TRIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

      Somente quando a noite chegou, as coisas começaram para valer. Doutor Francis e mais três lobisomens entraram para me ajudar com a transformação e, apesar dos rosnados contidos de Harry por terem mais alfas auxiliando-me a tirar as roupas, estava indo tudo bem. As dores tinham passado e eu tinha me acalmado pouco tempo depois das primeiras contrações.

      Passar pelo processo de transmutação foi insanamente excruciante, ainda que mais rápido do que eu pensava. Doutor Francis, depois de eu estar transformado, aplicou uma quantidade generosa de anestesia peridural, então aos poucos aquela sensação física ruim passou. Harry estava com uma roupa cirúrgica como os enfermeiros e médicos, tendo minha cabeça lupina apoiada em seu colo para que ele pudesse mandar alguns pensamentos de incentivo e também elogios quando eu fazia força o suficiente.

      — Segure o bisturi nesta posição, não trema. Aplique cinquenta miligramas de…

      Ei, amor, se concentre em mim, Harry pediu com cuidado. Você consegue, OK? Eu estou aqui com você e daqui a pouco estaremos com nossos lindos filhotes. Faça força.

      Não dava para distinguir os diferentes pensamentos que invadiram minha mente de uma hora para outra, e uma quentura apossou-se de cada canto do meu corpo, deixando meu lobo interior agitado. Eu queria saber sobre Liam, que tinha ido para Doncaster horas atrás, porque assim também teria notícias sobre a minha família. Fiquei pensando se Niall teria acordado após desmaiar e se ele estaria com Zayn. Era tudo muito rápido dentro da minha cabeça, tudo muito assustador e barulhento. Eu sentia-me assustado e zonzo.

      Mas, aí, eu ouvi.

      Primeiro, veio um resmungo baixo e sôfrego, como se puxasse ar. E, depois, o choro.

      Era alto e estridente, porém meus ouvidos não se incomodaram com aquilo. Era um bebê, meu bebê, chorando por finalmente ter oxigênio indo para seus pulmões, como um sopro de vida. Levantei com dificuldade a cabeça do colo de Harry, sentindo uma dor árdua em meu pescoço, e procurei com meus olhos caninos a fonte daquele som.

      Ela — pude sentir seu cheiro de fêmea e de alfa — estava nos braços de duas enfermeiras que cuidavam para que ficasse limpa. Seus pelos eram ralos e estavam cobertos pelo líquido amniótico. Soltei um chiado de felicidade e bufei contente quando Harry afagou o espaço entre minhas orelhas. Encarei seus orbes verdes, me sentindo tonto por tamanho amor que encontrei ali.

      — Eu sei que quer pegá-la, mas pare de balançar o rabo e faça força — sua covinha apareceu ao que uma lágrima escorreu por sua bochecha.

      Eu não notei que estava abanando o rabo, tentei olhar, mas a dor em minha nuca não permitiu. Acho que vou precisar que você me dê mais palavras de suporte.

      — Claro — os lábios de Harry tocaram meu focinho e eu os lambi. — Vamos, amor. Podemos fazer isso juntos.

      Então, continuei forçando.

















      Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que o primeiro filhote saíra, mas assim que eles limparam todos os quatro, eu estava tão cansado que sequer tive como permanecer acordado. Havia lapsos onde eu me via, ainda em forma animal, em cima de uma maca com Harry e os bebês. Não demorou muito até que o sono me envolvesse com toda a exaustão que existia em mim.

VISÃO DE HARRY

      — Harry.

      Saindo daquela onda sonolenta, eu acordei aos poucos com aquela voz. Meu primeiro instinto foi procurar pelo cheiro de Louis e dos bebês, acabando por me acalmar quando senti o pelo macio do lobo deitado ao meu lado e também o odor leitoso dos filhotes que estavam dormindo encostados à barriga quente do pai lobo. Suspirei baixinho antes de me virar.

      — Desculpe te acordar — Liam me olhava com um sorriso, mas seu rosto estava cansado. — Elas estão aqui.

