17• A NATUREZA DESFORRA

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"Caminhando em um sonho
Como eu posso explicar?
Falando comigo mesmo
Vou ver de novo?
Estamos sempre correndo pela emoção disso, pela emoção
Sempre subindo o morro à procura da emoção, daquilo
De novo, nós estamos desafiando e desafiando novamente
Nunca olhando para baixo
Eu estou apenas com medo do que está na minha frente
É real agora?
Quando duas pessoas se tornam uma"

- Walking on a dream, Empire of the sun

     Era noite e eu estava novamente no palácio aqui em penumbra. Estava tudo vazio. Os cômodos fechados e os poucos móveis cobertos com um lençol branco. Os cantos já acumulando enormes teias de aranha, como se já tivesse sido abandonado a muito tempo. Nem parecia o mesmo lugar. Tudo entregue às ruínas.

Eu continuei seguindo pelos corredores onde haviam quadros de algumas fadas, como no Tulipalacio. A última foto era de Mab com uma coroa. Passei por várias portas mas todas estavam trancadas. No fim do corredor havia uma porta com um símbolo gravado nela, mas estava tão desgastado que não pude decifrar, parecia com um sol. Girei a maçaneta achando que também estaria fechada. Mas ela se abriu com um rangido metálico de suas dobradiças enferrujadas, o barulho ecoou pelo corredor silencioso provocando arrepios em mim. Mesmo com o lugar envolvido na escuridão ao abrir a porta vislumbrei uma claridade densa saindo de dentro daquele quarto. Coloquei as mãos sobre os olhos para conseguir entrar. Não entendi como, mas ao passar pela porta eu estava em Tetundhra, havia pessoas conversando e algumas dançando ao som da música que estava sendo tocada, era um baile.

Conforme eu ia passando as pessoas paravam para me olhar, eu não sabia o que elas viram em mim mas claramente algo chamava a atenção de todos. Parei diante de um espelho para ver o que eles viam. E não era para menos, eu vestia um Kirtle dourado que reluzia as luzes do salão, em outras palavras eu estava brilhando, como se fosse o próprio sol. Além disso, usava uma coroa.

Fui em direção ao trono e comecei a observar as pessoas que estavam lá, agora percebendo que não eram somente as pessoas mortais, mas também haviam fadas e híbridos, elfos e sereias, todos eles juntos como se fosse apenas um reino.

- Senhorita! - Era Harry quem estava me esperando. Me virei para ir em sua direção, mas ouvi outra voz me chamando.

- Audrey! Venha comigo. - Philip usava uma armadura de ouro e sua espada na bainha. Com a mão esticada me chamando.

Eu fiquei confusa, não sabia a quem responder. Olhava para os dois dividida entre eles.

Nesse momento o sonho mudou. Agora eu me via em meio a um campo de batalha. Muitos corpos estavam estirados no chão em um ângulo estranho, e tinha muito sangue. O ar estava quente e seco, podia sentir o cheiro de coisa morta, podre, cheiro de sangue.

As adagas em minhas mãos estavam pingando. Limpei elas no aketon e segui adiante, como se eu tivesse causado tudo aquilo em volta, todas aquelas mortes.

Você sabe o que tem de ser feito!

Acordo com as roupas encharcadas de suor, meu corpo ainda treme com a lembrança da voz em meu sonho, era minha mãe. O barco balança levemente, o que acaba me causando um enjoo. Minha boca está seca e meu estômago revira, mesmo vazio parece querer trazer de volta para fora. Minha visão fica turva quando me levanto, não gosto dessa sensação.

Devagar coloco os pés para fora da cama, ao entrar em contato com o chão frio e sólido, sinto a mente clarear e tenho de volta o equilíbrio. Se é assim que Camilla se sente o tempo todo, tenho de admitir sua enorme força de vontade em estar aqui.

Meus pensamentos ainda devem estar confusos com esse sonho, pois ainda posso ouvir o som de espadas brandindo, como se fosse real.

