19• NUNCA ESTAREMOS SOZINHOS ENQUANTO TIVERMOS UM AO OUTRO

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"Sei que existem algumas coisas
Que precisamos discutir
E eu não posso ficar
Então me deixe te abraçar um pouco mais agora
Pegue um pedaço do meu coração e o faça seu
Então, quando estivermos separados
Você nunca vai estar sozinha"

- Never be alone, Shawn Mendes.



  Estou sentada na proa, aproveitando os últimos resquícios da noite. Acabo por recapitular tudo que passamos juntos, de certo modo essa pequena batalha contra o maior monstro dos 7 mares nos deixou unidos, deixamos de lado nossas diferenças e trabalhamos juntos, como uma equipe.

O Kraken cedeu a canção de ninar do Capitão Ren, admiro sua coragem em enfrentar o seu próprio trauma para salvar sua tripulação, creio que tenha sido complicado para ele usar novamente o poder que outrora levou seus pais.

Foram os minutos mais tensos de nossas vidas, aguardar o polvo gigante cair num sono profundo, enquanto eu mesma já não aguentava mais o peso do meu corpo, a adrenalina havia passado e só restava o cansaço de uma noite mal dormida.

Quando enfim estávamos a salvo, o Capitão avisou que mesmo estando perto da ilha ainda poderia demorar algumas horas para que chegasse, o estrago ao barco fora grande, com os tentáculos acabou derrubando o mastro e abriu outro buraco no casco. Não era hora de ir a toda velocidade ou então ele se desfazia no meio do oceano e não teria volta para casa sem o velho Netuno.

Respiro fundo, sentindo o ar puro e frio da manhã invadindo meus pulmões, solto devagar ainda de olhos fechados, apenas aproveitando a regalia que é poder respirar, estar viva.

Já tive muitos pesadelos em que sonhei estar morrendo, seja caindo de um precipício, afogada em alto mar, sendo alvejada com tiros por todo meu corpo. Eram pesadelos repletos de sentimentos, na qual não sei explicar nenhum deles, não consigo colocar em palavras o que era sentir que já não tinha mais nada, que o momento havia chegado ao fim.

Provavelmente se deve ao fato de ter visto a morte diante de meus olhos, que agora seja meu maior medo. De morrer antes de fazer o que preciso, antes que tenha feito algo que realmente mudará a história do meu reino, antes de honrar minha palavra de cuidar do meu povo.

São esses os pensamentos que se passam pela minha cabeça nesse momento, enquanto aprecio a vista desse mar imenso, com uma pontinha de verde a frente, não muito distante nem muito perto, daqui a algumas horas estarei lá, para enfrentar outra possível batalha. Segundo o livro teremos de passar por alguns desafios, mas em grupo tudo será mais fácil, nunca estarei sozinha.

Engraçado como as coisas acontecem com um propósito, um na qual não poderia ocorrer se não fosse pela intervenção.

Entramos nesse navio a alguns dias atrás repletos de incertezas quanto a essa missão repentina, ali naquele momento podia sentir uma intranquilidade irradiar por toda parte, de ambos os lados, eu tinha um trato com Kai, não com o híbrido pirata que acabara de conhecer.

Tudo isso acabou quando tivemos de nos unir para passar pelo Kraken, sabíamos de algum modo que se não trabalhássemos juntos, alguém poderia não voltar para casa conosco. Quase perdemos Liam, James, Harry e por fim, eu.

Estou determinada a voltar dessa ilha com todas as informações e nenhum membro a menos.

Nesse momento o clima entre a tripulação é de puro companheirismo, as desavenças ficaram de lado e agora podemos enfim trabalhar unidos e cumprir o que viemos fazer.

O sol enfim aparece por entre as nuvens, o dia está lindo como sempre. Nada de tempestades ou ondas gigantes, somente o mar tranquilo com um leve balanço.

James, Harry e Cami voltaram à cabine para tentar descansar, Philip não conseguiu dormir e preferiu colocar a mão na massa, está ajudando Kai a fazer alguns reparos no casco, onde é possível se pendurar ainda navegando. O estrago foi grande e se não tomar precauções ainda há uma pequena chance do barco afundar.

Balanço a cabeça mandando esse pensamento para longe, não precisamos de pensamentos negativos no momento.

O capitão regula o leme para que o Netuno possa seguir em linha reta, até nosso destino, enquanto cuida de costurar algumas velas, não nos sobrou nenhuma.

Com o mastro destruído e uma parte da proa quebrada tem muito trabalho a ser feito por aqui. Me levanto para ver se posso ajudar em algo, odeio ficar parada vendo todos a minha volta trabalharem, me lembra um pouco dos dias no palácio, onde sempre havia alguém para fazer praticamente tudo por mim.

