18 - Então se pode chorar?
Então se pode chorar? Eu posso então?
Se me perguntassem agora da alegria da vida,
Eu só tinha a lembrança de uma flor miudinha.
Pode não ser só isso, hoje estou muito triste,
Canção de amor – Adélia Prado
Algum dia, talvez domingo dia 12 de abril
Julieta não soube se dormiu e sonhou com horas de nada e de pensamentos ofensivos ou se passou horas reais no nada real, acordada, esperando algo acontecer. Depois de muito tempo do último "Ingrata" dito pela sua própria voz, ela pôde ver algo no horizonte. Era uma luz fraca e, minuto após minuto, parecia mais alguma coisa além disso. Logo virou uma janela. A luz entrando pela janela. O dia nascendo lá fora.
Pássaros cantando.
Alguma coisa finalmente aconteceu.
Aos poucos ela conseguiu se mexer e perceber que estava jogada no chão, deitada, como se esperasse a morte finalmente chegar. Enquanto o dia nascia, ela tentava se mexer outra vez. Quando conseguiu, se sentou. O sol já entrava totalmente pela janela, não somente a claridade.
Ficou de pé. Olhou ao redor e não viu ninguém. Só viu a bagunça que elas deixaram na noite anterior. Porém, o notebook estava desligado, os copos de bebida estavam cheios. Ela procurou pela bolsa e pelo celular. Estava desligado. Andou pela casa procurando Luiza e Fernanda. Nenhum sinal delas. As bolsas estavam na sala, mas nada do celular delas também. Pensou que estavam juntas em qualquer lugar.
— Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga... — Julieta ouviu sua própria voz no seu ouvido, recitando. Sussurrando. — Horror do mundo, escândalo da gente...
— Para — pediu com a voz fraca, já muito assustada.
Segundos atrás tinha certeza que já estava acordada.
— Que um férreo peito, uma alma que não sente... — a voz continuou. — Não merece a paixão que me afadiga.
Tudo o que conseguiu decidir fazer com a cabeça explodindo de dor e medo foi pegar sua bolsa e ir embora dali correndo, mesmo que tivesse que esperar uma hora ou mais no ponto pelo primeiro ônibus. Ao menos não estaria ali dentro ouvindo coisas. E as coisas realmente pararam quando ela saiu da casa.
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Depois do que pareceram horas a fio de vozes na cabeça cantando e rindo, Luiza viu uma luz. Era a mesma luz na janela, o dia nascendo. Estava na mesma sala que Julieta, mas nenhuma das duas se via. As duas estavam sozinhas no mesmo lugar.
Luiza secou os olhos, esperou o dia nascer um pouco mais. Ouviu os pássaros cantando. Também procurou pelo celular. Desligado. Andou pela casa, procurou Julieta e Fernanda.
Encontrou Fernanda encostada na cama do segundo quarto, escrevendo em seu diário. Ela olhou para Luiza esperando que falasse algo.
— Tudo bem? — Foi o que Luiza perguntou.
— Sim — respondeu sem entender a pergunta. Deu levemente de ombros.
— Passou a noite bem?
— Passei.
— Ah. É que você não desceu mais.
Deu de ombros outra vez.
— Quis escrever pra terminar a noite.
Luiza ficou um momento sem saber o que dizer.
— Você sabe da Julieta? — Fernanda negou com a cabeça. — Ela também subiu. Passei o resto da noite sozinha.
Fernanda fez uma cara de "que pena", mas que não se importava muito. Era a mesma Fernanda que pediu para Luiza se afastar.
— Pode deixar as chaves de dentro quando sair — ela disse. — Depois eu tranco.
Luiza ficou uma vez mais sem reação, algo entalado na garganta.
— Tá — respondeu, mas ainda não se mexeu.
— Vai-te... — disse Fernanda.
— Quê?
— fera cruel, vai-te, inimiga... — disse com fervor.
— Não... entendi.
— Horror do mundo, escândalo da gente...
— Tá me assustando... Mais que ontem.
— Que um férreo peito, uma alma que não sente... Não merece a paixão que me afadiga.
Apenas assentiu sem entender e saiu antes que ficasse mais sinistro e feio.
Já havia tempo que não chorava por ninguém. Tinha se esquecido de comodoía, mas ao mesmo tempo sentia que aquilo lhe trazia um pouco de luz sobre oque sentia.
