Cap. 5 - Arrependimentos

Antes de começar, quero dedicar esse capítulo para uma amiga muito querida... @Tercia_Lima...Que seu coração encontre o conforto necessário, mas se ainda assim for difícil, pode se guiar pelo meu. Te amo muito sua linda!!

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−Ou, você acha que a dama exterminadora não é capaz de chorar? Ou não sou capaz de sofrer por ninguém, apenas penso em ganhar dinheiro e destruir o mundo. Que droga, Danilo! − Dei um murro na parede. De alguma forma eu precisava extravasar toda aquela tristeza que vinha sendo acumulada em mim. −Você não precisa gostar de mim, sequer precisa me aturar, mas não precisa pensar sempre o pior de mim ou colocar a prova toda qualquer mostra de humanidade que eu tenho. Sofri por amor sim. E estou sofrendo por minha amiga neste exato momento. Ou vai dizer que isso é um truque para que eu possa roubar a herança da Renata ou qualquer bem que ela possua?

É insuportável, pensei com amargura, que o único homem que eu consegui amar em toda a minha vida apenas pensasse o pior de mim em todos os momentos. Somado ao fato de a única amiga que eu tinha estar em uma cama de hospital, se recuperando de suas tentativas de suicídio e pudesse estar enlouquecendo, reduziu meus nervos à frangalhos. Comecei a soluçar de maneira incontrolável e não quis e nem pensei em parar.

Precisava de consolo... talvez fosse bom ter cedido aos encantos de Eduardo, mas sabia que isso seria a maior desonestidade que eu cometeria. De qualquer maneira, chorar daquela maneira, sabendo que o homem que eu amava estava lá, me olhando com frieza, era muito ruim. Parecia que eu era um ser que nem sequer merecia um abraço de consolo. Bom, talvez eu não merecesse, não diria que sou um anjo, mas mesmo assim... isso não me impedia de me sentir um lixo.

Mas, para minha completa surpresa, senti que Danilo estava me abraçando. E me apertava com força. Quis ceder ao abraço, mas tive medo. O que ele queria com isso, afinal?

− Posso saber o que está fazendo, Santiago?
− Cale-se Laura. Qualquer ser humano num raio de 100 km sabe que precisa disso. Se não quer ver como um gesto de amizade, veja como a minha boa ação do dia.

Era estranho estar no corredor de um hospital, sendo abraçada por Danilo, sentindo suas mãos acariciar meu cabelo. Suspirei e encostei minha cabeça em seu peito, tentando acalmar a dor e a agonia.
Sei o que muitos pensam neste momento. Como eu poderia simplesmente sofrer desse modo? Não sou um estereótipo de novela mexicana. Sou uma pessoa. Sou fria em alguns momentos, em especial no trabalho. Não sinto remorso.
Mas sofro.

Quebramos o contato quando minhas lágrimas cessaram. Nos separamos, e, como de costume, cada um foi para seu canto. Danilo me olhava com curiosidade. Parecia que era a primeira vez que me via.

−Diga-me... quem foi esse homem por quem você sofreu?
− Por acaso isso é uma consulta? – Não pude evitar erguer uma de minas sobrancelhas e insistir com força em um tom de sarcasmo.
− É uma pergunta. Quem é o homem? Eu?
− Sua modéstia me impressiona. Por que deveria ser você?
− Não sei. Por isso estou perguntando.

Dei um sorriso suave para ele quando cruzei as pernas e os braços, me apoiando contra a parede.

− Não acredito que uma mulher como eu sofra de amor com frequência, não? Bem, foi você. Renata sabe o quanto chorei depois daquela noite.
− Não pensei que a minha rejeição a afetaria tanto.
− Quantas mulheres não sofreriam depois do não que você me disse, Danilo? Acredito que meu sofrimento foi até leve demais.
− Bem, de qualquer maneira... eu sinto muito...

