Para a lua

Notas do autor

Olá bolinhos, aqui como prometido, está o segundo e último capítulo, espero que gostem ^^ 

Co-Autor: PurpleGalaxy_Project
Betagem por: DarkBlueKisss
Design por: spwceshuttle
Trailer por: Lety_azul

°°°°

"Quando esse mundo acabar, a lua é tudo que veremos"

Me sento no sofá após uma mini pausa para poder respirar, tomar uma água e procurar algo para comer. Encaro a garotinha de cabelos trançados no sofá, estava segurando uma caixinha de leite. Segundo a embalagem, sabor morango.

— Então, podemos começar? — falou com empolgação.

— Claro, onde paramos mesmo?

— Depois que vocês se conheceram pela primeira vez. Depois disso, o que ocorreu?

— Bem... Ocorreu certas coisas...

°°°

Depois daquele festival, voltei para casa na minha antiga cidade junto com minha mãe. Como havia imaginado, a casa estava brilhando, do chão ao teto. O cheiro de comida era presente, meu pai estava na frente, no jardim terminando de podar o limoeiro que havia plantado quando eu nem havia nascido ainda.

A casa sempre foi do meu pai. Na verdade, da família dele, e quando conheceu minha mãe, meus avós decidiram dar a casa para o jovem casal. Assim, desde essa época, eles moram aqui e, agora, eu também.

Entrando dentro da residência, vejo os móveis familiares, a cozinha brilhando com o seu fogão com comida pronta e algo dentro da assadeira, talvez algum tipo de carne ou torta, provavelmente.

Passo pelos vasos de plantas da minha mãe e os retratos da família sobre a estante de guardar pratos e copos. Avançando mais um pouco, é a sala onde está em reforma. Apenas um sofá com uma televisão para matar o tédio, algumas latas de tintas do lado, juntamente com algumas caixas com coisas nossas. Não estamos pensando em nos mudar, apenas que meus pais sempre resolvem retocar as paredes com cores variadas.

Subindo as escadas, já que embaixo estava o porão com a lavanderia e a baderna do cotidiano, corro para meu quarto, passando a porta do quarto dos meus pais e do banheiro que dividia os quartos da casa, me jogando na minha cama.

Estava exausto. Apesar de ser uma viagem de menos de trinta minutos, ainda é uma viagem. Jogo meus sapatos para o lado e olho para cima sorrindo, não sentindo nem um pingo de vergonha ao ver as pequenas "estrelas" que colei quando era pequeno no teto, aquelas que, quando apagam as luzes, brilham no escuro.

Havia trocado várias mensagens com Taehyung nesse meio tempo. Às vezes demorava para responder, outras respondia no mesmo instante que havia mandando o e-mail. As coisas estavam indo muito bem. O Kim era engraçado na maior parte do tempo, sempre me mandando imagens de fotos de onde estava ou o que estava fazendo, era divertido conversar com ele.

Algumas semanas se passaram. Quase todos os finais de semana, como previsto, estava na cidade da minha avó. Contava os minutos para me encontrar com Taehyung e passar um pouco de tempo. Confesso que no primeiro dia não foi muito confortável nas primeiras horas.

Seu pai era bastante rigoroso com Taehyung em relação dele ficar saindo por aí sem a sua presença, então minha mãe, me vendo tão aflito, resolveu interferir. Agora, na maioria dos casos, ele vem para casa e a minha mãe tem que ficar mandando mensagem o tempo todo para o pai de Taehyung para mostrar que ele estava bem na presença de um adulto.

Na verdade, isso só rolou nas duas primeiras vezes que a gente foi lá, depois disso virou meio que uma rotina. Seu pai estava mais à vontade, porém tinha que, pelo menos, mandar duas a três mensagens para assegurar a fera. Não estou brincando. Uma vez tive a grande experiência de vê-lo bravo. Deu um pouco de medo, mas Taehyung estava super tranquilo com a entonação de voz que seu pai estava usando naquele dia.