      — Elas quem? — Sussurrei de volta, ainda tentando fazer meu cérebro funcionar. — Que horas são?

      — Como assim “elas quem”, seu palerma? A família do Louis — respondeu num cochichou indignado. — E são quatro da manhã.

      — Porra — suspirei. — Dormimos pouco, então.

      Liam franziu o cenho enquanto me ajudava a sentar no colchão sem acordar Louis e os filhotes.

      — Pouco? Ele não entrou em trabalho de parto às oito da noite?

      — Sim — andei aos poucos até o banheiro do quarto para mijar. Lavei as mãos e decidi que seria melhor fazer um bochecho com o antisséptico bucal. Depois de retornar ao quarto, encontrei Liam sentado numa das poltronas. — Durou oito horas.

      — Nossa, eu imagino o cansaço que estão sentindo — ele torceu a boca. — Sinto muito por acordá-lo, mas elas realmente queriam vê-lo antes de irem para o hotel — ele completou, e eu entendi que ao falar “vê-lo”, Liam se referia a Louis.

      — Não tem problema — sorri. — Vamos.

      Falar que eu estava tranquilo por conhecer a família de Louis seria uma mentira descarada. Eu percebi minhas mãos suando frio e a boca de meu estômago parecia pegar fogo, e ironicamente apenas conseguir manter-me com uma calma exterior por causa dos treinamentos recebidos no Exército. Forcei minha mente a relembrar daquelas instruções e saí pela porta junto com Liam.

      Foi quase impossível não lembrar de Louis ao vê-las. A mais velha era uma ômega, com certeza sua mãe, e tinha uma semelhança assombrosa com o filho assim como suas irmãs. Havia mais duas garotas com ela, uma de pele mais bronzeada com os cabelos tingidos de loiro, mesmos olhos azuis. Era uma alfa. Por fim, a última menina devia ser mais nova, com pele e cabelos morenos. A cor de seus olhos era igual à da irmã, e ela era uma ômega.

      Estavam viradas de lado, conversando entre si tão baixo que mal consegui saber se o som vinha delas ou de algum aparelho do hospital. Eu não me surpreendi, já que todas elas eram Impuras. Contudo, não demorou muito para que elas notassem a nossa aproximação e as três vieram até nós. A ômega mais velha aproximou-se primeiro, inspecionando-me com um olhar cauteloso e não muito discreto, antes de estender sua mão. Não a julguei, era a primeira vez em 28 anos que ela tinha notícias de seu filho e ele era parceiro de um Contentor.

      — Olá, eu me chamo Harry Styles — falei ao apertar sua mão e dar um aceno rápido de cabeça.

      — Johannah Deakin — respondeu antes de se virar para as filhas. — Estas são Charlotte — apontou para a loira. — E Félicité — e então para a morena.

      Ambas não pareciam confortáveis em nossa presença, e assim como a mãe, não tirei conclusões precipitadas, tampouco maldosas sobre aquilo. Só o que consegui foi entendê-las, portanto dei um passo para trás num sinal de respeito.

      — É um prazer conhecer vocês — apertei a mão das duas irmãs.

      Johannah limpou a garganta com um pigarreio, fazendo com que eu virasse para ela. Sua expressão séria mais parecia brava pelas sobrancelhas franzidas, entretanto senti o cheiro do nervosismo emanando.

      — Onde meu filho está? Esse oficial foi até Doncaster dizendo que Louis estava vivo, mas não entendo o porquê de termos vindo a um hospital. Louis está bem, certo?

      Na mesma hora, me virei para Liam. Acho que meu rosto falou por mim, porque o alfa encolheu os ombros e coçou a nuca. Maldito, deixou tudo para que eu explicasse?

      — Bom — suspirei ao voltar-me para Johannah. — Acredito que isso seja um assunto delicado demais para tratarmos agora. Louis está bem, mas acho que é melhor vocês irem ao hotel para descansarem. Ele também precisa de um tempo antes de… Revê-las.