− Você foi bem claro comigo. Jamais poderia sentir algo por mim. Não estou à sua altura em questão de caráter e nem penso em perder meu tempo. No momento, o que me importa é a Renata. Você acredita na história dela. Então acha que o que ela presencia é o sobrenatural.
− Eu não disse isso. Disse apenas que ela acredita no que disse e, sendo católica, ela pode ter razão para crer. Apenas acho que ela não está louca. Mas claro, ela precisa de terapia.
− Ótimo. E quem você recomenda?
− Ainda acha que eu não sou bom o bastante?
− Deixe de ser criança. Você sabe que é bom, mas não pode tratar dela. Têm vínculos de amizade.

Um sorriso passou por seu rosto.

− Acredito que eu tenha um bom amigo..., mas bem, de qualquer maneira teremos que esperar ela sair do hospital... e ver como seu quadro se desenvolve.

Dei de ombros. Ele que era psiquiatra. Eu apenas uma advogada. Olhei para o relógio e vi que deveria ir.

− Bem... cumprirei minha promessa e não pressionarei Renata para que entenda que Camilo é um fruto da imaginação dela. Vou trabalhar. Planejar mais a destruição de um empresário e ficar rica à custa do sofrimento alheio.
− Acho que você dramatiza demais sua situação de ruim.
− Eu sempre a aceitei decentemente. Você é quem a dramatizou sempre. Até mais, Santiago. E... bom, nunca pensei que lhe diria isso, mas obrigada pelo consolo, ainda que tenha sido sua boa ação do dia. Significou muito para mim... apesar de tudo. Cuide de Renata, por favor. Apesar de nossas diferenças, sei que fará o melhor para ela.

Pisquei um olho para ele e segui meu caminho. A um passo de dobrar o corredor, me voltei para ele e vi que me encarava.

− Talvez, no dia em que se apaixonar por mim Danilo, eu não consiga recusá-lo, no fim das contas... − disse e como a covarde que era sempre quando o assunto era aquele homem desapareci.

Não ouvi a sua resposta, embora agora eu saiba o que ele respondeu ao meu cumprimento. Danilo sorriu, mas não era um sorriso triste ou de felicidade. Parecia meramente de aceitação.

− E talvez, no fim das contas, se apaixonar por você não será tão impossível assim, Laura...

O dia passou, lentamente, calmamente. A noite chegou e com ela um céu bem estrelado. Parecia que era uma noite para os apaixonados. Uma noite com grandes promessas.
Enquanto eu estava sentada no sofá de minha casa, pensando no meu trabalho, Renata estava novamente em seu quarto no hospital. Havia sido liberada, depois de ter mostrado um bom comportamento, não precisando ficar na ala de terapia intensiva. O médico havia ligado para mim e para Danilo avisando que ela poderia ir embora no dia seguinte.

Enquanto o dia não chegava, Renata estava de pé em seu quarto, se olhando no espelho. Fora através de um espelho que ela vira Camilo pela primeira vez. Provavelmente acreditava que ficando lá conseguiria vê-lo de novo.

Mas as horas passavam e Camilo não aparecia. Renata não se movia, os pés descalços no chão frio, os olhos fitando quase sem piscar o espelho na sua frente.

− Camilo...

Era um murmúrio, um pedido, uma súplica. Ela queria que ele aparecesse. Que lhe dissesse que não estava sozinha, que ele não a havia deixado. Mas nada aconteceu, exceto o barulho do vento, que indicava que o mundo continuava girando.

− Camilo... apareça, por favor. Eu preciso de você... sei que não me deixou. Apareça para mim, meu amor...

Ainda nada. Renata se ajoelhou, dessa vez vertendo lágrimas de agonia.

− Camilo...
−Estou aqui, Renata. – Camilo havia surgido da escuridão, mas mesmo a sua face já não transmitia a mesma luz desde a última vez.

Ela viu inicialmente seu reflexo. Em seguida, como se temesse que ele desaparecesse como da outra vez, se voltou lentamente, tremendo. Não de medo, de emoção. Camilo estava bem na sua frente, vestido de preto, as mãos paradas ao lado do corpo. Estava sério.

−Camilo... Camilo, meu amor... você... está aqui.
− Renata, eu...