— Essas duas semanas não vou poder te ver — comentou, rabiscando no papel. — Vamos visitar a família da minha mãe.

— Oh... Entendo. Tudo bem, não precisa se preocupar. Qualquer coisa, a gente se fala por e-mail.

Agora era compreensivo o fato de Taehyung estar super para baixo hoje. O Kim havia comentado há alguns meses atrás que sua mãe, infelizmente, havia falecido por estar doente, e meio que aquilo me pegou de uma maneira dolorosa, afinal, segundo o próprio Taehyung, ele também tem as famosas dores por conta da mãe.

— Dois astronautas — comentou, me mostrando o desenho. — Somos eu e você, o que achou?

— Onde estamos pisando?

— Na lua? — falou como se fosse óbvio.

— Desculpa, Tae, mas não parece nenhuma lua — falei ao meio dos risos, vendo ele fazer bico.

— Claro que é uma lua! Olha, estamos no barrigão do coelho. — Sorriu, radiante. — Nossa promessa, se lembra?

— É um belo desenho, de verdade — estava falando sério daquela vez, dava para ver o esforço. — Mas esse desenho está muito longe de se tornar realidade.

— Como assim? É um belo sonho, claro que vai se realizar, não era isso que você queria ser quando criança?

— Quando criança. Não sou mais e pra mim é completamente impossível. — Taehyung cruzou os braços, me encarando. — O quê?

— E quanto a nossa promessa de ir até a lua? — Fiz uma pequena careta. — Quando esse mundo acabar, a lua é tudo que veremos, aí vou te chamar para voar comigo, e quando esse dia chegar, você deve estar apto para nossa jornada.

Taehyung tinha essa ideia, ou melhor, este sonho que a cada dia que passava parecia agarrá-lo a todo momento. Não era uma brincadeira, mas para mim era praticamente impossível. A ideia de viajar por aí era tentadora, contudo, fora da minha realidade, não era para mim, não tinha a determinação que precisava para seguir esse sonho.

— Por que quer tanto realizar esse sonho? — comentei baixinho. — Não é como se você fosse desaparecer de repente.

— E se isso ocorrer? — O olhei meio assustado para ele, que estava sério — Só estou dizendo. Tudo é possível neste planeta — murmurou, mexendo no zíper de sua blusa.

— Tem algo que ainda não me contou? — Um silêncio agonizante se fez presente. Taehyung continuou brincando com o zíper encarando o desenho. — Se está insinuando que vai ocorrer o que aconteceu com a sua mãe, olha-

— Eu não vou morrer idiota! — gritou me assustando. — Olha, apenas... — Suspirou pesado. — Esse sonho é idiota também. — Se levantou com ele na mão, amassando e jogando fora.

— Taehyung, ei. — Me levantei, vendo que ele estava chorando. — Me desculpa, não queria ter falado isso.

Então vi sua mão ir na direção de seu peito. Me olhava aflito e acabei entendo: as dores estavam voltando. Ele não estava chorando por conta do que disse, mas era por conta das dores que estava sentindo. Com as mãos trêmulas, peguei em seu ombro, mas acabou se afastando, andando até seus sapatos.

— Quero ir para casa. — Se afastou novamente quando tentei me aproximar e aquilo doeu como nunca

E foi o que aconteceu: seu pai chegou rapidamente. Mandei uma mensagem para ele e só foi me responder durante a noite, me pedindo desculpas e por ter me xingando de idiota. Estava melhor e que foi apenas um pequeno susto, o médico disse que era por conta do estresse e foi assim que descobri que falar sobre sua mãe o deixava mal.

Então se passou um ano, iria completar meus quinze anos. A última mensagem de Taehyung foi que estava ansioso para me ver novamente. Confesso que, desde então, as mensagens, as vídeo chamadas que fiz, as várias conversas que tive com o Kim me fizeram sentir certos sentimentos. Nada concreto, mas sempre forte.

