Capítulo 23

Brianna McGregor

Meu coração parecia martelar meu peito tão forte que tudo ao meu redor parecia silencioso enquanto eu esperava a próxima ação dos soldados inimigos. Um deles estava perto demais das minhas amigas, seu rosto a apenas poucos centímetros do de Holly enquanto Alicia falava, obviamente tentando afastar o homem da filha do presidente enquanto se esforçava para seguir com o plano.

— Não há tempo! — disse minha amiga de infância. Os movimentos nervosos de seus braços enquanto falava já não eram fingimento. — Os rebeldes podem fazer alguma coisa se ninguém chegar lá rápido para impedi-los. O senhor precisa ir!

Alicia soava quase desesperada, talvez um pouco demais para uma cidadã cooperativa que tentava evitar um levante contra os homens que tinham invadido seu país e tomado o controle de sua cidade. Mas os afegãos à frente dela não pareciam perceber isso. O tom urgente de suas palavras, na verdade só parecia deixá-los ainda mais ansiosos, como ela. O nervosismo e o medo verdadeiros de Alicia estavam tornando-a uma ótima atriz.

Então, Holly falou, parecendo se recuperar do choque de ter um afegão tão perto dela instantes antes:

— Por favor, impeça-os. Nós podemos avisar seus companheiros para que cubram o lugar de vocês enquanto estão fora. Por favor, alguém pode se machucar. — O soldado voltou a olhar fixamente para Holly, mas já não estava mais tão perto quanto antes. — Por favor! — Holly disse em tom mais baixo, a voz quase chorosa.

O homem, então, virou a cabeça para trás, para o amigo, que assentiu depois de um instante.

Devagar, os dois passaram por entre minhas amigas e começaram a se afastar em direção à escada, seus passos ainda um pouco relutantes e seus rostos voltando-se para Holly e Alicia com muita frequência, como se desconfiassem de que elas estavam mentindo. Mas nenhum dos dois deu um passo sequer na direção delas de novo e continuaram se afastando.

Eu não queria perder os dois de vista, por medo de que a desconfiança fosse maior que a curiosidade e eles acabassem voltando antes do que tínhamos previsto, mas me obriguei a vigiar também as equipes que continuavam guardando as outras portas do Capitólio. Eu sabia que Jake seguiria o plano e protegeria minhas amigas dos soldados que se afastavam. Quanto aos companheiros deles, porém, se desconfiassem do nosso plano ou fossem até a porta que agora estava desprotegida, por qualquer motivo que fosse, eu não teria muito a fazer além de estragar todo o plano para proteger minhas amigas.

As vidas delas eram prioridade, claro, mas não seria nem um pouco legal se eu precisasse estragar todo o nosso elemento surpresa matando um patrulheiro afegão bem às portas do prédio em que os inimigos se escondiam.

Nós não tínhamos o luxo de um silenciador há bastante tempo. Se eu precisasse atirar antes de entrarmos no Capitólio, começaria uma grande bagunça e não poderíamos seguir o plano original.

Quando vi dois vultos passarem bem perto de mim, percebi que os guardas já tinham se afastado o suficiente para voltarmos a agir. Os dois estavam tão longe que eu já não podia mais vê-los.

Andrew e Max subiram a escada para a lateral sul do Capitólio e foram de encontro a Holly e Alicia. Envolveram os ombros delas com os braços e as viraram para eles, impedindo-as de olhar para o caminho que levava ao Bartholdi Park e que os guardas afegãos tinham seguido.

— Corram o mais rápido que puderem. — Ouvi Max dizer enquanto encarava Alicia e vi minha amiga assentir firmemente.

Holly certamente também tinha escutado as palavras de Max, mas fitava Andrew com os olhos arregalados e o corpo imóvel. Os nós dos dedos brancos nas mãos femininas que apertavam a camisa de Andrew com força eram a única demonstração de que ela não estava perdida nos próprios pensamentos.

Eu quis me mover, mas me forcei a continuar onde estava. Precisava manter minha posição e a linha de tiro para proteger todos eles. Não podia simplesmente sair correndo até Holly.

Mas Andrew parecia entender a situação bem o suficiente.

