Capítulo 2

Mais um capítulo, não esqueçam de deixar seu comentário se estiverem gostam e das estrelinhas. bjos

SEM REVISÃO

Capítulo 2 – Um retorno, muitas novidades

Lucas

Mais uma hora e aterrissamos no aeroporto de Guarulhos. Depois mais de três anos fora, estou morrendo de saudade das minhas irmãs, da minha sobrinha, dos meus amigos. Viajar é maravilhoso, mas voltar para casa é ainda melhor. Principalmente com uma proposta de trabalho irrecusável, comandar uma equipe cirúrgica no setor de traumatologia no Hospital Geral de São Paulo, vai ser um desafio que estou mais do que pronto para enfrentar. Profissionalmente, os anos que passei fora me deram bagagem e experiência suficiente para aceitar esse cargo e estou ansioso para começar.

Minha vida profissional não poderia estar melhor, pena que a pessoal não andava muito bem, Emma, decidiu que nossa relação não tinha futuro sem ouvir minha opinião. Aceitou uma proposta de trabalho no Canadá, fiquei sabendo da sua partida um dia antes do embarque, em outras palavras, ela ligou um foda-se para o ano que passamos juntos. Isso aconteceu semanas depois de ter contado a ela sobre a proposta que recebi, e sobre meu retorno para o Brasil, triste coincidência, a história se repete, a diferente é que da primeira vez estava completamente apaixonado. Mesmo gostando de verdade da Emma, não a amava. Com a Melissa foi diferente, apesar do pouco tempo juntos era mais do que paixão e desejo o que sentia por ela.

"Senhoras e senhores, passageiros ao voo número 1830, partindo do aeroporto San Francisco International Airport, Califórnia, Estados Unidos com destino ao aeroporto internacional de Guarulhos, São Paulo, Brasil. Ira aterrissas..." O aviso de aterrisagem soa pelos alto falantes, me despertando das minhas reflexões, finalmente cheguei.

Realizo o check in de desembarque, comigo trouxe apenas três malas, o restante das minhas coisas enviei na frente. Pego um carrinho, coloco minha bagagem e sigo para o portão de saída. Surpresa não descreve meu sentimento ao me deparar com Carmem, ela corre até mim se jogando em meus braços, envolvendo minha cintura com as pernas.

— Você não pode mais ficar três anos fora, sem vir fazer uma visita, seu ridículo. – Diz ainda enganchada em mim, consigo apenas sorrir, para seu entusiasmo. Seu aperto envolto de mim diminui e ela me solta.

— Ridículo, minha nossa, está falando igual a Alicia. – Aperto seu nariz, ela dá um tapa na minha mão, beijo seu rosto.

— Você está ainda mais gato do que quando viajou, se é que isso é possível. – Seu comentário me faz rir – Seja bem vido! – Seu sorriso era a melhor recepção de boas-vindas, que poderia pedir.

— É bom estar de volta. – Ela assente concordando e começamos a caminhar para fora do aeroporto.

— Falando na Alicia, ela tentou vir, mas a Manu queria também o que significava faltar na escola, então, em acordo as duas concordaram em te encontrar mais tarde, no jantar que estão preparando especialmente em sua homenagem. Vim de carro, vamos por aqui. – Aponta o local onde estacionou, ela vai na frente e a sigo.

— Estou ansioso para isso, louco para comer comida bem brasileira, a pior coisa de ficar tantos anos fora é que não existe culinária como a brasileira, se comer apenas feijão, arroz, bife e batata frita pelas próximas semanas morro feliz.

— Que dramático – fala balançando a cabeça. – As duas estão eufóricas, todos nós estamos, é muito bom ter você de volta, não apenas no país, mas em São Paulo, vamos todos morar próximos novamente.

— Também acho que vai ser bom, para nossa família. – Ainda bem que ela conseguiu uma vaga perto, Carmem destrava o carro, guardamos minha bagagem, ela assume o volante e me acomodo ao seu lado. – Falando em família, o Maciel e nossa irmã se entenderam? – Os dois estavam vivendo uma crise no casamento, depois de quinze anos juntos, o relacionamento dos dois se perdeu, palavras da Alicia.

