16 - Sobre quem
Para pra pensar se esse é o teu lugar
Aquele bom em que deveria estar
Te conecta, Pitty
11 de abril, sábado
Como elas tinham aula e trabalho no dia seguinte, não demoraram muito na casa de Fernanda na quarta-feira. Ela prometeu que iria à aula no dia seguinte e que ia melhorar, tomar as rédeas de si mesma de volta. Marcaram uma noite para elas no sábado, sem medo do que podia acontecer, acreditando que tomar as rédeas de si mesmas eram o suficiente.
Assim, no sábado logo de manhã Luiza e Julieta estavam lá. Luiza foi de carro e as três foram ao mercado. Depois ela deixou as duas na casa, devolveu o carro para o tio e pegou o ônibus de volta.
Elas se reuniram como se nada diferente e assustador tivesse acontecido ali. A verdade era que Fernanda não tinha mais medo desde que descobriu que a senhora chorosa era sua avó Flor e que não lhe faria mal, além de torcer para ver a mãe outras vezes. Luiza estava tranquila porque Fernanda estava tranquila — apesar da sensação de que as paralisias do sono que tinha todas as noites desde que entrou ali pela primeira vez pudessem ser piores ali — e Julieta não se assustaria com mais nada depois de tanto tempo em companhia de Capuleto que, até então, ou era espírito ou era coisa da sua cabeça.
Fernanda vestia suas roupas antigas outra vez.
Mas, mesmo tranquila, Luiza chegou na casa depois de deixar o carro com o tio parecendo meio chateada. Enquanto elas mexiam nas coisas na cozinha, Fernanda decidiu perguntar se estava tudo bem.
— You ok?
Luiza olhou para ela, dando um leve sorriso, mas sem saber se era mesmo uma referência a You belong with me ou não.
— Tired of drama — respondeu.
Fernanda sorriu.
— Sorry — disse.
As duas riram juntas.
— Você gosta de Taylor Swift? — Luiza perguntou.
— Não ouço todo dia, mas não desgosto. As músicas em espanhol me têm nas mãos. Mas você gosta. Eu precisava dessa referência... — disse rindo.
Luiza riu.
Julieta também riu sozinha.
— Não entendi nada, gente.
As duas riram e explicaram o que aconteceu.
— Só entendo referências de filmes e olhe lá.
— Eu passo 80% do meu tempo falando de música, e nos outros 20% estou torcendo pra alguém falar pra eu poder falar mais — Luiza disse.
Julieta piscou e apontou um dedo para Luiza, ao mesmo tempo, mostrando que essa ela entendeu.
— Mas, e aí... — Fernanda perguntou a Luiza. — O que aconteceu?
— Ah. Minha mãe tava no meu tio esperando eu voltar com o carro pra ele levar ela no trabalho. Perguntou o que eu tava fazendo, o que era tão importante que não podia ir ajudar ela no trabalho hoje. Só que ela sabe por que que eu odeio ir, tanto que nem pergunta mais. Ela não me pediu pra ir hoje e mesmo assim me cobrou quando cheguei lá.
— Por quê não gosta de ir? O que que acontece? — Perguntou Julieta.
— Meu nome. Todo mundo lá me conhece e ficam o dia todo cantando a música, colocando pra tocar, e só me chamam de Sandra Rosa Madalena, nunca de Luiza, nem Luiza Laura Mariana pra zoar. É irritante. Sempre me irritei quando ajudei ela lá, aí ela fica brava comigo. Fica fazendo drama — explicou como a sua resposta da referência tinha tudo a ver com a situação. — É claro que se for um dia que ela precisar de verdade, eu vou, mas não é o caso de hoje.
— Não fica triste — pediu Julieta, sorrindo em seguida, porque era o pedido mais simples e ao mesmo tempo mais difícil de atender do mundo.
Mas fez Luiza rir ao menos.
Cozinharam, comeram, beberam um pouco, apagaram as luzes, colocaram para reproduzir um vídeo com cores no notebook para iluminar o ambiente, colocaram uma playlist animada e dançaram.
Certo momento Julieta foi até a cozinha pegar mais bebida. Quando voltou, Fernanda e Luiza dançavam de mãos dadas. Não tão próximas, porque Luiza estava confusa e tímida demais para tentar entender qualquer coisa, mas em algum momento elas naturalmente deram as mãos ao dançar.
A sensação delas era de curtir o momento sem pensar em nada.
A sensação de Julieta foi, sem querer, de ter ficado de coadjuvante mais uma vez.