— Está tudo bem, ele não vai te machucar — disse Andrew em tom mais baixo que Max, quase tornando impossível que eu o ouvisse. Soltou as mãos d Holly de sua camisa para apertá-las com as suas próprias. — Tudo vai acabar logo e nenhum deles nunca mais vai poder te machucar. Eu prometo.

Holly piscou e eu podia jurar que tinha visto um brilho molhado em seus olhos, mas Alicia impediu que a amiga chorasse segurando sua mão e entrelaçando os dedos, como tinham feito no caminho até ali. Então Alicia começou a correr, puxando Holly com ela de volta para o Longworth House Office Building.

Estranhamente, nenhum outro guarda inimigo parecia ter ouvido qualquer parte das conversas que aconteceram, mesmo não estando muito mais longe que eu da porta agora desprotegida. Tentei não pensar no que isso poderia significar, porém. Se os inimigos tivessem nos escutado, eu e meus amigos descobriríamos logo.

Mantive meus sentidos em alerta, mas não deixei que a preocupação afetasse minha concentração.

Pouco depois, quando minhas amigas já estavam perto o suficiente da entrada do prédio e protegidas pela mira de Evans, eu me juntei a Andrew e Max acima da escada. Os dois esperavam por mim com seu jeito nada paciente, mas deixaram que eu abrisse a porta que antes era protegida pelos afegãos. Meus amigos passaram por mim logo em seguida, com suas armas em punho, prontos para abater qualquer inimigo que estivesse do outro lado, enquanto eu voltava a segurar a minha arma e seguia atrás deles pelos corredores bem iluminados.

Não havia uma armadilha atrás da porta, nem nos corredores mais próximos. Parecia que tínhamos tido sorte, para variar, e realmente não tínhamos sido ouvidos pelos outros guardas de Fariq. Tudo parecia tão normal conforme avançávamos, que eu precisei conter um arrepio.

O prédio não estava deserto, porém. Não como já havíamos encontrado Charikar e a própria Washington uma vez. Havia movimento e homens, militares, para todo lado. Eles só não desconfiavam que o Capitólio tinha sido invadido por três cabos sorrateiros prontos para libertar os reféns.

Segundo as informações que Ed tinha passado, os reféns que ele e Crowley viam todos os dias não eram os únicos. Havia pelo menos mais duas salas cheias de pessoas que não tinham como se defender dos invasores fortemente armados. Pelo menos, não podiam se defender naquele momento, já que não tinham acesso a armas.

Conforme o plano, nos separamos na esquina do próximo corredor, Max fazendo a curva e seguindo para um lado enquanto eu e Andrew avançávamos pelo corredor em que estávamos. Eu não conhecia bem o Capitólio, mas seguia as instruções de Ed, que eram bastante precisas.

Alguns metros à frente, o próximo corredor terminava em uma parede, o caminho dividindo-se para a direita e para a esquerda em um T perfeito.

Andrew e eu não corríamos. Andávamos devagar, evitando chamar atenção e fazendo o mínimo de barulho possível. Queríamos manter o segredo sobre nossa invasão pelo máximo de tempo possível. Seria infinitamente mais difícil chegar até os reféns se os inimigos nos descobrissem, e ainda mais complicado tirá-los de lá.

A poucos metros da bifurcação, olhei para Andrew, encontrando seus olhos castanhos já voltados para mim. Havia tanta coisa escrita neles. Apreensão, determinação, confiança, carinho... E um pedido quase desesperado para que eu tivesse cuidado. Eu suspeitava que ele podia ler as mesmas coisas nos meus olhos enquanto nos aproximávamos do ponto em que deveríamos nos separar.

Uma movimentação, porém, nos fez parar abruptamente onde estávamos.

O movimento foi leve, quase imperceptível. Apenas uma sombra mal escondida pela parede à direita.

O corredor à nossa frente era vigiado e não podíamos confiar que haveria uma porta por perto, por onde o inimigo entraria e nos daria a possibilidade de avançar sem incidentes. Não podíamos confiar no que não podíamos ver. Nenhum de nós dois conhecia bem o prédio e as instruções de Ed eram precisas sobre o caminho até as salas onde os reféns eram mantidos, não sobre o prédio inteiro.

