Capítulo 1
Eu certamente não estava no meu momento mais festeiro e sociável naquele dia. Naquele mês inteiro e no anterior também, poderia dizer. Corria o risco de ser uma pessoa ainda mais calada e chata do que já era. Mesmo assim fui convencido por Matheus, meu melhor amigo e colega de apartamento, a ir ao aniversário de Igor, namorado de minha prima e alguém que havia virado quase um irmão nos últimos anos. Não fosse pela insistência dos dois, não teria saído mais de casa desde que meu relacionamento de cinco anos havia terminado de uma forma tão inesperada me deixando mais mal-humorado do que normalmente.
Era metade de abril, o dia estava bem agradável, perfeito para um encontro com os amigos em um bar regado a muito álcool e boas risadas. O problema é que Igor era daquele tipo de cara que conhece todo mundo. Não tinha dúvidas de que o lugar estaria lotado e eu mal conseguiria falar com ele. Logo, não estava com boas expectativas para aquela noite.
Não que não fosse amigo de outras pessoas que estariam lá. Cinco anos antes, quando ele começara a namorar minha prima e eu começara a namorar Fernanda, minha ex, havíamos nos tornado muito próximos. Em tanto tempo de convivência, foi quase impossível não acabar me aproximando também de seus outros amigos, assim como ele dos meus, especialmente de Matheus. Todos nós tínhamos uma coisa em comum: o amor por futebol e pelo timão. Isso havia feito com que os dois grupos se unissem, tanto para vermos algumas partidas quanto apenas para nos encontrar em algum lugar, bebendo e falando sobre a vida.
Eu tinha dois irmãos mais velhos com quem poderia fazer tudo isso, é claro. Contudo, tentava ao máximo evitar aqueles dois, pois sempre brigávamos por qualquer motivo. Ricardo era o primeiro filho, bem mais na dele, ainda que adorasse se meter onde não era chamado, como se por ser mais velho achasse que tinha o direito de intervir em minha vida. Por sorte ele não morava mais na mesma cidade e eu não o via mais tanto quanto antigamente. Gustavo, o do meio, era o pior. Ele tinha seis anos a mais e se aproveitara de minha inocência infantil para fazer de tudo o que pudesse comigo quando crianças, o que provavelmente me gerara muito transtornos psicológicos. Em especial me fazendo ter tanta dificuldade em expressar meus sentimentos. Sofrera muito bullying em suas mãos por ser uma pessoa tão sonhadora. Aliás, creio ser ele o causador de meus maiores problemas.
Aí estava, portanto, o motivo pelo qual saíra de casa assim que começara a trabalhar no banco, cinco anos antes, e porque preferia estar com amigos e não com a família. Gustavo ainda vivia com meus pais, por mais que estivesse casado há tanto tempo. Aquele lá era um irresponsável metido a engraçadinho. Não sabia como havia conseguido uma esposa tão legal sendo ele quem era. Tem coisas que não são possíveis de explicar.
A única pessoa da família com quem gostava de conviver era minha prima Carolina. Ainda que fosse um pouco maluca demais, sempre mudando de opinião sobre tudo ou ficando em cima do muro em tantas situações, era só um ano mais nova, portanto, a única prima da minha idade. Certamente não havia sido por sua personalidade que havíamos nos aproximado, mas isso é história para mais tarde.
De qualquer maneira, havia sido ela a me apresentar Fernanda, que na época era sua colega de trabalho, dando aulas de reforço em uma escola particular da cidade. Por elas estarem sempre perto uma da outra e por termos começado a namorar na mesma ocasião, acabei ficando amigo do Igor. Em outras circunstâncias, nunca teríamos nos conhecido. Trabalhávamos em áreas diferentes, ele professor, eu bancário, e éramos também muito diferentes, ele tão extrovertido, eu tão calado.
Essa amizade improvável foi bastante importante nesse momento tão difícil da minha vida, quando acabara de ser dispensado pelo que imaginava ser o grande amor da minha vida. Mas, a vida é mesmo cheia de surpresas, então, assim como minha prima havia sido a responsável por me apresentar a minha primeira namorada, provavelmente também seria a responsável por apresentar a última.
Não que tenha sido exatamente naquela noite, no aniversário de Igor, que isso fosse acontecer. Eu com toda certeza não tinha a menor vontade de conhecer alguém tão cedo. Algumas pessoas preferem sair de um término difícil direto para a cama de outra pessoa, mas eu nunca fui assim. Se já tinha dificuldades em chegar nas mulheres antes de namorar, imagina como seria depois de ficar cinco anos fora da jogada. Não saberia o que fazer nem dizer sem parecer um imbecil. E se havia algo que eu prezava muito, era dizer somente o que fosse mais importante. Provavelmente ainda levaria um tempo maior do que dois meses para me recuperar daquele susto, se é que um dia me recuperaria. Naquele tempo ainda acreditava que não.
