5.1 - Lamentación
Me tendí, como el llano, para que aullara el viento.
Y fui una noche entera
ámbito de su furia y su lamento.
¡Ah! ¿quién conoce esclavitud igual
ni más terrible dueño?
En mi aridez, aquí, llevo la marca
de su pie sin regreso.
Nocturno, Rosario Castellanos
24 de março, terça-feira
O vento não uivava na casa velha nessa noite. Depois que se despediu de Luiza, que tinha levado uma coberta, travesseiro, lençol, água, copo e uma vasilha com bolachas para o caso de vontade de comer no meio da noite, Fernanda trancou o portão e a porta da frente, apagou a lanterna sobre a lareira e se sentou na janela grande para observar a noite até o sono chegar.
Não muitas horas depois de pensamentos que não chegavam a conclusão nenhuma do que deveria fazer da vida e de porquê seu pai simplesmente não a ajudava, sentiu um pouco de frio e decidiu se deitar, mesmo que ainda não estivesse com sono. Sentia como se ele não fosse chegar naquela noite ou como se não fosse dormir nunca mais. Pensava e repensava na discussão que a fez sair correndo de casa no fim da tarde. Pensava em como seu pai aceitava o ódio que a mãe sentia pela mulher que ele dizia amar, como refletia tudo na própria filha e nem assim ele queria perceber.
Ao menos seu coração se alegrava quando se lembrava de todos os comentários durante toda sua vida: "Vocês são tão parecidas!", porque ela achava a mãe a mulher mais linda do mundo.
Desceu da janela pensando nisso e a fechou. Como se uma trava mental, quando a janela se fechou, uma música muito baixa começou a tocar e a tirou da briga com a avó e o pai. Fernanda olhou ao redor, no escuro do cômodo. A música tocava tão baixo que ela não conseguia saber de onde vinha. Na dúvida, abriu a janela outra vez para ver se não vinha do lado de fora de alguma forma. Mas a música parou assim que a janela se abriu e o vento frio entrou pela fresta. Então, Fernanda a fechou novamente.
E, novamente, a música tocou.
Era como uma trilha sonora no fundo da sua mente.
Ela se enrolou na coberta, com um pouco mais de frio do que deveria estar, ligou a lanterna do carregador portátil e andou lentamente pela casa. No fundo, tinha medo de não estar sozinha, mas não era um medo sobrenatural a princípio. No primeiro andar o som continuava no mesmo volume. Não mudava em nenhum cômodo. No escritório, abriu uns armários, encontrou alguns álbuns de fotos, mas deixou para depois. Nada de rádio tocando. Subiu ao segundo andar.
Ali, a música aumentou levemente. Era como aquelas músicas de caixinhas de música, simples e baixas. Parou na porta do primeiro quarto. Na sexta-feira, elas tinham deixado todas as portas abertas. Naquele dia, Julieta tinha estado ali e Fernanda pensou ver isso quase fisicamente naquele momento. Era como se a presença de Julieta ali algumas horas antes pudesse ser percebida naquele momento, como se assistisse a Julieta em um filme, buscando algo desconhecido por pura curiosidade.
Ela deu um passo e ficou sob o batente da porta. Ali já pôde ouvir mais claramente a música tocando de verdade, como se a caixinha de música estivesse ali dentro. Fernanda entrou, procurou com o olhar, mas não viu nada. O som não parecia vir de dentro de nenhum móvel. Estava no cômodo inteiro. Novamente, como se dentro de sua cabeça, agora com o volume aumentado.
Apesar da estranheza e da curiosidade, não quis procurar mais. Para abrir gavetas teria que largar a coberta. Pensou que naquele volume a música não a atrapalharia dormir, se dormisse. Talvez até a ajudasse como uma música de ninar.
Voltou para a sala, desligou a lanterna, bebeu um pouco de água e se deitou.
"Só queria dormir pra esquecer um pouco" — mentalizou, ignorando a música fantasma na casa vazia.
Adormeceu sem perceber, se perguntando como podia estar tão cansada e tão sem sono ao mesmo tempo.
