TRIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

O público masculino que lê a fanfic aumentou. Fico feliz por isso já que é mais comum ver mulheres lendo histórias como essa.

Enfim, tem um aviso importante no final. Não pulem, por favor ♡

Boa leitura, boos.

      — Tudo pronto, Lou? — Harry pegou a mala de maternidade de cima da poltrona e me olhou.

      Encarei seu rosto cansado, com olheiras azuladas contrastando com a palidez da sua pele. Aquelas últimas semanas até o parto tinham sido complicadas para nós dois, porque os bebês pareciam mais agitados do que nunca chutando, sendo um susto a primeira vez que eu vi aqueles múltiplos pezinhos se sobressaindo sob minha pele. E doía muito. Várias vezes, eu vomitava pela dor que era quase a mesma coisa de senti-los empurrando minhas costelas.

      Pelo lado bom, porém, nós finalmente tínhamos recebido uma resposta sobre o problema hormonal da filhote mais pequena. Gigi fizera uma série de exames para entender aquela falha, e no fim descobrimos que era algo normal quando um lobo gerava uma ninhada relativamente grande tendo um lobisomem como parceiro. Um dos nenéns sempre ficaria um pouco menor que os outros aleatoriamente por fatores biológicos.

      Era um alívio saber que aquilo não seria pernicioso para mim ou para a bebê, mas meu corpo estava mais dolorido do que antes, então era constante que eu acordasse de madrugada sentindo minhas costas quase moídas, meu estômago revirando e os pés dos filhotes batendo contra a pele esticada da minha barriga. Consequentemente, Harry também despertava, o que nos trazia cerca de duas a três horas tendo que ficar acordados até que aquelas dores fossem embora.

      Além de que, como sempre, meu alfa era o melhor para mim. Ele me dava massagens nos tornozelos, costas e pernas, fazia chá e tampouco reclamava de ir até o centro de Londres para comprar as bizarrices que meus hormônios faziam-me querer comer. Apenas então fui capaz de notar o quanto aquele cansaço estava refletido fisicamente em Harry.

      Aproximei-me de seu corpo fatigado para poder soltar meu peso contra ele, fechando os olhos ao sentir seus braços quentes me abraçarem. Eu queria reconquistar o contato físico que tínhamos perdido — que eu tinha evitado — naqueles meses, porque o mais novo sempre esteve lá por mim sem nunca opor-se.

      — Eu amo você — falei, mas minha voz saiu tão baixa que temi Harry não ter ouvido.

      O alfa arfou fracamente, apertando-nos um pouco mais juntos.

      — Eu também amo você, Louis. Está tudo bem?

      — Sim — ri nasalado. — Só quero um pouco de você agora.

      Sem reclamar que tínhamos horário marcado com Gigi, Harry levou-me colado a ele até que pudesse sentar na cama, colocando-me de lado sobre seu colo. Com delicadeza, meu alfa começou a afagar minha barriga, e quase que instantaneamente um dos filhotes chutou sob sua palma. Harry riu, fazendo carinho sobre a sola do mini pé à mostra ali.

      Escondi meu rosto em seu pescoço, aproveitando para pegar seu cheiro. Passei o nariz por cima de sua glândula aromática, sentindo os feromônios do meu alfa virem até mim numa forma calmante. Não sei por quanto tempo ficamos ali, mas em algum momento o celular de Harry tocou. O alfa não parou de exalar seus feromônios, deixando-me sonolento enquanto falava com alguém.

      Entretanto, minha mente pareceu despertar assim que senti seu corpo ficar tenso e sua voz abaixar alguns timbres. Abri meus olhos e encarei a cicatriz rosa-pálido perto de seu pescoço, sentindo algo estranho em meu peito. Por algum motivo, uma inquietação fez-se presente; por isso, quando Harry desligou o celular, endireitei-me para encará-lo. Minha curiosidade pareceu ficar aparente porque o alfa não tardou em explicar:

      — Era Liam — seu suspiro não me pareceu bom, principalmente por sua voz soar muito mais cuidadosa quando voltou a falar. — É sobre sua família. Você quer saber?