Mas ele não teve tempo de dizer mais nada. No momento seguinte, Renata estava em seus braços, o apertando com força, passando a mão pelo seu rosto, tocando seu cabelo e seus braços.

− Você é... corpóreo. Eu achei que não poderia tocar você, mas... posso...

Ele a abraçou com força, escondendo o rosto nos longos cabelos dela, fazendo ela se recostar contra ele.

− Renata, me escute. Tenho que dizer uma coisa.
− Camilo... você realmente voltou para mim? Deus nos deu mais uma oportunidade? Ou... no fim você não morreu?
− Não, Renata, não é isso, eu estou morto...
− Não importa. Definitivamente não importa. Você está aqui e eu posso tocar você... será que eu poderia... beijar você novamente? Será que isso não mudou? – Era impossível para que Renata conseguisse controlar a torrente de lágrimas que escapavam.

− Renata.... me escute...
Mas ela não o escutava. Se libertando do abraço dele, ergueu o rosto, oferecendo para ele seus lábios.

− Beije-me novamente meu amor... pensei que nunca mais poderia beijá-lo...
− Eu... eu não devo, Renata.

Não devia, foi o que ele quis dizer, porque mal terminou de proferir as palavras, Camilo a beijou profundamente. Compreensível. Tinha a mulher que amava e que o queria em seus braços e a chance de lhe dar um último adeus. A beijou. E aquele beijo, para ele, deu sentido à palavra eternidade.

Mas o beijo não foi eterno. Aos poucos, o contato foi se tornando mais leve, as línguas se desencostaram e os lábios se separaram. Renata enlaçou Camilo pelo pescoço, usando ambas as mãos e escondeu o rosto na curva do pescoço de Camilo. Ela pôde sentir seu aroma, um aroma distante, mas ainda assim o cheiro do homem que amava. Ao mesmo tempo, ele a segurou pelas costas e a acariciou devagar.

− Eu não devia ter feito isso... eu não podia ter feito isso.
− Não devia? Podia? São palavras duras demais, Camilo. Você está aqui... eu estou aqui. Você voltou para mim e agora poderemos ficar juntos... nem mesmo a morte pôde nos separar.
− Não, Renata. − devagar ele se separou dela. Era chegado o momento. −Eu estou morto. Posso ser tocado, você pode estar me vendo, mas estou morto. Não pertenço a este mundo e não devo ficar aqui. Vim aqui para lhe dizer isso.
− Você está dizendo que veio aqui para desistir de mim? Me dizer que embora tenhamos uma chance você irá embora definitivamente?
− Sim. É assim que deve ser, Renata. Não recebemos uma segunda chance. Aconteceu um engano. Isso não foi desejado por Deus, ele tenta a todo custo arrumar isso, mas depende apenas de nós. Não quero me aproveitar de algo que... não é nosso. Devo deixá-la... e aceitar minha situação. Sou um anjo, não um humano. Não posso ficar com você.

− Eu não me importo. NÃO ME IMPORTO. Pouco me importa se foi um engano ou se recebemos mesmo uma chance. Apenas quero ficar com você e enfrento até mesmo Deus se for o caso. Ele nunca deveria ter levado você para começar. Estávamos começando a construir nossa vida, íamos ter um filho... merecemos ficar juntos, Camilo, mesmo que isso seja um engano e que estejamos agindo mal. Merecemos isso.

− Merecemos bem mais do que termos uma semivida. E eu mereço bem mais do que vê-la envelhecer ao meu lado e morrer, enquanto permaneço perpetuamente jovem e renegado por Deus.
− Sim, merecíamos bem mais. Sei disso. Mas temos que nos contentar com o que conseguirmos. Camilo... − ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. − Eu te amo. Quero ficar com você, mesmo que seja assim, mesmo que no fim acabemos mal e deprimidos com a vida que tivemos. Sei que será pior se você simplesmente for embora. Eu preciso de você. Esse engano... aconteceu apenas por uma razão. Porque nos amamos. Simplesmente por isso. Não renegue essa chance, por favor.