Andrew e eu nos entreolhamos de novo. Nós não correríamos o risco de soltar nossas armas para dar as mãos, por maior que fosse a vontade de fazê-lo, mas nossos olhares transmitiam tudo de que precisávamos.

Como um acordo silencioso, eu avancei, segurando minha arma com firmeza e apressando o passo conforme me aproximava da bifurcação, sabendo que Andrew vinha logo atrás de mim.

A ideia era mantermos o silêncio e evitar chamar atenção para nós. No momento em que o homem se tornou visível, com a parede não mais nos separando, seu rosto se voltou para mim. Com a mesma rapidez, dei mais dois passos para tomar impulso e o acertei com a coronha da AK, deixando-o confuso o suficiente para que eu pudesse me pendurar em suas costas, minhas pernas enlaçando as dele para dificultar seus movimentos e meu corpo mais leve ficando acima do dele enquanto eu pressionava o trilho da minha arma contra sua garganta e apertava cada vez mais, impedindo que o ar entrasse em seus pulmões.

Não me lembro de ter ouvido qualquer som, mas, enquanto o homem ainda tentava lutar para se libertar do meu abraço sufocante, meus olhos encontraram outra pessoa, alguns passos à frente, e seu fuzil voltado diretamente para minha cabeça.

O homem à minha frente abriu a boca para dizer alguma coisa para mim antes de atirar, mas foi impedido pelo impacto da arma de Andrew contra sua cabeça. Mesmo com o inimigo atordoado, meu amigo continuou atingindo-o com a arma, até que ele estivesse caído no chão, inconsciente.

Levou apenas um instante para que o homem que eu segurava perdesse completamente as forças e caísse também, inerte, com o rosto voltado para baixo. Toda a cena havia se passado em poucos instantes, mas, para mim, parecia ter levado muito mais tempo com minhas costelas latejando pelo esforço.

— Você está bem? — perguntou Andrew, percebendo como eu ainda olhava para os corpos caídos, mas ainda vivos aos nossos pés.

Assenti. Não havia nada que eu pudesse fazer para impedir a dor nas costelas fraturadas pela tortura, que ainda não tinham tido a oportunidade de sarar completamente.

Depois de me olhar por um segundo, meu amigo começou a se afastar, relutante, sussurrando que não tínhamos mais muito tempo. Ele tinha razão e eu assenti de novo. Logo alguém encontraria aqueles homens caídos no corredor, assim como alguém descobriria que a porta pela qual entramos não estava mais sendo vigiada. Logo seríamos descobertos, mas precisávamos chegar até os reféns antes disso.

Troquei um último olhar com Andrew antes de começar a andar na direção oposta, tentando em vão impedir um grito estrangulado de deixar minha garganta, conseguindo apenas transformá-lo em um arfar, quando uma nova percepção invadiu minha mente enquanto eu andava. Os homens que havíamos acabado de atacar e que teriam nos atingido com seus fuzis se não tivéssemos sido mais rápidos... Os homens que deixamos para trás, inconscientes em um corredor no meio do Capitólio... Esses dois homens eram americanos. Eram traidores seguindo ordens de Jeremy Greyham.

Até agora, não tínhamos realmente enfrentado americanos traidores desde o momento em que os afegãos desceram de paraquedas nas ruas de Washington. Mesmo encontrando inimigos com frequência, o esquadrão tinha conseguido evitar confrontos diretos com traidores, apenas enfrentando os subordinados do líder afegão. Mas, é claro, essa sorte não duraria para sempre.

Com os pensamentos agitados e tentando me livrar da culpa por ter deixado americanos inconscientes, por mais que eles estivessem prontos para me atacar, quase passei direto pela porta.

Segundo as instruções precisas de Ed, aquela era a porta pela qual eu deveria passar. O corredor, as cores, a distância, tudo condizia exatamente com as descrições do meu amigo meticuloso.

Segurei a maçaneta e respirei fundo antes de abri-la. Eu estava sozinha agora e não podia contar com Andrew e Max para me proteger do que quer que estivesse do outro lado. Se Ed estivesse errado ou se eu tivesse interpretado mal as instruções...

Girei a maçaneta e devolvi rapidamente a mão à arma enquanto a porta abria, meu coração batendo forte no peito enquanto meu dedo encontrava o gatilho.