Encontro Philip carregando um punhado de ferramentas, o ajudo a levar até Kai. Ele está planando perto do enorme buraco no casco, analisando a melhor forma de conserto, o que no momento será um tanto complicado, onde vamos arranjar madeira para tampar o rombo que o tentáculo fizera?

- É pessoal, temos um problema aqui!

- Acha que pode afetar o navio? – Philip larga as ferramentas no chão.

- Não sei, não encontrei nenhum vazamento por aqui. Mas pode ser que venha a acontecer se as ondas aumentarem.

- Pedi para o Liam dar uma olhada no fundo, talvez a criatura tenha feito um estrago onde não estamos vendo.

- Tem razão. Tem alguma ideia de como tapar esse buraco? – Kai ergue o olhar até nós e ao notar minha presença acena.

- Tenho algumas tábuas extras no porão. – O Capitão surge atrás de nós, eu não havia percebido antes, mas sua coloração azul havia voltado, agora ele é ele mesmo novamente, sem disfarces.

Philip assente em resposta e vai buscá-las.

Em poucas horas conseguimos arrumar o casco, Ren arrumou todas as velas e James ergueu o mastro novamente, é claro que o conserto seria algo temporário, pois sem os recursos necessários não duraria muito tempo, sem dizer que a proa ainda segue destruída, mas como não há vazamento não foi uma prioridade.

Com as velas içadas conseguimos atingir uma velocidade razoável e dentro do fim do dia já atracamos em terra.

O sol já se punha entre as nuvens numa coloração rosa e alaranjada, levando consigo a temperatura, o clima cai mas não drasticamente, a ilha parece ser bem quente e úmida.

À primeira vista, Caladian parece o paraíso na terra. Mas se tem algo que aprendi nesses últimos meses, é que as aparências enganam mais do que se pensa. Não podemos nos deixar levar pela esplendorosa beleza de tal lugar.

Me vejo em uma grande selva. As plantas são diferentes das quais estávamos acostumados a ver em Penumbra, e como na floresta em que acampamos por alguns dias.

Já faz um tempo e como é bom e revigorante poder estar no solo novamente, sem aquela sensação de balanço o tempo todo, estou firme e equilibrada. Puxo o ar sentindo o aroma da natureza. Aquele doce som dos pássaros voando pelo céu, as folhas das árvores balançando com o leve vento.

Tenho vontade de tirar os sapatos e sentir a grama sob meus pés, de me jogar no chão e ficar por aqui mesmo, neste momento sinto todo o cansaço que não senti durante todo o dia, foram horas de trabalho árduo carregando pedaços de madeiras e os pregando.

A noite irá cair em poucos minutos, não acho muito sábio começar a desbravar a mata no escuro, muito menos quando não sabemos para onde ir.

Aqui não há sinal algum, estamos a quilômetros de qualquer lugar habitável.

Como num gesto automático passo as mãos pelo bolso à procura do meu celular, quando não o encontro me dou conta de que o perdi no meio daquele caos a noite, provavelmente caiu do meu bolso quando fui lançada por uma onda, navio abaixo.

A âncora do Neutuno é baixada com muito custo, e enfim todos podem sair e apreciar os últimos raios de sol, com algumas estrelas e uma lua cheia e brilhante já começando a surgir.

O som dos pássaros já começa a diminuir, os mesmos procuram por seu ninho, onde podem passar a noite seguros dos perigos noturnos.

- Podemos passar a noite sob a luz das estrelas, o que acham? – Kai propõe trazendo um punhado das sobras de madeira quebradas e as espalhando pelo chão, uma área plana.

- Eu topo. – Liam responde. – Capitão? – Liam parece muito fiel como tripulante, sempre buscando a aprovação de Ren.

- Se todos concordarem não serei eu a discordar. – Ren fala tranquilamente observando o céu.

Todos votaram em passar a noite fora, apesar de dormir no relento, acho que será melhor que o balanço constante dos últimos dias, e o ar fresco será bem-vindo.

Kai juntou os pedaços de madeira, estalou os dedos produzindo uma chama e assim acendeu a fogueira. Começamos a nos acomodar em volta dela. Cami e Liam voltam do navio com alguns panos, que creio serem os lençóis da cama, Harry vem logo em seguida agarrado ao seu travesseiro, nem parece um soldado acostumado a acampar.

Ren reúne pedaços de tronco caídos em volta da fogueira, formando um círculo onde cada um poderia se sentar.