— Estão fazendo terapia de casal, começaram a umas semanas, Ali disse que não sentiu quase nem uma mudança – Ela dá de ombros. – Não entendo porque eles insistem tanto se a paixão e o desejo não apenas o sexual, mas o de estar junto, se esgotou.

— Não é tão simples Carmem, eles têm uma filha juntos, construíram uma vida, quinze anos não podem ser apagado da noite para o dia.

— É simples sim Lucas, se você não está feliz e não está fazendo a outra pessoa feliz, a relação se torna tóxica, quando se insiste em algo assim pessoas ficam magoadas, feridas. Tenho certeza que a Manu, prefere ter pais separados, mas felizes, do que pais que estão juntos e não se suportam. – A veemência no seu modo de falar me deixa em alerta.

— Eles chegaram a esse ponto? De não se suportarem?

— Não, minha nossa, claro que não Lucas. – O sinal fica vermelho em meio a um pequeno engarrafamento, Carmem fica meio de lado para me encarar. – Mas me diz, porque, é necessário que chegue a esse ponto para que eles percebam que o melhor é o divórcio? Porque, tantos casais cometem esse erro?

— Porque, eles têm esperança. – Minha resposta é baseada no que acredito, não em estatística reais, tenho consciência disso.

— Ok. Me parece romantizado demais, nada condizente com a realidade, mas respeito sua opinião, não concordo, mas respeito. – Sua atenção se volta novamente para o trânsito que finalmente começou a se mover. – Você sempre foi um romântico a moda antiga. – Esse era o jeito dela de seguir para outro tema.

— Isso não é verdade, sou racional e acho importante pensar nas possibilidades antes de tomar uma decisão que pode ser precipitada. Mas a verdade é que, o que eu acho ou o que você acha não tem a menor importância, quem tem que resolver isso são eles, e seja qual for a dissenção que Alicia tomar, estaremos ao seu lado. – Ela concorda com a cabeça, e fica em silêncio. Algo me diz que ela tem algo para me dizer, que está tentando encontra as palavras certas, a conheço bem o bastante para perceber quando tem pensamentos demais rondando sua cabeça.

Nossos pais morreram quando éramos muito jovens. Estava no primeiro ano, da minha primeira residência quando minha mãe faleceu, Alicia, era uma mãe de primeira viajem com uma filha, que não tinha nem dois anos, Carmem, era uma adolescente que precisava dos pais ao seu lado. Tudo aconteceu muito rápido, recebemos o diagnóstico de um tumor cerebral e seis meses depois ela morreu, tive que reorganizar minha vida para ajudar meu pai e apoiar minhas irmãs, pouco mais de um ano depois, nosso pai sofreu um acidente e também partiu e então, éramos apenas nós.

Sempre estive ao lado delas, enquanto precisaram de mim, mesmo quando não precisaram mais estive lá por elas, ambas sempre souberam disso. Não consigo entender, porque, Carmem estava com tanto receio em falar comigo.

— Quer dividir? – Pergunto, percebo ela olhando para mim de canto de olho.

— Acho melhor conversarmos depois, você acabou de chegar, vai querer descansar antes da maratona que vai ser o jantar. – Sua dúvida era visível, como se estivesse em conflito.

— Eu decido isso, anda logo magrela, desembucha. – Ela faz uma careta bonitinha para mim, não era muito fã do seu apelido de infância, a única pessoa que não se importava, que a chamasse assim, era eu. Ela dá um suspiro.

— É complicado, já estamos chegando no seu apartamento, lá conversamos.

— Certo, mas não vai sair de lá, antes de conversarmos. – Ela assente.