Ela se sentou no sofá, não entrou na dança delas, e tentou disfarçar caso estivesse com a cara ruim. Não sabia dizer se estava, como se não sentisse seu próprio rosto; só tentou não estar. Não gostava de demonstrar sentimentos e isso fazia com que sempre demonstrasse muito. Olhou alguns segundos para o copo em sua mão, para seus pés balançando, sem saber se era nervosismo ou se ainda se deixava levar pela música. Então levantou o olhar. Porém, antes de olhar para as duas ainda dançando, parou os olhos em outra figura sentada no outro sofá.
A figura não sorria como costumava estar sempre sorrindo e estava olhando Fernanda e Luiza. Então voltou seu olhar para Julieta e fez uma cara que dizia: "O que eu disse...".
E ela realmente disse, muitas vezes, durante os últimos dias, mas disse no quarto de Julieta, nunca fora de lá.
Julieta olhou rapidamente para as amigas para ver se elas não viam aquela criança loira ali, mas não viam — e não era porque estavam distraídas dançando. Era mesmo como se não estivesse ali. Então Julieta se levantou e foi outra vez para a cozinha na tentativa de falar com Capuleto em particular e pedir que ela a deixasse em paz ao menos aquela noite.
Estava decepcionada porque, apesar das coisas que via e sentia ali, ainda era um lugar onde Capuleto não a impedia de dormir.
Quando Julieta entrou no cômodo, Capuleto já estava lá com um ar vitorioso no rosto.
— Vai embora — disse Julieta, confiando que a música na sala abafaria sua voz ali.
— Meu Deus, como assim? Que agressividade.
— Não é agressividade. Tô pedindo.
— Não quero ir. Estou aqui te ajudando.
— Eu sei, ajudando, blablabla. Mas não quero isso hoje. Só por hoje, tá bom? Pode voltar quando eu tiver em casa, me acordar no meio da noite, falar suas bobagens. Mas hoje não.
Capuleto se mostrou ofendida demais, muito teatral.
— Não vou! Não vou e não vou! — Capuleto gritou.
— Vai! — Julieta gritou também. — Você já está me atrapalhando há dias, agora eu não aguento mais. Não te quero aqui no meio das pessoas, falando coisa na minha cabeça!
Então Julieta viu duas sombras chegando, assustadas, procurando o que estava acontecendo.
Capuleto ria. Mas parou de rir quando Fernanda e Luiza olharam diretamente para ela.
— Quem é ela? — Fernanda perguntou a Julieta.
Luiza ainda olhava para a menina.
Julieta engoliu seco.
— Vocês... estão vendo ela... agora? — Perguntou.
As duas assentiram.
— Não era pra ver?
— Faz dois minutos que ela tava na sala, no sofá.
Luiza negou essa.
— Bem... — Capuleto disse, abrindo os braços, como se resignada. — Agora vocês me veem também.
— É um fantasma também? — Fernanda perguntou, se aproximando de Julieta.
— Não sei, ela não diz — Julieta respondeu. — Faz algum tempo que ela aparece pra mim no meio da noite e fica conversando. Por isso não durmo bem. Não sei como me livrar dela.
— Se livrar de mim? — Perguntou a pequena, ofendida.
— Sim, gostaria muito de voltar a dormir a noite toda. Eu tô cansada, você sabe disso. E sabe também que as nossas conversas nunca vão a lugar nenhum.
— E quem é você? — Perguntou Luiza a Capuleto.
Mesmo com o que já vira ali naquela casa, Luiza tremia um pouco. Havia se aproximado mais de Fernanda e estava meio atrás dela, como se estivesse se escondendo ou se protegendo. Colocou a mão nas costas dela, como se estar encostando em alguém transmitisse uma segurança de não estar delirando ou para confirmar se não estava sonhando. De alguma maneira, era melhor ver fantasmas que perder a cabeça.
— Sou Julieta Capuleto.
Fernanda riu.
— Por que um espírito de alguém que não existiu de verdade estaria aqui tantos anos depois da sua criação?
Capuleto revirou os olhos e desapareceu na frente delas. Elas olharam ao redor por um momento, depois se olharam. Voltaram para a sala em silêncio, Fernanda abaixou a música, elas se sentaram no sofá. Julieta em um, Luiza e Fernanda em outro, próximas.
— Quando foi que começou? — Fernanda perguntou.
— Não lembro bem, mas em uma madrugada há umas semanas. Ela começou a falar de amizade, fez eu me sentir culpada por não mandar mensagem pras minhas amigas todos os dias. Tentei me enganar que era um sonho ou só um espírito inofensivo, na pior das hipóteses. Mas plantou a sementinha lá no fundo.
Ocultou a parte sobre as duas ali para não entrar em um assunto do qual não queria falar.
— Que chata ela — Luiza disse.
— Achei que não ia voltar mais depois da primeira noite, mas voltou todas as noites que eu estava na minha casa desde então. Por isso não ando dormindo à noite.
— Você podia ter contado pra gente...