Então lá fui eu, vestido de uma maneira casual, embora até elegante, calça jeans e tênis, uma camisa clara e o relógio de sempre. Não esperava impressionar ninguém mesmo. Pretendia apenas passar uma ou duas hora tranquilas, me divertindo com os amigos, bebendo e comendo alguma coisa de preferência bem gordurosa para aumentar minha alegria de viver. Não fui de carro, até porque o local não era longe do meu apartamento, mas fui sozinho, já que Matheus esquecera do aniversário e havia marcado de sair com uma garota.
Cheguei ao local, uma cervejaria bem conceituada que já havíamos ido antes, só com os caras, e encontrei o local lotado. Mal havia espaço para se sentar na mesa escolhida por Igor de tantos convidados.
Fui em direção a meu amigo, para cumprimentá-lo pela data, mas ele estava muito distraído conversando com outras pessoas ao seu redor para sequer me ver. Ao chegar mais perto, notei minha prima falando empolgada com uma loira. Carolina logo me viu e se levantou para me chamar, quase gritando:
— Henrique, você veio!
Ela era sempre muito espontânea e engraçada, isso é verdade. Por outro lado, muitas vezes passava do ponto, espalhafatosa demais. Sua saudação havia sido tão fora do comum que até a loira pareceu pular da cadeira ao escutar meu nome. Ela se virou um pouco, já que estava de costas para mim, e apenas então me dei conta de que não era qualquer loira ali na minha frente, mas alguém bem conhecido. Era Andressa, melhor amiga de minha prima, a pessoa que mais odiei até aquele dia.
Carolina se aproximou para me abraçar e cheguei a escutar um suspiro descontente da minha ex-inimiga número um. Fazia anos que não brigávamos, logicamente. Não éramos mais duas crianças para chegar a esse nível. Era bem mais fácil apenas ignorar um ao outro nas poucas vezes em que nos encontrávamos. Minha prima e seu namorado tinham consciência de que não dava certo nos deixar perto um do outro, embora eu não tivesse certeza se Igor sabia alguma coisa sobre aquela nossa antipatia de infância (ou de adolescência, já que levei um tempo para perceber que Andressa era a pior pessoa do mundo).
Tentei continuar minha farsa, fingindo ignorar a pessoa insuportável que ela era, e fui abraçar Igor. Trocamos algumas poucas palavras, porém, como não havia onde ficar naquela parte da mesa, resolvi voltar para o outro lado, onde alguns de nossos amigos do futebol se encontravam. Ao me virar para seguir meu caminho, não pude não dar de cara com Andressa, que, assim como eu, tentava disfarçar que me conhecia, sem ao menos me olhar.
Ela continuava sentada em uma cadeira, de frente para sua melhor amiga, com uma das mãos na mesa, segurando uma caneca de chope bem grande, embora já pela metade. Vestia jeans e jaqueta de couro preta, com uma blusa branca por baixo. Por mais que a odiasse, não podia negar que estava especialmente bonita com aquele batom vermelho escuro contrastando com a pele clara e lisa e os cabelos de um tom de loiro muito claro. Imaginava que se o diabo tivesse forma humana, certamente ela seria seu avatar. Ao menos era o que eu pensava, uma vez que sempre a comparava com coisas demoníacas.
Me permiti ignorar essa parte da minha mente que teimava em ver coisas boas em alguém tão horrível e apenas a cumprimentei, mostrando minha superioridade. Logicamente, como a mal educada que era, ela nem me respondeu, tendo apenas balançado a cabeça, com uma expressão de desgosto no rosto. Andressa era mesmo muito infantil. Achei que com os anos poderia ter evoluído, mas estava enganado. Logo, não me dignei a responder e me mandei para perto de pessoas mais agradáveis a fim de evitar qualquer desconforto.
Era para ter ficado apenas uma ou duas horas, de acordo com meus cálculos, apenas para ser simpático. Comeria alguma coisa, uma carne ou hamburguer, e depois iria embora. Contudo, papo vai, papo vem, já estava na quarta ou quinta caneca de chope e continuava lá, mesmo que várias pessoas já tivessem ido embora.
Quando finalmente o último dos caras disse que estava saindo, ao invés de aproveitar a deixa para acompanhá-lo, comecei a prestar atenção na história que Igor contava. Em poucos segundos já havia me aproximado do seu lado da mesa e esqueci o tempo passar. Todos riam, bêbados e felizes, sem nos importarmos com o fim daquela noite. Fazia tempos que não me sentia tão bem. Precisava agradecer a Matheus e Igor por terem me convencido a sair de casa depois de tanto tempo na fossa.
