20 - Tan solo papá y yo

mesmo que eu morra

dessa morte disforme

o esquecimento

não lamento

Alice Ruiz



Domingo, 12 de abril

Lua cheia


Matias deixou a mãe em casa. Ela tomou um calmante e se deitou. Ele tomou o cuidado de levar o restante dos remédios consigo e deixou bem claro que, quando acordasse, se ela tivesse qualquer problema, que ligasse para ele e não fizesse mais absolutamente nada. Tentou dizer que estava tudo bem e nada de ruim aconteceria com ela, mas ela já parecia absorta demais para assimilar qualquer coisa.

Passou em casa rapidamente e voltou para a casa de Flor, ou de Fernanda agora, se esquecendo do que viu momentos antes ali, junto da filha e da mãe. A casa fazia esquecer sua história quando lhe convinha. Ela não precisava que o pânico dele estragasse tudo. Era boa — a casa ou o que quer que vivesse ali — em mexer com a memória de vivos e mortos.

Quando chegou, Fernanda tinha dobrado sobre o sofá as roupas que Augusta espalhou e colocado os livros na mesinha de centro. Agora arrumava suas coisas de volta na escrivaninha.

— Precisa de ajuda? — Ele perguntou.

Ela negou com a cabeça, então ele se sentou no sofá em um lugar que não tinha roupas. Observou a filha por um momento, depois acariciou o vestido do topo da pilha ao seu lado. Depois de tanto tempo ele via novamente seus dois mundos muito próximos, mas um deles irremediavelmente distante, e o outro por trás daqueles muros que ele percebia que precisava derrubar. Mas não sabia como.

— Eu tinha esquecido que também não tive coragem de desfazer de todas as roupas dela. Guardei algumas aqui. — Levantou o olhar para a filha. — Você tinha visto, já?

Ela se virou para ele e assentiu.

— Achei lá em cima.

— Vai continuar com elas, igual os livros?

— Elas me servem. Nunca gostei muito de vestidos, mas não odeio. Posso usar de vez em quando.

— Servem mesmo?

Ele olhou a filha por mais um momento e sorriu com saudade.

— Que... — ela murmurou.

— Parece que às vezes esqueço como você fica cada vez mais parecida com ela.

Ela ponderou um momento a vontade repentina de falar pela primeira vez coisas que nunca teve coragem desde que a mãe se foi. Mas quem melhor que ele, ela pensou, para ouvi-la sobre aquele assunto? Então se aproximou e se sentou na beirada do sofá, apoiando o braço sobre um monte de vestidos, perto do pai.

— Será que... eu não pareço demais com ela?

— Como assim? Não é bom?

— Não, digo... Demais, sabe... Primeiro a vó Flor, depois ela...

Ele perdeu o ar por um segundo.

— Não! Filha, não! Não foi nada genético. Você fica pensando nesse fim?

Hesitou, mas assentiu. Eram muros altos demais para simplesmente jogar tudo por cima.

— É difícil não pensar. A vó tinha 48, a mamãe, 38. Parece padrão.

— Mas não é. Não tem nada disso. Meu avô morreu cedo, meu pai também. Mas eu tô aqui, não tô? Mais forte que firme, mas... É claro que, no caso da sua mãe, eles podem dizer que você pode ter pré-disposição, mas você é nova e tem que se cuidar. E você se cuida.

Ele estendeu a mão para ela. É claro que, apesar da abertura anterior, ela nunca tinha sido muito próxima do pai, nem para conversar nem para dar as mãos em consolo. A última vez que se abraçaram foi quando ele deu a notícia a ela de que Felícia tinha partido. Porém, depois de mais essa hesitação, ela colocou sua mão sobre a dele.

— Ou pelo menos se cuidava, apesar de sempre comer pouco — ele disse. — E como está agora?

— Ah... Essa casa... ela... Às vezes a gente ouve coisas, mas não sei se é a casa falando ou se é a nossa cabeça, sabe? Esquecer de comer é fácil mergulhada nessas coisas.

— A casa falando?

— É, tipo... Eu sou uma decepção pra você? — Disparou a pergunta.

Ele demorou um segundo para entender.

— O que? Decepção? Como assim? Filha, não.

