16• PIRATAS DO NETUNO

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"Era uma vez, uma embarcação que apareceu no mar
E o nome dessa embarcação era a Billy of Tea
Os ventos sopraram forte, sua proa afundou
Soprem, meninos valentões, soprem
Em breve o embarcador chegará"

- Wellerman.


     Acho que já não é nenhuma novidade dizer que eu amava ouvir histórias.

Desde conto de fadas à lendas de bruxas, mas é claro que tinha uma que eu pedia para ouvir todas as noites, aquela era especial para mim de um modo que não consigo explicar, talvez seja pela ideia de ser uma criança para todo o sempre, não precisar crescer e ter responsabilidades do tipo; Comparecer à uma reunião ou um evento qualquer que requisita a nossa presença. Uma história para crianças, chamada Peter Pan.

Creio que muitos já ouviram essa história quando pequenos, é um grande clássico que vem bem antes dos meus pais, de séculos atrás quando ainda se podia viver tranquilamente sem medo de uma guerra iminente. Às vezes penso que se não tivesse acontecido a terceira guerra mundial, ainda poderíamos estar unidos, exatamente como era naquela época. Bom, é claro que não podemos saber exatamente como era, apenas imaginamos como aconteceram as coisas por relatos em antigos livros de história. Muitos deles foram destruídos após a guerra, não queria que a população sobrevivesse e sua próxima geração soubessem dos fatos reais.

Pensando nisso, imagino como era ser criança naquela época, será que tinham mais liberdade? Ou eram pressionadas também de algum outro modo?

Apenas sei que aquela velha história me fazia viajar, num subconsciente cheio de magia e alegria, diretamente para a ilha da terra do nunca. Embora nossa viagem seja para uma ilha, não iremos encontrar um bando de crianças perdidas, mas sim uma bruxa, nada disso fazia parte do meu sonho de criança.

Eu me imaginava como um deles, sendo corajosa no meio de tantas aventuras, como derrotar o capitão gancho e tomar o navio. Essa era uma de minhas ideias, me tornar a capitã de um navio pirata, navegar pelas águas do mar e ir para onde quiser, sem complicações, sem compromissos.

Talvez essa deva ser a razão pela qual tanto gostava daquela história.

Desde quando eu entendo, já estava ciente de todas as minhas obrigações para com meu reino. Sabia que um dia seria eu a sentar naquele trono e tomar as decisões, assim como meu pai, meu avô, bisavô... e por aí vai, sempre fomos parte da família real, os Miller tem essa descendência.

Eu não odiava a ideia de ser uma rainha, mas sabia que assim não teria minha tão desejada liberdade. Eu sempre soube como seria o meu futuro, tudo planejado desde meu nascimento, crescer e aprender tudo sobre o reinado, ser gentil e forte, ser equilibrada e focada. Ter uma boa aliança com um casamento, trazer paz e alegria para nosso reino. Eu só não esperava por essa guinada inesperada.

Essa seria a chance para eu ter a vida que sonhava, fugir disso tudo e ser livre, seguir em frente sem olhar para trás. Poderia enfim estar num navio e sair navegando e explorando novos lugares, viver uma vida cheia de aventuras, mas sem uma certa chance de acabar morrendo com isso.

Sei que no fundo era o que eu queria.

Mas uma parte de mim odiaria deixar que destruíssem o que minha família a tanto custo havia construído. Essa parte não me deixava fugir para uma vida fácil, eu tinha que fazer aquilo por eles, vingar sua morte e conquistar de volta o que uma vez foi meu.

Talvez um dia eu venha a ter uma vida tranquila, em nenhum momento normal, mas tranquila bastaria. Por hora, tenho que batalhar para conseguir avançar, uma Miller nunca desiste.

Por isso essa era minha história favorita, desejar uma vida totalmente diferente da minha, mas no fim voltar ao meu lugar.

Estar parada no cais, com a mochila nas costas, adagas embainhadas, e logo à frente ter um navio ancorado, me fez reviver aquela lembrança.

E se...

Rapidamente me livro desse pensamento, olhar ao redor e encontrar ali os garotos ajudando Ren e Kai a levantar as cordas, Camilla já com a expressão de enjoo no rosto, sinto que estou onde deveria estar, seguindo pelo caminho certo, cercada pelas pessoas certas.