Só percebi que estava sentado bem ao lado da demônia quando ela soltou uma gargalhada muito alta e derrubou a caneca de chope na mesa, fazendo com que o líquido jorrasse em minha direção. Com uma rapidez completamente sem sentido para alguém em meu estado, me levantei no susto enquanto via meus tênis ficarem molhados.
O Henrique do passado teria chamado Andressa de tapada ou coisa pior, porque era assim que havia aprendido a tratá-la com o passar dos anos. O Henrique do presente, afetado pelo álcool em seu sangue, só conseguia ver o sorriso divertido e confuso nos lábios vermelhos a sua frente. Sem saber o que fazer, desatei a rir da situação. Para piorar, ainda acrescentei uma frase de impacto, algo que nunca faria na frente dela, porque sempre quis parecer muito confortável em minha pose de adulto sério e maduro:
— Quase que saio daqui como se estivesse mijado!
Andressa fez uma careta e começou a rir. Eu poderia ter pensado que era da minha cara, mas algo me dizia que ela estava bêbada demais para implicar comigo daquela forma. Provavelmente foi por ter tentado limpar a bagunça com uma só folha do guardanapo, o que logicamente seria impossível, embora na hora ela não conseguisse perceber.
Voltei a me sentar, puxando a cadeira para frente e para muito mais perto do que normalmente faria. Depois levantei o braço, chamando o garçom.
— Agora precisamos pedir outra cerveja para você – falei.
Eu não sabia exatamente por que motivo estava falando daquele jeito, mas tinha um leve impressão de estar flertando com minha inimiga, o que era um verdadeiro absurdo. Foi nesse momento que percebi o quão bêbado eu mesmo estava.
— E você, não vai beber nada? – Ela passou os dedos pela nuca, mexendo nos cabelos de uma forma provocativa, embora eu não tivesse certeza se tinha consciência disso.
Sabia que não seria bom beber mais uma caneca, mas Andressa acabou me convencendo apenas com o olhar, como se me desafiasse a beber mais um pouco. Acabei pedindo não um, mas dois chopes ao garçom.
— Onde tá seu namorado? – perguntei.
Não sabia por que estava perguntando aquilo. A frase simplesmente escapou de minha boca. Por algum motivo estranho, o Henrique bêbado estava interessado em saber o status de relacionamento da mulher a sua frente.
— Você não sabe?
— Não. – ri, achando engraçado seu modo de falar. – Ele te largou?
Ela soltou uma grande gargalhada, jogando a cabeça para trás, como quem diz que aquilo é um absurdo. Eu entenderia alguém querer largá-la, conhecendo sua personalidade teimosa e estúpida. O Henrique alcoolizado, no entanto, não tinha a mesma opinião.
— Claro que não! – ela me encarou, com aquele olhos azuis tão lívidos que tanto perpassaram meus sonhos e até pesadelos em um passado distante. Andressa havia se virado para meu lado, deixando as longas pernas em minha direção e apoiando o cotovelo na mesa, como se me desse mole. – Eu que larguei, por assim dizer. – Revirou os olhos.
— Mesmo?! – falei, sem acreditar.
— Ele tava me traindo, acredita? – ela soltou, encostando a cabeça no tampo da mesa, como que derrotada
— Sério? Por que ele faria isso?
— Vai saber. – Ela voltou a me encarar.
Normalmente quando nos encontrávamos em algum lugar, como uma festa de Igor ou Carolina, nos limitávamos a um oi. Naquele momento, entretanto, não éramos Henrique e Andressa, os que se odiavam. Éramos Henrique e Andressa, duas pessoas quaisquer que se encontraram em algum lugar. Logo, sua revelação pareceu me dar forças para contar sobre meu término, como se estivéssemos comparando nossas desgraças para ver qual seria a pior e mais triste.
— Também levei um pé na bunda. – Aproveitei para beber um gole da cerveja que o garçom deixara na mesa. – Depois de cinco longos anos, a maldita me chutou bem bonito.
— Fiquei sabendo. Somos dois fracassados, não somos?
— É, acho que somos – concordei, baixinho.
Ao menos era como me sentia desde que Fernanda anunciara que havia sido chamada em um concurso em Santa Catarina. Ela nem me dera a chance de optar por ir junto ou ter um relacionamento a distância. Apenas me comunicou que estava indo embora e que não ficaríamos mais juntos.
— Acredita que estava procurando apartamento para irmos morar juntos? – falei. – Achei que ia casar com ela.
— Caramba, você precisa de mais álcool que eu! – Andressa levantou o braço, chamando o garçom novamente, que logo se aproximou. – Dois shots de tequila, amigo.
Eu a encarei, sem entender nada do que estava acontecendo ali.
— Você precisa disso mais do que eu. – ela acrescentou.
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