13 - Tu sabor se anticipa entre las uvas

Também o amor se aprende.

Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez



30 de março, segunda-feira

Luiza e Fernanda se encontraram na porta do bloco da Letras às 7:30 da manhã da segunda-feira, como da última vez. Ficou como algo combinado para todas as segundas. Naquele dia, Luiza teve medo de Fernanda não aparecer, porque não respondeu mais as mensagens no grupo e ela não se achou no direito de perguntar no privado, por mais que estivesse preocupada. Sentiu que já tinha exagerado ao ir até a casa verificar no dia anterior, porque aprender a controlar as emoções sobre as piadas com seu nome fez com que estivesse sempre controlando emoções, inclusive essas de preocupação.

E mais ainda depois do toque de Julieta.

Por isso se culpou pelo impulso.

Mas o medo caiu por terra quando viu Fernanda vindo de longe. A princípio não a reconheceu, mas o cabelo era o dela e, ao se aproximar, era mesmo ela. A grande diferença era que estava de vestido, e até então Fernanda só usava calça jeans e camisetas. Agora ela usava outro vestido da mãe que Luiza ainda não sabia sobre. E parecia feliz. Luiza pensou como uma roupa e um semblante podem mudar tanto uma pessoa, e ao mesmo tempo deixá-la tão pouco parecida consigo mesma.

"Não parece real..." — pensou consigo sobre aquela felicidade que via. Era diferente demais do que viu no dia anterior.

As duas se cumprimentaram com o beijo no rosto de sempre quando Fernanda chegou até ela. Não disse nada sobre as mensagens.

— Você tem... vestidos? — Luiza perguntou. — Achei que tivesse dito que não gostava.

— Não, são da minha mãe. Por falar nisso... — Se aproximou. — Não está com um cheiro estranho não, né? — Levantou um pouco o ombro para Luiza cheirar a alça.

Mesmo sem jeito, Luiza completou o restante de espaço que ainda havia entre as duas e cheirou a alça do vestido.

O mais próximo que já tinham estado — excluindo da noite que dormiram juntas, e com Julieta, por medo — tinha sido quando Fernanda a consolou sobre as brincadeiras de seu tio no ponto de ônibus, deitando a cabeça em seu ombro.

Mas ali foi diferente. Luiza chegou a se esquecer da preocupação por um momento. Um frio quase imperceptível na barriga, inicialmente barrado por aquela preocupação, foi se intensificando quando não se afastaram.

— Fora seu perfume... — Parou um momento que pensou que perderia o fôlego só ao falar... — Não sinto nenhum outro cheiro — respondeu e então se afastou um pouco, mas não totalmente.

Fernanda também não saiu dali. Ficaram próximas.

— Ok, obrigada — respondeu Fernanda, sorrindo.

Próxima demais.

E de uma maneira animada demais como Luiza ainda não tinha visto.

Ela conhecia o sorriso de Fernanda, mas aquele ali...

E aí Luiza perdeu o fôlego com um instante, mas ao menos não estava no meio de uma frase.

Tentou se concentrar. Pensou que talvez Fernanda fosse assim também, menos melancólica, e ela apenas não a conhecesse bem ainda. Então, já estava preocupada outra vez, esquecendo a proximidade e o nervosismo por ela.

— Está tudo bem? — Finalmente perguntou.

— Sim. Por quê?

— Nada... — deu de ombros.

— Vamos comer — disse Fernanda, pegando Luiza pelo pulso, quase pela mão, e foram assim até a fila da lanchonete. As duas compraram o café e se sentaram. — Perguntei do cheiro porque encontrei algumas roupas da minha mãe no guarda-roupas de um dos quartos. Não sei há quanto tempo estão lá. Não senti cheiro estranho, mas... E se fosse coisa da minha cabeça, sabe? Fiquei com preguiça de lavar.

Luiza assentiu.

— Mas Julieta disse que não tinha nada nos armários o dia que abriu.