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Fernanda ouviu tudo aquilo sem lutar. Não sabia o que fazer. Era como se todos tivessem razão, estivessem ali ou não. Mas certo momento tudo parou. Talvez minutos, talvez horas depois. Ninguém mais cantava ou chorava, nem gritava insultos ou decepções. Era apenas silêncio outra vez. Ela esperou um momento, secou os olhos, levantou a cabeça. Sua avó Flor não estava mais ali, não havia mais sombra por debaixo da porta. Estava sozinha no escuro outra vez.
Um silêncio assustador.
— Filha... — a voz quebrou o silêncio.
Aquela voz.
Havia tanto tempo...
— A gente precisa conversar... — ela continuou.
A voz tinha um eco como se viesse de longe. Era mesmo uma memória distante que ela repetiu e enterrou muitas vezes naqueles anos.
— Mamãe precisa te contar uma coisa importante... E você vai ter que ser forte. Sei que é muito pra pedir... mas eu preciso de você do meu lado. Pode ser?
— O que tá acontecendo? — Perguntou a voz de uma Fernanda de 12 anos já chorosa.
Aquela Fernanda ali no banheiro ouvia e se lembrava. Foi a conversa mais difícil que teve na vida e a estava revivendo como nunca imaginou reviver. Mais que ouvir, mais que lembrar, as imagens surgiam vívidas demais na sua cabeça. Ela viu a mãe sentada na cama, segurando as mãos da filha pré-adolescente que jamais deveria passar por aquilo. Eles nunca devem.
— Mamãe tá doente... — Felícia disse.
As duas Fernandas choraram.
— Cadê ela? — Fernanda perguntou no passado já em outra cena.
— Tomando um banho — o pai respondeu.
Foi a primeira consulta depois do diagnóstico.
— Vai ser muito ruim? — Ela perguntou.
Se lembrou dele assentindo. Não teve voz. A partir desses dois momentos, os três não foram mais os mesmos. De alguma forma, mesmo depois do diagnóstico, ainda havia um tipo de esperança de não ser nada tão difícil, doloroso, longo... nem grave.
— Tá doendo? — Uma Fernanda uns meses mais velha perguntou.
— Dói tudo — uma Felícia cansada respondeu.
Fernanda a deitou na cama como uma enfermeira cuidadosa, mas de coração mais partido. E era apenas uma criança.
— Onde cês tão indo? — Perguntou Fernanda, sonolenta, assustada, na sala de casa.
— Sua mãe não tá bem — o pai respondeu tentando disfarçar a afobação. — Tamo indo no pronto socorro. Pode voltar a dormir filha. Qualquer coisa eu ligo.
— Tá — ela respondeu porque sabia que não podia fazer nada além disso.
Mas não voltou a dormir.
Fernanda se lembrava daquela noite longa e de como, apesar dela, depois tudo pareceu melhorar. Porém, não melhoraram para sempre. Depois de um tempo as dores voltaram, o tratamento voltou. As perguntas e as dúvidas voltaram. Felícia sequer tinha futuro nos olhos, porque as dores lhe roubaram toda a vitalidade.
Fernanda se lembrava de cada segundo em que foi enfermeira da mãe, mesmo que ela insistisse que a filha fosse viver sua vida. Se lembrava de cada gotícula de sofrimento que viu nos olhos da mãe, nos gemidos, na pele e nos pesadelos. Nas voltas de consulta que tiravam cada resquício de esperança que ainda insistia em permanecer nos três.
Se lembrava do dia que ela foi para o pronto socorro e não voltou mais. Se lembrava, mas sempre tentou guardar tudo tão fundo que às vezes parecia se esquecer. Quando estava com as amigas, às vezes se esquecia. Quando relia o diário da mãe, às vezes esquecia.
Mas trancada ali naquele banheiro, tudo aquilo pareceu quebrar os muros do coração e da memória e transbordar dela.
Se antes ela achou que algo estava transbordando finalmente, não estava preparada para aquela enxurrada devastadora.
Doía.
Machucava outra e outra vez.
Afogava.
Porém, dessa vez ela chorou o quanto quis, sem ser interrompida. A voz da avó não apareceu dessa vez para dizer que ela não podia chorar, que tinha que se conter, que tinha que ser forte e adulta e seguir em frente porque era isso que não sei quem e fulano queriam.
Dessa vez ela gritou.
Gritou até doer, até perder a força e parar no chão.
Chorou até dormir.
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