Acordou com um som diferente. Não era mais a música. A princípio, parecia uma nota estranha, mas Fernanda nunca estudou música para saber. Ela se sentou no sofá, ainda sonolenta demais. O cansaço a pegou de verdade quando menos esperou. Fechou os olhos e tentou ouvir. Parecia um instrumento estranho, que fazia um som quase estridente e quase constante. Em um dia normal, esse fechar os olhos, mesmo estando sentada, a faria cochilar outra vez. Mas não foi o que aconteceu. ao não conseguir distinguir o que era aquilo, pegou o celular na mesinha, olhou as horas. Duas e cinquenta. Ela havia dormido muito.
Apagou a tela, principalmente para economizar bateria, e ouviu um pouco mais, no escuro, de olhos fechados. Se tivesse algo ali, ao menos ela não veria. O som, aos poucos, começou a parecer uma voz. Parecia um choro, um lamento.
Sim, era um lamento, ela decidiu. E lhe partia o coração, principalmente por ser em uma casa fechada e por ela estar sozinha. O medo lhe partiu o coração. Não queria estar sozinha.
Lhe escapou um suspiro involuntário, como se ela mesma fosse começar a chorar.
Ficou algum tempo de olhos fechados, que pode ter sido muito ou pouco — ela não saberia dizer, porque o conceito de tempo pareceu suspenso naquele momento —, até que o sono a arrebatou outra vez. Ainda sem abrir os olhos, como se já estivesse dormindo, voltou a se deitar, enrolada na coberta como uma criança confortável em sua inocência. Era como se sentia naquela ocasião, como havia muito não sentia: sem preocupações. Apesar do som de fundo ser um choro, aquilo confortou sem subconsciente.
Algum momento depois, ela pareceu acordar e abrir um pouco os olhos sem se mexer. Pensou ouvir o choro e a música outra vez, juntos. Pensou ver alguém andando pela sala na penumbra e, depois, pensou ver alguém dançando pela sala. Não pareciam a mesma pessoa, mas também não parecia que ela estava realmente acordada, por isso não teve certeza de nada, apenas pensou que estava vendo e ouvindo.
Tentava se forçar a se mexer para se sentir acordada, mas nem seus olhos conseguiam ficar abertos por mais que alguns segundos. Não conseguia se mexer. Estava paralisada. O desespero começou quando a sombra que chorava em algum canto foi se aproximando dela, como se para ver quem ela era, com olhos escuros de curiosidade. Era uma sombra vagarosa, então foi chegando pouco a pouco e esse era o pior de todos os terrores. Esperar tanto tempo por algo ruim que você sabia que ia acontecer era muito pior do que quando acontecia logo. E, nesse momento, seus olhos ficaram abertos. Nesse momento, quando mais queria fechar os olhos e ignorar, ficou encarando a profundidade do escuro e esperando que a sombra chorosa chegasse até o sofá.
Mesmo quando a sombra chegou bem perto, Fernanda ainda não conseguiu ver seu rosto claramente, mas, além do lamento, ouviu uma expressão de susto, que fez a sombra desaparecer. Seu coração disparou, o corpo gelou de susto também, mas ela voltou a dormir logo em seguida, como se tivesse desmaiado. Não teve sonhos bons. Não foram sonhos realistas, nem lúcidos, mas foram inquietos. Quando acordou, se lembrou de trechos picados e sem sentido, mas juntos também não faziam sentido. Eram fragmentos deformados por sua mente e pelo susto para deixá-la com muitas sensações ruins.
Apesar de que sempre que tinha sonhos ruins acordava cansada — mesmo quando dormia bastante —, passados alguns minutos de acordar ela já não se sentia tão mal. A mente ainda trabalhava muito tentando montar todas as peças do que aconteceu naquela noite, mas não ficou mal. Ao menos o corpo não ficou tão ruim quanto ela pensou que ficaria. Não era a mesma coisa que dormir em uma casa normal, principalmente quando ela gostava bastante da própria cama, mas já era uma vantagem.
Lavou ao menos o rosto e a boca com o resto de água que tinha, de pé na escada que dava para o quintal para não molhar nada na casa sem saber para onde a água ia. Deixou o lugar o mais arrumado que pôde, pegou sua mochila e foi para a casa de Luiza. Ela era a única acordada quando Fernanda chegou, então ela tomou seu banho e as duas arrumaram seu café da manhã e se sentaram na mesinha da cozinha para comer. Quando praticamente terminavam, ouviram um barulho vindo de um dos quartos.