— É, isso é estranho — disse Fernanda. E por um momento quase voltou a ser a mesma Fernanda de dias antes. Porém, continuou parecendo um pouco desligada de parte das coisas que aconteceram. — Talvez estivesse escuro e ela não viu.

— E... Como passou o final de semana? Todo, digo. E a noite de ontem...

— Bem. Estranha, mas bem.

— Estranha como?

— Não sei. É como se eu não me lembrasse muito. Acho que li tanto que os dois dias pareceram um só.

— E as páginas do livro da sua mãe?

— Ãhn? Ah, as páginas. Não consegui entender nem encontrar as outras.

— Ah, ainda faltam.

— Faltam duas.

— Posso ajudar a procurar qualquer dia.

Fernanda assentiu.

— E quando vai lá para escrever? Já te dei sua chave. Não precisa esperar que eu esteja lá.

— Ah... Vou hoje mais tarde, então.

A verdade é que ainda não se sentia à vontade para ir sozinha desde que Fernanda se mudou para lá. Não era mais uma casa abandonada.

Conversaram por mais alguns minutos, até a hora da aula de Fernanda. Se despediram com um beijo no rosto, dessa vez arrepiante — num sentido confuso e bom ao mesmo tempo — para Luiza.

No caminho para o trabalho, Luiza encontrou com Julieta chegando à universidade.

— Estava com ela? — Julieta perguntou logo.

Não parecia ter dormido bem outra vez.

— Sim. Ela está... Diferente. Animada. Não falou nada das mensagens e não achei jeito de perguntar.

— Ok, se eu não tivesse aula agora, a gente podia sentar um pouco e pensar no que tá acontecendo, mas...

— A gente se fala por mensagem depois. Vou na casa dela mais tarde.

— Ok. Beijos.

Quando Luiza chegou à casa no final da tarde, Fernanda ainda não estava.

Observou como a sala estava um pouco diferente. Havia roupas pelos sofás, algumas que ela reconheceu como de Fernanda — ou a cara dela, porque ainda remoía a nova sensação de que não a conhecia bem depois das últimas semanas intensas de sensação contrária —, outras eram claramente eram da mãe.

Sobre a escrivaninha estava o exemplar antigo de Alice. Luiza o abriu e encontrou as três páginas arrancadas. Leu os trechos. Pensou conhecer aquela letra, mas não se lembrou de onde — ela não tinha como conhecer a letra da mãe de Fernanda. Olhou os símbolos desenhados ao lado dos trechos. Um pentagrama e um triângulo, lua minguante e triângulo invertido, lua crescente e triângulo invertido com um traço. Se sentou e foi pesquisar no celular.

O pentagrama simboliza a união da humanidade com o mundo de lá. Os triângulos são os quatro elementos: triângulo, fogo; triângulo invertido, água; triângulo com traço, ar; e triângulo invertido com traço, terra. Ali, havia fogo, água e terra. Faltava o ar. E as luas podiam ser parte da deusa tripla. Faltaria apenas a lua cheia. E faltavam exatamente duas páginas.

Ela colocou as páginas e o livro de volta no lugar.

Também sobre a escrivaninha, um caderno antigo que lhe chamou a atenção. Foi a mesma sensação que a atraiu para aquela casa sem entender porquê. O pegou e o abriu por um momento. Na segunda página havia um lettering escrito "Fernanda". Com isso, pensou que era um diário, cortou a energia que a atraía para ele e o fechou, colocando de volta no lugar.

— Você leu? — Ouviu e se assustou, se virando para a direção da porta da sala.

Era Fernanda. E parecia um pouco irritada.

É claro que Fernanda tinha que chegar justo no momento que ela fuçava onde não deveria. Luiza sentiu como se a casa a estivesse engolindo.

— Não. Só vi seu nome — respondeu, sentindo o rosto queimar. Mas a cara de Fernanda não melhorou, mesmo que ela tenha ido até o sofá mexer nas roupas da mãe que estavam ali. Então Luiza quis fugir. — Acho que já vou, na verdade. Não tô me sentindo bem.