— Ah... Não quis incomodar, eu achei que já era demais pedir ajuda com o clube do livro. E a Fernanda precisava mais da gente que eu de vocês.
— Não precisa pensar assim. Você sabe... — Fernanda começou a falar, mas foi interrompida por um grito agudo que pareceu estar ali na sala com elas.
Elas se assustaram e tamparam os ouvidos. Quando acabou, cerca de trinca segundos depois, Julieta correu e acendeu a lâmpada. Mesmo que o cômodo não estivesse tão escuro antes, ela não queria continuar aquilo sem iluminação adequada. Era como se, lá no fundo, soubesse que aquele não seria o único susto da noite, e também que não seria nada como da outra vez que viram a avó de Fernanda.
Julieta olhou todo o cômodo ainda parada no interruptor, procurando pela fonte do grito, mas não havia mais ninguém ali além das três.
— Quase me mijei de susto — disse Fernanda. — Preciso ir no banheiro.
Ela subiu para o banheiro e Julieta voltou ao seu lugar no sofá.
— Estamos preparadas pra essa noite? — Julieta perguntou.
— Vai ser pior que a outra, né?
— Aquela noite nem teve susto, só foi estranha mesmo. Mas essa agora...
— A Fernanda parece bem tranquila.
— Ela deve pensar que é algo ligado à vó. Deve ta acostumada com o que acontece aqui quando tá sozinha.
— Talvez ela ajude a gente a não ficar com medo... — Luiza disse, sem muita confiança no que dizia, dando de ombros.
Fernanda desceu, claramente tranquila. Pegou seu copo que tinha deixado na mesinha de centro e foi para a cozinha. Se virou na metade do caminho.
— Querem algo?
Julieta e Luiza se olharam. Se pudessem se ouvir, estariam se perguntando se deveriam mesmo continuar bebendo e agindo como se nada tivesse acontecido, esperando o próximo capítulo. Porém, como não queriam atrapalhar o bom momento em que Fernanda parecia estar em muito tempo, aceitaram. Pegaram seus copos e a acompanharam até a cozinha.
Julieta estava pensando com seus botões sobre como ainda não conseguia se abrir com elas sobre as conversas com Capuleto e estava quase chegando à conclusão de que nunca foi muito de se abrir com ninguém, mas era difícil entender coisas sobre si mesma. Pegou sua bebida em silêncio enquanto Luiza e Fernanda conversavam sobre alguma coisa que ela não entendeu, como se fossem de um mundo muito diferente do dela.
Voltaram para a sala e foi como se nada tivesse acontecido do momento anterior a Julieta ver Capuleto até ali. Fernanda colocou a música novamente e puxou Luiza para dançar, enquanto Julieta se sentia a cada segundo um pouco mais sem energia. Ela não sabia se estava disfarçando bem ou se as duas não estavam prestando atenção nela, mas seguiu sua noite com sua bebida. Dançou um pouco de vez em quando. Tentou parecer animada quando pararam para jogar algum jogo.
Viu as duas ficando cada vez mais próximas e ela de lado, esquecida.
Até que um curto aconteceu dentro de si, ela explodiu e gritou.
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Quando Fernanda desceu do banheiro, Luiza pensou por um momento percebê-la com as energias renovadas. Pegou seu copo e a acompanhou até a cozinha, porque queria passar a maior quantidade de tempo tranquila com ela. Sabia que as últimas semanas tinham sido intensas, mas ainda não sabia bem como entender esse querer passar tanto tempo com Fernanda. Só deixava fluir.
Fernanda se serviu com a bebida e deixou a garrafa sobre a pia, enquanto já dava um gole grande. Luiza se serviu e serviu Julieta, quem Luiza pensou perceber que às vezes se mantinha um pouco afastada das duas, e não só fisicamente.
Em silêncio, sem saber bem o motivo nem como quebrá-lo, as três beberam aquele copo bem rápido, se serviram outra vez e voltaram para a sala. Esse podia ter sido um momento divertido se elas estivessem todas se sentindo plenamente, mas algo estava estranho. De qualquer forma, Fernanda colocou a música de volta — só não voltou a dançar imediatamente. Foi Luiza quem decidiu puxá-la para dançar dessa vez, mas puxando Julieta também.
Elas se divertiram. Fernanda parecia um pouco em outro mundo, mas Luiza estava feliz por estar ali com as duas. Pensou que precisava apresentá-las logo para suas amigas. Dançou com Fernanda, dançou com Julieta, dançaram juntas e sozinhas juntas. Beberam. Ignorando o que aconteceu antes, beberam. Beberam para esquecer.