Pouco mais de meia hora depois paramos em frente ao difícil com uma arquitetura moderna no bairro Liberdade, minha nova casa. Escolhi o apartamento através de fotos e vídeos enviados pelas minhas irmãs, precisava encontrar um lugar para morar, não ficaria hospedado em hotéis, menos ainda na casa de uma das minhas irmãs até conseguir um lugar para morar, então elas me ajudaram. Carmem aperta um controle pequeno, simultaneamente o portão que dá acesso a garagem se abre. Seguimos por um espaço amplo, Carmem, guia o carro até a vaga 820, número do meu apartamento.

Estranho o silêncio, observo minha irmã acompanhando a subida do elevador através da pequena tela de led. Seja o que for que ela tenha para falar comigo, sei que está apreensiva, e isso estava começando a me incomodar. Chegamos ao andar, Carmem me ajuda com a bagagem, abre a porta, passa por mim e já vai acendendo as luzes. O espaço era bem maior do que as imagens mostravam, amplo, mas não enorme, a sala tinha uma conexão com a entrada para a cozinha e também para uma varando de tamanho médio, no canto direito próximo ao acesso da varanda tinha um escada que levava ao quarto e pequeno escritório, sua decoração era neutra e bem clássica, com cores pálida e detalhes escuros. Exatamente como Alicia me sugeriu e concordei. Para um solteiro que passaria a maior parte do tempo dentro de um hospital, trabalhando em longos plantões, estava ótimo.

— O que achou? – Volto minha atenção para Carmem, que estava abrindo a porta de vidro que dava para a varanda. – Não desencaixotamos nada, elas estão todas a li – diz apontando para um canto da sala com cinco caixas grandes. – As malas estão no seu quarto, Maciel ajudou a levar. A bastecemos a geladeira com o básico que você gosta, depois você tem que ir ao supermercado. Acho que é só! – Coloca as chaves sobre uma mezinha ao lado de um sofá cinza.

— Fizeram um trabalho muito bom, muito obrigado, terei a oportunidade de agradecer melhor no jantar mais tarde. – Ela concorda acenando com a cabeça. Me sento em uma poltrona de frente para o sofá. – Agora, senta aí e me fala o que está acontecendo.

— Sério Lucas, isso pode esperar, você acabou de chegar de viagem, podemos conversar depois.

— Poderíamos conversar depois, mas quero conversar agora. Anda logo magrela, senta aí – ela faz o que eu peço, mas fica encarando as mãos e isso começa a me incomodar, sempre dei espaço para que ela se abrisse comigo, não compreendo esse comportamento cheio de insegurança. – E então? – Puxando o ar, Carmem, tira a atenção das mãos e me encara. Boa menina, corajosa como sempre foi. – Nunca teve receio em se abrir, nem em pedir ajuda quando precisava. Sabe que pode confiar em mim?

— Eu sei! – Por um instante ela para, parece pensar o que falar e contínua. – Bem, acho melhor fazer isso do mesmo modo que se remove um curativo de dias, puxando de só uma vez – agora ela parecia mais segura, com um brilho de determinação que não vi minutos atrás. – Estou morando com alguém, e estou completamente apaixonada por ela, não, apaixonada é uma palavra muito fugaz, eu a amo.

— Tudo bem, você disse "ela"? – Tento compreender o que ouvi por partes, primeiro ela disse que está morando com alguém, nem sabia que ela estava namorando e que era tão sério assim, depois disse que esse alguém é uma mulher, o que por mim não tem problema nem um, mas dá última vez que encontrei com minha irmã ela era hetero, e para finalizar que ama essa mulher. Procuro processar cada informação, para não me precipitar.

— Sim, e de todas as coisas que eu falei, você ouviu apenas essa parte? – Sua expressão é de incredulidade.

— Ei, calminha aí. Você acabou de me bombardear de informações, estou processando. – Só o que me faltava era ela acha que sou homofóbico, preconceituoso, machista ou algo do tipo. – Magrela, nem sabia que estava namorando, você não me disse nada.

— É que as coisas foram acontecendo entende?