E ali estava eu, de pé durante o festival local, vendo-o sentado sobre o tronco de árvore, distraído com o céu. Desta vez estava frio o bastante para usar duas blusas de manga comprida, contudo, nenhuma nuvem no céu, apenas a enorme lua cheia.

— Toda a grama do outro lado... Será que é só mais verde na minha cabeça? — Taehyung me assustou ao falar e me encarar em seguida com um enorme sorriso.

— Quem sabe, talvez sim, talvez não, nunca saberemos.

Me aproximo agora um pouco mais a vontade, porém com uma sensação estranha. Não de um jeito ruim, pelo contrário, era até gostoso de se sentir. Sentia minha nuca queimar, era normal quando estava nervoso, e a presença do Taehyung fazia essas palhaçadas acontecerem comigo.

— Jungkook — e chamou de volta para a realidade, agora sem me encarar. — Você se esqueceu, não foi?

— Como assim? Do que está falando? — Seu tom sério me deixava mais nervoso do que estava e a demora em me responder só piorava a situação.

— Cadê meu bichinho de pelúcia?

E como se um pequeno interruptor tivesse acendido em minha cabeça, me lembrando que havia esquecido ele na casa de minha avó. Ainda estava dentro da mala, embalado em um saco de presente transparente com um laço vermelho. Havia me esquecido totalmente da pequena pelúcia e, pela cara de Taehyung, estava chateado.

— Me desculpa, eu juro que está lá em casa, trouxe na viagem. Se quiser, podemos ir até lá, não vai demorar muito.

— Sua mãe não vai deixar você sair desse jeito?

— Eu explico a situação, não se preocupe.

Taehyung pareceu receoso, olhando através de mim para a saída daquele lugar, onde ficava o festival. Seus olhos transmitiam dúvida, parecia ter um pequeno dilema em sua cabeça, contudo, quando pensei que não iria dar em nada, o Kim se levanta, caminhando na minha frente, pulando o tronco de árvore, colocando as mãos no bolso.

— Vamos? Tenho que estar em casa daqui uma hora.

No caminho até em casa, Taehyung me explicou que essas duas semanas seu pai está o deixando mais livre, o comprou um celular só para si e que tinha um horário para voltar para casa, melhor do que não o deixar sair ou ficar no seu pé o dia todo. Perguntei o motivo dessa mudança brusca e, com um sorriso, soltou que faz meses que não estava mais sentindo suas dores, estava bem melhor.

Talvez o grande sorriso besta no meu rosto já tivesse deixado bem claro o que estava acontecendo comigo, infelizmente, ou felizmente, estava me apaixonando pelo meu amigo, e como um garoto todo apaixonado que sou, o trouxe para a casa da minha avó todo animado.

Chegando lá, o acompanho até o meu quarto onde estava o pequeno urso. Abro a mala cheia de livros, iria passar mais dias do que o esperado. Minha mãe pegou férias e meu pai vai vir daqui dois dias passar o final de semana, então, só depois, todos iriam voltar.

— Aqui está. — O entreguei rapidamente. — Feliz aniversário, Tae!

— Por que você fez todo esse esforço para embrulhá-lo? Parece até que é outro urso. — Me olhou com uma cara desconfiada, o que me fez rir de nervoso. — É outro, Jungkook?!

— Não!

— Então por que está rindo desse jeito?

— B-Bem, você está exagerando. — A verdade era outra. O motivo era mais complexo do que se poderia imaginar.

— Você acha? — Sorriu de canto, se aproximando de mim. — Em? Hm? — Me empurrava com o seu ombro como forma de birra, me fazendo ficar vermelho pela brincadeira.

— Acho. É o mesmo urso, só estava tentando ser fofo, poxa... Pensei que iria gostar — me defendi, mesmo todo envergonhado. — E o meu livro, cadê?

— Está em casa. — Me encarou surpreso, com os olhos bem abertos. — Céus, eu também esqueci. Nossa, como sou tão burro?