Tomo uma dose de coragem para me levantar e ir para o convés. Antes de subir, passo na cabine e pego uma maçã. Tento me acostumar com o balanço do navio e já me sinto um pouco melhor, talvez deva ser pelo pesadelo, minha mente ficou atordoada por não me lembrar de onde estava. O estranho é que bem no fundo, ainda podia ouvir as espadas, como num duelo.

Afinal, onde está o resto da tripulação?

Ainda não vi ninguém por aqui.

Subi as escadas para o convés, agora pude entender o motivo do som. Os garotos estavam travando um duelo com espadas. Camilla se encontrava encostada no mastro apenas curtindo o show, onde seu irmão James levava uma bela surra do capitão. Como o híbrido não tem poderes, precisa se virar com uma espada, assim como nós, mortais.

Ren é realmente muito bom para conseguir ser ainda melhor que James, visto que ele foi um dos melhores soldados do palácio. Ele ataca freneticamente, com o intuito de cansar seu adversário, que por hora ainda segue bastante enérgico. Eles lutam numa dança perfeita, as espadas se encontrando ao mesmo tempo no alto, os pés indo em movimentos quase sincronizados.

James contra ataca bem a tempo, a lâmina passando a centímetros da sua orelha esquerda. Ren é rápido demais para que seja atingido, como se soubesse todos os movimentos que James iria fazer. Com um giro tão rápido que mal pude pegar o momento Ren encaixa a ponta de sua espada na de James, roubando para si, portando agora duas armas vence o duelo.

- Parece que você tem um concorrente irmãozinho! - Camilla diz implicante.

- O nosso capitão aqui é o melhor espadachim da ordem! - Kai o elogia.

- E você camarada, é péssimo. - Ren rebate.

- Mas compenso nisso. - Kai levanta as mãos e forma uma enorme bola de fogo. Ren e Liam reviraram os olhos com a exibição de seu amigo.

- Quem quer ser o próximo? - Ren desafia.

Certo, essa é a deixa para o cara mais competitivo que adora entrar em brigas, seja qual for o motivo.

Troco olhares com Cami, vejo que tem o mesmo pensamento. Antes mesmo que ela venha até mim, Harry se oferece. Mesmo sendo um bom arqueiro, ele sabe se virar com uma espada.

- Aposto 20 besantes de que ele não dura nem 5 minutos. - Ela diz num sussurro

- Quanta fé tem em seu irmão! - Falo no mesmo tom.- Aposto 30 que dura mais que James, ele pode ser bem persistente.

- Ela sabe no que está se metendo. - Liam reforça a ideia de Cami.- Apesar de eu não saber o que são besantes, apostaria 50 que o capitão vence. - Completa com um aperto de mãos.

Ren começa a luta bem animado. Harry parece uma criança quando ganha um brinquedo novo, um sorriso presunçoso toma conta dele. Com espadas em punho, o combate começa.

Os dois duelam com afinco, uma fúria silenciosa pelos dois lados. Ren ataca velozmente e Harry defende no mesmo nível. Vejo Ren apertar os olhos encarando seu adversário, tentando desconcentrá-lo a todo custo, com esse gesto teve o azar de não ver o próximo movimento de Harry, sangue escorre do seu braço esquerdo.

- Ponto pra mim! - Harry se vangloria.

Um erro, pois nesse momento Ren avança sobre ele com mais facilidade, lhe acertando na perna. Ele se desestabiliza por um momento mas logo volta à luta, dessa vez mais atento a pequenos detalhes. Os dois atacam juntos, as lâminas chocam uma na outra. Eu diria que o duelo está bem acirrado.

Philip parece concentrado na luta entre eles, sem vontade de encarar um duelo, acredito que sua cota de treinamentos já acabou. James como um irmão apreensivo dá algumas dicas para Harry, não sei se está ajudando ou somente piorando na sua concentração.

Cami já perdeu a aposta, eu sabia que ele duraria bastante tempo, sei como ele é determinado a terminar o que começou, Harry não foge de uma boa luta.

Liam não parece surpreso, o que me intriga, seu capitão está perdendo e ele continua impassível.