Faz um lindo dia ensolarado e quente, exatamente como gosto. Uma leve brisa ajuda Liam a içar as velas do lado correto. Observo o navio, suas madeiras parecem envelhecidas com um tom marrom desbotado pelo sol, e algumas partes do casco corroídas pelo sal do mar, aposto que Ren já viveu muitas coisas a bordo, pelas velas que acabam de ser levantadas e com alguns remendos nelas. Bem na frente, há um ponto onde a madeira parece mais nova, como se ali tivesse um buraco e há pouco consertado. O que os teria atacado? O buraco parecia ser bem amplo, talvez até o suficiente para afundá-lo. Não quero nem pensar nisso, seja lá o que aconteceu.

Seguindo o olhar um pouco mais para cima vejo uma placa com o que deduzo ser o nome da embarcação. Está bem gasta pelo tempo, dificultando a leitura, parece estar escrito em outra língua, romano talvez. Não sei a tradução e agora fiquei curiosa em saber o nome.

Avisto Ren ao longe, pendurado em uma ponta do navio puxando uma bandeira em tom azul com o símbolo de um tridente, uma espécie de lança com três pontas. Me parece um pouco familiar.

- EI REN! O QUE SIGNIFICA? - Aponto para a bandeira que agora está em pé balançando com o vento.

Coloco a mão sobre os olhos para conseguir enxergá-lo melhor, o sol está bem forte nesse momento.

Ainda pendurado lá em cima, Ren acena de volta para nós e sorri. Em um pulo ele desce até o convés e some pela escada adentro, saindo pela porta e vem se aproximando.

Ainda é estranho vê-lo sem a cor azul de costume, parece até normal. Ainda usa as mesmas roupas de pirata e um lenço como tapa olho, agora sei que serve apenas para completar o visual, ele não é caolho. O que é ótimo, pois ele é quem vai guiar o caminho.

- Senhoritas! - Ele se curva levemente para mim e Camilla como um cumprimento. - Precisam de alguma coisa?

- Um remédio para enjoo. - Camilla parece verde somente de pensar em ficar balançando por alguns dias.

- Hum... te vi pendurando aquela bandeira, o que significa? - Pergunto com medo de ser o que estou imaginando.

- Ah, aquilo? - Ele aponta para trás. - É o símbolo do Deus dos mares, legal né? Gosto de pensar que faço parte da mitologia, o golfinho sabe... além do mais, o nome dessa barcaça velha é Netuno, achei que combinaria.

Netuno.

Eu sabia que era familiar. Agora faz sentido.

- Capitão Wilde?

- Sim? - Ele atende pelo nome.

Tudo bem, por isso eu não esperava. Estar do lado de um dos maiores piratas já existentes não foi como eu imaginei. Acontece que, de vez em quando, algumas mercadorias que estavam sendo enviadas para outros reinos, eram roubadas. Nunca conseguiram pegar o ladrão, só se dizia que era muito esperto e trapaceiro, todas as vezes em que acontecia, os marujos voltavam amarrados e vendados, não sabiam o que tinha acontecido e nem visto nada, apenas lembravam de ter pego no sono e ouvir um sussurro dizendo o nome Capitão Wilde, do navio Netuno.

Essa brincadeira do Ren me rendeu meses de muito trabalho em repor as mercadorias roubadas, afinal os compradores pagavam por algo que não era entregue, pode se imaginar o que passamos para explicar o ocorrido, um pirata, é claro que desconfiaram de nós, piratas não existem.

Mas existem, e aqui estou eu frente a frente com ele, primeiro, imaginava que fosse um velho barrigudo todo sujo, assim como nas histórias, ou então que ele fosse mais... amedrontador?

Ren Wilde não passa de um garoto meio golfinho que perdeu os pais e se tornou um ladrão rebelde.

Não era contra as regras sair de Penumbra?

Eu poderia denunciá-lo para a rainha e acabar com isso agora mesmo, toda essa marra de garoto problemático acabaria num minuto.

Mas não foi o mesmo Ren que ajudou a "derrotar" um dragão? O mesmo Ren que nos aceitou em seu navio? O mesmo Ren que vai me ajudar a conseguir o que quero?