Taehyung há algumas semanas atrás me disse que gostaria que eu ficasse com o seu livro sobre planetas. Apesar de fazer um certo tempo, ainda sou fascinado nessas coisas, e pelo que ele fala, esse livro era a coisa mais bem feita desse planeta terra, então a minha expectativa estava alta.

— Então vamos pegar, fiquei sonhando com ele por várias noites seguidas.

— Bem... Está tarde, pode ser amanhã?

— Por que? Não é tarde e ainda temos quarenta minutos.

— Quero passar esses quarenta minutos que restam aqui, pode ser?

— Tem certeza?

Taehyung sorriu fraco, pegando em uma das minhas mãos, apertando de leve. Estavam geladas, talvez por conta do frio. O encarei e foi aí que percebi o quão perto nós estávamos, seus olhos me analisavam de um jeito profundo, ao mesmo tempo que não conseguia parar de olhá-los.

E quando me dei conta, agarrava com força suas mãos enquanto nossos lábios estavam juntos. Um beijo foi iniciado, meu coração estava batendo alto como um tambor dentro de mim, porém só conseguia prestar atenção naquele momento. Seus lábios eram macios e gelados ao mesmo tempo que aquele simples beijo foi quente e necessário.

Quando nos separamos, seu sorriso era tímido. Deitando a cabeça em meu peito, parecendo com vergonha, acabamos rindo e, como se fosse a coisa mais natural entre a gente, olhamos um para o outro e voltamos a nos beijar. Isso acabou sendo uma das coisas que mais gostava na vida.

Ficamos deitados na cama, abraçados, aproveitando aquele momento. Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito, mas pude jurar que, por alguns minutos, Taehyung havia pego no sono. Ele tinha dessas e sabia que isso significava que não estava dormindo direito, mesmo que ele tenha falado que estava bem melhor em comparação há meses atrás, agora, mais que nunca, me deixava um pouco preocupado.

— Obrigado pelo presente, achei... Fofo. — Suspirou baixinho, rindo logo em seguida. — De verdade, obrigado.

Me lembro muito bem que minha mãe abriu a porta do quarto no exato minuto, falando que havia esquecido algo, mas acabou não pegando nada, apenas nos olhou, coçando a cabeça, apontando desajeitadamente para fora do quarto.

— Daqui a pouco é a queima de fogos, fiz chocolate quente.

Minha mãe sabia, ela sempre soube, ainda mais quando confessei para ela. Até hoje minha mãe não sabe como se comportar quando Taehyung estava por perto, mas sabia que não era por mal, estava tentando agradar, e sinceramente? Eu estou achando super fofa naquele momento.

Acabamos descendo, pegamos um pouco do chocolate quente e andamos para o terraço da casa da minha avó. A maioria dos parentes estavam ali. Taehyung e eu decidimos não ficar ali por muito tempo, já tínhamos nosso lugar para ver os fogos, porém o motivo era completamente outro.

Infelizmente, minhas tias acabaram descobrindo sobre eu gostar de homens. Quando a minha mãe estava tendo uma conversa comigo em meu quarto na outra cidade sobre meninos, uma conversa inocente e aliviadora, elas chegaram de repente e acabaram escutando. Como nem tudo é um mar de rosas, todos acabaram descobrindo no dia seguinte. Não preciso falar que não foi nem um pouco reconfortante, ainda mais quando mais da metade da sua família é homofóbica.

— Tome cuidado. Qualquer coisa, liga — Minha mãe comentava, me entregando algumas notas de dinheiro que recusei no mesmo instante. — Apenas aceite quando estou sendo gentil.

Sorri para ela, olhando para Taehyung com um sorriso amigável, batendo em seu ombro de leve, logo entrando em casa. As coisas pareciam boas naquela noite, e realmente foi. Estava feliz, Taehyung e eu estávamos apaixonados e isso era, com certeza, a melhor coisa que me ocorreu nesses últimos meses.

— A grama do outro lado... Será que é mais verde na minha cabeça? — Taehyung repetiu a mesma frase, apontando com o olhar na direção do nosso ponto de encontro.