Ele colocou a mão dele por cima da dela e ficaram se encarando. Um brilho emanava dos olhos de Renata. Camilo se sentiu tentado a ceder. Mas, com lentidão, retirou a mão dela de seu rosto.

− Não, Renata. Se não pudermos ser felizes agora, nos encontraremos na eternidade. Eu não posso fazer isso com você. Nem comigo. Espere mais uns anos. Viva a sua vida e quando morrer nos reencontraremos. Até lá, se conforme com nosso destino.

Um brilho de rebeldia surgiu nos olhos de Renata.

− Não pode me impedir de tentar segui-lo, Camilo Domingues. Morrerei então, mais cedo do que o previsto, queira ou não.
− Não posso impedi-la de fazer isso. Mas você sabe, assim como eu, que isso não funcionará. Você irá para o Inferno se se matar e eu não poderei resgatá-la. Nem ir atrás de você. Deixe de ser criança Renata.
− Me deixará no Inferno, Camilo?

Ele não respondeu. Renata insistiu.

− Me deixará lá?
− Não se pudesse. Mas não poderia fazer nada, ainda que queira. Aceite o destino, meu amor. Espere com paciência e iremos nos reencontrar... Agora, adeus. Vou desaparecer e não pretendo mais retornar para você.

As lágrimas caíram dos olhos dela, parecendo pérolas prateadas. Camilo se aproximou e as limpou.

− A amo demais, Renata. Demais para ceder ao que você tanto me pede e a que eu queria fazer. Até breve, meu amor.
− Camilo... Camilo, não vá, por favor.

Mas tarde demais. Ele já havia desaparecido.

No dia seguinte, Renata saiu do hospital. Recebeu alta. Quando fui com Danilo buscá-la, o médico que a atendeu disse que estava tudo bem, exceto que Renata apresentava uma leve apatia e uma tristeza profunda. Provavelmente eram os sinais da depressão que a acometia desde a morte de Camilo. Ele recomendou que ela iniciasse um tratamento imediatamente e nos passou o número de alguns profissionais especializados. Consultei com Danilo os nomes e escolhemos um nome em comum. Depois de tantos anos de briga, finalmente concordamos em alguma coisa.

Renata não havia tocado no nome de Camilo desde sua saída do hospital. Na realidade ela estava quieta demais, mal respondendo às perguntas e tentando evitar uma conversa. Foi somente quando passamos na frente do cemitério municipal que ela deu mostras de que estava no carro conosco.

− Pare, Laura. Pare aqui!

Freei o carro e olhei para o local. Já sabia o que ela queria. Só não sabia se era o momento certo.

− Renata... não acha que é muito cedo para visitar o túmulo de Camilo? Você recém saiu do hospital.
− Acho que demorei demais. Estive aqui apenas uma vez, enterrando meu marido. Agora quero me despedir dele. Devidamente.
− O que você acha? – Indaguei à Danilo preocupada.
− Considerando a situação... eu... acho melhor que não.
− Se estão achando que vim aqui procurar pelo Camilo, para que ele apareça para mim... estão enganados. Sei que ele não vai mais aparecer.
− E como você sabe?
− Ele me disse.

Não achei aquilo uma maravilhosa explicação. Danilo ao contrário, a encarou interessado.

− Ele lhe disse?
− Sim. Me disse que estava morto e que não deveria mais me ver. Posso ir agora?
− Acredito que deva.

Ótimo, pensei, mal-humorada. O mundo enlouqueceu e eu não posso fazer nada para evitar.

− Bem, se você quer ir... vamos, então.

Fiz menção de sair do carro, mas Renata balançou a cabeça negativamente.

− Eu quero ir sozinha. Preciso ficar sozinha.
Olhei irritada para Danilo. Nem precisei verbalizar a pergunta.
− Ela pode ir sozinha. Demore o tempo que precisar, Renata.
− Obrigada, Danilo. Acho que não vou demorar muito. − ela abriu a porta do carro.

Vi a pequena figura de Renata desaparecer no portão do cemitério e em seguida me virei para Danilo.

− Explique-se.
− Vamos lá fora. Tenho certeza que Renata vai demorar e vamos derreter dentro desse carro sem ar condicionado.