Fernanda parou de mexer nas roupas e a olhou. Nesse momento seu semblante pareceu mudar um pouco, mas ainda não era bom. Coisas estranhas brigavam dentro dela, como se ela não fosse somente ela mais. Porém, não podia controlar aquilo, porque sequer percebia.

— Tem certeza? — Ainda perguntou.

Luiza não queria, mas assentiu.

— Volto outro dia, se puder.

— Claro. — Fernanda também não queria que Luiza fosse embora, mas não sabia como dizer aquilo, porque não percebeu o tom de voz que usou segundos antes ao vê-la com seu diário na mão. — Fica bem — foi o que conseguiu dizer por fim.

Luiza percebeu que ela não parecia mesmo a mesma Fernanda que a consolousobre as piadas do tio semanas atrás.


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4 de abril, sábado

Luiza só voltou ali no sábado. Não se afastou da casa por raiva nem nada parecido com o jeito estranho — ou até então desconhecido — de Fernanda. Era mesmo medo de tê-la magoado. As duas passaram a semana toda se falando pouco por mensagem e não se encontraram pessoalmente. Geralmente Luiza perguntava como Fernanda estava e ela só respondia que estava bem. No fim, tomou coragem e perguntou se podia ir lá no final de semana.

Já Julieta dormia cada vez pior, não tinha disposição para quase nada, então quase não respondeu mais mensagens delas durante a semana. Então Luiza iria sozinha.

— Pode ficar à vontade — Fernanda disse quando Luiza chegou.

Ela estava no sofá, o livro fechado no colo. Usava vestido, mas seu semblante e tom de voz pareciam ela mesma outra vez.

— Na verdade, pensei em te ajudar a procurar outra vez as páginas que faltam do livro.

— Sério? — Pareceu realmente não acreditar.

Luiza assentiu. Se sentia como uma criança triste por ter magoado alguém que gostava e que queria fazer de tudo para mudar a situação.

Fernanda colocou o livro sobre a mesinha de centro sem dizer nada e andou até a entrada da sala, onde Luiza estava. Ficou a uma distância média: nem tão normal como era antes, nem tão próxima como estiveram na segunda-feira.

— Só que não sei mais onde procurar — ela disse, em um tom de quem esteve magoado, mas que queria aquela ajuda.

— Se aquele dia a Julieta não encontrou várias coisas e depois você sim, talvez ainda tem coisa por aí. Olhou na casa toda?

— Toda, toda acho que não. Mais nos quartos e no escritório.

— Vamos revirar a cozinha, despensa e até os banheiros. O quintal, debaixo da casa... Aqui não tem porão nem sótão estilo filmes americanos não, né?

— Tem não. Vamos começar pelos fundos então. Lá olhei rapidinho e acho que vi umas caixas bem fechadas lá.

As duas olharam a cozinha, a despensa e o antigo quarto de empregada nunca usado. Deram sorte que encontraram algo de primeira. Ali havia três caixas bem enroladas com fita, e elas precisaram de uma faca e bastante energia para abrir. Era muita fita. Ao abrir a primeira, viram vários objetos estranhos. Levaram as três para a sala, que era mais iluminado e arejado que aquele quarto minúsculo.

Na primeira caixa havia um álbum de fotografias tamanho 10x10 cm. Eram antigas, não tinham data nem nada, eram pessoas aleatórias impossíveis de se reconhecer se fossem conhecidos. Não pareciam ser da época de Flor e também não eram da sua família porque eram todas brancas. Junto, havia uma taça antiga, de algum metal talvez sem valor, talvez com valor.

— Me desculpa — disse Luiza, do nada.

Fernanda parecia já estar longe de si mais uma vez enquanto mexia nas coisas.

— Pelo quê? — Perguntou.

Luiza deu de ombros, mesmo querendo dizer "sobre o diário". Ela não sabia bem se o problema foi aquele.