Um único homem me encarou a alguns metros da porta, exatamente na minha frente. Seus olhos muito escuros, pele bronzeada e cabelo curto não foram suficientes para me fazer atirar. Nem mesmo a pequena bandeira afegã presa em seu uniforme militar, logo ao lado do símbolo de Fariq. Apenas dei um passo à frente, a mira voltada para ele. Com o fuzil dele também apontado para mim, seria uma questão de velocidade. Mas talvez não fosse necessário que alguém atirasse, se ao menos ele...

Quando o homem falou, o corpo tenso se agitando na minha direção enquanto sacudia a arma para mim, eu não precisei entender o idioma. Meu dedo apertou o gatilho de forma mais cansada que determinada. Eu não queria tirar mais uma vida, mas o homem não tinha me dado essa escolha.

À minha esquerda, de pé em uma posição estranha, como se fosse começar a correr, mas tivesse congelado antes disso, Ed me olhava. Seus próprios olhos escuros encontraram os meus em meio a muitas piscadas.

— Eu nem sei por que me preocupei — disse ele, relaxando. — Por um segundo, achei que você não fosse atirar.

— Eu não queria mesmo — respondi. — Teria sido mais fácil se ele simplesmente entendesse que não tinha mais para onde fugir, mas eles nunca chegam a essa conclusão. — Dei de ombros, diminuindo a distância até o meu amigo e abraçando-o. Não apertei muito, sabendo que podia machucá-lo, depois de tudo pelo que ele tinha passado, mas enterrei meu rosto em seu peito por um segundo, com o alívio tomando conta de mim.

Esforcei-me para não respirar fundo, o cheiro dele era horrível. Conhecendo os afegãos e a vida como refém deles, eu sabia que Ed provavelmente não tomava banho há dias.

Afastei-me do meu amigo com uma careta pelo fedor, mas, antes que qualquer um de nós pudesse falar alguma coisa, uma voz soou atrás de mim.

— Vejo que conseguiram entrar, mas tem certeza de que temos tempo para isso, cabo?

O marechal Harold Crowley sabia que eu não era um cabo de verdade. Ele tinha descoberto toda a verdade sobre o tempo em que eu fingi ser meu irmão na base militar de Jalalabad, mas nunca tinha deixado de me tratar com respeito. Exceto, é claro, quando achava que eu estava perdendo tempo tendo coisas importantes para resolver. Mas eu não ficava irritada com isso. O homem agia assim com todo o esquadrão, tratando-nos como crianças inteligentes, mas dispersas. Não tentei evitar um sorriso. Isso demonstrava o quanto o marechal se importava com todos nós.

— Não, senhor, não temos, mas eu precisava disso — respondi. — Quer um abraço também?

Quando dei um passo em sua direção, o homem levantou o queixo, orgulhoso, mas seus olhos se encheram de lágrimas. Sorri de novo, abraçando-o de leve antes de olhar à minha volta.

Os reféns presos ali eram poucos. Bem menos do que apareciam nas transmissões na TV. Ed tinha razão, os reféns da sala em que ele ficava não eram os únicos. Na verdade, quase não havia reféns ali em comparação à quantidade de pessoas que Fariq gostava de exibir, dizendo que estavam do lado dele.

As oito pessoas espalhadas pela sala bem iluminada e quase sem móveis olhavam para mim, incluindo Ed e Crowley, como se esperassem que eu lhes desse alguma ordem. Mesmo com o marechal ali, era eu quem tinha chegado para salvá-los e tinha um plano de fuga. Eu não conhecia todas aquelas pessoas, mas elas me seguiriam assim mesmo, inclusive Crowley.

Em uma análise rápida, Ed era quem parecia mais machucado, mas, felizmente, estava de pé e parecia conseguir andar normalmente, apenas mancando um pouco. A situação podia ter sido pior, então me contentei com o que tinha.

— Prontos? — perguntei e vi algumas pessoas se levantarem como resposta. Os que já estavam de pé deram um passo à frente.

Fui até a porta e olhei para o lado de fora, certificando-me de que o corredor estava vazio antes de fazer um sinal para que os reféns me seguissem e sair. Ouvi passos leves atrás de mim e me virei por um instante, confirmando que era Ed quem estava tão perto, seguido por Crowley, com os outros logo atrás.