— Isso realmente está te deixando pensativo, em?

— É uma pergunta que me faço todo dia. — Sorriu, me puxando para a direção do tronco da árvore. — Você é incrível.

— Nossa, por que está me elogiando de repente? — perguntei, já sentindo minhas bochechas ruborizadas.

— Deu vontade, de verdade... Eu convenci a mim mesmo de que nunca encontraria alguém como você.

— Como eu?

— De início pensei que você fosse uma constelação, tentei mapear suas estrelas e tive uma pequena surpresa... Você é tão bonito quando é infinito, o universo do qual me encontro indefeso, um astrônomo nos meus melhores dias.

— De onde você arrumou essa frase?

— É de minha autoria, poxa. — Fez biquinho, me fazendo rir.

— Sério?

— É do meu livro. Na verdade, o livro que vou te dar — confessou, batendo os pés no chão, e foi ali que percebi.

— Hey, você cresceu bastante desde o último dia que te vi.

— Você acha? Isso é bom ou ruim?

— É bom e ruim. Agora não vou te zuar por não encostar os pés no chão. — Recebi um tapa em meu ombro, aquilo doeu, mas acabei rindo quando vi suas bochechas vermelhas.

— Idiota...

— Você realmente está bem feliz hoje.

— Claro, é meu aniversário, ganhei um presente super fofo do garoto que eu gosto — falou, me cutucando com o ombro. — Sobrevivi para comemorar meus 16 anos com você, por que não ficar feliz?

O abracei, sendo retribuído de imediato, olhando para as estrelas, me fazendo lembrar de algumas coisas antigas.

— Quando esse mundo acabar, a lua é tudo que veremos. Vou te pedir para voar comigo — falei sem olhá-lo. — Até que as estrelas caem e esvaziem o céu, mas não me importo, se você estiver comigo, então está tudo bem.

— Oh, isso foi fofo. De onde tirou isso?

— De lugar nenhum. — Sorri, o apertando, agora olhando para os fogos de artifício. Havia me esquecido de como é bonito. — Hey, Taehyung.

— O que foi? — murmurou, concentrado nos fogos.

— Nada não...

— Qual é? Agora que começou, termina, ou te dou um soco.

— Calma, só estava brincando. — Ri, alisando seus cabelos. — Te amo. — Houve uma pequena pausa, me fazendo ficar vermelho. — É esquisito falar isso, né?

— Bastante, mas eu te amo mesmo assim.

— Viu? Uma hora fica natural.

Rimos um para o outro, nos beijando mais vezes do que eu poderia contar. No final, ele teve que ir para casa, seu pai estava o ligando falando que já havia dado o horário combinado.

— Bem, então até amanhã à noite? — falou com aquele sorriso nos lábios.

— Até a noite, e não esqueça o meu livro.

Como sempre, amanhã à noite seria o último dia do festival. Estava contando as horas até chegar aquele momento, sempre ficava daquele jeito, ainda mais agora depois do que ocorreu nessas últimas horas. Pelo visto, não era só eu que sentia daquele jeito a respeito um do outro, Taehyung também gostava de mim de um jeito romântico, e vê-lo retribuir feliz daquele jeito me deixava com uma sensação agradável no peito.

No dia seguinte, mandei mensagem para o Kim, que me respondeu algumas horas depois. Estava ajudando o pai em alguma arrumação na casa, por isso demorou um pouco mais para ver seus e-mails. Sim, apesar de ter seu próprio celular agora, Taehyung ainda usava essa forma para se comunicar com as pessoas. Como ele disse há meses atrás, era escravo dos e-mails.

— Filho! Trouxe umas coisas. Por favor, venha me ajudar.

Para a minha surpresa, meu pai apareceu da porta do meu quarto. Estava carregando as sacolas, não esperava ele ali agora, acredito que estava tão distraído em meu mundinho que não consegui prestar atenção quando ele chegou.