      — Você está brincando? — Johannah esbravejou. — Como sei que posso confiar em vocês?

      Analisei atentamente seus olhos cansados, mas atentos e ansiosos. Era óbvio que ela teria uma reação daquela e, a bem da verdade, eu estava surpreso por ela estar mais receptiva do que eu imaginara. Peguei meu celular do bolso, abri a galeria e selecionei uma foto minha e de Louis quando tínhamos ido para Ambleside e mostrei a imagem para elas.

      Nela, Louis e eu estávamos no morro onde havíamos subido para ver a cidade à noite, na caminhonete, ele em meu colo e ambos sorrindo para a câmera. A foto pareceu ser o bastante para que Johannah cedesse, pois a ômega acenou com a cabeça num gesto confirmativo. Suas lágrimas mostraram-se lustrosas em seus olhos, enchendo-os de tal forma que pensei que precisaria ampará-la caso seu choro viesse. Contudo, fosse por orgulho ou um mecanismo de defesa, Johannah segurou.

      — É melhor irmos, então — disse por fim.

      — Claro — respondi num suspiro aliviado. — Liam as levará até o hotel, e assim que tiverem descansado poderão voltar.

      Johannah acenou com a cabeça antes de começar a seguir o alfa para fora, e diferente da mãe, as irmãs de Louis sorriram minimamente enquanto acenavam com as mãos. Depois que elas tinham virado o corredor, me permiti relaxar e voltar para dentro do quarto a fim de dormir junto ao meu ômega por mais algumas horas.

















      — Você levantou de madrugada? — Louis indagou enquanto terminava de enxaguar os cabelos no chuveiro do hospital. — Um dos filhotes começou a chorar por causa de algum sonho, acho que era Lux, e eu tive que acordar um pouco para acalmá-la. Você não estava na cama.

      Aquele mesmo nervosismo de quando encontrei Johannah horas atrás voltou para o meu corpo, porque Louis ainda estava um pouco estressado após o parto. Ainda assim, eu sabia que o melhor era contar que sua mãe estava na cidade, uma vez que tínhamos esperado por aquele momento nos últimos onze meses. À vista disso, quando notei que meu ômega tinha terminado o seu banho e estava se trocando, aproximei-me de seu corpo para abraçá-lo por trás.

      — Sim, eu acordei porque Liam chegou — as costas de Louis tensionaram, mas eu não podia parar ali. — Sua mãe e irmãs estão em Londres, vieram com ele porque queriam ter certeza que você estava bem. Estavam muito cansadas, achei melhor mandá-las para o hotel antes de se encontrarem.

      Louis se desvencilhou de meus braços e foi até o colchão que tínhamos dormido a fim de sentar-se um pouco. Seu rosto estava vago, com uma expressão indecifrável que me impediu de tentar adivinhar seus sentimentos. Nossos filhotes estavam recebendo assistência das enfermeiras que os tinham buscado mais cedo, então poderíamos ter aquela conversa sem muita pressão.

      Fui para o seu lado e entrelacei nossos dedos. Quase que automaticamente Louis os apertou juntos, assim como sua aura também brilhou um pouco mais forte, tanto que eu consegui enxergá-la.

      — Elas voltarão? — Perguntou num fio de voz.

      — Sim, claro que sim. Como você ainda não pode sair do hospital, falei que poderíamos almoçar juntos no restaurante da área de alimentação.

      Louis balançou sua cabeça em afirmação, não falando mais nada. O nervosismo que ele sentia estava fazendo a cicatriz de minha marca arder, mas era completamente compreensível. Quando seu corpo se inclinou e meu ômega deitou-se em meu colo, entendi que ele precisava de um pouco de carinho e apoio antes de lidar com tudo aquilo. Por isso, levei meus dedos até seus fios de cabelo molhados e fiz movimentos leves e circulares ali.

      — Que horas são? — Quis saber.

      — São… — Tirei o celular do bolso para confirmar. — Onze e quarenta.