Avancei pelos corredores, tentando ser mais rápida para sair do que tinha sido para entrar. Estava concentrada no caminho, tentando refazer os passos que tinham me levado até ali, quando a voz do marechal me sobressaltou:

— Juggs, o que está fazendo?

Franzi o cenho, tirando os olhos do caminho à minha frente para olhar para eles por um instante, mas Ed não estava lá. Virei todo o meu corpo em um rompante, ficando perigosamente de costas para o corredor enquanto procurava pelo meu amigo.

Eu o encontrei a alguns passos, do lado de dentro de um cômodo que não estava aberto quando eu passei por ele. A sala estava escura e não tinha janelas, mas, no fundo dela, pude ver várias telas, cada uma mostrando imagens e palavras que eu não entendia. A silhueta do meu amigo era iluminada por elas, que eram o único motivo de eu ainda poder vê-lo na escuridão. Pelo menos até Ed acender a luz e eu ver que não eram TVs do outro lado da sala, mas sim computadores.

— Mas o quê...? — comecei a perguntar, mas Ed me interrompeu:

— É o equipamento que eles usam para hackear o sistema secreto de armas do governo. Ou, pelo menos, para tentar hackear, já que ainda não conseguiram fazer isso.

— Sim, você tem feito um ótimo trabalho atrasando-os...

— Juggs, não temos tempo. — Desta vez foi Crowley quem me interrompeu. — A garota já está arriscando o próprio pescoço para nos salvar. Não podemos demorar aqui.

— Nós já estamos aqui e, desta vez, não tem guardas ameaçando atirar na minha cabeça. Eu posso destruir tudo isso — explicou Ed e seus olhos se voltaram para mim em súplica.

Eu entendia o que ele estava fazendo. Já tínhamos passado por tanta coisa e ele mesmo tinha sido torturado. Se saíssemos dali sem impedir de uma vez que os inimigos acessassem o sistema secreto de armas, tudo pareceria ter sido em vão. Nenhum de nós aguentaria isso.

Desta vez, quando Crowley falou de novo, fui eu que o interrompi.

— Não temos tempo — repetiu o marechal.

— Com todo o respeito, marechal, o senhor já sabe que não somos um esquadrão normal. — Quando os olhos de Crowley se voltaram para mim levemente assustados, eu soube que não precisaria dar mais explicações. — De quanto tempo você precisa? — perguntei para Ed.

— Só alguns minutos — meu amigo respondeu.

Por um instante, olhei para todos os outros reféns, ainda parados à porta da sala, antes de voltar meus olhos para o cabo.

— Seja rápido — falei antes de voltar ao corredor. — Eu volto logo.

Ed não esperou que eu dissesse mais nada antes de se sentar em uma das cadeiras de frente para os computadores. Sem olhar para trás e tentando ignorar a agitação que começava a crescer no meu peito, segui com os reféns pelo corredor.

Meus passos rápidos, porém, não eram tão rápidos quanto os de Andrew, que vinha correndo por outro corredor e quase colidiu comigo. Atrás dele, outros reféns ofegavam pela corrida para acompanhar o cabo e olhavam para mim com os olhos arregalados, o medo estampado neles.

— Acho que perdemos o nosso elemento surpresa — disse meu amigo com seus olhos se movendo sem parar, procurando alguma coisa atrás de mim. Ele tinha salvado mais reféns que eu, mas não era isso que estava chamando sua atenção. — Onde está Ed?

— Dando uma de herói — respondi, quase soando despreocupada, mas um barulho vindo do corredor por onde Andrew tinha surgido chamou minha atenção e me fez franzir o cenho. — Preciso que leve os reféns. Vou voltar para buscá-lo.

— McGregor, onde ele está? — Andrew perguntou de novo.

— Achamos a sala do servidor para hackear o sistema de armas. Ed parou para destruí-lo ou apagar as informações. EU não sei bem o que ele vai fazer, mas vai impedir que o sistema seja hackeado — expliquei. — Leve os reféns. Vou buscar Ed e encontro vocês lá fora.