— Espera, desde quando você está aqui?

— Uns dois minutos. Trouxe carne para um churrasco, passei no mercado no caminho até aqui.

— Espera... Não vai no festival hoje? — perguntei meio preocupado o seguindo escada a baixo.

— Não, a gente decidiu que era melhor ficar em casa hoje, por isso apareci agora.

— Mas eu tenho um compromisso hoje à noite no festival — murmurei, sentindo a ansiedade bater em meu peito. — Não vou poder aproveitar com vocês...

— Bem, então fique até dar o horário do seu compromisso. — Meu pai me olhou, parecia bem tranquilo. — Não se preocupe, vai ser em que horário?

— Depois das 19 horas, tem certeza?

— Claro, fique até as 19 aqui e depois, mais tarde, você volta. Como o churrasco foi elaborado de última hora, não tem problema. — Desacelerou os passos, pegando em meu ombro. — Assim sobra mais tempo pra mim ficar com sua mãe — falou em um tom pervertido, me fazendo rir de nervoso.

— Eu vou fingir que não escutei isso.

Fico um pouco mais tranquilo durante a tarde. Meus pais estão mais próximos do que o costume, parecem mais apaixonados, já que não tinha o costume de serem tão grudentos daquele jeito. Normalmente, minha mãe ficava o tempo todo ocupada no escritório de casa com o seu trabalho e meu pai só voltava tarde da noite por conta da empresa onde ficava seu serviço.

Meus tios começaram a aparecer aos poucos. Quando o relógio marcava 17h no corredor que vai à cozinha, meu pai, juntamente com meu avô, resolveram acender a churrasqueira. Taehyung havia me mandando uma mensagem me mostrando a capa do livro. Era linda, com detalhes roxos por todo verso.

— Não volte tarde, okay? — minha mãe falou de repente, entrando em meu quarto ao me ver sentado na cama.

— Pode deixar. — Senti um cheiro de creme vindo dela. — Está cheirosa hoje.

— Você acha? — Ela parecia mais animada, cruzando os braços.

— E faz um tempo que não vejo a senhora bebendo como antes. Resolveu dar uma mudança na sua rotina?

Ela riu um pouco alto, negando com a cabeça, passando as mãos pelos cabelos curtos. Havia cortado mês passado, agora parecia mais jovem do que já era. Me explicou que ela e meu pai tinha algo para falar comigo antes que eu vá nesse compromisso. A olhei, confuso, poucos segundos meu pai apareceu com um embrulho de presente, me entregando.

— O que é isso? Não é meu aniversário...

— Claro que não — meu pai falou em um tom brincalhão, apontando para o presente. — Abra.

Com receio, rasguei o embrulho. Era uma camisa. Olhei para meus pais sem entender muito e, confesso, com o coração na mão, afinal, eles não eram de fazer essas coisas, tinha medo do que poderia ser. Coloquei os vários plásticos de lado e abri por completo a blusa de manga curta. Estava escrito "adivinhe quem vai ser o irmão mais velho?".

Minha primeira reação foi ler a frase três vezes seguidas até a ficha cair, minhas mãos tremerem e encarar meus pais, que estavam mais emocionados do que eu. Agora tudo fazia sentido, minha mãe estava grávida! Consegue imaginar a minha alegria na hora? Estava transbordando de felicidade e passei o resto do dia tentando ver se o meu futuro irmão se mexia, mesmo que minha mãe me avisasse que ainda era muito novo para fazer isso.

Não preciso dizer que liguei para Taehyung meia hora depois para dizer a notícia. Pela sua tonalidade da voz, estava feliz, fazendo pequenas brincadeiras do tipo "aproveita seus últimos meses de sono", ou algo do tipo.

Mais tarde terminei de me arrumar rapidamente, estava super atrasado, fiquei tão empolgado com a notícia que perdi a noção do tempo, apenas mandei uma mensagem para ele avisando que chegaria atrasado e um pedido de desculpas. Taehyung apenas respondeu um "tudo bem" e nada mais, parecia chateado. Claro, eu compreendo totalmente, também ficaria.

