6 - La hija buena, la hija mala
Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.
Alice no País das maravilhas, Lewis Carroll
24 de março, terça-feira
A casa do pai estava silenciosa. Sequer parecia sua própria casa mais. Na verdade, havia muito tempo Fernanda não se sentia bem ali. Quase chorou de alívio quando percebeu que a avó não estava mais lá. Algo estava entalado na garganta e não a deixava chorar, mas sentia que a qualquer momento podia desabar e deixar derramar anos de coisas. Sentia que, mesmo que conseguisse sair dali e se afastar de tudo de ruim que a avó a fazia sentir e se sentir, a nova casa também podia pingar gota a gota de coisas novas — como foi a noite anterior — naquele balde quase cheio e fazê-la, enfim e ainda assim, transbordar.
Andou pela casa escura. Viu a pouca luz do escritório por baixo da porta. Bateu.
— Filha? — Chamou uma voz do lado de dentro. Ela abriu a porta. — Resolveu voltar — disse ele quase animado, mas querendo estar bravo.
Estava sentado na cadeira atrás da mesa. Ela se sentou na cadeira de frente porque suas pernas não a manteriam de pé por muito mais tempo para aquela conversa.
— Na verdade só vim pegar algumas coisas que não levei ontem — disse e esperou, mas ele não disse nada. — E queria conversar.
— Conversar o que? Como você briga com a sua avó daquele jeito? Não pode sair de casa assim. Está ficando onde?
— Primeiro, foi ela quem começou e quem me ofendeu, e não foi só ontem. Sempre fiquei calada por respeito, mas ontem... Você não ouviu o que ela me disse. Acha que porque ela é sua mãe que é perfeita, mas não é. Ela nunca gostou da minha mãe, nunca gostou de mim porque me pareço com ela. Ontem surtou porque eu quis voltar na casa da vó Flor, como se fosse, sei lá, uma blasfêmia?
— Não, nada disso. Como ela nunca gostou da sua mãe?
— Você mesmo não conta que precisou enfrentar ela pra se casar? Isso é o quê? Fingir que não gosta quando na verdade gosta? E como elas nunca se deram bem? Você sabe o nome disso...
— Você era muito pequena...
— E você perguntou pra ela o que ela me disse ontem?
— Perguntei. Ela disse que só perguntou por que você chegou tarde e você surtou.
— Mentira! Que mentira! Que ódio, eu devia ter gravado! — Ela colocou as mãos no rosto e respirou fundo, então voltou a olhar para o pai meio confuso e meio irritado com ela. — Ela tá parecendo aquelas vilãs de novela que mentem na cara dura porque sabe que tem quem acredita! Pai! Por que eu mentiria pra sair de casa? É lógico que ela me perguntou por que cheguei tarde, sendo que era final de tarde ainda, tinha acabado de escurecer. Ela sempre pergunta porque chego tarde, independente do horário. Ela sempre quis me controlar. Fez um escândalo quando eu disse que ia estudar letras. Infernizou todos os meus quatro anos de curso. Nunca me deixou ler um livro que não fosse a tal da bíblia dela. Se eu quis aprender alguma coisa, teve que ser fora daqui. Nunca me senti à vontade na minha própria casa.
— Se ela censurou, é porque eram livros...
— Não! Não tem que censurar nada! Eu escolho minhas leituras. E a grande prova que a censura dela não tem embasamento certo é que ela me humilhou pro resto da sua família porque encontrou A cor púrpura enquanto mexia no meu quarto. Me fala qual é o problema desse livro?
— Ah... ela disse que...
— Não, não o que ela disse. Eu quero saber qual o grande problema, porque se ela me censurou, existem outras pessoas que censuraram e esse livro deve ser conhecido por esses problemas. Quais são?
— Não sei, ora. Ela disse que tem bobagem.
— Bobagem? A vida sofrida de uma mulher negra abusada desde criança, que teve seus filhos tirados dela, obrigada a se casar com quem não queria? Qual o problema do livro? Que são pessoas negras? Que ela não gosta de homem?
— Ah, aí...