Ele a puxou pelo braço para si, abraçando-a. As lágrimas chegaram aos olhos dela mais rápido que o pensamento de "ele tem o jeito dele de amar". Mas ele veio.

— É que... — Ela engasgou a pergunta.

— Você ouviu isso? — Ele perguntou e ela assentiu. — Mas porque decepção?

— Porque... — Respirou fundo. Deixou as lágrimas saírem. — Porque quando ela morreu, eu não fui forte. Só engoli tudo quando me disseram pra engolir, mas não fiquei do seu lado.

— Disseram pra engolir? Mas isso não... Isso é culpa minha. Eu devia ter te procurando, perguntando se tava bem lá atrás, não só agora. Eu devia ter ficado do seu lado porque eu era o adulto. Porque não é pra engolir nada, entende? É pra sentir. É pra sofrer. Eu sofro até hoje. É claro que não posso deixar atrapalhar minha vida, porque ela tem que seguir por você, mas... Se deixar sentir esvazia a gente da dor ao menos um pouco. Guardar, machuca.

Ela o abraçou um pouco mais forte e chorou.

— Achei que ia te machucar se ficasse dependendo de você pra ficar bem — ela disse.

— Me machucar por quê? Eu sou seu pai, eu tenho mesmo que cuidar de você. De onde você tirou isso?

Ela não queria responder isso. Ele a levantou um pouco, se afastou um pouco, o suficiente para olhar para ela e fazê-la olhar para ele. Mostrou com o olhar que queria mesmo saber quem foi.

— A vó Augusta. Ela me disse pra não fazer escândalo, pra não te deixar mais triste do que você já tava.

Ele suspirou. Não sabia como não defender a mãe, até então, porque era sua mãe e ela sempre o fez respeitar os pais como os seres supremos. Porém, precisava tomar coragem pela filha, já que nunca o fez muito nem pela esposa.

— Ela não podia ter feito isso. Você podia ter me contado.

— A gente nunca foi muito de conversar. Eu conversava com a mamãe. E depois...

— Depois, mesmo quando disse, eu não aceitei. Eu sei. Agora eu sei. Não vou deixar isso acontecer mais. Mas eu vou precisar da sua ajuda também. A gente tem que dar um jeito naquela casa dela, aquilo não é saudável. Não só a casa...

— Ela toda. Ela precisa de tratamento. Ia colocar fogo nas minhas coisas, na casa. Tudo por quê? Por que ela sempre odiou minha vó e minha mãe?

— Não sei. Pensando bem, acho que ela sempre foi assim com todo mundo. Nunca gostou de ninguém, nem de nada. O mundo era meu pai e eu. Talvez seja esse o problema...

— Ciúmes... com o buraco mais em baixo sobre minha mãe e eu, e eu sei que você sabe disso...

— Isso — finalmente admitiu. — Eu sei. Sempre me senti muito herói por ter me casado mesmo assim, mas depois...

Fernanda aconchegou a cabeça no peito dele e chorou mais um pouco. Ele a abraçou forte e deixou que rolassem as dores de todos aqueles anos, se é que isso ainda era possível. Depois de muito tempo ele sentia que fazia algo certo.

Depois de chorar o quanto podia, ela ficou apenas pensativa.

— Você ouviu mesmo a casa dizendo coisas? — Matias perguntou.

— Não sei explicar. Era como se fossem vocês falando.

— Você viu a gente?

— Não. Vejo só a vó Flor.

— Nossa, filha. Não acha que... sei lá...

— Que eu tô doida? Não sei. Mas aquelas minhas duas amigas que você conheceu... — ele assentiu. — Elas viram também uma vez.

— Esquisito. Sua mãe gostava muito de contar histórias. Às vezes ela chegava até a performar que nem contador de história mesmo, mas eu tenho a memória ruim. Não consigo te contar muita coisa. Mas eram histórias de fantasma aqui nessa casa. Não o da mãe dela, mas de antes. Depois que sua avó morreu, ela não me contou mais histórias. Achei que escrevesse, mas...

— Mas...

— Nunca achei nada escrito nas coisas dela. Só aqueles livros com notas curtas.

— Hum. Entendi. Eu queria entender se essa casa tem alguma coisa, alguma história e se tem como isso ter fim, mas acho que não tem mais ninguém pra contar pra gente.