      Instantaneamente, pousei minhas mãos sobre minha barriga, ainda mantendo contato visual com meu alfa. Meu coração acelerou de maneira gradual, mas tentei pensar racionalmente. Estava muito próximo da data do parto e, mesmo sabendo que o ideal seria evitar totalmente o estresse, considerei a hipótese de as coisas para encontrar minha família poderiam se complicar caso eu esperasse até os bebês nascerem.

      — Sim — respondi afinal. — O que ele disse?

      Harry respirou fundo, como se estivesse buscando as palavras certas. Sua aura não estava triste ou refletindo sentimentos ruins, era apenas... Preocupada.

      — Ele conseguiu descobrir onde elas estão, Louis — soltou. — Podemos finalmente encontrar a sua família.

      Se não fossem os braços de Harry me dando suporte, eu provavelmente teria caído de seu colo naquele instante. Aquela proximidade com a realidade fez com que uma ânsia de vômito subisse à minha garganta, levando a bile para minha boca. Levantei-me cambaleante para poder alcançar o banheiro e, com meu alfa em meu encalço, senti-me seguro para agachar na frente da privada e colocar tudo o que tinha comido naquela manhã para fora.

      O gosto amargo da bile e da comida misturada ao suco gástrico causou um gemido enojado vindo em mim, contudo uma nova onda de vômito veio e não fiz esforço nenhum para contê-la. Meu peito estava apertado, porém minha mente parecia limpar-se um pouco a cada novo espasmo causado pelo enjoo.

      — Desculpe — murmurei quando sentei-me sobre meus calcanhares, encarando os restos que eu tinha acabado de bolçar.

      — Não tem motivo para pedir desculpas — Harry colocou suas mãos sob as minhas axilas, dando-me apoio para ficar sobre meus pés. — Vamos, eu ajudo você a lavar a boca. Vou pedir para Meryl preparar algo leve.

      Apenas consegui anuir com a cabeça de modo curto. Depois de gargarejar com um pouco de água, voltei para o quarto e deitei-me na cama. Harry depositou um beijo casto em minha testa antes de sair para pedir algo que eu pudesse comer sem ter mais enjoos. Enquanto o cômodo era afundado em silêncio, minha mente turvava-se cada vez mais com os pensamentos barulhentos sobre estar tão próximo de reencontrar as pessoas que eu mais amava.

      Mergulhei em uma certa latência por causa do turbilhão de coisas que se passava em minha cabeça e só notei que Harry tinha retornado para o quarto quando sua mão ornada de anéis tocou minha bochecha com carinho e cautela. Levei meus olhos para os dele, enxergando seu desassossego sobre aquele assunto.

      — Você quer conversar sobre isso?

      — Eu quero — admiti. — Podemos falar enquanto eu como?

      — Claro, amor. Claro que sim — Harry pareceu surpreso por eu me demonstrar tão aberto àquele assunto, mas não me ofendi. Se fosse o contrário, eu teria a mesma reação.

      Ele me ajudou a sentar encostado contra a cabeceira, e então pegou sobre a mesinha a bandeja que havia trazido com um sanduíche com patê de frango e um copo de suco. Harry também acomodou-se sobre o colchão, passando as mãos pelo rosto.

      — Mais arquivos daquela época surgiram, estavam guardados a sete chaves na sala do Marechal que tinha o posto antes de mim. Ele era alguém que financiava, junto de terceiros, um programa secreto onde Impuros prodígios seriam raptados e treinados para se tornarem armas de guerra…

      Conforme eu mastigava o sanduíche, ele parecia mais e mais denso em minha boca. Eu podia ver onde aquilo estava chegando.

