8 - Clube da Luluzinha

É uma verdade universalmente reconhecida...¹

Orgulho e Preconceito, Jane Austen


¹ Original: É uma verdade universalmente reconhecida que um homem rico e solteiro precisa de uma esposa.




24 de março, terça-feira

Depois do banho de caneca, quando já estavam confortáveis, uma no chão e cada uma das outras em um sofá grande — porque era incrível como sofás antigos eram sempre grandes! —, comendo, conversando e rindo, com uma música baixa de fundo, Luiza tomou coragem e perguntou a Fernanda como tinha sido a conversa com o pai. Dessa vez ela não queria fugir das perguntas. Queria falar, depois de muito tempo só guardando tudo ou só compartilhando com quem sequer conhecia pessoalmente.

— Foi... triste. Ele me entende, mas não tem coragem de ir contra a mãe. Quem gosta de admitir que a mãe querida é racista? Parece que ela sempre foi controladora assim, mesmo antes de ele conseguir se casar. Aí encobre tudo com controle. Ele acabou cedendo sobre eu sair de casa porque eu sei que ele entende. Disse que vai ligar nas companhias de água e energia pra mim, depois internet. Ele sabe que não é tão provisório e... não caiu a ficha nem pra mim ainda, imagina pra ele.

— Mas você está bem? — Perguntou Julieta.

Fernanda pensou um pouco antes de responder.

— Não tá sendo fácil mesmo desde que ela se foi. Tá um difícil diferente. Porque eu nunca tive ninguém do meu lado. Sempre fui só eu.

Luiza esticou o braço para alcançar Fernanda e as duas deram as mãos por um momento. Julieta ainda se sentiu uma intrusa ali no meio, ainda que estivesse grata por ser alguém mais nesse momento difícil de Fernanda.

Elas ficaram em silêncio por um momento. Luiza tentou encontrar algo para falar e não deixar a noite morrer.

— Qual vocês acham que vai ser o livro amanhã? — Arriscou. Era o assunto em comum que elas tinham até então.

— Tenho a leve impressão que ele vai tentar me sacanear — disse Julieta.

— Por quê? — Perguntou Fernanda. — Já percebi um lance entre vocês, mas não saguei qual. E você não parece querer estar nesse clube de leitura.

— Não queria. Ele praticamente me obrigou ou não formo esse semestre.

— Obrigou por quê? O que aconteceu?

— Bem... Semestre passado a resenha final da matéria de literatura dele era sobre Orgulho e Preconceito.

— Não gostou do livro?

— Gostei. Só não gosto muito de comentar sobre o que leio. Nunca tenho muito o que falar. É só bom ou ruim ou mais ou menos. Não sei analisar personagens ou enredo ou contexto histórico. O que eu sei disso? Imagina escrever páginas sobre.

— Você não fez?

— Fiz, mas aconteceu um acidente... 


"É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen escreveu o melhor começo de livro da história. Mas, não bastasse isso, o desenrolar do livro e o seu final são igualmente..."  — Digitou em Comic Sans.

— Que adjetivo coloco nessa MERDA? — Ela perguntou em voz alta, para si mesma, sozinha no quarto.

Julieta não era grande fã de escrever sobre o que lia contra sua vontade. Queria ser professora de inglês e nada mais. Nem escritora nem leitora profissional. Mesmo que gostasse de ler, mesmo que alguns livros fossem até bons de conversar sobre. Mesmo que um professor mandar que lessem Orgulho e Preconceito fosse... inusitado dentro da universidade. Todos ficaram felizes quando descobriram no primeiro dia de aula, mas todas as pequenas leituras de contos e as micro resenhas que eles fizeram no decorrer do semestre, como preparação para a resenha principal, foram tortura para Julieta. Ela só queria deixar de existir sempre que precisava se sentar para escrever. 

"É uma verdade universalmente conhecida que o livro é até interessante, mas esse tipo de trabalho é uma merda." — Digitou com raiva com sua fonte preferida e fechou o notebook sem fechar o arquivo nem nada.

Abandonou a escrivaninha, ligou o ventilador e o virou na direção da cama, tirou a roupa velha de ficar em casa que usava, para dormir mais confortável, se deitou e dormiu a tarde toda.