Sem investir, os dois andam em círculos esperando o primeiro ataque, eles se encaram e nenhum dá o golpe. Ren vira a cabeça de lado sem desviar os olhos, parece estar tentando entender a estratégia de Harry, o mesmo finge atacá-lo mas sem sucesso, o capitão nem sai do lugar. Os dois estudam os movimentos um do outro, atacando no mesmo momento e novamente as espadas cruzam no ar, ninguém é atingido pelo golpe, que agora se tornam mais agressivos. Harry gesticula a lâmina para frente ao mesmo tempo que afasta o corpo de um corte que atingiria seu abdômen.

Eles não estão para brincadeira, se esse era o intuito no começo, agora já se tornou pessoal. Talvez Ren não curta perder para um garoto normal, e Harry, bem, é o Harry. Ele não perde nunca.

Em um rápido giro, que surpreende até mesmo seu irmão que involuntariamente solta um viva em comemoração, acaba acertando a coxa do capitão, pela quantidade de sangue escorrendo pela calça, creio que tenha sido um corte profundo. O capitão manca para frente tentando acertar Harry, que sem muito esforço se esquiva para a direita, fazendo com que ele finque a espada no mastro. A chance perfeita de Harry dar a volta e apontar a lâmina nas costas de Ren. Ele levanta as mãos em rendição, Harry vibra achando que o duelo acabou e ele venceu, mas não percebeu a estratégia do capitão, aproveitando a distração, pegou novamente a espada e atinge em cheio a bochecha de Harry.

- No rosto não cara!

Com uma nova determinação Harry ataca com tudo, Ren não consegue desviar pelo desequilíbrio causado pelo corte na coxa, com uma rápida investida Harry derruba a espada de Ren para fora do navio.

- Me deve 20 besantes. - Cutuco Cami que dá pulos de alegria pela vitória do irmão, nem parece que apostou contra. - E você, não vou cobrar em besantes, mas fica me devendo um favor. - Digo para Liam que agora parece estupefato em ver que estava errado na ideia da disputa.

- Eu não entendo. - Liam resmungou entredentes.

- Eu sei, eu sei! Sou demais! - Harry fala humildemente.

O capitão tem uma expressão engraçada no rosto, não parece triste com a derrota, mas confuso pelo que houve, como se não soubesse o motivo pelo qual Harry, ganhou. Para ele parecia um ato muito inusitado, que não esperava.

- É meu amigo! - Kai dá um tapa no ombro do capitão. - Não é tão invencível assim. - Ren responde com um olhar de reprovação e se afasta do amigo. - Não sabia que era tão justo ao ponto de não usar seus poderes.

Eu estou curiosa para saber o que um híbrido pode fazer. Nas histórias eles não eram muito mencionados, não sei bem o porquê, mas eram como personagens secundários. Nunca cheguei a me interessar mais sobre eles, ao ponto de fazer perguntas.

Essa fala de Kai não fez muito bem ao seu capitão. Com a cara ainda mais fechada, manda Liam buscar sua espada.

- Eu usei. Mas esse garoto é uma bagunça completa por dentro. - Ren aponta para Harry que já se encontra distraído com os golfinhos saltando pelas águas.

- Quais seus poderes exatamente? - Camilla pergunta com as sobrancelhas erguidas.

- Sua pergunta me ofende, senhorita! - Ele coloca a mão sobre o peito de modo a aumentar o drama, o que deixa Camilla um pouco corada me procurando com o olhar.

- Ela quer dizer que prefere a verdade vinda de um próprio híbrido, ao invés de deduzir pelas histórias contadas. - Ela me lança um olhar de agradecimento.

- Está certa, não sei o que dizem por aí sobre nós, mas a verdade é que posso controlar qualquer um pelo seu próprio pesadelo, consigo ler a mente se olhar dentro do seus olhos, saberei tudo que está pensando e planejando nesse exato momento. - Ele me encara com um sorriso presunçoso e dou um jeito de desviar o olhar. - Eu posso manipular seus sonhos e até modificá-los, entrando pelo seu subconsciente, posso prendê-la e nunca mais acordará. - Se ele está lendo minha mente agora, já sabe que planejo muitas coisas com seu extraordinário poder, sua falta de resposta me leva a crer que não se opõe.

