao atendente, que a olhava descaradamente. Eu não o culpava, já que a mulher estava com uma blusa branca quase transparente.

Andressa era absurdamente bonita, o que sempre me custou muito para conseguir odiá-la. Ela era alta, muito magra, como aquelas modelos da Victoria Secret's. Tinha longos cabelos loiros e lisos, ainda mais claros conforme os anos, olhos de um azul claro e intenso e rosto longo e fino. Eu me aproveitara de sua aparência por muito tempo, chamando-a de magrela desnutrida ou de Noiva do Chuck, apelido este que não havia sido intencional, mas uma bela desculpa para convencer Carolina de que não a achava parecida com a Barbie quando, sem querer, a havia comparado com uma boneca.

A verdade é que eu tinha uma queda e tanto por ela, ainda que na maior parte do tempo só quisesse arrancar seus cabelos, fio a fio, de tanto que me atormentava com seus insultos e piadinhas idiotas sobre minha aparência. Preferia fingir que Andressa nunca havia me deixado mal, escondendo meus sentimentos da melhor forma que podia: insultando-a de volta.

— Mas eu não queria ir pra casa agora, sabe... – continuou, se virando para meu lado depois de receber seu comprovante de pagamento sem nem responder ao "tenha uma boa noite" do atendente. – Queria sair pra dançar, mas não tenho companhia.

Ela completou sua frase com um biquinho e eu, completamente hipnotizado por seus lábios e seu jeito de falar, acabei concordando, mesmo que odiasse sair pra dançar. Eu sequer sabia dançar direito.

— Posso ir, se quiser.

— Mesmo? – ela sorriu. – Porque eu não tenho nenhuma amiga que vá querer me acompanhar a essa hora.

— Tudo bem. – dei de ombros.

Ela então me seguiu até a saída, com uma mão sobre meu ombro, como apoio, já que mal conseguia caminhar com aqueles saltos. Com a outra mão, digitou rapidamente no celular para que um carro de aplicativo nos buscasse.

O Henrique são e não alcoolizado nunca teria se aproveitado de seu estado. O outro Henrique, embriagado e entorpecido por ter uma chance de ficar com alguém como ela, pouco se importava. Apenas esperava pelo momento mais adequado para puxá-la para ainda mais perto e, sem medo, conseguir beijá-la. No entanto, Andressa não parava de falar sobre a tal casa noturna que iríamos e o quanto estava empolgada por sair novamente, algo que já fazia quase um ano que não fazia, já que tinha namorado e eles só faziam programas de casal.

O carro chegou e lá entramos, cada um de um lado, sem encostarmos um no outro. Andressa parecia completamente alheia, falando sem parar. Não me lembrava mais de como ela podia ser tagarela quando queria. Eu, por outro lado, me mantive em silêncio, ainda que não tivesse deixado de sorrir por todo o caminho até o endereço, sem entender metade do que dizia.

Foi somente quando chegamos ao local de destino e saí do carro que percebi que a mulher continuava lá dentro, rindo sem parar. Me abaixei, colocando a cabeça para dentro novamente, e a encarei, sem ao menos ter percebido onde estávamos.

— O que foi? Não vai descer?

— Coloquei... o endereço... da minha casa! – ela disse, entre risos.

Levei um tempo para entender do que ela falava. Apenas observei enquanto ela saía do carro e vinha em minha direção.

— Acho que tô muito bêbada – constatou, segurando meu antebraço, como havia feito antes, no bar. – Coloquei casa ao invés de casa noturna, acho.

— Quer desistir? – perguntei, já que não sabia o que fazer.

— Quer saber? Eu tô morrendo de fome. – Andressa então me largou e começou a andar em direção a uma porta, enquanto o carro de aplicativo ia embora. – Vamos subir e comer alguma coisa.

Eu estava me divertindo demais com aquela ideia. Tinha mesmo fome, mas não era só de comida. Parecia, em meu ponto de vista, um convite para passar a noite, e eu não seria o idiota de recusar aquela oferta. Assim, a segui até seu apartamento, auxiliando-a, no caminho pelas escadas, a tirar a sandália, ficando então um pouco mais baixa que eu.

Quando entramos no apartamento, observei Andressa tirar o casaco de couro e jogá-lo com a bolsa em cima de uma mesa bem ao lado da entrada, para depois ir até a geladeira procurar algo que lhe interessasse, me deixando para fechar a porta. O lugar estava meio escuro, com apenas uma luz acesa, mas dava para perceber que havia um sofá daqueles de abrir a minha frente e uma cozinha americana depois da mesa de jantar. Era limpo e organizado, o que não se parecia muito com a garota que eu conhecia.

— Ah, não acredito. Olha o que eu tenho aqui! – a loira gritou, empolgada, colocando sobre o balcão de divisa da cozinha o que parecia ser um daqueles ovos de páscoa de colher. – Chocolate!

Andressa então fez surgir de uma gaveta duas colheres e me alcançou uma. Comemos uma parte do brigadeiro em silêncio, rindo de nada em especial. Depois de um tempo sem saber o que dizer ou fazer, resolvi andar pela sala e fui em direção ao armário da televisão, onde havia alguns porta-retratos.