Volto ao barco para buscar comida, abro a porta dos armários a procura de algo para o jantar. Tem uma variedade imensa de provisões, não faço a menor ideia de onde vem isso tudo, parece estar sempre cheio mesmo com oito pessoas comendo.

Estico o braço bem no fundo da segunda porta do armário, nesse momento só consigo pensar que a melhor refeição seria um marshmallow assado, com duas bolachas e um pedaço de chocolate para um sanduíche perfeito.

Quando sinto algo volumoso pego para ver, e para minha surpresa puxo de lá um saco gigante de marshmallows brancos.

Então esse é o segredo, mágica, o armário tem um estoque infinito de alimentos, faz sentido se pensar que em todas as nossas refeições parecem ter servido exatamente o que cada um mais gosta de comer.

Abro a outra porta e lá está, um pacote de bolachas. O chocolate não apareceu, talvez esse estoque não seja tão infinito assim.

De volta ao acampamento improvisado vejo que tudo está no jeito, todos acomodados em um círculo, envolvidos numa conversa empolgante pelas expressões alegres e risadas descontraídas, esse clima entre nós está aflorando a cada dia mais, gosto de vê-los assim, sem aquela tensão de uma batalha iminente, sem a pressão de vida ou morte, de salvar seus amigos ou se salvar, aquela dúvida entre dar uma de herói ou sair vivo.

A noite está refrescante e traz uma leve brisa fria e aconchegante, o som das ondas batendo sobre o casco do velho navio, o ranger da madeira seca.

Aqui posso sentir a mistura de aromas, da água salgada, peixe e frutos do mar, das folhas verdes da mata juntamente com o frescor de algumas plantas desconhecidas por mim.

Meu olhar vai de encontro ao soldado, com postura ereta encarando as estrelas, suas roupas um pouco surradas pela luta e os cabelos dourados brilhando sobre a luz da fogueira, enquanto ainda o encaro ele me olha de volta, vejo seus olhos encontraram os meus, seu rosto se ilumina com um sorriso tímido, o primeiro que vejo em muito tempo.

Sigo para a roda e me acomodo ao lado de Philip.

Ensino nossos novos amigos feéricos a assar um marshmallow espetado num graveto, Harry deixa o dele tempo demais e acaba pegando fogo, Cami ri com gosto da expressão de criança triste que toma conta do rosto dele. Kai tem seu próprio modo de assar eles por igual, diz a fada do fogo que assim fica mais apetitoso.

- Aproveitando que estamos reunidos em volta de uma fogueira, o que acham de contar histórias? – Harry sugere.

- Tipo histórias de terror? Passo. – Cami franze o cenho e volta a colocar um marshmallows entre as bolachas.

Vou dizer que se tratando de histórias assombrosas minha amiga não é muito corajosa, chame para uma luta, chame para pular de um penhasco, mas não conte com ela para uma visita ao cemitério a meia noite, filmes de terror com espíritos, ela está fora.

Esse medo deu muita corda para as brincadeiras de seu irmão, Harry nunca perdia uma oportunidade de assustá-la, mas sempre acabava sendo repreendido por James.

- Não, pode ser qualquer coisa. – Harry olha para cada um de nós a espera que alguém se voluntarie. – Histórias engraçadas, lembranças que queiram compartilhar... qual é estamos dormindo juntos a mais de sete dias, acho que já temos intimidade suficiente. – Ele lança um olhar provocativo para James que estava concentrado no seu marshmallow parcialmente queimado.

Ele parece distraído desde a luta, como se sentisse falta de alguém, mas estamos todos aqui do seu lado. Em todos esses dias ele anda muito pensativo, sei que ele gosta muito de conversar com a Ella, vivia fugindo para ficarem a sós em Faerie, provavelmente sente falta da presença da mesma ou está preocupado, afinal não tivemos mais notícias de lá.

Harry o cutuca para que volte a realidade

- Por que você não começa, histórias não lhe faltam irmãozinho. – James fala com um sorriso malicioso.

- Tudo bem. Vamos lá. – Ele arruma a garganta antes de continuar numa voz melodramática. - Quando tinha 10 anos, me lembro de sempre correr de uma senhora que não gostava de nós, dona Isabel se não me engano. Ela era uma senhora corcunda e usava bengala, não vou mentir, eu era uma criança terrível na época, meu passatempo favorito era pregar peças nela. Mas houve um dia na qual me superei de verdade, não foi a melhor, foi épica e até hoje não sei como não matei a velha do coração.