- Uau... isso é... - Camilla tropeça nas palavras. - é impressionante! Foi por isso que venceu o James? Usou a mente para saber seus movimentos antes mesmo que o fizesse?

- Garota esperta! - Ren aponta para Harry que voltou a prestar atenção em nós. - Esse seu irmão não planeja, não pude saber quais golpes aplicaria, seu aglomerado de pensamentos todos de uma vez foram muita informação, o que me deixou confuso.

- Sempre soube que ele era cabeça oca. - Camilla fala.

- Não planejar é o melhor plano. - Harry fala com bastante convicção.

- Não é, não. - Philip e eu falamos em uníssono.

De uma forma clara, Harry é um bom soldado, mas pensar num plano não é seu forte. Ele age mais por impulso, uma das razões para ele ser tão estourado, não pensa antes de fazer, ele vai lá e faz. Até certo ponto admiro sua coragem e confiança, mas às vezes é necessário ter algumas alternativas caso não saia como esperado. A cabeça do grupo sempre foi James, apesar de que Philip está se saindo tão bem quanto ele.

O dia passou tranquilamente, os garotos se alternando para manusear o leme. O sol não estava tão quente como de costume, os ventos nos guiaram para o norte, rumo a ilha Caladian.

Estaria mentindo se dissesse que não estou com medo. Ao menos do que vamos encontrar lá, será uma velha de cabelos brancos, com nariz pontudo e comprido além da conta, mexendo um enorme caldeirão sobre a lareira, de sua pequena cabana repleta de ossos pendurados, ou apenas uma pessoa solitária e mal compreendida? As histórias falam sobre uma senhora que atrai crianças desobedientes para devorá-los, mas ela vive isolada na ilha, como poderá manter sua dieta de pirralhos? Espero que se trate apenas de uma lenda, daquelas que se conta quando os filhos não obedecem.

Minha mãe sempre dizia que eu era uma boa menina, nunca lhe dei trabalho algum. O único motivo para me contar, era que as histórias mais estranhas e assustadoras, sempre foram as minhas preferidas. Ao contrário de Cami, minha amiga sempre estava ao meu lado e não deixava de ouvir as histórias também, ela nunca gostou dessa lenda da bruxa.

Estamos seguindo num bom ritmo, Ren acha que podemos chegar em poucos dias.

Após os duelos entre os garotos, todos se tornaram amigos, sem nenhuma briga ou olhar conspiratório. É engraçado o modo como eles fazem para se dar bem, uma luta para disputar qual o mais forte. Os garotos não sabem conversar.

Assim que a noite caiu, voltamos para dentro da cabine, o ar frio tomou conta assim que o sol se pôs, não deixando outra alternativa se não nos esquentar com uma bela sopa.

Liam prepara um caldo de abóbora com especiarias, tem um aroma maravilhoso e o sabor é único. O cheiro do jantar toma conta da cabine, onde estamos todos animados com a viagem, o tempo passado em alto mar fez com que o humor de todos desse uma guinada inesperada, até mesmo para quem não gosta do balanço do barco. James e Ren seguem traçando a melhor rota para a ilha, Kai sugerindo um plano.

- Não, esse caminho é muito longo, demoraria dias a mais, um tempo que não temos. - Ren explica tirando a linha vermelha da rota.

- E que tal por aqui? - Philip puxa o cordão vermelho até metade do caminho. - Não demora tanto, e podemos ancorar o navio nessa ilhota, ver como a tempestade se comporta e pensar melhor em como podemos ultrapassá-la. - Ele olha para o capitão com expectativa.

- Qual ilhota?

- Hum... Caríbdis.

- Já viu aquele buraco no casco? - Philip assente. - Não quero repetir a dose, não foi nada fácil colocar aquela coisa para dormir.

- Não temos outra alternativa? Não podemos tentar derrotar Caríbdis? - Harry entra na conversa.

- Caríbdis não pode ser morta.

- Então coloca ela pra dormir de novo. - Harry rebate.

- Não é assim tão simples. - Ren fala tranquilamente.

O capitão volta a estudar o mapa.