— Na verdade não! Pode por favor me explicar! Quando viajei você era hetero, tinha acabado de terminar um relacionamento de mais de dois anos, com um cara legal, fez isso depois que voltou do intercâmbio. Quando perguntei, a única resposta que me deu, foi que o tempo que passou fora te fez perceber que não o amava, como acreditava. – Na época achei que estava tudo bem, acho que estava enganado, não seria a primeira vez e com certeza nem a última.

— Bem, foi no intercâmbio que a conheci. E sobre esse lance de hetero, gay, lésbica, bi, ou seja, qual for o rótulo que queira colocar, somos apenas duas pessoas que se apaixonaram. Porque, nosso sexo é tão importante?

— Não é importante para mim, só estou querendo entender como você encontrou alguém que faz parte da sua vida agora, alguém que você disse com todas as letras, que ama. E o mais importante, porque, estou sabendo disso apenas agora. Sei que é adulta que não me deve satisfação, que é a sua vida, mas sou seu irmão, eu te amo e me preocupo com você.

— Desculpa não ter contado antes, mas como eu falei, as coisas foram acontecendo. – Mais uma pausa, não interrompo apenas espero. – Ellen e eu nos conhecemos no intercâmbio, ela é brasileira e canadense, nos tornamos amigas, sempre muito próximas, construímos uma cumplicidade e intimidade. No começo achei que era coisa da minha cabeça, que talvez fosse apenas carinho, sei lá, também não quis aceitar meus sentimentos por ela, mas então algumas semanas antes do final do intercâmbio, Ellen se abriu comigo, se declarou. – Ela para novamente, minha cabeça começa a querer doer, talvez por causa do esgotamento da viagem, mas me concentro na minha irmã, dou uma respirada para tentar segurar o incômodo.

— E como foi? – Pergunto a incentivando para que continuasse.

— Pior impossível, nós brigamos ou melhor eu briguei, ela ficou decepcionada. Não por eu aparentemente não retribuir, mas pelo modo como reagi – Carmem dá de ombros.

— Foi tão ruim assim? – Ela assente parecendo envergonhada.

— Estava em negação, sendo preconceituosa comigo mesma, para me proteger ataquei ela e não foi bonito. Antes de voltar para o Brasil, depois que a poeira abaixou, conversamos e ficamos de boa, mas a amizade tinha acabado. – Se apoia no encosto do sofá, puxa o ar e contínua. – Mas não consegui parar de pensar nela, fiquei arrasada com tudo o que aconteceu. Então, entrei em contato, pedi perdão pelo modo como agi e voltamos a conversar. Terminei meu relacionamento com Tadeu, não tinha mais sentido continuar com ele estando apaixonada por outra pessoa, quando tive coragem, me abri para a Ellen e contei como me senti no dia da briga, como estava me sentindo mesmo distante, ela também abriu o jogo, enfim... Acabou que nos aproximamos ainda mais, foi nessa época que você estava todo enrolado com aquela garota lá de Itajaí, querendo fazer o pós doutorado fora do Brasil, achei que levar mais problemas pra você não ia ajudar. – Ela joga a cabeça para traz apoiando no encosto do sofá, fecha os olhos, queria muito fazer isso agora depois de um banho e de tomar um comprimido.

— E aí, depois de todo esse drama, vocês começaram um relacionamento?

— Não exatamente, ela estava morando na Austrália, mas nos falávamos todos os dias. Você foi embora, e com o tempo as coisas entre agente foi ficando mais séria, chegou ao um ponto que não estávamos mais suportando ficar longe...

— Espera aí – a interrompo – aquela sua viagem repentina de duas semanas para a Austrália no meio do ano retrasado, foi para se encontrarem? – Confirma balançando a cabeça.

— Quando estivemos juntas lá, as coisas ficaram claras para nós duas. Não tínhamos, mas como continuar longe uma da outra, Ellen decidiu mudar para o Brasil. – Sua cabeça se ergue e voltamos a nos encarar. – Sei que deve estar pensando que foi precipitado, que agente mal se conhecia – realmente estava pensando sobre isso, um pouco.

