Ray, o Sherlock Holmes
Eu não lanchei com eles no dia seguinte. E nem no outro. Muito menos nas próximas duas semanas. Também evitei ao máximo qualquer diálogo ou interação. Pegava outro trem para casa.
E não era exatamente birra: usei aquele tempo para interrogar meus colegas da forma mais discreta que consegui. O pessoal estranhou minha separação do casal e que eu estivesse conversando com várias pessoas.
Eu me "aproximava" de um grupinho ou pessoa, puxando assuntos aleatórios. Era questão de tempo até alguém perguntar sobre o motivo de minha "emancipação" do casal perfeitinho para eu logo dizer "estão escondendo algo de mim".
Deixava o assunto fluir e "perguntava" se eles também os achavam estranhos naqueles dias. Após ganhar o que eu julgava ser informação suficiente, eu desconversava. Depois de alguns assuntos mais, eu deixava de falar com a pessoa ou grupinho.
Consegui descobrir alguns fatos interessantes nesses meus "interrogatórios".
Ninguém viu absolutamente nenhum indício de instabilidade no relacionamento deles. Porém, todos concordaram que eles pareciam ter algum assunto delicado em pauta quando conversando no privado.
Gilda, uma amiga do nono ano, disse que Emma andava pesquisando sobre algo na internet e, sempre que alguém se aproximava, ela bloqueava o celular antes que alguém pudesse ver o que ela estava lendo.
Anna, também do nono, disse que viu Norman conversando com Yuugo, e que escutou algo sobre relacionamentos entre dois homens. Pela descrição dela, parecia que o professor falou sobre sua experiência como bissexual e como era seu matrimônio com Lucas.
Muitos dos meus colegas afirmaram que viram Emma e Norman conversando com todos os nossos professores sobre algum assunto bem confidencial. Não ouviram nada, mas ainda é uma pista boa.
Não "interroguei" professor nenhum. Era muito arriscado. E eles não me diriam nada. Não valia a pena.
Uma coisa que eu mesmo analisei foi como Emma passou a defender com mais afinco os direitos LGBTQ+, principalmente nas aulas da Musica. As duas pareciam especialmente amigas. E Norman também começou a opinar sobre a pauta.
Cheguei a conclusão de que o albino estava se descobrindo bissexual, poli ou qualquer sexualidade que inclua ambos os gêneros binários.
Fazia sentido. Explicaria o motivo das pesquisas da Emma, do diálogo do Norman e Yuugo, a defesa da ruiva nas aulas, as conversas com os professores ...
... Mas não explicava o motivo da distração que se perpetuava neles. E nem o motivo de não me contarem nada – afinal, eles já sabiam que eu era bi já faz dois anos e meio.
Não saber de nada me deixava extremamente frustrado.
Por fim, desisti. Deixei de evitá-los a todo custo, mas também não os procurava. Parei com os "interrogatórios". Não mais liguei para como eles estavam dispersos.
Porque doía. Doía vê-los assim sem saber o que fazer, e não ter nem a confiança deles para ajudar no que precisasse. Doía ver que nem a minha amizade era importante para os dois. Doía ver o namoro perfeito que tinham.
Mas eu sabia que estava sendo egoísta. Egoísta ao querer ambos para mim e egoísta ao tentar me meter na vida deles assim.
Egoísta ao ousar pensar que a vítima da história era eu.
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