      — Você era um deles. Quando aqueles bastardos invadiram sua casa, queriam levar você e Niall para participar desse programa. Como vocês conseguiram escapar, seria arriscado demais largar testemunhas para trás. Por isso, eles colocaram sua família em total reclusa numa prisão Impura, afastada do resto de Londres.

      “Consta nos arquivos recuperados que, depois de quatro anos lá, todas passaram por testes de comportamento para que a Contenção decidisse se poderia liberá-las. Com algumas condições, arrumaram uma casa em Doncaster para sua família morar, sem nunca comentar sobre você ou, então, mentir sobre onde você estava.”

      Encarei a metade intocada do sanduíche, sentindo que minha fome tinha passado. Beberiquei um pouco de suco apenas para ajudar o bolo de comida a descer pela minha garganta. Não senti vontade de chorar, mas a raiva estava lá, se manifestando em vibrações lentas de latência que se estendiam por toda a minha coluna; eu me sentia cansado.

      — Isso… — Tentei falar, mas precisei tossir para que minha voz saísse mais clara. — Isso significa que podemos entrar em contato com elas agora, não é?

      — Sim — Harry balançou a cabeça. — Se você quiser, podemos.

      Era quase palpável o cuidado que meu alfa estava tendo comigo sobre aquele assunto, desde o começo.

      Levando à boca os últimos pedaços do sanduíche que restavam, balancei a cabeça. Eu estava usando aquele momento para pensar. Seria bom tê-las após o parto dos filhotes, mas ao mesmo tempo eu queria que as coisas fossem mais rápidas. Talvez, o Louis antigo e melancólico me achasse louco, porém para ser totalmente sincero, eu estava mandando-o se foder.

      Engoli o bolo de comida mastigada e olhei para Harry.

      — Acho que seria melhor procurarmos o contato delas, então. Para que elas possam aparecer no dia ou coisa assim.














      Gigi estava conversando conosco sobre os processos do parto enquanto outro médico, Francis, fazia alguns exames em mim. Niall e seus alfas estavam no refeitório do hospital, mas logo iriam para o quarto me ver.

      Harry havia reservado aposentos bem maiores do que o quarto do Saint Mary’s, além de que toda a estrutura daquele hospital era bem mais ampla. Ali, todos os médicos eram especializados em saúde dos lobos Impuros, e por isso os corredores tinham que ser maiores para que os lobos pudessem passar e ser transportados.

      — Você terá que passar pelo parto em forma animal, Louis — Gigi chamou minha atenção ao me chamar. — Seus bebês se transformarão também e não há condições para que você os dê à luz em forma humana.

      — OK — assenti enquanto sentia Francis tirar a agulha relativamente larga de meu braço. Estremeci quando ele terminou. — Preciso ficar sob observação, mas posso andar por aí?

      — É claro, você não está em cárcere privado — ela riu. — Você pode passear por toda área do hospital, contanto que acompanhado por algum visitante ou algum enfermeiro.

      — Tudo bem — balancei a cabeça em afirmação. — O que mais eu preciso saber para a hora do parto?

      — Nada demais, por agora — Francis disse ao enrolar seu estetoscópio. — Daqui a alguns dias Gigi voltará para que conversemos sobre todo o processo, mas por enquanto a única coisa importante é que você passe por algumas sessões de fisioterapia com outra pessoa, não Zayn.

      — Por que não Zayn? — Harry perguntou enquanto guardava as nossas malas no pequeno armário do quarto.

      — Queremos dar o máximo de descanso possível para você e seus amigos — Francis sorriu simpático. — E, também, seria bom ter algum profissional especializado na sua espécie.

      — Entendo, obrigado.

      Gigi e Francis deixaram o quarto com um aceno de cabeça e, quando eu e Harry ficamos sozinhos por fim, desci da cama de exames enorme para ir até meu alfa. Ele acolheu-me nos braços de maneira quente, o que fez minha ansiedade diminuir. Aquele era o poder de Harry sobre mim.