— Agora ler mentes, para saber o que estou pensando – ela ergue uma das sobrancelhas com um sorriso torto, é ela realmente me conhece bem. – Ok, talvez tenha passado pela minha cabeça. – Carmem, rir abertamente. Pelo menos ela estava se divertindo.

— Nunca foi difícil para mim perceber o que passa pela sua cabeça – fala quando para de rir. – Sério Lucas, todas as decisões que tomamos foi comum acordo, nada foi impensado ou movido por impulsos, sabíamos muito bem o que estávamos fazendo. Também decidimos juntas que contar para você quando voltasse de viagem seria o melhor e que eu tinha que ter essa conversa sozinha com você. – Não consigo deixar de me perguntar quando foi que minha irmãzinha se tornou essa mulher tão madura, independente e cheia de coragem. Me levando da poltrona onde estou, vou até o sofá e me sento ao seu lado.

— Você está feliz?

— Muito, como nunca fui feliz antes – era possível ver isso em seu olhar.

— Só isso importa, para mim, apenas isso importa, se vocês se amam nada mais é relevante. Mas você entende que vão enfrentar, rótulos e preconceitos de toda forma possível? – Afirma com um movimento suave.

— Já passamos por algumas situações nada fáceis, mas estamos nos virando bem. Queremos casar, Lucas. – Não consigo disfarçar a surpresa.

— Estou surpreso, não vou mentir, mas já estão praticamente casadas. A quanto tempo moram juntas?

— Não faz muito tempo, Ellen é muito independente, ela morava sozinha é professora de inglês e trabalha em uma ONG que faz trabalhos diplomáticos junto com algumas embaixadas, ela estudou relações exteriores – me conta cheia de orgulho, impossível não sorrir. – Enfim, estamos morando juntas a uns seis meses.

— E como foi com a Alicia? – Carmem, começa a rir novamente.

— Nossa, foi bem engraçado. Mas conhece nossa irmã, ela me abraçou chorou disse que tudo estava bem e que enfrentaria tudo ao meu lado, dramática, carinhosa, corajosa uma verdadeira mamãe urso. Já até adotou a Ellen, foi difícil convencê-la a não te contar, mas no final ela respeitou nossa decisão. – Não era muito difícil visualizar as coisas que ela acaba de me falar, Alicia sempre foi dramática e superprotetora. Um bocejo involuntário sai, sem que eu consiga controlar. – Você está cansado, terminamos essa conversa outro dia, ainda tem algumas horas para dormir ante do seu jantar de boas-vindas.

— Não, eu estou legal – outro bocejo.

— Estou vendo, vai tomar um banho e descansar um pouco, quando tudo estiver pronto ligo para te acordar. – Consigo segurar seu braço antes que ela levantasse do sofá.

— Espera, quando vou conhecer a Ellen?

— Mais tarde no jantar – diz sorrindo.

Lhe puxo para um abraço, a envolvo inteira, Carmem, retribui me envolvendo pela cintura.

— Amo você, sempre vou estar ao seu lado, não me importa quem você ama por tanto que essa pessoa seja boa e te faça feliz. Entende? – Ela assente.

— Também te amo, muito mesmo, você é o melhor irmão do mundo. Quando estiver recuperado da viagem vamos conversar muito, ante de começar o trabalho no hospital. – A aperto uma última vez e a solto. – Melhor eu ir de uma vez, você precisa descansar, agente se vê mais tarde. – diz ficando de pé.

— Pode ter certeza, te levo até a porta. – Ela sorrir vai andando e a sigo. – Você e a Ali fizeram um trabalho muito bom.

— Fizemos como pediu, com o tempo vai deixando as coisas do seu jeito. – Assim que chegamos à porta, ela mesma a abre e se vira. – É muito bom ter você por perto, sentimos sua falta.

— Também senti saudades de vocês, não vejo a hora de conhecer a Ellen. – Seu sorriso se amplia.

— Ela está bem ansiosa para te conhecer também, já te conhece de tanto ouvir todo mundo falando sobre você.