Ela veio atrás de mim, ainda segurando a colher, e eu apontei para uma das fotos. Ela devia ter uns oito ou nove anos, tinha os cabelos curtos e lisos na época.

— Eu me lembro desse seu corte – comentei, recordando alguns momentos desse tempo, de quando nos encontrávamos apenas uma vez ao ano, nos aniversários de Carolina.

— Era bem fofo, né? – falou, pegando o objeto nas mãos. – Olha como eu era bonitinha?

Eu sorri, concordando mentalmente. Andressa não fazia ideia de quanto pensava nela naquele tempo.

Observei uma outra foto ao lado, em que a loira vestia a toga da formatura de Direito, toda maquiada para o dia. Provavelmente já fazia uns dois anos que a havia tirado. Dava para ver que havia uma pessoa ao seu lado, um homem, mas ele havia sido recortado. Ela percebeu meu interesse e explicou:

— Era o Bernardo. Aquilo de ter que tirar o ex de todas as fotos é realmente desagradável, porque eu simplesmente amo essa aqui.

— Deve ter algumas sem ele, não?

— Até tem, mas nenhuma que eu goste. – disse. – O idiota estava em quase todas. Nunca conheci alguém que gostasse tanto de ficar diante de câmeras.

— Isso porque ele era bem narcisista, né? – concordei, recordando das poucas vezes em que nos encontráramos e o quanto ele havia sido irritante. Se havia algo que eu não gostava nele, era aquele ar de artista, se achando o biscoito mais recheado do pacote. Até o Igor, que era alguém muito mais sociável, não ia com a cara do homem. – Tenho certeza que ele era um imbecil.

— Ele era, mas eu gostava daquele imbecil. – Andressa baixou os olhos, pensativa, como se recordasse do ex ainda com carinho.

Não sabia se devia ficar com pena dela, já que eu passava pela mesma situação, ou se pensava que era bem feito, um pagamento pelos anos de tormento que precisei aguentar perto dela.

— Ele não te merecia – foi o que disse.

— Talvez eu que não o merecesse...

— Não fala besteira! – discordei, sem pensar muito no que estava fazendo. – Você é maravilhosa e mesmo assim ele quis te trocar por outra.

— Ele é uma boa pessoa. Acho que eu que fui uma pessoa ruim.

Eu certamente não poderia negar que achava o mesmo. Não existia ninguém no mundo que tivesse mais motivos para odiá-la por ser quem era do que eu. Todavia, talvez devesse ter ficado de boca fechada. Ou não, já que foi por causa de minhas palavras que tudo aconteceu.

— Não posso dizer que não foi, porque você sempre foi uma pessoa horrível, - comecei. – mas isso não dava direito a ele de...

— Eu recebo você na minha casa com toda a minha gentileza e ainda vem dizer que sou uma pessoa horrível? – Sua voz havia aumentado consideravelmente. Andressa me encarava com os olhos em brasa.

Era passado de uma da manhã, logo não era o momento mais adequado para termos uma discussão. Foi por isso que tentei intervir, o que não resultou no que havia desejado.

— Shhh... Não precisa gritar.

— E ainda quer que eu fale baixo na minha própria casa? – ela gritou, levantando as mãos na frente de meu rosto. – Você continua o mesmo idiota de sempre, não é, Henrique? Sempre tentando ser o adulto da história, me fazendo parecer uma criança mimada e sem limites.

— Não é... – tentei argumentar, me aproximando e segurando seus pulsos, no automático, como fazia quando éramos mais jovens e ficava com medo de que ela partisse para cima de mim, como muitas vezes pareceu prestes a fazer.

— Ah, cale a boca, seu idiota! – me interrompeu, furiosa. – Você sempre foi esse imbecil que me odiava por nenhum motivo aparente, sempre me insultando de todas as formas, me chamando de Noiva do Chuck pra baixo...

Queria prestar atenção no que ela dizia, assim teria como argumentar ou tentar irritá-la. O Henrique do passado teria tentado se defender de alguma forma ou até mesmo ido embora sem dizer uma palavra, porque ele era um medroso e um tolo. O Henrique do presente era muito mais corajoso. Ou, mais provável, não tinha ciência do perigo que corria, pois seus olhos só conseguiam enxergar a alça da blusa branca semitransparente caindo em seu braço e revelando o sutiã de renda da mesma cor naquele decote perfeito.

Eu não conseguia pensar em mais nada além de colocar minhas mãos em seus seios, que pareciam pequenos, mas macios, e que provavelmente encaixariam impecavelmente entre meus dedos. Com a impulsividade e falta de noção que apenas o álcool poderia me trazer, deixei de lado meus receios de ser rejeitado mais uma vez pela mulher a minha frente e a puxei pelos pulsos, colando minha boca na dela.

— O que você... – Ela tentou se afastar, porém segurei-a pelos cabelos, fazendo-a voltar.

— Shhh... – pedi, antes de voltar a beijá-la com mais vontade do que nos mais de vinte anos em que nos conhecíamos.

Opa, quem esperava por esse final de capítulo?

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