Andrew semicerrou os olhos enquanto eu apressava todos os reféns para que seguissem pelo corredor que os levaria até a saída. Eu não sabia o que se passava por sua cabeça, mas não o questionei quando começou a andar, apressando os passos para se colocar à frente dos reféns. Apenas dei meia volta e segui para encontrar Ed na sala do servidor.

Os sons que eu ouvi no corredor por onde Andrew passou, porém, não diminuíram. Ao contrário, pareciam me seguir e, conforme eu me aproximava da sala em que tinha deixado Ed, pareciam soar cada vez mais perto. Agora eu podia perceber que eram passos, pesados e ritmados, sincronizados até, vindo na minha direção.

Droga! Andrew tinha razão, os afegãos já sabiam que estávamos ali.

Havia uma chance de que os reféns estivessem a salvo, já que, aparentemente, era eu que estava sendo seguida, mas eu não me permitia ter tanta esperança. Com certeza não seria fácil para os meus amigos tirarem tantas pessoas do prédio agora que tínhamos sido descobertos.

Porém, mais que isso, eu precisava pensar em como tirar a mim mesma e Ed dali. Eu já tinha ficado encurralada em território inimigo antes e não estava disposta a repetir a experiência. Eu precisava pensar rápido.

A alguns metros da sala do servidor, eu me virei, ficando de frente para onde o som de passos estava cada vez mais alto. Eu não sabia quantos homens se aproximavam, mas talvez pudesse lidar com eles antes que percebessem a presença de Ed e o que ele estava fazendo. Meu amigo estava desarmado e ainda estava ferido. Eu não sabia o quanto as torturas o tinham afetado, mas podia imaginar que o melhor a fazer era tentar mantê-lo longe da luta.

Meu dedo estava preparado no gatilho da AK quando o primeiro afegão surgiu no corredor, mas, como se houvesse algum tipo de acordo entre nós, nenhum dos dois atirou.

Não me movi nem um milímetro, meu corpo tenso e minha mente trabalhando rápido para pensar em uma solução. A poucos metros dali, a porta da sala do servidor estava fechada, e eu não ouvia qualquer barulho vindo dela. O trabalho de Ed era silencioso e eu tentaria manter os problemas longe dele o máximo que pudesse.

Outros afegãos se juntaram ao primeiro, suas armas voltadas para mim também. Eu podia seguir pelo corredor para longe deles, entrando cada vez mais no prédio que eu não conhecia bem e correndo o risco de me perder e acabar rodeada de ainda mais homens que adorariam me matar, mas tentei ao máximo não me afastar muito. Ed precisaria da minha ajuda e da minha arma para sair vivo dali, já que estava desarmado, e era na direção daqueles homens que ficava a saída. Era para lá que eu devia seguir, mesmo que o outro lado parecesse mais seguro por um momento.

Eu não podia ficar parada sem nenhum tipo de proteção, porém. Se todos os afegãos resolvessem atirar, minha velocidade com a AK não me salvaria. Algum deles acabaria me atingindo mesmo que eu atirasse de volta.

Andei lentamente até a porta mais próxima, à minha direita, e tentei abri-la, meus movimentos lentos e casuais para evitar que os homens à minha frente percebessem o que eu estava fazendo.

No momento em que o primeiro tiro soou pelo corredor, eu me encolhi ao máximo perto da porta, para evitar ser atingida, ao mesmo tempo em que golpeava com toda a força a maçaneta com a coronha da AK que eu segurava. Mal tive tempo se fazer um som de alívio quando a porta se abriu quando um disparo passou zunindo perto da minha cabeça. Virei-me o mais rápido que pude e disparei duas vezes antes de me esconder atrás da parede da sala recém-aberta, de uma forma que eu ainda pudesse observar o corredor. Eu ainda precisava eliminar aqueles afegãos e vigiar para quando Ed saísse da sala do servidor.

Eu não sabia se tinha conseguido atingir alguém com meus dois disparos e não me importava com isso. Apenas me concentrei o suficiente para atirar de novo.

De repente, mais disparos soaram no fim do corredor, fazendo alguns afegãos se virarem naquela direção, ficando de costas para mim. Aproveitei esse momento para voltar a atirar, concentrando-me nos afegãos e na troca de tiros antes de ver quem estava atirando do outro lado.