      Mais alguns segundos se passaram sem que Louis falasse algo. Dava para notar que sua mente estava tentando organizar os pensamentos só pelo fato de seus olhos estarem irrequietos vagando por cada canto do quarto.

      — Você pode pedir para que elas venham? — Louis sussurrou depois de um tempo. — Acho que é melhor fazer isso logo.

      — OK — confirmei e digitei uma mensagem rápida para Liam levá-las até o hospital. — Você quer ajuda para se trocar? Ainda sente alguma dor?

      — Quero, todo o meu corpo dói ainda. Me transformar de volta foi terrível.

      Torci meus lábios em preocupação, porém tudo o que pude fazer foi me inclinar e beijar a pele rosada sobre minha marca em seu pescoço. Nos levantamos para que eu pudesse pôr suas roupas, assim como também o ajudei a escovar os dentes. As enfermeiras trouxeram os filhotes, que ainda estavam como lobos por não saberem como se transformar e colocamos os quatro numa cesta grande e acolchoada que tinham trazido para levarmos eles.

      Depois que tínhamos arrumado os bebês, meu celular vibrou em meu bolso. Era uma mensagem de Liam confirmando que eles já estavam ali.

      — O que é? — Louis indagou enquanto cobria o corpo lupino branco de Theo. Ele era grande para um ômega, mas era lindo como um.

      — Liam chegou. Elas vieram.

      — OK — meu companheiro suspirou antes de olhar para mim e sorrir pequeno. — Vamos, então.

VISÃO DE LOUIS

      Podia-se dizer que minha mente estava vazia senão por dois únicos pensamentos: eu vou rever minha família depois de 28 anos e eu sou pai de quatro lindos filhotes mestiços. Eu não conseguia focar em mais nada além daquilo enquanto andava pelos corredores do hospital junto de Harry, indo em direção à minha família. A mão direita do alfa segurava a minha enquanto a outra carregava a cestinha onde nossos filhos dormiam.

      Eu devia agradecê-lo por estar fazendo aquilo, já que eu não poderia exceder meus esforços durante algum tempo. Doutor Francis explicara que, como Impuro, minha recuperação seria tão rápida quanto minha gestação, mas ainda havia medidas preventivas para nenhum problema surgir em meu corpo. Era estranho saber que eu estaria mais dependente dos outros; contudo, naquele momento eu queria apenas gritar e sair correndo.

      Quando finalmente chegamos à porta do restaurante, me dei conta do tanto que eu estava tremendo. Harry tinha percebido, como eu, e seus dedos tinham apertado mais os meus. Encarei nossas mãos unidas e, como se para pegar um pouco de coragem, subi meu olhar até suas esmeraldas. Elas pareciam ter um poder já familiar de me revitalizar, então me senti melhor em relação àquela situação, mesmo que pouco.

      Olhei de relance para os bebês cobertos por alguns edredons pequenos e grossos que protegiam seus corpos indefesos do frio de dezembro. Sorri minimamente ao imaginar eles quatro bem juntos, sonhando com vultos aleatórios que ainda não sabiam o que eram.

      — Lou? — Harry chamou com cuidado. — Está tudo bem?

      Fitei seus olhos por um segundo, desejando poder vê-los para sempre.

      — Sim — respondi com um sorriso pequeno. — Vamos.

      Abri a porta e dei passagem a Harry, já que ele estava com os filhotes, e logo depois entrei. Era um restaurante simples e pequeno, e passei meus olhos lentamente pelo local antes de seguir observando meu alfa ir até uma mesa em específico. Andei a passos lentos até lá, vendo primeiro Zayn, e então Liam, Niall e…

      — Louis!

      Um flashback da noite do meu aniversário, 28 anos antes, surgiu em minha mente e fez com que eu subitamente desse um passo para trás. Aquela voz já tinha dito meu nome outrora, muito mais desesperada e ressentida. Agora, porém, o desespero tinha um quê de alívio e alegria.