Como resposta, Fernanda deu um passo até Luiza e apoiou sua cabeça sobre seu ombro, como no dia que a consolou sobre as brincadeiras do tio.

Ficou ali por um momento e depois voltou às fitas que cortava.

Na segunda caixa havia uma versão em miniatura daquele desenho de Cecília. Só isso já seria estranho se ali também não tivesse uma versão menor da pintura encontrada no outro quarto, outra boneca igual àquela, mas também menor, outra versão menor de Alice no país das maravilhas e outro lenço, branco e limpo como o outro, também menor.

Elas deixaram esses itens juntos sobre a mesinha de centro. Eram estranhos, mas não sabiam onde buscar explicação sobre eles. Não eram filhas de Agatha Christie. Talvez fosse algum tipo de brincadeira da mãe de Fernanda, mas porque estariam escondidos dentro de caixas tão protegidas e esquecidas?

— Teve notícias da Julieta? — Fernanda perguntou.

Luiza negou com a cabeça.

— Ela não anda dormindo bem — jogou como o único palpite que tinha sobre o sumiço dela.

Respiraram fundo e abriram a última caixa.

Ali havia desenhos que logo elas reconheceram como sendo de cada cômodo da casa. Os móveis antigos dos quartos, alguns vazios, outros com móveis que já não estavam ali. Se sentaram lado a lado no sofá e Fernanda passava um por um para olharem atentamente. Luiza poderia enxergar coisas estranhas aleatórias, mas só Fernanda conhecia os detalhes certos da casa.

Em um dos desenhos, de um dos quartos, havia uma pequena marcação de lápis vermelho que os outros não tinham — Luiza percebeu. Era um ponto em uma das taboas perto da cama. Nesse também havia algo escrito, perto da marcação. "Primero sueño", apenas. Era a letra da mãe de Fernanda.

Automaticamente ela começou a chorar, porque cada coisa da mãe que encontrava e que ela sequer sabia da existência era como se conhecesse uma nova mulher, e isso era maravilhoso e doloroso ao mesmo tempo. Era tudo gatilho para o luto que guardou no peito e não viveu. Queria ter descoberto tudo aquilo enquanto ela ainda estava viva.

Além disso, tocar cada objetivo cada roupa daquela era como estar recebendo uma onda de energia desconhecida. Às vezes ela pensava quase sentir a eletricidade passando pelo corpo quando usando um vestido, pelos dedos quando segurando algum dos livros, pelos pés quando andando descalça na casa.

Ela deixou o restante dos desenhos sobre a mesinha e ficou com aquele na mão. Assim Luiza pôde ver que, por baixo do desenho daquele quarto, estavam as duas páginas que faltavam do livro. Elas tinham frases escritas e os dois desenhos que deduziu que faltavam: um triângulo com traço e um círculo, provavelmente uma lua cheia. Se lembrou que não falou com Fernanda sobre símbolos que viu nas páginas sobre a mesma e pesquisou na segunda-feira.

— Olha... — Ela disse, não querendo interromper o momento de Fernanda com o desenho, mas achou que ela ia gostar daquilo também.

Fernanda pegou aquelas folhas também e chorou como se, finalmente, algo estivesse completo, mesmo que fosse algo pequeno, mesmo que não soubesse o significado. Ela tremia.

Luiza não soube se a consolava ou não, nem como fazer. Se aproximou mais por um momento, afagou suas costas. Limpou algumas lágrimas para não molhar as folhas. Depois conseguiu tirar as folhas da mão dela, as colocou sobre a mesinha de centro, Luiza se levantou e Fernanda se deitou no sofá, encolhida. Chorou até cansar. Chorou até dormir. Antes dela apagar, Luiza se despediu.

No impulso, lhe deu um beijo na testa como forma de carinho. Depois pareceu bobo pensar naquilo, mas Luiza ficou pensando naquilo, e isso já era alguma coisa. 

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