Do lado de fora do carro, eu escorada na porta do motorista e Danilo escorado na porta de trás, refiz a frase.
− Explique-se.
− Renata entendeu que Camilo não pode voltar para ela. A fantasia adquiriu consciência e ela aceitou que o marido morreu. É por isso que a aconselhei ir até lá sozinha. Ela provavelmente lhe dará um último adeus.
− Não é mais provável que ela tente se juntar a ele no túmulo?
− Pensei nisso... mas acho que não.. Reconheço os sintomas de uma suicida, Laura. E embora tenha tentado duas vezes... tudo o que Renata menos quer neste momento é morrer.

Suspirei. Adoraria entender de psiquiatria quanto entendo de direito.

− Se você diz...
− Está concordando comigo? Sem questionar? Achei que me achasse um... incompetente.

Me voltei para ele e balancei a cabeça. Em seguida, olhei para algum lugar indeterminado.
− E eu achei que tínhamos uma trégua, Santiago. Mas se quer recomeçar as agressões gratuitas...
Ele me interrompeu com um gesto. Nos encaramos novamente.

−Esqueça. Apenas é... difícil para mim lidar com esta nova situação. Me acostumarei, prometo.

Eu nada disse. Fiquei em silêncio. Não valia a pena dizer palavras amargas ante aquela declaração. Ele me observou em silêncio e em seguida me fez uma pergunta surpreendente.

− Quem é você, Laura?
A pergunta me pegou desprevenida, confesso. Achei que ele já sabia... ou ao menos pensava que sabia.

− Por que não responde a essa pergunta? Pensei que já sabia.
− Eu também pensei isso, mas você conseguiu mudar tudo isso no espaço de um dia. Não só negligencia seu trabalho para ajudar Renata como foi capaz de fazer uma trégua comigo para ver ela bem. Descubro que você já chorou por minha causa e que não é tão dura e fria como demonstra. Afinal, você é a dama exterminadora ou não, Laura? E se não é, por que nunca me disse como realmente era?
− Ah, por favor. Como se tivesse me dado a oportunidade. Você nunca me deu chance de dizer nada. Agradeceu pela noite que tivemos e mandou eu sair de sua vida. Acredita que como sou no meu trabalho sou em toda a minha vida... Vou lhe dizer algo, Santiago. Não sou boazinha. Sou inescrupulosa, sou uma filha da puta, acabo com meus inimigos e faço de tudo por dinheiro... Sou assim. Mas tenho sentimentos como qualquer ser humano. Sou amiga de Renata, ajo como amiga dela, aconselho ela e estou para o que der e vier para ela. Meu trabalho não é mais importante do que ela e muito menos meus sentimentos por você. E quanto à você... goste ou não sou... me apaixonei por você e claro, sofri quando você me mandou passear. Sou normal Danilo. Apenas não sou a salvadora da pátria e sim a defensora de empresas poluidoras e destruidoras de pequenos negócios. Aceite isso, se quer manter a paz entre nós.

Respirei fundo e me virei de costas para ele, a fim de controlar o tremor. Quase gritei quando ele segurou meus ombros e me virou para ele.
− Merda. Camilo tinha razão quando dizia que eu nunca deveria me aproximar de você, se não tencionasse ter nada com você... ele me avisou... mas eu não escutei...

Do que ele estava falando? Me perguntei por um momento, um breve momento, antes de me dar conta da nossa situação. Em seguida, o beijo aconteceu e não pensei em mais nada.

Enquanto Danilo e eu nos beijávamos na entrada do cemitério, mais uma vez as coisas estavam agitadas, no céu e na Terra.

Em breve, Renata e Camilo se reencontrariam, e daquele encontro nasceria grandes decisões e determinações, que mudariam toda a situação onde se encontravam.
Em breve, muitas coisas aconteceriam na minha vida também.
E em breve, breve demais para mim, esta história terminará.