Certas coisas não acontecem por acaso. Ele está aqui agora disposto a ajudar numa causa que não é dele, que não o afeta. Talvez deva repensar nos motivos que o levaram a fazer aquilo. Talvez dar uma chance de se explicar.

Não posso falar sobre isso agora, talvez se os garotos souberem não confiem tanto nele, e bom, temos que continuar.

- Tudo pronto, todos a bordo! - Ren anuncia indo para o Netuno.

- Maravilha. - Camilla finge estar animada.

- Hmm... eu trouxe uma coisa para você. - Liam entrega alguns vidros com líquido esverdeado. - Extrato de alga wakame, vai te ajudar a não se sentir mal.

- Obrigada Liam, vou precisar mesmo. - Ela lhe retribui com um sorriso tímido.

- Os animais marinhos também agradecem. - Harry chega por trás deles.

Ele carrega um arco pendurado nas costas, pelos detalhes parece ser feito a mão com uma madeira de boa qualidade, visto que algumas das árvores existentes aqui têm propriedades mágicas. Em mãos leva um punhado de flechas com pontas bem afiadas, Harry parece contente em ter sua arma preferida novamente.

Philip e James já se encontram na beira do cais, a caminho do navio, ambos portando suas espadas embainhadas e equipados com mais algumas adagas presas no cinto e escondidas nas roupas.

Será que devo me preocupar com esse encontro? São tantos armamentos que só posso imaginar ela sendo uma pessoa extremamente poderosa e perigosa.

Ficamos todos no convés enquanto Ren tratava de ajustar o leme para a direção correta e Kai puxava a âncora com a ajuda de Liam. Philip, James e Harry não sabem muito no que podem ajudar pois nunca havia estado num navio antes.

O assoalho do convés rangia a cada passo que dávamos, espero que não ceda com todos nós aqui em cima.

- Kai suba o mastro, Liam verifique a quilha, veja se está tudo certo, não queremos afundar. - Ren administra aquilo tudo com bastante calma.

Em pouco tempo já não vemos mais o cais, o sol está alto no céu com um vento leve. Gosto da sensação do balanço do navio, consigo me equilibrar na proa olhando para a imensa vastidão do mar, pequenas ondas se formando de tempo em tempo, o som das gaivotas ao longe. Me sinto leve aqui, como se todos os problemas tivessem ficado para trás, na terra.

Cami achou um canto no convés para se sentar, um local onde não havia nenhuma caixa ou artefatos estranhos do capitão. Junto dela estavam seus irmãos, embalados numa conversa animada. Não quero interrompê-los então me ajeito por aqui mesmo. Vendo eles, juntos daquela maneira, mesmo brigando por qualquer coisa ainda se dão muito bem, sinto uma falta imensa dos meus irmãos, daria tudo para ver a carinha dos gêmeos se estivessem aqui conosco, eles amariam essa viagem, passar os dias numa minúscula cabine apertados contra os outros tripulantes, dormir em redes e comer ao ar livre, explorar uma ilha antiga.

Se fechar os olhos consigo ouvir o que diriam, "Que maneiro, ei Louis, e se eu te amarrasse naquele mastro?", e para Grace seria uma aventura cheia de aprendizados, ela provavelmente ficaria na cola do Ren para aprender tudo que pudesse sobre um navio, esse sempre foi o feitio dela, estudar e aprender coisas novas, uma de suas frases preferidas era "Se eu ainda não sei, irei descobrir". Não havia nada que ela não pudesse fazer, era realmente brilhante.

- Oi, você está bem? - A voz de Philip me tira desse devaneio. - Parece pensativa.

- Só me lembrando dos gêmeos e Grace. - Respondo.

- Acha que eles gostariam daqui?

- Não tenho dúvidas.

Ficamos em silêncio, um silêncio confortável ao lado do meu amigo mais antigo. Ficamos apenas observando a vista, até que ele quebra o silêncio com um longo suspiro.

- Sabe... as vezes eu queria que tudo tivesse sido diferente entre a gente.

Não o respondo, não sei o que dizer e não tenho certeza se devo dizer algo. Não posso nem imaginar o que se passa com ele, sua vida deve ter sido tão difícil quanto a minha. Ir embora ainda criança, sendo obrigado a deixar para trás a infância cedo demais, é uma responsabilidade muito grande, em parte por minha causa. Quem sabe o que teria acontecido se ele não tivesse ido, se por um acaso continuasse por perto. Talvez algo a mais, talvez um outro cargo. Pensamentos na qual não devemos nos apegar, não se pode mudar o passado, mas quem sabe talvez o futuro.