      Instintivamente, busquei por Harry. Ele estava parado a alguns passos da mesa, olhando-me com atenção, talvez tentando decifrar o que eu faria. Chegamos muito longe para desistir agora, Louis, ele me disse suavemente por telepatia. Você consegue, sweetcheeks, o passado não pode te machucar mais do que já fez.

      Engolindo um enorme bolo de nervosismo que formou-se em minha garganta sem que eu percebesse, dei mais um passo. Mais um, e então mais dois. Andei até que eu via Johannah, Charlotte e Félicité de maneira nítida, bem na minha frente. Apesar disso, ainda parecia uma miragem. Real demais aos olhos, mas intangível.

      Forcei um pouco de ar para dentro disfarçadamente, captando os cheiros que elas traziam. Era tudo tão nostálgico que me senti tonto, contudo a mão forte de Harry alcançou minhas costas sem muito labor. Foi isso que me impediu de recuar quando as três levantaram com ansiedade.

      Para ser honesto, eu estava com medo. Medo de suas reações, de como eu conseguiria desenvolver uma conversa ou se elas eram contrárias ao meu estilo de vida antigo e atual. E se desaprovassem Harry? Que tipo de empecilhos isso acarretaria a não somente minha relação com meu alfa, mas também com elas?

      De supetão, um par de braços me envolveu. O movimento brusco fez com que eu arfasse, porém o cheiro doce de Félicité recobrou minha consciência. Ela era uma ômega, afinal de contas, e nossa conexão seria forte mesmo se não tivéssemos o mesmo sangue. Invariavelmente como na nossa infância, retornei o abraço.

      Mas eu não esperava que ela começasse a chorar.

      — Fizz…

      — Idiota! — Ela exclamou entre os soluços. Ela parecia me apertar cada vez mais. — Juro por Deus que se obedecer à mamãe de novo e fugir, eu mesma vou atrás de você e te mato, entendeu?

      Por fim, eu comecei a rir. Rir porque, depois de tanto tempo, elas não me odiavam. Eu não fazia ideia se Liam ou Harry tinham comentado sobre o meu passado depois de escapar, mas o que eu sabia era que as três estavam ali novamente, e eu não seria burro de desperdiçar aquela oportunidade. Por isso, agarrei Félicité tão forte quanto ela me agarrava. As risadas continuavam saindo, esvaziando de maneira gradual meus pulmões junto aos soluços que eu soltava devido ao choro, entretanto não me importei.

      Não tenho certeza de quanto tempo ficamos ali, abraçados, contudo pareceu ser o suficiente para que Johannah e Charlotte precisassem pedir para que pudessem ter um pouco de mim. Minha irmã veio primeiro, causando-me surpresa ao mostrar ter se tornado uma alfa tão bonita. Ela tinha bastante força e, pelo seu porte, notei que devia fazer algum tipo de trabalho braçal ou praticava esportes.

      Minha mãe veio depois. Ela parou um pouco afastada antes de, finalmente, me envolver com seus braços e seu calor tão familiar tomar meu corpo, o que aumentou meu choro de forma considerável. Nós permanecemos por longos minutos abraçados, e quando tivemos que nos separar, foi como se estivéssemos colados um ao outro. Suas mãos limparam minhas lágrimas e meus lábios beijaram suas bochechas salgadas pelas lágrimas.

      — Você cresceu tanto, boobear — ela disse com a voz falhada. — Eu nunca achei que fôssemos nos encontrar de novo. Não quero que aquilo aconteça nunca mais.

      — Não vai — afirmei. — Nem em um milhão de anos eu permitiria isso.

      Ouvimos alguém forçar uma tosse e, prestando mais atenção ao grupo num geral, vi que Maura também estava ali. A mulher loira me encarava com aquele sorriso caloroso que apenas ela tinha, e veio me abraçar também. Tia Maura era sempre muito calorosa e receptiva, e vê-la fez com que uma nova onda de felicidade me invadisse.