Andrew Finnigan deveria ter saído do Capitólio com os reféns, mas estava ali tentando me proteger. Senti vontade de sorrir, mas fui interrompida por outra munição disparada contra mim. Droga! Não seria fácil escapar dali.

Enquanto eu atirava e tentava avaliar a situação, ouvi um som às minhas costas e me virei, escondendo meu corpo atrás da parede da sala para não ser atingida, e pela primeira vez percebi que a sala tinha outra porta. Franzi o cenho ao perceber que o barulho vinha da porta e que alguém estava tentando arromba-la, como eu tinha feito com a outra.

Era uma sala simples e, em uma busca rápida, não havia nada que eu pudesse usar para me defender além da minha própria arma e das paredes. Era só mais um lugar onde os inimigos poderiam me encurralar.

Apontei minha arma para a porta instantes antes de ela abrir com força, meu dedo pronto no gatilho.

Então suspirei de alívio quando Andrew entrou por ela, escondendo contra a parede para se proteger dos tiros do lado de fora.

Olhei para o meu amigo por alguns instantes, praticamente interrogando-o com os olhos, mas, antes de responder, Andrew sorriu.

— Não achou que eu fosse te deixar para trás de novo, não é? — Seu peito subia e descia com a respiração ofegante pela luta e provavelmente por ter corrido até ali. — Não vou te deixar enfrentar todos os afegãos sozinha de novo.

Eu abri a boca para responder, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Se eu as forçasse a sair, seriam acompanhadas de lágrimas. Então apenas assenti, assimilando a ideia de que eu tinha companhia para enfrentar os inimigos.

Voltei-me para o corredor, atirando sem trégua contra os inimigos, que por um segundo pareceram confusos sobre para que lado atirar e quem atacar, agora que tanto eu quanto Andrew estávamos protegidos pelas paredes da sala e fora da linha de tiro deles.

Do outro lado do corredor, porém, um movimento tirou todo o ar dos meus pulmões e me encheu de medo, tirando todo o alívio que Andrew tinha trazido.

Ed saiu da sala do servidor de repente, seus passos leves e despreocupados enquanto ele fechava a porta atrás de si ainda de cabeça baixa, como se não tivesse escutado nada que acontecia no corredor enquanto ele esteve lá dentro. Aquela sala era à prova de som?

Deixei sair um grito desesperado, suplicando para Ed voltar para a sala do servidor, mas só consegui chamar a atenção dele. Meu amigo não tinha dado um passo sequer quando seus olhos encontraram os meus e ele fez um sinal com a cabeça e as mãos, indicando que tinha conseguido inutilizar o sistema.

Ouvi o impacto de uma munição contra a parede atrás de mim, que me fez acreditar que eu ainda tinha a atenção dos afegãos para mim, mas ainda assim fiz um sinal frenético para que Ed voltasse para a proteção da porta e das paredes atrás dele.

Seus olhos se arregalaram e se voltaram para a direção dos afegãos, seu corpo todo ficando tenso. Talvez o tiro o tivesse alertado mais que meus movimentos e gritos, mas sua mão não girou a maçaneta rápido o suficiente.

Vi o corpo do meu amigo balançar com o impacto do tiro, seguido pelo sangue manchando suas roupas já sujas. Quando o corpo de Ed caiu no chão, eu nem senti ou ouvi meu próprio grito enquanto minhas lágrimas borravam minha visão.

Vagamente, ouvi a voz de Andrew soar distante, repetindo meu nome. Por um instante, tudo pareceu sem cor e sem som, inclusive a mão de Andrew no meu braço, sacudindo-o e tentando me fazer voltar para a realidade.

O desespero, porém, não me deixou, e eu não conseguia parar de gritar ou tirar a imagem de Ed sendo atingido da minha cabeça. Eu a via, como se estivesse congelada à minha frente, como se não houvesse nenhuma outra imagem no mundo, que parecia ter acabado ali, no momento em que eu perdia mais uma pessoa que amava. O amigo que eu estava tentando salvar.

A imagem continuou diante dos meus olhos mesmo depois que os afegãos invadiram a sala e nocautearam Andrew e eu. A inconsciência, finalmente, era bem-vinda.

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