- A minha vida toda... tudo que já fiz, foi pelo meu pai. E me parece que nunca fui reconhecido por isso. - Sua voz sai fraca, ele parece cansado, não só fisicamente mas mentalmente. Vejo em seus olhos que não era essa a vida que ele queria.

- A vida é repleta de obstáculos, e cabe a você decidir se vai enfrentá-los, ou parar diante de cada um.

- Isso foi... profundo. - Ele sorri.

- Ei pessoal, tem alguém com fome? - O chamando de Liam nos interrompe.

Minha última refeição havia sido o jantar com Hazel, Ella e Skyler na noite passada. Fomos praticamente arrastados da cama hoje pela manhã, ou melhor dizendo, antes mesmo do sol raiar e já fomos direto para o cais. Não tivemos tempo nem de ter um café da manhã, então assim que o tritão desceu para o interior, fomos todos como um bando de famintos logo atrás.

A cabine é mais espaçosa do que imaginei, com uma mesa comprida no centro, um lustre pendurado sobre ela dando um ar mais aconchegante. As paredes repletas de mapas, desenhados em vários estilos e tamanhos diferentes, alguns deles com marcações. A direita havia um quadro com esboços rabiscados e mais marcações, muitos papéis espalhados pela pequena mesa logo abaixo do quadro.

No fundo há mais uma porta, acredito ser onde vamos dormir. Aqui dentro tem um cheiro de mofo, ao qual devo me acostumar pois vamos passar alguns dias por aqui.

A mesa estava cheia de muitas frutas, pão fresco, sucos e café, um aroma delicioso que preenche o ambiente assim que Kai enche o primeiro copo.

Encho meu prato de uvas verdes sem caroço, minhas preferidas. Pego também uma banana e completo com um pedaço generoso de pão quentinho. Como eles trouxeram isso tudo, não tenho ideia, mas por mim está ótimo se for assim todos os dias.

As algas de Liam parecem ter feito efeito, Cami parece bem e não adquiriu a tonalidade verde como da última vez, está devorando uma porção de coisas, como de costume.

Nosso capitão se contenta apenas com uma caneca de café fumegante em suas mãos, enquanto observa um mapa pregado na parede.

- Agora que todos estão satisfeitos, vamos ao plano. - Ele tira o mapa da parede colocando sobre a mesa. Todos se aproximam para ver melhor. - Já tem um tempo, quando estive na Ilha Caladian era ainda um garotinho. Precisamos ter certeza de que ela continua no mesmo lugar, ou se a bruxa por algum motivo resolveu mudar as coisas.

- Como assim mudar de lugar? - James pergunta sem entender.

- Desde que o poder dela ficou evidente, os moradores locais trataram de sair da ilha, é um local pequeno sabe, eles não queriam topar com a bruxa enquanto ordenam suas ovelhas. - Kai explica.

- Se isso realmente aconteceu, como podemos saber onde vai estar agora? - Harry vira uma caneca de café.

- A ilha tem um poder em torno dela. Um tipo de tempestade para impedir qualquer um de se aproximar. - Ren prossegue.

- Está nos dizendo que, o plano é ir de encontro a uma tempestade no meio do oceano? - Philip pergunta incrédulo.

Certo, não estou gostando nada disso. A lenda não dizia nada sobre tempestades em volta da ilha, muito menos sobre ela mudar de lugar.

Talvez essa bruxa seja poderosa mesmo, num nível em que não pode ser derrotada por uma adaga, espada ou flecha. Teremos um grande problema nessa missão. Agora se tornou questão de sobrevivência.

- Não estou gostando disso. - Cami tira as palavras da minha boca.

- E como planejam entrar na ilha se ela é protegida? - Me aproximo do mapa para ver o caminho traçado.

- Vamos navegar sobre ela. - Ren tem um sorriso presunçoso no rosto.

- Com essa coisa velha? Só pode estar brincando! - Harry exclamou apontando para o casco em geral. - Tem tantos recursos em Penumbra, poderia ao menos tê-lo reconstruído se quer enfrentar aquilo novamente.