Certo momento, do nada, Fernanda quis mostrar o álbum de fotos da avó, o livro e o diário da mãe. Não era qualquer apaixonado bêbado que falava com tanto amor sobre alguma coisa. Fernanda contagiava, ainda que as contagiadas também estivessem bêbadas.
— Que estranho... — disse Julieta. — Ver fotos de alguém que não está mais aqui e pensar que... talvez ainda esteja?
Fernanda sorriu com isso.
Luiza se lembrou que, no dia em que esteve ali para tentar entender os símbolos que Felícia desenhou nas páginas arrancadas do livro, acabou não contando à Fernanda sobre sua pesquisa. Nem depois ou depois.
— Sabe os símbolos das páginas? — Luiza perguntou, apontando o exemplar velho e rasgado de Alice no país das maravilhas com uma mão e tocando o braço de Fernanda com a outra, como sempre fazia, ainda que fosse algo no qual nunca prestou atenção. Fernanda só a olhou como se lhe desse atenção, então ela continuou, se aproximando uns centímetros mais. — Aquele dia eu pesquisei, só não lembrei de contar. Os triângulos são símbolos dos quatro elementos, o pentagrama é a união deles com o mundo dos espíritos e as luas são da deusa tripla. Lua crescente, cheia e minguante. A jovem, a adulta e a velha. Juventude, maturidade e... experiência.
Por alguns segundos Fernanda apenas a olhou. Por alguns segundos, Luiza pensou não ver mais a mesma Fernanda de quando se conheceram e de horas atrás ali, nem como naquele dia que ela foi de vestido para a faculdade. Parecia outra pessoa. Mesmo rosto, mas energia completamente diferente.
— Legal... — disse Fernanda. — Mas você podia se afastar um pouco.
Qualquer satisfação que Luiza tinha naquele momento sobre qualquer coisa sumiu do seu rosto e do seu corpo imediatamente. Tudo rodava pelo álcool, e agora rodava por algo mais também.
— Que?
O coração doeu um pouco, um frio insuportável na barriga.
— Isso mesmo... Você fica... me tocando — Fernanda disse e fez um gesto mostrando que não gostava daquilo.
Parecia mesmo outra Fernanda. Ainda assim, vinha daquela Fernanda, e isso doeu demais.
— Mas... — Luiza tentou falar algo, mas uma lágrima já escorria pelo seu rosto.
— Você precisa se acalmar — disse Julieta para Luiza como se ela estivesse muito alterada.
Então a pegou pelo braço e Luiza se deixou levar. Não estava alterada, só seu peito estava apertado, o coração batia forte. Julieta a levou para o escritório e fechou a porta.
Luiza tentava respirar fundo para não chorar mais. Mas chorava, era impossível segurar.
— O que... — tentou perguntar.
— Vou buscar uma água pra você — Julieta disse e saiu do escritório, fechando a porta outra vez.
Luiza tinha tantas perguntas e ao mesmo tempo não sabia se queria ouvir as respostas.
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Fernanda foi ao banheiro depois do susto do grito na sala. Tentou se mostrar tranquila porque não queria assustar Luiza e Julieta e não queria estar assustada também. Por mais que a mãe ou a avó nunca tivessem feito aquilo, aquela casa ali não era mesmo uma casa normal.
Ao terminar, tentou sair do banheiro, mas a porta não abriu. Por mais velha que fosse, aquela porta nunca tinha dado nenhum indício de que podia emperrar. Tentou várias vezes. Não estava nem trancada — ela podia ver —, mas ainda assim não abria. Tentou gritar, inclusive pela janela, mas ninguém parecia escutar.
Se sentou no vaso por um momento e tentou pensar o que fazer. Olhou ao redor, não viu nada que pudesse quebrar a maçaneta ou abrir um buraco para abrir por fora ou gritar as meninas por aquele lado.
Começou a sentir medo. Foi diferente do que sentiu na primeira vez em que esteve ali e elas sentiram aquela brisa estranha. Foi um medo que cresceu de algo que já estava plantado no peito.
"Ao menos a lâmpada ainda tá acesa." — Pensou.
Então a lâmpada piscou uma vez. Fernanda olhou para cima e ela foi se apagando gradativamente. Não fez barulho de queimado, só apagou. Fernanda ainda se levantou e foi ao interruptor apertá-lo algumas vezes. Ainda no escuro. Não fosse pela lua cheia, estaria no escuro total, mas isso não ajudava também. Mesmo que achasse que estava acostumada a ver e ouvir espíritos, não estava. Sentiu medo de fato.
Sua respiração já estava tremida.
Silêncio lá fora.
Tentou gritar e bater na porta mais uma vez para ver se as duas a ouviam. Se não tivessem ligado a música de novo, ouviriam. Se tivessem ligado a música, ela a ouviria dali. Não ouvia. E as duas também não a ouviam. Estava sozinha ali.
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