— Aí nada. Pelo amor de deus, pai. Você, homofóbico? Minha mãe morre e você mostra quem realmente é? — Ele não disse nada, ela viu que a pergunta doeu. Ela acalmou um pouco o tom, mas se manteve firme para seguir. — Depois de perguntar por que cheguei tarde, a segunda coisa que ela perguntou foi o que eu fui fazer naquela casa amaldiçoada. O que a casa tem de amaldiçoada? — Ele hesitou, mas deu de ombros. — Exatamente. E eu perguntei. Sabe o que ela disse? — Ele negou. — Disse que a bruxa da minha avó deixou aquela casa amaldiçoada. É essa a sua mãe super inocente? A bruxa da minha avó? O que é que a minha avó fazia que pra ela é bruxaria?
Ele deu de ombros.
— Mas você não pode falar assim dela — defendeu ele. — "Sua mãe super inocente". Ela...
— E ela pode falar como quiser da minha avó morta? Da minha mãe que você falava que amava?
Ele respirou fundo.
— Você poderia me deixar falar.
— Não, não quero deixar porque não quero ouvir você defendendo a mulher que chamou minha avó morta de bruxa, minha mãe de cria de bruxa e eu de criazinha inútil que só quer... — ela fechou os olhos e tomou um ar para falar aquilo. — Que só quer abrir as pernas pro mundo. A sua sogra até entendo a apatia, porque você nunca fez questão de conviver com ela, mas sua esposa e sua filha? Ela me trata assim e tudo bem, por que ela é sua mãe? Bem se vê que você nunca ligou pra gente mesmo.
— Como nunca liguei?
— Nunca. Nunca percebeu o que a sua mãe fazia com a gente. O que ela faz comigo. Pai! Eu nem podia seguir meu sonho com o espanhol. E o quanto eu gosto de ler! Você sabe. Eu tive que parar de ler tanto como lia antes. Você acha isso normal?
— Não. Mas o que quer que eu faça?
— Não sei, pai. Age. Me ajuda. Sei lá. Não quero voltar pra casa enquanto ela continuar do mesmo jeito. E isso porque eu nem chamei do nome que essa implicância dela tem. Se você acha que ela não vai mudar, então eu não volto mais.
— E vai fazer o que, morar naquela casa velha?
— Se for preciso...
— Você nem trabalha por causa dos estágios.
— Posso dar um jeito. Eu tenho amigas.
— Tem?
Engoliu seco para repetir aquilo, duvidando por um segundo. Mas era verdade, ela sentia.
— Agora tenho. E nem pense em deixar sua mãe saber disso, senão vai inventar coisas. Ou então, melhor, usa como teste pra você ver... — disse e cruzou os braços.
Ele pensou por um momento.
— Acha que consegue conciliar o último semestre com um emprego novo?
— Considerando meus horários... não. Eu provavelmente teria que abandonar algumas coisas e estender por mais um ou dois semestres.
— Então...
— Por isso eu queria pedir um favor. — Ele esperou. — Quero o dinheiro que minha mãe me deixou.
— Vai gastar ele? É pro seu futuro.
— Considero como um investimento pro meu futuro, porque não posso continuar assim. Tenho certeza que também não terminaria o semestre morando aqui. Não posso nem trazer minhas amigas em casa.
— Mas aquela casa é muito grande.
— Não vou morar nela inteira. E é melhor que um aluguel. Só preciso de água e energia.
Ele fechou os olhos, apertou com os dedos, respirou fundo. Estava difícil não aceitar que a filha tinha razão, mesmo que ele também não quisesse dar nome às ações da mãe. Ele sabia como a mãe era difícil, se lembrava de como foi difícil se casar.
— Eu... Ok, vamos tentar. Mas não gaste todo dinheiro, por favor. Se tiver com dificuldades, fala comigo.
Ela assentiu.
— Obrigada, pai. — Se levantou e foi saindo, para arrumar suas coisas e não chegar tarde em casa. — Eu só queria ainda ter todos os livros dela, que você obedeceu e jogou fora, pra ler agora que tô livre da censura — disse ela com a voz embargada.