Me lembro dela, a dona Isabel era a senhora que cuidava do jardim do palácio, a deixávamos louca com nossas travessuras na época, que não eram poucas. Não teria como ser diferente, com sete crianças nada obedientes, era de se esperar que algo do tipo fosse acontecer, e para o azar da senhora, ela foi nossa alvo por muitos anos. Não era por maldade, mas ela sempre estava por perto e era mais fácil de escapar, a velha senhora não podia correr muito longe com uma bengala.

- Era um dia chuvoso e frio, como não podia sair de dentro do palácio, todos fugiram para a biblioteca, mas como uma criança peralta que era, eu obviamente não ia me contentar em mofar numa poltrona com um livro velho cheio de traças.

- Apesar de você amar uma certa história de um garotinho com um raio na testa. – Cami joga a informação no ar o interrompendo, o que provoca um olhar ameaçador do garoto.

- Era só porque tem o mesmo nome que eu. – Ele se explica. – Continuando... Todos sabiam que dona Isabel se assusta muito fácil, então eu peguei algumas cordas do pequeno arsenal que tinha no palácio, amarrei nas portas do corredor, assim eu poderia abri-las mesmo de longe. Roubei a peruca do mordomo e um boneco velho da aula de biologia, arranquei a cabeça dele, coloquei a peruca do mordomo e pendurei atrás da última porta do corredor. Para completar peguei uma fantasia antiga que usavam em um tal de feriado chamado halloween, era um terno gigante que tampava a minha cabeça.

Todos estavam ouvindo as palavras de Harry atentamente, nem se moveram para preparar mais marshmallows, simplesmente não conseguimos prestar atenção em outra coisa senão a história dele, dessa nem mesmo eu sabia.

- Pedi para que um dos guardas chamasse ela, dizendo que eu não estava passando bem. Em menos de cinco minutos lá estava ela, com sua bengala e com passos lentos demais andando pelo corredor. Dona Isabel vai até a primeira porta e BAM puxo a corda e fecho com tudo na cara dela, a mulher ficou sem entender mas seguiu, e foi assim até que ela já estava ficando assustada achando que era um espírito ali. Quando chegou perto da última porta deixei que entrasse, no mesmo momento ela solta um grito estridente " Valha-me Deus, o que é" – Harry imita o modo como ela falava, um voz rouca com uma camada grave. – Antes que ela pudesse sair correndo cutuquei ela com um dedo e mais que depressa a velha se virou e quando me viu ali, sem cabeça, não consigo esquecer da reação, ela simplesmente gritou a plenos pulmões com os olhos arregalados, largou a bengala e saiu correndo como se nem precisasse dela. Eu ri horrores daquilo. Ela correu gritando alto "O garoto perdeu a cabeça de vez".

- Ela deve ter levado um susto e tanto. – Digo após a crise de risos passar.

- Genial cara! – Kai elogia o feito de Harry com um soco.

- Queria poder ter visto a cara dela. – Cami diz se abanando após quase se engasgar de tanto rir.

- Não se preocupem, eu devolvi a peruca depois. – Harry fala.

- E o que aconteceu com a senhora? – Liam pergunta com as sobrancelhas erguidas e um olhar curioso.

- Ela ficou ainda mais irritada com a gente.

- Agora sabemos o motivo disso. – James olha para o irmão com uma mistura de descontentamento e uma pontinha de riso no fim. Apesar de Harry ser quem aprontava, as responsabilidades recaem sempre sobre o irmão mais velho, eu bem sei disso, todos os meus eram uns verdadeiros pestinhas, mas é bom lembrar dessa época, éramos crianças e não tínhamos preocupação alguma com a vida, sem saber o que o futuro nos guardava.

Com essa deixa, O capitão seguiu o ritmo e decidiu nos agraciar com uma de suas histórias de pirata.

A luz da fogueira tremeluzindo sobre os rostos deixa o ambiente com um ar melodramático, caindo perfeitamente bem com o clima oferecido pelas histórias sendo contadas. As expressões ao ouvir cada palavra sendo dita com emoção e carregadas de um certo sentimento de nostalgia, contando cada detalhe no dia vivenciado a tempos atrás, afinal, todos temos uma história a ser contada, seja ela alegre ou triste, espantosa ou engraçada. O que importa são os sentimentos presentes naquela lembrança, às vezes a coisa mais simples se transforma em algo grandioso.

Ren pega o lenço dentro de seu bolso, o amarrando envolta de um dos olhos, uma aparência digna de pirata, mas não ousa colocar um chapéu em seu belo cabelo prateado, que se ilumina ainda mais exposto à luz da lua. Com um sorriso perverso estampado no rosto ele começa a contar sua aventura.