— Não quer voltar pra casa? — Ela virou um pouco a cabeça para olhá-lo. — Não digo agora com o mesmo sentimento que eu disse hoje mais cedo. Mas pra você não ficar... ouvindo coisas, mesmo.

Ela pensou por um momento.

— Talvez seja uma boa ideia. Mas só se a gente conseguir fazer a vó Augusta largar do meu pé.

Ele deu uma leve risada. E eles ficaram em silêncio por mais um momento.

— Lembrei de uma coisa — ele disse, se mexendo. Fernanda se sentou direito no sofá e ele tirou uma chave do bolso. — Guardei isso aqui sem saber do que era, então pode ser daquela caixa que eu não sabia que existia.

Fernanda pegou a chave, buscou a caixa que estava sobre a sua mesa, Matias colocou algumas roupas sobre outros montes e Fernanda se sentou novamente no sofá ao lado dele. Em segundos se passaram pela cabeça dela o que ela sentiu quando reencontrou os livros da mãe, depois suas roupas e, então, seu diário. Ela não sabia o que encontraria ali dentro, mas já se sentia da mesma maneira. Depois que a poeira de Augusta sumindo com a sua chave e tentando colocar fogo nas suas coisas abaixou, ela sentiu.

Colocou a chave no cadeado. O dedão esquerdo roçou no nome da mãe escrito no canto. Girou a chave.

O cadeado abriu.

O ar perdido por um momento.

— Por que será que minha mãe escondeu isso? — Matias perguntou.

Fernanda tinha sensações demais naquele momento que a impediram de responder.

Abriu a caixa.

Coisas. Fernanda foi pegando uma por uma, olhando e colocando sobre a tampa aberta.

Um saquinho com um pouco de cabelo.

— Deve ser seu — disse Matias.

Outro saquinho com um dente.

— Deve ser seu também.

Uma caneta azul claro.

Um bloco de notas pequeno, na capa uma lua cheia na frente de uma galáxia desenhadas a mão. Dentro, pareciam poemas. Era a letra de Felícia.

Aí o coração de Fernanda começou a bater mais forte.

Outro bloco de notas pequeno, na capa uma lua minguante na frente de um céu escuro, com poucas estrelas. Dentro, também poemas.

E o último bloco de notas, na capa uma lua nova na frente de um céu tricolor, de fim de tarde, com estrelas também. Dentro, poemas.

Lua nova, lua cheia, lua minguante.

Ela não sabia o que eram porque quando Luiza contou o que significavam, não era Fernanda ouvindo, porque estava trancada no banheiro.

Na ansiedade de ver tudo da caixa, Fernanda não os leu. Queria fazer com tempo, como teve para o diário da mãe. Matias também só os foleou. Estava igualmente emocionado por reencontrar coisas da esposa, coisas que não sabia que ela tinha.

Tirou da caixa alguns cartões com desenhos e mensagens, amarrados com uma cordinha.

Algumas fotos amarradas do mesmo jeito. A primeira era uma em família, os três juntos quando Fernanda ainda era bebê. Então, entre duas folhas pequenas em branco, estavam alguns desenhos em metades de uma folha normal. Também eram de Felícia, feitos só a lápis, alguns com poucos detalhes em lápis de cor. Eram pessoas, algumas reconhecíveis, como Fernanda e Matias, e uma Flor bem velhinha, como não chegou a ser, e outras que nem Fernanda nem o pai reconheceram.

E, por último, havia um caderno do tamanho de um livro no fundo da caixa. Fernanda o pegou e entregou a caixa para o pai, para não derrubar as coisas. Foi como encontrar o primeiro diário. Abrindo-o, a sensação foi mais similar ainda. Na primeira página estava escrito à mão "Felícia", quase como no primeiro, mas com uma caligrafia adulta. A mesma do final do primeiro diário. E, pelo desgaste das páginas, Fernanda percebeu que não era um caderno novo ou pouco utilizado.

Mais uma vez ela chorou, mas dessa vez tinha o pai, que se emocionou igualmente. Aquele era o diário de Felícia depois do casamento que ele sequer sabia que existia. Havia todo um mundo, quase vinte anos, ali, e Fernanda poderia vive-los finalmente.

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