Quando acordou no final da tarde, estava melhor de humor, mas culpada por ainda não ter nem começado o trabalho que deveria enviar até às 22h — e um pouco suada por causa do calor que fazia apesar do ventilador na cara. Tomou um banho refrescante, não finalizou o cabelo por preguiça e, ao invés disso, passou menos creme e o prendeu em um semicoque no topo da cabeça, ficando com os fios mais curtos soltos. Vestiu um pijama, se sentou na cama com o notebook e só se levantaria dali quando terminasse aquela resenha.

Abriu um arquivo novo, escreveu a introdução acadêmica, como todo trabalho acadêmico deveria ter — principalmente no alto do seu penúltimo período — e que ela sequer tinha se preocupado mais cedo no calor daquele momento de irritação. No desenvolvimento, decidiu começar com o mesmo trecho que usou mais cedo, que ainda se lembrava por ser uma frase famosa demais, mas dessa vez foi mais paciente com os adjetivos.

É uma verdade universalmente conhecida que mesmo os trabalhos mais chatos não são impossíveis de fazer se você se esforça o bastante e perde alguns neurônios e um pouco de energia vital no processo.

No final das oito páginas sua cabeça doía muito. Ela não sabia se era o sono desregulado, o cabelo que prendeu molhado ou se era fome porque não tinha almoçado nem jantado. Ela salvou o arquivo, enviou por e-mail, fechou o notebook, comeu um macarrão instantâneo, tomou um comprimido para a dor e dormiu outra vez.

Acordou no dia seguinte tentando se lembrar se tinha sonhado alguma coisa, mas nem imaginava que seu dia seria um pesadelo.

Mas não foi uma sucessão de pequenos desastres o que aconteceu com ela desde que acordou. Tudo correu normalmente até o final da aula. Durante ela, o professor só comentou que recebeu as resenhas de todos, mas que não tinha olhado ainda. Porém, não foi o que Julieta descobriu no final.

O professor Guimarães pediu que ela ficasse porque queria falar com ela, e ela não fazia ideia do que poderia ser, a não ser que ele tivesse dado ao menos uma olhadinha nas resenhas e percebido que a dela não foi revisada e estava com alguns erros de digitação e outros de raciocínio, principalmente na parte final e na conclusão.

— Essa disciplina é algum tipo de piada pra você? — Ele perguntou assim que o último colega de Julieta saiu da sala e fechou a porta.

A pressão caiu, ela gelou. Se pudesse ver sua própria cara, poderia dizer que era uma cena de filme de terror, naquele segundo em que ela vê o monstro, um segundo antes de fazer uma careta e gritar.

— Q... que...? — Tentou falar. Ela nunca ficou tão confusa na vida.

Ele abriu um arquivo no computador da sala. Julieta, primeiro, reconheceu a fonte, mas se enganou por mais alguns segundos, até que leu tudo.

"É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen escreveu o melhor começo de livro da história. Mas, não bastasse isso, o desenrolar do livro e o seu final são igualmente...

É uma verdade universalmente conhecida que o livro é até interessante, mas esse tipo de trabalho é uma merda."

"Merda", foi exatamente o que ela pensou ao perceber o que tinha acontecido. Não havia outra resposta se não que ela tinha enviado o arquivo errado, porque os dois juntos não foi. Ela passou os dedos nos olhos de uma forma meio dolorosa, como se estivesse se torturando inconscientemente. Talvez conscientemente mesmo. O que era uma dor física perto daquela humilhação? Respirou fundo.

— Então você tem uma justificativa pra isso? — Ele perguntou quase sarcástico.

Ela parou seu autoflagelo e o olhou.

— É claro que tenho. Eu jamais enviaria um arquivo assim como sendo... oficial.

— E...?

— Eu fiz a resenha... depois disso. Só enviei o arquivo errado. Minha cabeça estava explodindo.

— Ah, sei.

— É sério. Posso enviar ela agora. Eu não teria tempo de escrever uma nova só pra fingir isso. Acho tá na nuvem...

Ela sentia que não conseguia formular uma frase que fizesse sentido, não sabia se fazia ou não. Não sabia mais se sabia falar português. Foi tirando o celular da mochila para procurar o arquivo e enviar, rezando que estivesse automaticamente salvo na nuvem.

— Não sei se quero — a interrompeu.

— Por quê?

— Porque, fazendo ou não, antes você criticou... "esse tipo de trabalho" — disse ele, fazendo as aspas com as mãos para ser o mais enfático possível.

— Mas eu não gosto mesmo de fazer resenha de livros e você sabe disso.

— E eu não sei se quero ler um trabalho com essa fonte.