Netuno realmente não está nas suas melhores condições, não sei se aguentaria passar por uma terrível tempestade, os ventos atacam com força deixando uma destruição, já pudemos ver esse rastro varrendo Faerie, muitas casas foram massacradas pela chuva forte, isso em terra firme com fada elementais controlando a força da natureza. Eu não quero nem ver o que fará com um velho navio no meio do mar, sem poderes de água, ou ar para nos auxiliar. Não acredito que esse seja o plano mais inteligente.

Pela mudança repentina de Ren acho que ele não gostou nada do comentário de Harry, apesar de eu achar que ele tem uma certa razão nisso.

- Mais um insulto ao meu navio e te jogo no mar! - Aí está o pirata que esperava encontrar.

Harry levanta as mão para cima em rendição. Ninguém fala mais nada sobre o assunto com medo de ser chutado para fora.

Cada um vai para um lado, com seus próprios afazeres. Kai sobe para o convés, e com isso logo todos vão junto.

Ren continua debruçado sobre o mapa, em um caderno começa a anotar algumas coisas, um tipo de localização em latitude e longitude. Ele parece focado mas preciso interromper por um momento. Começo me aproximando e faço perguntas sobre o lugar, que ele responde facilmente. Tento puxar um assunto sobre quanto tempo ele navega, e sobre sua tripulação original, o que me parece adequado antes de chegar no assunto "Você roubou meu reino".

Ao que parece este navio é sua casa. A única coisa que recorda de seus pais, o que explica sua reação sobre chamá-lo de velho. Sua tripulação era composta em sua maioria pelos híbridos, e alguns tritões.

- Onde quer chegar com todas essas perguntas? - Ele traça um risco em vermelho de uma ponta a outra no mapa.

- Tudo bem, vou direto ao ponto então. - Procuro pelas palavras certas antes de completar. - Há alguns meses, os navios exportadores que saiam do meu reino, começaram a ser furtados em alto mar. - Começo, ele apenas ergueu uma sobrancelha mas ainda não diz nada. - Nenhum dos tripulantes soube dizer como aconteceu, tinham apenas uma vaga lembrança de ouvir o nome Netuno algumas vezes. - Ren continua calado.

- Há muitos navios chamado Netuno, sabe, é um nome apropriado para tal.- Ele responde calmamente.

- Mas só há um Capitão Wilde! - Digo esperando uma reação imediata. - Você me deu um pouco de trabalho nesses últimos meses, senhor Ren Wilde. - Indago o encarando.

- Quer saber a verdade? - Ele diz sério, apenas assinto o deixando continuar. - A Senhorita está ciente de que tem gente passando fome? Que algumas pessoas não têm um teto para morar? Você! - Ele aponta um dedo para mim em acusação. - Fica dentro de seu mundinho perfeito e não sabe o que acontece lá fora! Sempre teve de tudo a vida toda e se esquece que há mais pessoas na terra. Então, como uma forma de justiça, eu e minha tripulação pegamos parte das mercadorias, interceptando no caminho para levar a quem realmente precisa. Reinos pobres de terras inférteis, com pessoas doentes sem ter condições de buscar ajuda, enquanto vocês esbanjaram em festas e eventos. Eu posso citar os nomes; Davhar, Dryness, Soul...

Cada palavra dita era como um tiro.

Sim, eu sabia. Sempre fui ensinada a cuidar do que é meu. Mas também aprendi que não existe somente alegria e riqueza, sabia que não muito distante se onde cresci tendo de tudo, também haviam crescido pessoas sem quase nada para comer. Reinos pobres, inférteis, com doenças, em ruínas.

Não posso dizer que nunca tentei mudar isso. Assim que eu atingi idade suficiente para fazer parte das reuniões burocráticas, colocava em pauta esse assunto. Sempre fiz o que pude para melhorar a situação, às vezes me chamaram de tola e que não cabia a nós ajudar outro reino. Eu sabia que não teria voz naquele conselho repleto de senhores antiquados de mente fechada. Decidi que poderia esperar a hora certa de agir, assim que colocasse a coroa seria eu a dar as ordens. Era a primeira coisa que faria.