Para uma melhor visualização de todos os presentes, uso meu anel com o holograma completo do oceano. Mal pude acreditar que Caladian realmente existe no mapa, para mim era mais como uma história, de um local que não existe no mundo real, assim como Penumbra, escondia sobre a árvore. Nunca pensaria que através de um simples tronco, poderia existir todo um mundo de seres imortais.

Não foi difícil localizá-la, pelo ótimo senso de direção de nosso capitão, não sei dizer se é referente a ser meio golfinho, ou um pirata de anos.

Olhando por esse ângulo, a ilha parece mediana, onde passaria despercebida por qualquer um, nada de mais para provocar uma atenção especial, sem contar no fato de estar cercada por um poder maléfico.

Ren diz que para chegar nela não havia empecilho algum. Em seu poder há um magnetismo onde puxa qualquer coisa para perto, ainda mais um sinal de três seres mágicos na embarcação.

Nossa dificuldade consiste em passar por essa linha magnética. A salvos de preferência.

Não querendo dizer mal da embarcação, mas duvido que será capaz de passar por algo como aquilo. Isso tudo terminaria com todos nós afundando no oceano, sem ter a quem pedir socorro.

Harry desliza o dedo pelo mapa, à procura de uma brecha, aproxima da ilha e ela parece meio borrada, como se fosse rodeada por fortes ventos.

- Nos daríamos melhor se tivesse um submarino. - Harry comenta apontando para o fundo do oceano. - Poderia passar por baixo da tempestade.

Admito que esse não foi um de seus piores planos. Mas não digo que seja bom o suficiente.

- Submarinos não são seguros. Nossa porcentagem de sobrevivência seria ainda menor. - Ren aponta os fatos, jogando fora a ideia de Harry.

Todos continuam pensando, em seu próprio silêncio. Liam ainda está sentado à mesa dando as últimas colheradas de sopa, é claro acompanhado de uma dama com apetite de leão.

Philip anda de um lado para o outro, se eu bem o conheço, diria que está inquieto aqui dentro, louco para pisar em terra firme novamente.

- Estive pensando... - Camilla se junta a nós.

- Bem que eu senti um cheiro de fumaça. - Harry debocha enquanto passa a mão perto do nariz, fazendo sua irmã revirar os olhos.

- Não enche Harry! - Camilla gira e busca Liam. - Se lembram do Liam, o TRITÃO. - Ela dá um ênfase nessa palavra. - Ele não tem poderes especiais? Pode passar nadando por baixo da tempestade, e quem sabe até tentar diminuir a intensidade para que o navio passe. - Ela parece muito contente com sua ideia.

- É muito perigoso. - Ren fala antes que Liam possa se manifestar.

- Mas eu poderia tentar. - Liam diz.

- Não. Não vai se arriscar. - O capitão não consegue encará-lo.

- Bem, não é má ideia. Ele pode nadar melhor que qualquer um de nós. - Philip sustenta.

- Eu sou o capitão deste navio! - Ren esbraveja. - A última palavra é minha. E a resposta é não. - Ele diz em tom firme.

Posso não o conhecer a muito tempo, mas sei que há algo entre suas palavras, o que impede de deixar Liam ajudar. Sua mudança repentina de humor e o tom seco que deu sua resposta, deve haver algum motivo.

Eu não sei quantos anos ele tem, sua aparência é de um jovem da minha idade, mas assim como as fadas, ele também pode viver muito, e seu rosto nunca vai mostrar isso.

Depois do que ele disse, ninguém se atreveu a dizer mais nada. Ficamos num silêncio constrangedor, até que sinto meu celular vibrar.

Coloco a mão no bolso à procura dele e vejo uma ligação de James.

O mesmo diz se tratar de Ella, deixou seu anel com a fada para fim de nos comunicar durante a viagem.

Com um toque passo a ligação para o anel e deslizo o holograma para fora, de modo que todos possam vê-la.

Quando a imagem entra em foco vejo uma movimentação de pessoas, muitas delas carregando um saco na mão, outras levando filhos nos braços. Um tumulto diferente da rotina agitada do dia a dia dos feericos.

Ella parece aflita sem saber muito bem como a ligação funciona.