— Minha mãe levantou... — disse Luiza em voz baixa. E viu a leve expressão de pânico de Fernanda. — Ela sabe que você está aqui e não se importa, mas se já quiser sair...
Fernanda assentiu. Se sentia mal pelo inconveniente. Não queria parecer uma garota da rua que estava ali pelo banho e pela comida, abusando da boa vontade de Luiza. Queria estar a quilômetros dali naquele momento.
As duas terminaram de comer rápido, pegaram suas coisas e iam saindo. Estavam na sala quando ouviram:
Ela é bonita
seus cabelos muito negros
E o seu corpo faz meu corpo delirar
Ele cantava.
Deu uma risada, disse:
— Brincadeira — riu um pouco mais e abriu a porta da sala, encontrando duas garotas pálidas e estáticas na sala. — Luiza! — Quase gritou.
— Tio... — Respondeu como conseguiu.
Naquele momento, Luiza queria morrer. Fernanda já não sabia o que sentia.
— Já vão?
— Sim. Precisamos chegar mais cedo pra uma reunião.
— Ah. Eu tô de horário trocado hoje também. Dá pra levar sua mãe.
— Ah. Então tá. Já vamos. Bença.
— Deus te abençoe. É ela? — Apontou para Fernanda. Luiza sequer teve tempo de responder. Ele se aproximou, puxou Fernanda para um abraço de tio e lhe deu um beijo no topo da cabeça.
Então as deixou, indo para a cozinha.
— Vamos — ela disse para Fernanda e elas saíram quase correndo dali, mas não sem antes ouvir:
Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar
O pior é que ele tinha a potência vocal parecida com a de Sidney Magal. Seria bonito ouvi-lo cantar se não fosse pelo motivo da música.
Luiza costumava ficar falante junto de Fernanda, mas foi muda até o ponto de ônibus. Fernanda queria ajudar, mas sentia certo vazio no peito. Não sabia como fazer aquilo, porque havia tempo que teve alguém ao seu lado a quem precisou ajudar. Procurou assuntos aleatórios, pensou em tocar no assunto mesmo para conformar Luiza — porque as duas já tinham conversado sobre o nome dela e como ela odiava muito como sua família a deixava sempre desconfortável com ele —, mas não soube o que dizer. Quis comentar — ou perguntar — sobre o abraço que tio que ganhou, como se ela fosse alguém já bastante comentada na família.
Na dúvida, e um pouco por impulso, se aproximou daquela Luiza parada de frente para a rua, de braços cruzados e refletindo sobre o porquê ela merecer tanto sofrimento, e apoiou sua cabeça de leve no ombro dela, olhando a rua também, pensando se fazia o certo ou se deveria fazer algo mais. Luiza agradeceu o apoio apoiando sua cabeça na cabeça da nova amiga, mostrando que estava grata. Assim, sabendo ou não sabendo o motivo, elas apoiaram as ansiedades uma da outra naquela manhã.
No ônibus, quando já mais calma — ou conformada —, Luiza se virou para a pensativa Fernanda.
— Você vai tentar voltar pra casa hoje?
— Acho que... não. Ela é... insuportável. Aquele lugar vai ficar... a convivência vai ficar insustentável durante... meses. Até eu me livrar da casa, de tudo que lembra ela da minha mãe ou...
— Ou?
— Quando ela morrer.
Luiza engoliu o impacto.
— Bem... Se a casa velha é sua, você não consegue voltar a água e energia?
— Não tenho renda fixa. As traduções que faço não rendem tanto porque não tenho disponibilidade suficiente.
— E se eu te ajudar?
Fernanda riu, mas foi uma risada triste por se sentir incomodando alguém.
— Como? — Perguntou e deitou sua cabeça no ombro de Luiza outra vez.
— Eu moro com a minha mãe. Estou guardando dinheiro pra me mudar.
— Não, nem pensar. — Levantou a cabeça. — Você atrapalharia seu planejamento e tudo pra eu ter o luxo de não ver mais minha avó. Prefiro... sei lá, tomar banho na pia do bloco da letras do que te atrapalhar ou do que ficar ouvindo ela.
— Você ainda poderia ir tomar banho na minha casa de vez em quando. Eu te abrigaria lá se a casa fosse minha.
Fernanda deu a mesma risada triste de antes.