— Não tá com essa fonte. Eu só começo com uma fonte qualquer e depois mudo. Mania boba. Tô no sétimo período, sei fazer trabalhos.

— Não parece.

Ela não sabia mais o que dizer. Ele também não disse nada. Aquilo era uma verdadeira sessão de tortura. Ela não aguentou esperar por alguma manifestação dele.

— E então? — Perguntou em voz baixa.

— A resposta é não. E, como você dependia dessa resenha para finalizar a disciplina, terá que fazer outra coisa para compensar no próximo semestre.

— No próximo semestre? Você vai machucar minha média?

— VOCÊ machucou sua própria média.

— Mas não tem nenhuma equivalente a essa disciplina no próximo. Só no outro. Eu vou ficar um semestre a mais!

Ele meio que deu de ombros, mas depois falou:

— Consigo fazer com que autorizem você a compensar isso no Clube do Livro.

Ela suspirou descompassada e quase perdeu o tom de voz moderado.

— Cujo objetivo é...

— Conversar sobre seu processo de leitura. Sou eu quem media a leitura. É só participar direitinho e pode se formar nos quatro anos normais.

Ela colocou a mão no rosto.

— Por que tá fazendo maldade comigo?

— Não é maldade. Eu sou professor. Disciplinas são obrigatórias, queira você fazê-las ou não. E ainda estou te dando uma ajuda com o clube do semestre que vem.

— E que livro vão ler?

— Surpresa.

Suspirou mais uma vez.

— Se essa é a única alternativa... Sem resenhas? — Tentou.

— Com resenha.

— O quê?

— No final todos têm que entregar uma resenha do livro que lemos e outra de algum livro que acham que deve ser lido nos próximos semestres.

— Não!

— Nono semestre! — Ele cantarolou. Se ainda não estava claro, agora estava ficando claro que aquilo era sadismo.

— Ai, tá — ela disse quase alterada e saiu da sala.

— Você tem que se inscrever o mais rápido possível! — Ele gritou da sala.

Por sorte — dela —, ela ouviu.

— Então, me matriculei no Clube do Livro, algo que pensei que jamais faria e já odiava desde então — contou às amigas.

Luiza e Fernanda riam como não faziam havia muito tempo — ainda de mãos dadas. Julieta acabou rindo também. Já tinha acontecido mesmo, ela já estava no clube obrigada. E, no final, o clube a levou a um lugar que ela pensou jamais estar: numa casa estranha com duas novas amigas.

— Por isso... — Fernanda perguntou, ainda rindo um pouco. — Pediu nossa ajuda com o poema?

— Sim. Ele não gostou da minha participação sobre o conto e eu tava totalmente perdida no poema. Imagina... falar de amor. Queria ter saído com algum poema de desamor.

— Mas você disse que gostou de Orgulho e Preconceito.

— Gostei, porque é uma história de caminho. Não foi, sei lá... à primeira vista e irreal feito Romeu e Julieta.

Luiza e Fernanda se olharam e caíram na risada outra vez.

— Gosto de divertir vocês — brincou Julieta, mas já sem ter certeza se fazia papel de palhaça ou não.

Para ela era difícil demais se abrir e confiar, ou vice-versa.

— Não, é que... — disse Luiza, limpando uma lágrima do olho. — Você, Julieta, odeia Romeu e Julieta, e ainda por cima, o professor que pega no seu pé se chama Romeu. Não pode ser coincidência você entender Jane Austen.

— Não! Credo! Deus me livre! Não!

As duas riram mais.

— Mesmo? — Fernanda provocou.

— Sim! É que... — Ficou sem jeito de dizer, mas queria explicar. — Eu não gosto de... homens. Namorei um uma vez e foi a pior experiência da minha vida, nos dois sentidos. Namorar naquela idade e ele ser um homem. Eu sou lésbica.

— Ah, então assim... Não vamos mais brincar sobre isso — Luiza pediu muitas desculpas.

— Não, não acho ruim. Quer dizer, só acho quando levam essa brincadeira até ele, tipo o semestre passado inteiro. Foi um inferno — encarou o nada por um momento, enquanto Luiza se sentia mais aliviada por não ter magoado Julieta com a brincadeira. — Acho que fiquei traumatizada.

Luiza e Fernanda esperaram alguns segundos paraler Julieta e saber se estava machucada mesmo por aquilo, mas logo ela abriu umpequeno sorriso. Estava, sim. Doía. Mas era bom finalmente conseguir rirdaquilo. E elas riram bastante. 

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