— Ótimo, estou em desvantagem.

— Não está nada, deixa disso – diz me puxando para um último abraço. – Nos vemos mais tarde. – Concordo com a cabeça, dou um beijo em seu rosto e ela sai.

Finalmente sozinho com meus pensamentos e as novidades que minha irmãzinha despejo em cima de mim. Casamento! Nem acredito. Tomo uma chuveirada, tento relaxar. Depois vou desbravar minha bagagem e tentar encontrar a necessaire com medicamentos, encontro depois de verificar a quarta mala, pego os comprimidos naturais a base de ervas, tomo dois, caio na cama e apago.

Um som estridente zumbi no meu ouvido, como uma campainha só que pior, entreabro os olhos e o quarto estava mergulhado na escuridão, já anoiteceu. Tateio ao meu redor na cama, tenho o mau hábito de dormir com o celular sempre o mais próximo possível, costume de médico. Finalmente encontro o bendito aparelho, atendo sem dá atenção nem uma a tela, e ativo o viva a voz.

— Espero não estar incomodando – não é difícil reconhecer a voz, desperto completamente, me ergo ficando sentado na cama, apoio minhas costas na cabeceira.

— Desde quando você atrapalha, Fernanda? – Não falei com intuito de parecesse uma indireta ou algo do tipo, era penas a verdade, nos tornamos amigos, depois de tudo o que rolou, nossa amizade foi o lado positivo de tudo.

— Não sabia se já tinha chegado ou se ainda estava a caminho – nem me preocupei em mandar uma mensagem quando cheguei, mas também com as últimas novidades e meu esgotamento da viagem.

— Acabou que não consegui mandar mensagem para ninguém desde que cheguei, as coisas foram meio conturbadas e estava muito cansado. Nem pensei em avisar.

— Tudo bem, relaxa, imagino que suas irmãs, ocuparam todo seu tempo. Mas quando chegou? – Ouço um barulho ao fundo, parecia uma panela caindo. – Amor, chama a May, para ficar de olho no Romulo, estou falando com o Lucas. Desculpa, Lucas. – A voz do Rafael soa ao fundo, não consigo ouvir sua resposta.

— Sem problemas, cheguei a algumas horas – ascendo o abajur, olho o rádio relógio, eram quinze para a dezoito. – Quase sete horas para ser bem exato, o voo atrasou quase uma hora.

— Te acordei? – Pergunta parecendo incomodada.

— Na verdade sim, mas não tem problema, tinha colocado o despertador para as dezoito, tenho um jantar na casa da minha irmã, tenho que está lá em uma hora. Então, você me fez um favor. – Levanto da cama, começo a procurar uma roupa para tomar banho.

— Que bom, fico aliviada.

— Sem problema, então, a ligação tem uma finalidade?

— Sim, bem-vindo ao Brasil. – Não seguro o riso.

— Você não ligou para me dá as boas-vindas, Nanda, mas obrigada, é bom estar de volta em casa. – Pego uma causa em uma mala, uma camisa em outra, uma cueca na outra, preciso organizar essas coisas amanhã, está tudo espalhado, droga.

— Não liguei apenas para isso, estão todos aqui te mandando beijos e abraços... – diz rindo, ouço um leve burburinho. – Chega pessoal, ele já ouviu... – Não escutei nada, mas fico na minha, se não chegaria na casa da minha irmã apenas no almoço amanhã. – Como estava falando, não liguei apenas para isso, lembra quando falamos antes de você viajar? – Isso não fazia nem três dias, claro que lembrava.

— Sim! – Vou pegando os produtos de higiene pessoal que vou precisar, já saio tirando a roupa, melhor me apressar.

— Então, o aniversário do Romulo, que é seu afilhado, vai ser em novembro, queremos muito que venha. – Merda, esqueci completamente dessa parte da conversar.