      — Vamos sentar e conversar, querido — a beta falou. — Aposto que tem muitas coisas que nós podemos contar.

      Era impossível tirar o sorriso que eu tinha no rosto. Ainda que minha pele estivesse um pouco grudenta pelo choro, Harry apareceu com alguns lencinhos umedecidos para me ajudar. Agradeci a ele com um selar rápido de lábios, contendo-me respeitosamente, uma vez que minha família estava presente. Sentei ao lado de Niall, e pude notar a euforia dele ao ver que seus olhos também demonstravam que ele tinha chorado bastante.

      Enfim, estávamos com nossas famílias, e nada estragaria aquela sensação de pertencer. Eu estava certo ali, com aquelas pessoas.

      Johannah quis saber o porquê de estarmos num hospital, e assim que explicamos para ela que meus filhotes com Harry tinham nascido, embarcamos em mais uma onda de lágrimas e parabenizações. Era ótimo saber que, mesmo com uma certa desconfiança no começo, elas estavam aprendendo a lidar com o fato de que eu era companheiro de um ex-Contentor.

      Minhas irmãs, tia Maura e minha mãe fizeram carinho e sussurraram palavras bonitas para os quatro filhotes que dormiam de forma pacífica na cesta, trazendo para meu peito uma sensação de orgulho de mim mesmo por ter começado a formar minha própria família ao lado do homem que eu amava.

      Conversamos por horas naquele restaurante sobre como tinha sido me criar, ouvi as dicas que Johannah e Maura davam sobre a maternidade e também falamos muito sobre minha relação com Harry. Precisei contar sobre minha vida nos subúrbios e, por mais que eu tivesse escolhido um caminho não necessariamente honesto, minha mãe não se desapontou.

      — Não foi algo bom, mas entendo que era a única saída na época — ela disse. — Estou orgulhosa de você por ter se endireitado ao invés de fugir das consequências de suas ações, boo.

      Ali, eu percebi que poderíamos ser tão felizes quanto éramos há 28 anos, quiçá até mais.

      — Mamãe — Félicité chamou. — Acho melhor falar agora.

      Fitei Johannah com curiosidade, querendo saber o que ela precisava me dizer. A ômega suspirou com um sorriso calmo, mas sua aura não era capaz de disfarçar um quê de nervosismo.

      — Falar o quê? — indaguei com a voz meio falha.

      — Quando fomos realocadas, Daniel foi procurado depois de um tempo, também. Ele morou conosco durante esses anos, mas acabamos nos divorciando ano passado — ela tomou um gole de seu suco para uma pausa antes de retornar. — Nesse meio-tempo, tivemos mais filhos.

      Minha mente pareceu ficar em branco por alguns segundos, mas consegui perguntar:

      — Como assim? Filhos? No plural? — Falei rápido. Aquela ideia ainda estava parecendo uma pegadinha para mim.

      — Pois é — minha mãe riu suavemente. — Você tem mais quatro irmãos.

      — Quatro? — Exclamei. — Meu Deus…

      — Não fique tão eufórico, você foi igualzinho — ela caçoou.

      Dei uma risada gostosa, pois era verdade. De toda forma, eu me sentia leve ali e saber que nossa família tinha aumentado bem mais desde a última vez que nos vimos era simplesmente de tirar as palavras de minha boca. Recostei meu corpo ao de Harry, parando para observar aquele momento.

      Ter meu alfa ali, junto com os meninos e minha família poderia ser comparado a estar nas nuvens. Minha vida tinha dado uma guinada tão grande naquele último ano que seria impossível descrever tudo em uma única conversa, e eu nem queria aquilo. Resumir o que eu vivera ao lado deles seria como tirar toda a essência das minhas experiências. Por isso, apenas suspirei e me dei o prazer de vislumbrar aquela que seria minha nova jornada.

