Mas vamos aos poucos, para que entendam tudo o que aconteceu, em tão pouco tempo.
Deus observava todas as coisas de cima. Marcos, seguindo suas ordens, havia ido para a Terra ser o anjo de um outro humano qualquer desesperado. Enquanto caminhava pelos céus, pensando no caos em que havia se envolvido, Deus pensava também em si mesmo.
Afinal, sabia de quem era a culpa de tudo o que estava acontecendo. Fechou os olhos e se perguntou como tudo aquilo terminaria. Sabia que a resolução de Camilo duraria pouco tempo. Ele sabia que Camilo não desistiria de Renata, se é que ele realmente pensou nisso um dia.

E se ele não desistisse... Deus sabia o que aconteceria. Um anjo e uma humana, vivendo um amor proibido, terminando com o conceito de morte, acabando com a vida eterna.
E Ele não podia fazer nada... humanos e anjos eram dotados de livre arbítrio. Como poderia se intrometer naquilo? Havia jurado jamais causar destruição para consertar seus erros.

Uma voz suave, uma voz feminina adentrou nos Seus pensamentos, enquanto ele ainda pensava no que fazer.

− Não há solução para esse caso. Ainda não aceitou isso?

Deus sorriu sem se virar para fitar a Deusa da mitologia grega Afrodite, e romana Vênus, em uma única personificação a sua frente.

− É mesmo? Penso que dessa vez você pensou em tudo, não é mesmo? E o que espera ganhar com essa confusão?
− Não pensei em ganhar nada. Absolutamente nada. Simplesmente quis ajudar esses dois.

− Não tente me enganar, Vênus. Sei que está fazendo isso para me acuar. Quer destruir tudo o que construí, quer trazer os antigos Deuses à tona.
− Está enganado. Mesmo que essa fosse minha intenção, eu fracassaria, de qualquer maneira. Os antigos Deuses foram esquecidos pela humanidade. Ninguém mais acredita em nós e dependemos da crença dos humanos para existir. Aceito que Você tenha conseguido nos vencer e me contento em morar dentro dos corações humanos. Quis ajudar aqueles dois porque achei que mereciam. Juro que não quero destruir seu mundo.

− Não posso trazer um morto de volta à vida, Vênus. Você sabe o que isso provocaria?

− Concordo que não possa ressuscitar Camilo e nem lhe pediria isso. Mas há outras soluções que não a ressurreição. Uma solução sem prejuízos, se os envolvidos concordarem. No caso, Renata, Camilo, Laura e Danilo. Por que não tenta ao menos? Eles são boas pessoas. Merecem ser felizes. Há tanta gente que merece o castigo divino...
− Outra solução? Que outra solução?
− A direi enquanto assistimos o curso dos acontecimentos e você se convença de que terá que deixar esses dois juntos. Será tudo que lhe peço. E depois, voltarei apenas a habitar os corações humanos.

− Não espere que eu acredite nisso, Vênus, Afrodite... Que seja! Deusa do amor.
− Não quero que acredite em nada. Intervirei em nome dos humanos sempre que achar que devo. Para isso ainda existo. Sou a única Deusa cujo nome é conhecido e frequentemente invocada. Terá que aceitar isso. Mas, veja só? − Afrodite apontou para a Terra, observando Renata ajoelhada ao lado do túmulo de Camilo. − Lá está nossa querida Renata. E ali está Camilo. − disse ela apontando para Camilo que caminhava no cemitério. −Você verá como isso termina.. E verá que minha solução é razoável.

***

Electrical Storm U2

Tempestade Elétrica

The sea it swells like a sore head and the night it is aching
Two lovers lie with no sheets on their bed
And the day it is breaking
O mar ondula como uma dor de cabeça e a noite faz
doer
Dois amantes deitam sem lençol na cama
E o dia está acabando

On rainy days we'd go swimming out
On rainy days swimming in the sound
On rainy days we'd go swimming out
Em dias chuvosos nós iríamos nadar lá fora
Em dias chuvosos nadando no som
Em dias chuvosos nós iríamos nadar lá fora