— Nanda, daqui a uma semana vou assumir a equipe de trauma do hospital geral, não sei se consigo uma folga em tão pouco tempo – com certeza os dois meses iniciais seriam uma loucura. – Mas eu vou tentar, farei o possível para ir. – Realmente faria, estava com saudades de todos eles.

— Como médica, compreendo você completamente, mas as crianças estão com saudades e você prometeu ao Romulo que esse ano estaria no aniversário dele. Está parecendo com a Mel, só pensa em trabalho, as vezes dá até raiva. – Melissa, nossa não a vejo e nem falo com ela a anos.

— Vou fazer o possível, prometo, assim que desligar vou anotar na agenda do celular para não esquecer. – Resmunga alguma coisa sobre pessoas irritantes, que fazem promessas, não entendo muito bem. – Você falou sobre a Melissa, como ela está? – Não queria perguntar, mas foi mais forte do que eu, nosso rompimento não foi dos melhores, mas concordamos que não estava funcionando e cada um foi para um lado. Entro no chuveiro.

— Você está tomando banho? – Pergunta desconversando.

— Claro, consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo e você está no viva voz, além disso tenho compromisso e detesto me atrasar. Então, vai responder minha pergunta?

— A Mel está ótima, como eu disse, trabalhando muito. Crítico, mas é uma obsessão de família, sou bem parecida. – E é só, ela não fala mais nada. – Vocês não se falaram mesmo, desde que que viajou? Parecem crianças.

— Não é o que está pensando Nanda, pelo menos não da minha parte, não estou chateado com ela ou algo do tipo, acho que não nos falamos por falta de oportunidade, apenas isso.

— Considerando que você foi embora, sem se despedir ou sem ligar, acho que ela deve ter ficado chateada umas semanas, mas provavelmente já superou. – Seu tom era de acusação.

— Qual é Nanda, nós dois já tínhamos dito tudo um ao outro, não tinha necessidade de mais despedidas ou explicações. Ela vai para o aniversário do Romulo?

— Nem você acredita no que acabou de me falar, Lucas. Acho bom ela vir, se não vou ter que ir até São Paulo, busca-la. – Paro abruptamente.

— Ela está aqui?

— Mel vai me matar, mas já que comecei. – Pego a toalha e me enrolo – Ela está morando em São Paulo, já tem uns meses. Lucas, ela conseguiu abrir a agência. – Claro que conseguiu, um sorriso involuntário me invade, sabia que ela conseguiria. – A inauguração vai ser no próximo mês. – Não vou negar, saber que ela está tão perto mexe comigo, nossa história foi tão conturbada e intensa, sempre fiquei com a sensação que vivemos uma relação pela metade. – Oi, você ainda aí? – Nanda me desperta.

— Sim, fiquei surpreso e feliz por ela. Sabia que algum dia ela ia conseguir, teimosa como é.

— Verdade, ela realmente é muito teimosa e acredite em mim, segurou uma barra com a Marta, foi difícil para ela não ter o apoio da mãe – que novidade, ainda bem que essa foi uma pessoa com quem não convivi muito tempo. – Mas a Mel, nunca se deixou manipular pela mãe, não começaria agora e o Rafa e o tio Carlos deram todo o apoio que ela precisava, eu e as meninas também. – Depois de tanto tempo, era muito bom ter notícias dela, não sabia que tinha sentido tanta saudade, até agora.

— Você vai vir, para a inauguração?

— Não consegui liberação no hospital e o Rafa tem muito trabalho também, sem mencionar que ele me dá todo suporte com as crianças, também tenho o mestrado. Mas a Lay e a Laís com certeza vão, o tio Carlos, acho que o papai também vai, mas não tenho certeza. – Vai ser importante para ela ter o apoio da família. – Ainda estou estudando as minhas possibilidades para ir, o que vai ser muito difícil, mas vou tentar.

— Faça isso, vai ser importante para ela, ter a família por perto. – Penso em pedir o endereço ou o número dela, mas me seguro, não sei porque, mas não consigo pedir. – Nanda, tenho que ir, se não vou chegar atrasado. Prometo que vou fazer o possível para não faltar ao aniversário do Romulo. Fala para todos que mandei um beijo. – Ela demora um pouco para responder.