— Talvez eu possa conversar com o meu pai pra ele me liberar o dinheiro que minha mãe me deixou. Ele me fez guardar pro futuro, mas...
— Se a casa é sua, fica lá, uai. É um futuro.
— É grande demais pra mim. Grande DEMAIS.
As duas riram, agora com um pouco menos de tristeza.
— Não deixa nada atrapalhar seu semestre também — pediu Luiza. — É o último. Você tá quase lá.
Fernanda pensou um pouco em toda gentileza de Luiza e se ela estava fazendo o suficiente para retribuir.
— Pena que não te conheci antes... — disse olhando para as próprias mãos. Não era o tipo de coisa que ela sabia falar olhando na cara.
— Pelo menos me conhece agora... — Luiza disse olhando para o rosto solitário de Fernanda.
Fernanda tentou um sorriso, mas não sabia bem como fazer. As duas ficaram em silêncio por um momento até que Fernanda se lembrou de algo que queria perguntar e que podia quebrar aquele momento que, apesar de ser bom, a fazia se sentir estranha.
— Julieta ajudou bastante na escrita ontem?
— Sim, ela é bem legal. Às vezes parece fascinada pelo meu processo criativo, mas... eu também estou, porque nunca escrevi assim. Parece que... a casa... não sei.
— Às vezes eu acho que a casa... também. Você pode ir lá sempre que quiser. Vou fazer uma cópia das chaves pra você, pro caso da gente se desencontrar.
— Sério?
— É claro, a casa é sua. — Ela queria dizer: "Voltei lá por sua causa. Obrigada.", mas não disse. — Vai hoje?
— Só se for à noite.
— Deixo as chaves com você, então. Meu pai chega às oito. Vou ficar na biblioteca até lá e depois ir falar com ele.
— Ok. Só não te acompanho na biblioteca porque tenho o Clube de escrita.
— Só não compartilha todas as suas ideias com eles.
Luiza riu.
— Tenho medo mesmo de ser roubada. Vai saber se as pessoas conseguem aproveitar ideias ruins por aí...
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Durante a tarde, Luiza recebeu uma mensagem particular de Julieta.
Julieta
vai na casa hoje?
Luiza
Vou à noite
Julieta
como a fernanda tá?
não quero ficar aparecendo e atrapalhando
Luiza
Não, ela tá bem na medida do possível
Acho que ela acha até bom não ficar tanto sozinha lá
Vai passar mais um tempo lá na casa
Julieta
a gente pode levar um lanche pra ela entao.
ces vão jantar?
Luiza
Não tinha pensado nisso.
Vamos levar sim pq ela provavelmente não vai lembrar de comer também não
Julieta
me avisa quando tiver indo?
Luiza
Aviso. Vou sair do clube de escrita umas 18h
Julieta
te espero na biblio então
Porém, antes das 18h Julieta mandou outra mensagem.
Julieta
to aqui pensando.
se a gente der uma faxina melhor naquela casa pra ela?
acho que só aspirar não ajuda muito não
Quando saiu, Luiza respondeu.
Luiza
Ah gostei da ideia.
Se ela vai ficar lá, precisa ser mais confortável.
Posso ir em casa pegar umas coisas
Julieta
eu tenho que passar no mercado
pq minha casa ta na contramão
e se pegasse coisas lá teria que repor de todo jeito mesmo
Luiza
Tem um mercado bem perto da minha casa. Vamos juntas.
Tô descendo pro ponto da Segismundo
Julieta
vou pro ponto da frente então
Se encontraram no ônibus e foram juntas até a casa de Luiza, passaram no mercado e, nisso, Luiza teve uma ideia.
— Você pode dormir fora de casa? — Perguntou a Julieta.
— Posso. Só preciso avisar antes. Por quê?
— Pensei em dormir lá essa noite. Ela tá indo pra casa conversar com o pai e dizer que não vai voltar tão cedo. Talvez ela encontre a avó lá e ela deixe tudo muito pior. Ou talvez o pai não fique do lado dela...
— Ah, se eu não for atrapalhar...
— Claro que não. Vamos voltar lá em casa. Vou pegar mais travesseiros, lençol e cobertas, chamamos um Uber pra nos levar. Se ela chegar e disser COM VEEMÊNCIA que não quer, então vamos embora.
— Vou avisar minha mãe então, e...
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