      Depois do reencontro com minha família, precisei passar por mais uma série de exames para determinar se eu estava apto a ter alta do hospital. Doutor Francis explicou categoricamente várias coisas que teríamos que fazer agora que os bebês enfim tinham nascido e, apesar de termos achado a princípio que eles seriam mantidos lá comigo, descobrimos que eles teriam um desenvolvimento mais rápido nas primeiras semanas justamente para saírem se suas formas animais.

      — Eles são mestiços, e só nasceram como filhotes de lobo porque seus corpos precisam se acostumar às transformações parciais que aprenderão após algum tempo — o médico explicava enquanto as enfermeiras preparavam os nenéns. — Vocês sabem como funciona, eles só poderão transformar, no máximo, duas partes de seus corpos quando saírem da forma animal.

      — Tem algo em específico que precisamos fazer com Lux, além dos cuidados que teremos com os outros? — Harry indagou.

      Lux era a filhote menor. Era uma alfa, porém seu tamanho quase não deixava-nos acreditar nisso; seus irmãos haviam tomado boa parte do vitelo que deveria ir para ela. Entretanto, observando-a com os outros na cesta, ela parecia ter força o bastante para ficar bem.

      — Ela tem uma codificação genética diferente, apesar de ter nascido da mesma placenta — Doutor Francis acionou seu teclado para mostrar um holograma. Ele circulou um ponto em específico que continha as informações genéticas de Lux. — Aparentemente, está tudo bem com isso, mas peço para que fiquem de olho caso algum comportamento distinto dos irmãos surja, como ela conseguir ter sentidos mais apurados e esse tipo de coisa.

      Olhei para Harry com certo nervosismo, mas o alfa tomou a frente por mim:

      — Isso seria um sinal ruim?

      — Depende da visão de vocês — o médico deu de ombros. — Isso seria um indicativo que, talvez, ela possa ter mais genes Impuros do que comuns, e isso poderia fazer com que os genes Impuros predominassem. Ou seja: em chances pequenas, Lux pode se tornar uma loba completamente Impura. É raro, mas pode ser que aconteça.

      — Ela ser tão pequena é algo preocupante? — Eu perguntei.

      — Não temos certeza, mas se for o caso, há alguns estudos que sugerem uma dieta e rotina que a faça ficar mais forte. Ainda são teses sendo analisadas, mas as cobaias de estudos são poucas e, caso vocês estiverem dispostos se Lux se tornar Impura, poderíamos tentar com ela.

      Eu não soube o que responder. Não tínhamos certeza se nossa filha precisaria daquilo, mas mesmo que o fizesse, era uma ideia nova e meio amedrontadora deixar que estudos fossem feitos nela para determinar suas condições físicas.

      — Acho que ainda é cedo para pensar sobre isso — Harry falou, atraindo minha atenção.

      — Naturalmente — doutor Francis concordou. — Só comentei sobre isso para deixá-los a par das opções. Agora, tirando tudo que expliquei, acredito que estejam prontos para voltar para casa.

      — Certo, obrigado, Doutor — eu falei ao apertar sua mão.

      Harry despediu-se da mesma forma, pegando a cesta com os filhotes para, então, me acompanhar. Minha família ainda estava esperando por nós, mas Maura, Niall e os meninos tinham ido até o apartamento deles para organizarem as coisas. Tia Maura ficaria com o filho e os genros lá, enquanto minha mãe e irmãs ficariam na mansão comigo e com o meu alfa.

      — Deixe que eu levo meus netos, Harry — mamãe sorriu para ele ao tirar as cestas de suas mãos para enrolar cada um dos filhotes nos respectivos cobertores.

      Lottie e Fizzy carregaram Theo e Lux, minha mãe pegou Olivia e Harry, Diana. Por eu não poder fazer esforço ainda, contentei-me em observá-los enquanto eu levava a cesta vazia. Observar toda aquela interação me deixava bobo, e eu queria que aquilo durasse para sempre.

Deixa sua estrelinha e seu comentário para eu saber o que está achando da fanfic até aqui. Isso ajuda não só a história, mas é um incentivo pra eu continuar escrevendo :D

Até o próximo e eu amo vocês ♥

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