- Estávamos perdidos em alto mar, ondas gigantes atingiam mais de 10 metros de altura, o oceano estava revolto e não sabíamos quanto tempo a tempestade duraria. A noite caiu tão rápido quanto esperávamos, e nada das águas se acalmarem, não tinha iluminação alguma, só se via a escuridão por toda parte, nesse momento achei que Netuno já não pudesse suportar tamanha agitação sobre seu velho casco. Baixamos todas as velas e nos permitimos ficar à deriva, até que os ventos diminuíssem sua intensidade. Foram horas desesperadoras, os marujos não sabiam como resolver, não puderam avisar os entes queridos de que talvez nunca mais voltassem a vê-los. A noite parecia durar uma eternidade, havia vazamentos por toda parte no navio, se a tempestade não cessasse, iríamos afundar. – Enquanto falava, Ren fazia gestos com as mãos, simbolizando o quanto o navio se agitava sobre as ondas fortes, suas palavras são tão detalhadas que por um segundo pude me imaginar nesse cenário, seria caótico. – Achei que nada poderia piorar nossa situação, até que colidimos em algo. Houve um som de madeira se partindo, mas a escuridão nos impossibilitou de ver o caminho seguido, era um imenso iceberg, estávamos perto de várias geleiras pontiagudas, uma fada do fogo iluminou o quanto pode do local e me vi num labirinto onde não poderia passar sem mais estragos. Rezamos para as deusas da natureza, pois só sairia dali com um milagre, nunca antes havia estado em local tão perigoso junto de uma tempestade. Eu posso citar as palavras que ouvi num sussurro em meu ouvido, foram puras e me deram a força necessária para tirar meu navio e meus tripulantes dali, ainda os levaria para casa, salvos e contariam essa história a seus filhos e netos. E como uma aura divina, algo fez com que o mar se acalmasse, as ondas foram aos poucos diminuindo, uma luz começou a clarear a vista, o oceano estava colaborando e abaixo de sua água podiam se ver várias águas vivas, um azul intenso coloriu todo o caminho correto para que pudéssemos sair daquele labirinto de rochas, marcados como uma trilha. Todos estavam de prova que foi uma força divina que nos presenteou naquele momento de desespero, até hoje alguns marujos dizem ter visto a própria Aine.

- Uau! Cara essa aventura deve ter sido incrível. – Harry exclama totalmente absorto na história.

- Como você soube que conseguiria? – Philip pergunta com seu olhar profundo e curioso pela resposta.

- Fé meu camarada, sem ela não somos nada. – Ren faz um sinal em agradecimento. – Eu sabia que aquela ainda não seria minha hora de partir.

Philip assente e volta a fitar a fogueira em sua frente. Adoraria que ele contasse algo, passou tantos anos fora do palácio se aperfeiçoando que não sei muita coisa sobre sua vida. Não vou pedir pois ele não parece tão à vontade para compartilhar suas lembranças, ainda mais se seu pai estiver nelas.

Eu também não consigo me lembrar de todos os movimentos vividos no palácio, na minha casa com minha família sem sentir que vou desabar, ao me lembrar de cada um deles, felizes e animados com a vida. Algo que lhes foi tirado do dia para a noite, sem piedade alguma. Não posso me conter se começar a contar, talvez eu desate a chorar ali mesmo na frente de todos, ou simplesmente sinta a raiva passar pelas minhas veias. Não, não quero que esse clima mude agora, esse clima leve que conquistamos, todos contentes em ter sobrevivido.

Vendo ele ali, se sentindo sozinho, sem família, cabisbaixo ao se lembrar da vida antes de tudo isso ter uma reviravolta, antes, quando tudo ainda era mais fácil e planejado, onde nenhum de nós precisava se arriscar por aí pela nossa sobrevivência, onde não achávamos que todo dia poderia ser o último.

Entendo ele, sinto o mesmo e talvez nunca vamos conseguir superar essa perda, mas quero que ele saiba que estou aqui. Quero que ele saiba que pode confiar e que vai dar tudo certo. Eu não vou desistir dos meus amigos, não vou desistir do meu povo.

Coloco minha mão sobre a dele, espero que ele me olhe nos olhos e veja que não está só. Philip me encara e pela segunda vez na mesma noite, vejo um sorriso se formar em seu rosto.

Nunca estaremos sozinhos enquanto tivermos um ao outro.

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PRÓXIMO CAPÍTULO EM ANDAMENTO...

O QUE ESTÃO ACHANDO DA HISTÓRIA ATÉ AGORA?

PS: DEIXA A ESTRELINHA

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