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
If the sky can crack there must be someway back
For love and only love
Electrical Storm
Electrical Storm
Baby don't cry
Você está na minha mente o tempo todo
Eu sei que isso não é o bastante
Se o céu pode rachar deve haver algum jeito de voltar
Para amar só amar
Tempestade Elétrica
Tempestade Elétrica
Querida, não chore

Car alarm won't let you back to sleep
You're kept awake dreaming someone elses dream
Coffee is cold but it'll get you through
Compromise that's nothing new to you.
Let's see colours that have never been seen
Let's go places no one else has been
O alarme do carro não deixará você voltar a dormir
Você é mantida acordada sonhando o sonho de outras
pessoas
O café está frio mas isso te distrairá
Compromisso, isso não é nada novo pra você
Vamos ver cores que nunca tinham sido vistas
Vamos ir a lugares onde ninguém esteve

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
Well if the sky can crack there must be someway back
To love and only love
Você está na minha mente o tempo todo
Eu sei que isso não é o bastante
Se o céu pode rachar deve haver algum jeito de voltar
Para amar só amar
Electrical storm x 3
Baby don't cry
Tempestade Elétrica
Tempestade Elétrica
Querida, não chore

It's hot as hell, honey in this room
Sure hope the weather will break soon
The air is heavy, heavy as a truck
We need the rain to wash away our bad luck
Está quente como o inferno, docinho, neste quarto
Esperança certa de que o tempo se fechará logo
O ar está pesado, pesado como um caminhão
Nós precisamos da chuva para lavar a nossa má sorte

Well if the sky can crack there must be some way back
To love and only love
Electrical storm x 3
Baby don't cry x 3
Bem, se o céu pode rachar, deve haver um modo de
voltar
Pra amar e só amar
Tempestade Elétrica (3x)
Querida, não chore (4x)

***

Ajoelhada frente ao túmulo de Camilo, Renata vertia as últimas lágrimas amargas desde que essa história começou. Ela havia comprado flores na floricultura do cemitério e as colocara no túmulo de Camilo. Não sei, se ao virar anjo, ele havia recuperado seu corpo. Mas isso não importa.
Ao mesmo tempo em que Renata chorava definitivamente pela perda dele, pela perda da esperança e das oportunidades, Camilo caminhava pelo cemitério, pensando em si mesmo... Será que havia feito o certo? Valia a pena desistir de Renata assim? Aquela não era realmente uma última chance? Estava confuso. Toda a segurança com que enfrentara Renata havia desaparecido depois que sumira da frente dela.

− Eu não sei o que fazer... eu não sei realmente o que saber... e pior é que não sei se desejo pedir a Deus iluminação para fazer o certo.

Quando parou em frente ao seu túmulo, a fim de se lembrar de sua morte, Camilo, sem nenhuma surpresa, viu Renata chorando desconsolada. Ele já sabia que ela poderia estar ali. Não ficou surpreso ao encontrá-la.

− Por que desistiu assim? Por que eu não valho a pena para você, Camilo? Será que a comodidade de morrer é mais fácil de enfrentar do que o castigo por viver um amor?

Boa pergunta, ele disse mentalmente enquanto se aproximava dela, apenas para vê-la, sem tocá-la de fato. Seria sua nobreza... covardia?

Ele amava tanto aquela mulher.... seria capaz de ir para o inferno com ela. Então, por que não ficava com ela, mesmo que contra tudo ou todos?

− Não quero viver de lembranças. Sei que temos bons momentos para recordar, mas quero mais do que isso. Muito mais. Não sou forte, Camilo. Nunca fui. Nunca soube viver sem você.
− Nem eu, Renata nem eu.
− E eu sei que você está aqui. Sei que está me observando. Então por que não aparece Camilo e assuma que você também não pode me deixar em definitivo? Sozinhos apenas iremos sofrer. Mas se enfrentarmos, mesmo que seja, Deus, podemos ganhar essa batalha.

Camilo estremeceu ante aquelas palavras. Por que estava ali exatamente? Por que queria se certificar da sua morte ou por que tinha esperanças de encontrar Renata? Não sabia. Apenas sabia que estava ali e que ela sentia sua presença. Os vínculos que os uniam eram forte demais. Um vínculo maior do que a morte. Renata continuou falando..