Avisei meus pais antes de ir e tentei correr o mais rápido possível, chegando ao local do festival em poucos minutos, mas não rápido o bastante para ver que estava atrasado mais de um hora. Passei entre as pessoas, o cheiro da bebida, das risadas altas, da piscina de bolinhas vermelhas, e segui até a colina onde ficava o tronco de árvore. Estava ofegante, tentando respirar fundo e, para a minha surpresa, Taehyung não se encontrava ali.

Caminhei cansado até o tronco da árvore, pegando meu celular, mandando uma mensagem. Me sentei, observando o céu como de costume, sorrindo fraco, olhando para a lua, para o coelho. Não sei quanto tempo fiquei assim, até perceber que Taehyung não havia respondido minhas mensagens ou aparecido. Preocupado, liguei para o seu celular, que caía na caixa postal.

— Deve ter acontecido algum imprevisto... — Olhei para o horário: 20:40.

Fiquei ali por mais uma hora de relógio, o aperto no peito veio com tudo, o nó na garganta. Estava preocupado, mais do que o normal, era comum o kim demorar para me responder, mas, mesmo assim, aquilo me incomodava, e quando liguei novamente e a chamada foi atendida, o alívio preencheu por completo, me fazendo suspirar.

— Taehyung, quer me matar do coração? Por que não me atendeu? — Um silêncio se fez presente. — Taehyung?

— Jungkook? — Era a voz do pai de Taehyung. Pelo seu tom, nada estava bem. A voz parecia trêmula e aquilo me fez entrar em pânico. — Tenho más notícias... T-Taehyung, ele...

— Por favor, não complete a frase — sussurrei, sentindo minhas pernas bambas. — Não me diga que ele...

Nenhum de nós precisou terminar a frase, era bem óbvio o que havia acontecido. Minha cabeça girava e não me lembro quase nada depois desta ligação, apenas dos olhos dos meus pais chorosos me abraçando, do pai de Taehyung e seus irmãos no hospital e da frase "ele morreu, eu sinto muito".

Descobri que Taehyung não morreu pelas dores que normalmente sentia, ele ia para minha casa me buscar por estar atrasado. Mandou uma mensagem para o pai, avisando. Minutos depois, quando estava saindo do festival, um carro acabou atropelando. O motorista estava bêbado, aconteceu tudo tão rápido que ele acabou fugindo do local.

Fiquei com uma forte dor de cabeça depois de tanto chorar. A culpa e arrependimentos vieram à tona, minhas mãos não paravam de tremer, minha mãe tentava me animar um pouco, e conseguia, pelo menos por algumas horas, depois voltava de repente.

E um dos piores dias da minha vida chegou: o dia do funeral. As lágrimas começaram novamente e só piorou quando o irmão menor de Taehyung, por volta dos seus quatro anos, veio até mim, que estava mais próximo, e perguntou:

— Você poderia me responder uma pergunta? Papai não conseguiu, mesmo ele sendo mais velho. — Sua voz era baixa, então tive que me abaixar para escutar. — Por que meu irmão está em uma caixa de vidro?

Naquele momento, não consegui responder de primeira, apenas o abracei com tudo que tinha. Dei tapinhas em suas costas. Ele não entendeu, mas correspondeu o abraço e, para a minha surpresa, aquilo foi bom, me senti mais calmo. No fim, peguei em suas mãos pequenas e o guiei até a bolsa da minha mãe, o entregando um chocolate.

— Porque coisas ruins acontecem com pessoas boas — falei sem olhá-lo, mas sabia que ele entendeu o que queria dizer, já que segurou em minha mão e me entregou o restante do chocolate. — Obrigado.

Alguns dias se passaram e seu pai veio até em casa, estava colocando malas no carro para voltar para minha cidade. O mais velho estava segurando algo que me era familiar, os detalhes em roxo não me enganavam.