Eu nunca cheguei a ver com meus próprios olhos, até que minha vida mudou de cabeça para baixo. Onde fui obrigada a sair do meu lar e me esconder. Pude ver um pouco em Davhar, não chegava a ser precário, mas estava longe de ser um reino tradicional.

- CHEGA! - Não consigo mais escutar calada. - Eu sei, sei de tudo isso. Mas temos que fazer do modo certo. Pensa que não fui prejudicada com sua aventura de Robin Hood? O que acha que acontece quando se paga por algo e não recebe? Ainda com a história de ter sido roubado por piratas, os compradores obviamente não acreditaram, nisso perdemos parte deles, acordos de décadas passadas se foram e não tínhamos nem uma resposta para dar. - Ando de um lado para o outro inquieta. - Pensa que não lutei para me ouvirem? Acha que não tentei fazer com que ajudassem? Você não me conhece, capitão!

- Admito que a princípio achei que seria somente mais uma princesa mimada. Mas parece que me enganei, quando chegou em penumbra se mostrou forte e corajosa, enfrentou um dragão e o domou, confesso que me surpreendeu bastante. O que eu quero dizer é que tinha o poder nas mãos e não fez nada com ele. - Ren aponta para minha cabeça. - Isso não diz nada sobre quem você é, não precisa de uma coroa para fazer alguma coisa.

E mais uma vez suas palavras me acertaram em cheio.

Ele tem razão.

- Não pense que suas atitudes foram corretas. Mas talvez tenha razão. Depois que isso tudo acabar... se ainda estivermos aqui, podemos pensar numa solução juntos.

- Por que acha que te convidei para minha tripulação? Tenho fé em você Miller, é determinada e isso basta.

#

Estou deitada no convés, observando as nuvens no céu. Uma tem o formato exato de um anão raivoso chutando uma árvore. Estamos navegando há bastante tempo, já não se tem mais sinal de pássaros voando pelo céu, vejo uma imensidão azul, se misturando entre mar e céu, uma vista magnífica.

Não consigo parar de pensar no que Ren me disse. Eu não preciso de uma coroa para fazer acontecer. Eu devia ter saído do palácio e feito eu mesma, tinha os recursos, era a chance perfeita. Mas deixei passar.

Não quero, nem posso ficar remoendo isso agora, já tenho coisas suficientes para me preocupar, por exemplo, Isra Valario.

Estou com o livro e decidi folhear algumas páginas.

As folhas são de tom amarelado, letras tortas, palavras borradas e rabiscadas como se tivesse escrito a mão, talvez ela mesma tenha feito. A maioria são apenas feitiços que não quero testar se funciona.

Havia uma página em específico que me chamou a atenção, diferente das outras era uma folha preta com caligrafia branca, parecia algo como um aviso, para quem a procurasse.

"Se a bruxa quer encontrar

Na ilha deverá chegar

Por uma prova passarão

Intrigas e sombras antigas

Um escolha irá tomar

Suas vidas dependerão

Do líder em ascensão."

Estou cansada de charadas, por que não dizer de uma vez o que iremos enfrentar ao pisar naquela ilha abandonada.

Acho que devo estar muito cansada e sonolenta, pois o que vejo agora não pode ser real. A página em preto começa a mudar de cor para um branco e as letras se embaralham até formar uma frase.

"O aviso está dado, a quem precisar de magia saiba que tem um preço. Deverá passar pelo desafio final, onde suas emoções mais profundas serão postas à prova.

Deixe que os sentimentos tomem conta, deles irá precisar para encontrar sua alma, ou então a perderá, tristeza será somente o começo dos males que se seguirão.

Em sua intuição deverá confiar, não ouça a voz na sua cabeça, o coração fala mais alto."

Fecho o livro rapidamente e o deixo de lado.

Bom, eu pedi uma resposta e o livro me deu, se isso é mesmo possível ele serve como um guia.

Estou confiante de que talvez ela possa ajudar na minha batalha também. Se é tão poderosa pode me dizer como vencer, eu só não gosto da parte em que toda magia tem seu preço.

O que terei de dar em troca?

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PRÓXIMO CAPÍTULO EM ANDAMENTO...

O QUE ESTÃO ACHANDO DA HISTÓRIA ATÉ AGORA?

PS: DEIXA A ESTRELINHA ⭐

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