Se virou novamente e ia saindo, mas ele a chamou de volta.
— Não joguei os livros fora — ele disse quando ela se virou de volta.
— Não? Vendeu, doou, o que?
— Estão lá na casa. No escritório. E algumas roupas também. Fotos. Objetos.
— Como... — Ela queria perguntar coisas demais, inclusive como não viu essas coisas lá, mas foi na pergunta que mais lhe doeu. — Como você aceitou tão fácil se livrar das coisas dela?
Ele deu de ombros.
— Ela disse que seria bom, eu achei que fazia sentido.
Fernanda riu, amarga.
— Enquanto isso, ela ainda guarda todas as coisas do seu pai. A gente mal pode entrar na casa dela pra não macular nada. Por isso ela vive aqui... — Foi saindo. — Aqui não tem fantasma nenhum.
Juntou algumas coisas que julgou importantes na mochila, mas não conseguiria levar muita coisa. Logo seu pai parou na porta do quarto.
— Se quiser pegar uma mala, levar mais coisas, eu te levo de carro.
Ela pensou. O orgulho cochichava de um lado do seu ombro; a vontade de não precisar voltar mais ali, mesmo que isso significasse ver um pouco menos o pai, falava do outro lado. Pensou nas coisas que queria levar e não ia conseguir só com a mochila. Assentiu. Assim conseguiu levar, inclusive, seu colchão.
— Me fala se precisar levar algum móvel. Não esquece de vistoriar e limpar a casa inteira, ou pelo menos onde for usar. Aquela sujeita pode te deixar doente, pode ter coisa quebrada. O banheiro...
— Você pode me visitar lá e me ajudar. Só você.
Ele riu um pouco. Fernanda ainda conseguia dizer algumas coisas tristes com um tom que parecia piada, um tom meigo. Isso era 100% sua falecida esposa e sua coração doía de saudade. Apesar da discussão, da resistência, ele não queria ver sua menina sofrer como sua mulher sofreu. Ele sabia que as duas eram igualmente sensíveis e, depois de estar praticamente sozinha por tanto tempo, ela ficaria bem morando sozinha, tendo mesmo ou não essas novas amigas.
Ele pensou muito nisso enquanto a ajudava a levar algumas coisas para dentro da casa quando chegaram. Fernanda tinha mandado mensagem, então Luiza deixou o portão aberto cerca de cinco minutos antes. Antes de entrar na casa, ele pediu:
— Me perdoa por tudo?
Ela se virou para ele, pensou.
— Tudo o que?
Ele deu de ombros. Ela se virou devagar e entrou na casa sem dizer nada. Queria que ele entendesse, não apenas limpasse a consciência.
Entrando na sala, ele viu como sua filha estava acolhida, com duas amigas novas que ajudaram a limpar e arrumar o lugar enquanto ela tentava convencê-lo do quanto estava sofrendo. Ficou aliviado por ela não estar mais sozinha, porque ele não era uma boa companhia. Sua esposa quem era boa nisso.
As meninas o cumprimentaram com vergonha e logo ele foi embora. Não havia espaço para ele ali, nem na vida da filha, e foi ele mesmo quem construiu isso. Ele construiu um muro ao seu redor e fez com que ela construísse um próprio. Duas fortalezas que ainda se deixavam ser invadidas pelo exército da mãe Amorim. Porém, agora Fernanda estava armando seus próprios exércitos. Ele só esperava que não fosse contra ele também.
A sala da nova fortaleza de Fernanda estava impecável. Luiza e Julieta, suas comandantes que sequer sabiam bem o que estava acontecendo, estavam cansadas pela limpeza.
— Trouxe uma bacia pra tomar banho — disse Fernanda e as três riram.
Riram, mas foi assim mesmo que tomaram banho. Ir até a casa de Luiza para tomar banho e voltar tomaria um tempo que elas queriam gastar deitadas e conversando. Então, pediram um lanche, arrumaram o colchão de Fernanda no lugar e se sentaram para esperar a comida e criar uma conexão que já estava mais que encaminhada, mas freada por tantos receios das três partes.
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