— Certo, pode deixar que mando sim, até para meu marido. – Dou uma risada.

— Para ele diz que mandei um abraço.

— Tudo bem, seu teimoso – entendi perfeitamente sua indireta, mas prefiro optar pela ignorância.

— Tchau Nanda, a gente vai se falando.

— Beijo, tchau. – Fala e de desliga.

Mais de três anos e ainda fico mexido só em saber que a Melissa está perto de mim. Realmente fui muito apaixonado por ela, o tipo de paixão louca que faz o chão desaparecer sobre seus pés, acreditei que ela sentia o mesmo, quando recebi a aprovação do pós-doutorado em São Francisco, nem pensei muito a chamei para ir comigo e seu "não" foi claro e direto. Lembrar aquele dia é complicado, me decepcionei com ela de uma forma difícil de descrever, mesmo depois quando entendi os seus motivos, ainda assim continuou sendo difícil, sei que também a magoei.

Dou uma olhada no celular, merda, dezoito e quarente, também tinham algumas mensagens das minhas irmãs, abro as mensagens de Carmem e respondo apenas que "vou me atrasar um pouco, mas estou indo", me coloco em movimento. Menos de vinte minutos depois, estou dentro de um Uber, com uma mala de presentes a caminho do jantar em família.

************

Poderia descrever o jantar como divertido, até que foi, mas também teve o drama familiar como em toda família que se preze. Alicia e Maciel, realmente pareciam não entrar em um acordo, ficaram se alfinetando a cada dez minutos. Basicamente o que aconteceu foi que o meu cunhado esqueceu de pegar uma faixa de boas-vindas que minha irmã tinha encomendado, algo que ela pediu e lembrou a ele, mil vezes durante toda a semana. Todos adoram seus presentes, principalmente a Manu.

A salvação foi a Ellen, que sempre encontrava uma forma de quebrar o clima tenso que o casal deixou no ar. Ellen é uma garota ótimo, divertida, inteligente, linda e parece estar muito apaixonada pela minha irmãzinha. O mesmo brilho que tinha visto nos olhos da Carmem vi nos dela, isso para mim era mais do que suficiente.

Minha sobrinha foi quem me surpreendeu, parecia sempre encontrar um modo de apaziguar a discussão dos pais, verdade seja dita Maciel muitas vezes se segurou por respeito a Manuela. Minha irmã parecia saber os botões certos que devia apertar, para tirar a paciência do marido, só pegou mais leve quando percebeu que Manu ficava sempre no meio do conflito e que o clima começava a ficar muito tenso. Graças aos céus, que não haviam convidados, fomos apenas nós.

Conversamos muito, falei do meu tempo fora, Ellen, ficou muito interessada com o trabalho que fiz na ONU, com pessoas em situações de refúgio, explico que as coisas nos EUA, não estão nada fáceis, para pessoas nessa situação. Também falamos das novidades, dos últimos anos que fiquei fora o que mudou, Manu, fala do seu aniversário de quatorze anos, que infelizmente perdi, mas já planeja o de quinze animada porque nesse estarei com certeza e confirmo. Minha sobrinha era uma querida, sempre procurando enxergar o lado positivo das coisas, para uma adolescente isso dizia muito sobre ela, mas fico feliz por Manu ser uma garota madura e sensível, muito parecida com a May, acho que vou leva-la ao aniversário se conseguir liberação do hospital.

Passava da meia noite, quando demos a festa por encerrada. Me despeço da Alicia, do Maciel e da Manu, Carmem e Ellen me levam até em casa, outra coisa que vou ter que providenciar com urgência é um meio de transporte. Fiquei feliz em ver que apesar dos problemas entre minha irmã e o marido, minha família continua entrosada e feliz. No final das contas, não existe um modelo perfeito de família, mas se temos um ao outro fica mais fácil de passar por cima do resto.         

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top