— Encontrei isso nas coisas dele, tem o seu nome então. — Peguei o livro com as mãos trêmulas. — Ah, e isso aqui. — Me entregou o urso que havia dado a ele. — Pensei que você gostaria de ficar.

Apenas o abracei como forma de agradecimento. No fim, entrei no carro e abri o livro. Sim, era um livro sobre planetas e o universo em si. Taehyung não mentiu, mas, para a minha surpresa, estava todo escrito à mão. Cada coisinha, os desenhos, cada palavra, cada verso e a frase que me contou ontem durante o festival.

"Toda a grama do outro lado... Será que só é mais verde na minha cabeça? Como alguém muito especial me disse uma vez, talvez sim, talvez não, nunca saberemos "

"Hoje esse alguém me disse de repente: quando esse mundo acabar, a lua é tudo que veremos. Vou te pedir para voar comigo até que as estrelas caiam e esvaziem o céu, mas não me importo. Se você estiver comigo, então está tudo bem"

"Quero aprender a voar por ele. Se ele fosse, eu poderia ir também"

"Tudo o que ele viu em mim, era isso que eu queria ser... Mas consegui, no final?"

"Hey, Jungkook, aqui um presente por ser essa pessoa incrível. Obrigado por tudo. Espero que goste, fiz com todo o meu esforço. Acabei de receber sua mensagem. Parabéns irmão mais velho. Se a doença da minha mãe me fazer deixar este mundo, conte toda aventura para ele ou ela! De coração, seu mais querido e único Taehyung"

°°°

Olho para a menina do meu lado, ela tinha olhos lacrimejados, dando um sorriso fraco nos lábios, sorri junto alisando seus cabelos, Minha pequena irmãzinha. Se Taehyung estivesse ainda aqui, eles se dariam super bem. No final, estou aqui tomando coragem para realizar nossa pequena promessa.

— Está na hora! — Olhei para o comandante, me levantando apressado.

— É isso, preciso ir... Vejo você em poucos meses.

— Vou ficar com o seu livro. — Sorriu sapeca, se levantando.

— E quem deu permissão?

— Não posso? Prometo não estragar até você voltar.

— Se eu voltar e ver uma pequena poeira em alguma página, você vai estar me devendo um novo.

Em poucas horas estava na cabine do foguete, juntamente com outros dois colegas ao meu redor, estavam sentados nas poltronas da frente. Meu coração estava batendo rápido, esperei por isso pelos últimos anos e finalmente chegou o dia, podia-se ouvir a contagem regressiva.

10...

9...

8...

7...

6...

Olhando para o lado, para a poltrona vazia. Vejo Taehyung, ou melhor dizer, o imagino ali sentado me encarando, com aquele sorriso que só ele tinha, estendo a mão na minha direção e, em poucos segundos, lembro de suas palavras.

5...

4...

Seus olhos me analisavam, ainda com a mão estendida, sua voz ainda percorria pela minha mente. Era tão calma e, ao mesmo tempo, tinha uma presença que me deixava ansioso para o que veria depois de cada palavra.

Se a gente acabar se desencontrando, não precisa se preocupe Caso isso ocorra...

3...

2...

1... Decolar!

O olho mais uma vez, respirando fundo, segurando sua mão com força. Mesmo que isso esteja passando pela minha cabeça, só fruto da minha imaginação, segurar suas mãos naquela hora me fez derramar algumas lágrimas. Era a mesma sensação: gelado e, ao mesmo tempo, me deixava seguro.

— É só a gente se encontrar no barrigão do coelho — sussurrei baixinho para mim mesmo, ainda o encarando enquanto um grande sorriso nascia em meus lábios.

Procurei por sentido, mesmo com dúvidas

Eu finalmente entendi essa parte

E com todas essas histórias dentro de mim

Parece até que vou explodir,

E você está aqui, depois de tudo...

— Wish my life away (Laura Shigihara)

Notas finais

É isso gente, espero que tenham gostado ^^

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