− Não seja covarde, Camilo. Vamos enfrentar isso. Vamos conseguir. Sei que vamos.
− Não estou sendo covarde.

Sem notar, ele havia aparecido para ela quando disse aquelas palavras.

− Não? E o que você está sendo então?
− Estou tentando ser nobre. Estou tentando privar você de uma morte cheia de sofrimento e a mim mesmo que sofra. É tão difícil fazer o certo, Renata?
− Você está sendo covarde. − ela se ergueu e o encarou. − Eu não temo a morte. Não temo o sofrimento. Não temo o Inferno e tampouco temo a ira de Deus. Tudo o que quero é ficar com você. É ter você ao meu lado, não importa quando, nem aonde. Camilo, eu não vejo sentido em minha vida sem você. Eu caminharia até o Inferno por ti e te esperaria lá, porque confio em você e sei que viria atrás de mim. Você... você teme a morte mais que tudo. Teme a Deus. Teme ao inferno. Me pergunto até onde realmente você me amou.

Ele fechou os olhos. Tinha um rosto atormentado.

− Você está sendo injusta.
− Estou sendo realista. Você não quer lutar pela fagulha de oportunidade que temos. Prefere aceitar pacificamente o destino... Se é essa sua decisão... creio que não poderei insistir. Mas jamais o perdoarei por isso. E sofrerei muito mais do que qualquer punição que possamos receber pelos nossos atos.

Ele não se mexia. Renata se aproximou cautelosamente.

− Diga que me ama, Camilo. Diga que me ama, me beije e diga que vamos lutar para ficarmos juntos, independentes de qualquer coisa.

Ele ficou em silêncio por um momento. Em seguida, deixou que as lágrimas caíssem por seus olhos. Acariciou os cabelos sedosos de Renata e lhe disse com a voz sumida.

− Eu te amo, Renata. E eu não vou desistir de você.

Renata sorriu. Estava aliviada. O atraiu para perto de si e acariciou o rosto de Camilo, com as pontas dos dedos.
− Beije-me, Camilo. Beije-me para selarmos que nunca vamos desistir um do outro.
O beijo era um acordo, ao mesmo tempo em que era uma rendição da parte de Camilo. Ele havia tentado fazer o certo. Havia tentado desistir dela. Mas era impossível. Ele amava Renata com todas as forças. E pior do que perdê-la, era deixá-la em dúvida quanto ao amor que sentia por ela. Sabia que Renata havia usado deliberadamente aquela fraqueza. Mas não estava se sentindo triste por ceder. Na realidade, parecia aliviado.

Do céu, Vênus e Deus observavam tudo. Ela com um sorriso no rosto. Ele com um semblante sério.

− Certo, ele resolveu se rebelar contra a morte e enfrentará todos os tormentos por ela, assim como ela por ele. No que isso me atinge exatamente? A ponto de fazer o que você me pediu?
− E quem disse que isso é o que define sua decisão? Ainda há mais coisa para acontecer.
− Há?
− Há. E não fique tão intrigado. Eu não habito apenas os corações dos mais apaixonados. Habito também os corações confusos, que se negam a reconhecer o amor, mesmo quando ele está debaixo do seu nariz. Esta história não é apenas deste casal. Há outro envolvido. E todas as histórias são uma só.

− Você não está querendo dizer...
− Apenas assista e veja o que acontece.

Danilo e eu estávamos perdidos naquele beijo. Poderia durar eternamente. Eu não queria que ele terminasse. Sentia que ao fim, tudo voltaria ao normal: ele em seu canto e eu no meu, ambos separados pela diferença. Queria que aquela conexão continuasse, que se estendesse..., mas o beijo terminou e terminou da pior forma possível.
Uma risada suave irrompeu em nossos ouvidos e nos separamos. Ainda abraçado, olhamos para o lado. Eduardo estava de braços cruzados, olhando divertido para nós dois. Me perguntei o que ele estava fazendo ali... e o que pretendia.
− Mas vejam só... o amor não é realmente lindo?

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