- Oi pessoal. - Ella fala em tom desanimado - Infelizmente as notícias não são boas... houve um tremor de magnitude alta sobre o reino de Alfahein, a maioria das casas foram completamente destruídas, o palácio está em ruínas. Tivemos que abrigá-los aqui. - Ela mostra o aglomerado de elfos tentando se ajeitar nos cogumelos (o que será um trabalho, pois eles são bem altos). - June está possessa, Mab precisou de dois guardas para segurá-la e impedir que saísse em busca de vingança.

- Aquela maluca acha que pode resolver tudo sozinha! Foi uma cena vergonhosa em minha opinião.- Skyler aparece ao lado de Ella, com seu humor de sempre.

- A tempestade foi só o começo. Algo maior está por vir, espero que consigam logo as informações necessárias, precisamos do poder de Eliz. Esse descendente dela é nossa única esperança. - Ella fala com uma expressão triste, parece apreensiva.

- Então está mesmo acontecendo? - Kai perguntou tentando parecer calmo. Ella assente.

- Os únicos culpados são os humanos. - Skyler fala com desdém.

O clima agradável acabou, temos que seguir o plano mais rápido não nos deixando muitas opções, a não ser ir diretamente, de encontro com a tempestade.

Creio que todos estão pensando nisso agora, por suas expressões fúnebres. Já sabem o que teremos de enfrentar.

O reino dos feéricos depende de nós.

Com passos lentos e silenciosos caminho pela proa sob a luz da lua, a noite muito estrelada, repleta de pontinhos brilhantes para todo lado. Era disso que precisava, uma paz para meu cérebro após tanta discussão na cabine.

O ar gelado da noite passa por mim, me deixando arrepiada e um tanto arrependida de não ter pego um casaco antes de subir. Abraço meu corpo em busca de calor, esfrego as mãos nos braços para esquentar.

Em questão de segundos, a brisa soprada pelo vento para repentinamente. O ar volta a ficar parado, mas o clima esfria drasticamente, é uma sensação estranha, mesmo com o frio sinto um calor desconfortável, como se estivesse febril. Eu não escuto nem um pequeno ruído, que antes vinha de dentro da cabine, está tudo num completo silêncio.

Tento me mover, mas minhas pernas não saem do lugar, simplesmente não obedecem ao meu comando de corra.

Engulo em seco, sinto minha respiração ficar curta demais, puxo o ar com força e não vem. Estou sufocando e não consigo pedir por ajuda. Me assusto ao sentir uma mão fria tocar meu ombro, exatamente como na noite em que estava sozinha no lago.

Se aquilo havia sido apenas uma alucinação, por que está acontecendo novamente?

Um sussurro me chama. Viro para o lado e não há nada além das caixas bagunçadas de Ren. Fecho os olhos e tento pensar em momentos felizes, concentrar em algo bom, mas não funciona. Meus pensamentos voltam ao presente e passado, fragmentos de uma época na qual não vivi. Vejo duas crianças verdes brincando na floresta, um lugar realmente esplêndido, nada como o mundo real, não, aquilo era especial. Aquelas crianças são especiais e transmitem isso.

Sua aparência muda com o tempo e agora já são adultas. Ambas com um poder, na qual usam para criar um novo lugar. Assim que terminam, escondem esse pequeno local com um portal secreto. Uma árvore.

Abro os olhos e ainda estou paralisada na proa do navio, nenhum som, nenhum movimento. Parece que estou parada no tempo. Não existe nada nem ninguém além de mim nesse devaneio paralelo.

Sinto a mão fria novamente, como se me chamasse. Não tenho coragem de me virar, então escuto uma voz distante.

Pequena criatura mortal, avise aos seus.

Uma nova aflição está advindo, os humanos alavancaram essa força divina por seus próprios atos.

O ecossistema irá desforrar.

Eu não entendo o que significa, a voz parecia algo celestial, vinda de todo lugar e ao mesmo tempo de lugar algum.

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PRÓXIMO CAPÍTULO EM ANDAMENTO...

O QUE ESTÃO ACHANDO DA HISTÓRIA ATÉ AGORA?

PS: DEIXA A ESTRELINHA ⭐

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