      Devagar e sem me soltar, o mais novo deu passinhos pequenos para que andássemos até o colchão no outro canto do quarto. Eu e Harry dormiríamos nele para os dias que eu precisasse me transformar para as sessões de fisioterapia e para as noites normais, já que eu precisaria acostumar meu corpo grávido ao meu lobo. Seria mais fácil que ele aceitasse aquela mudança de ambiente, estando tão agitado pela gravidez, se o cheiro de meu alfa estivesse lá.

      — O que você acha de andar um pouco por aí e conhecer o hospital? — Harry sugeriu enquanto cheirava meus cabelos. — Eu ouvi que eles têm um bom refeitório e um jardim grande nos fundos.

      — Isso parece bom — suspirei. — Talvez eu vá para lá com Niall. Você se importa?

      — Nem um pouco, amor. Me dê um beijo e eu irei chamá-lo, enquanto isso coloque roupas mais confortáveis, OK?

      — OK, Hazz, eu vou. Obrigado, sweet.

      Apertei mais meu corpo contra o dele, com delicadeza para não machucar minha barriga; levei meus lábios aos seus para dar início a um beijo calmo, refletindo a paixão que eu sentia por aquele alfa. Enfim, o soltei. Harry saiu do quarto parecendo cansado, mas tínhamos conversado no caminho até o hospital que seria melhor ele dormir durante a tarde ali para poder se recuperar.

      Levantei-me do grande colchão para poder pegar algumas roupas mais folgadas. Aquela calça jeans estava me matando.

      Eu ainda estava meio aéreo pela recém-descoberta, entretanto os meninos tinham se esforçado bastante durante o trajeto da campina até o hospital para que eu me sentisse um pouco mais desperto. Niall estava animado, porém respeitar meu espaço pessoal e minha reação mais resguardada sobre aquilo parecia ser fácil para ele.

      — Oi, Lou — o irlandês colocou a cabeça para dentro do quarto e sorriu. — Está pronto?

      — Uh-hum — confirmei indo até ele para que nos abraçássemos. — Não faço ideia de como me orientar por aqui, deixo isso com você.

      O ômega loiro soltou uma risada gostosa, cruzando nossos braços.

      — Bem, acho que vamos nos perder juntos, então.














      No final das contas, para a nossa surpresa, não precisamos pedir informação várias vezes até encontrarmos o jardim do qual Harry havia me falado. Era um lugar grande cheio de topiarias em formas de animais pequenos, como coelhos e gatos, além de ter vários bancos de madeira, um playground adaptado para crianças Impuras — ou seja, os brinquedos eram quase cinco vezes maiores do que os de parquinhos comuns — e, além disso, todo o local ficava imerso por uma cúpula, o que fazia possível o controle de temperatura.

      Alguns pacientes estavam ali, incluindo crianças. Tentei não encarar aquelas que estavam passando por quimioterapia ou se recuperando de queimaduras graves, continuando a andar com Niall para sentarmos num dos bancos. Era agradável dentro do domo por conta da temperatura amena, então pude tirar meu casaco sem me preocupar.

      — Aqui é bem bonito, não é? — Niall comentou observando algumas árvores. — Onde quase nenhum lobisomem está. Só lobos Impuros ou mestiços.

      — Seria legal se não estivéssemos em um hospital — suspirei ao encostar a cabeça em seu ombro. — Como uma comunidade ou algo assim.

      — Eles iriam adorar isso — o irlandês suspirou, referindo-se aos Contentores. — Estaríamos todos em um único lugar, como coelhos encurralados, e as rondas seriam reduzidas.

      Franzi o cenho e torci o nariz numa careta de descontentamento, mas ele estava certo. A Contenção teria menos trabalho para nos achar e, pensando por aquele lado, era uma perspectiva realmente ruim tendo em vista o abuso de poder que eles exerciam sobre nós. Contudo, ainda era bom ter uma fantasia utópica sobre algum lugar onde Impuros pudessem viver com um pouco mais de paz.

      Permanecemos sentados ali por mais algum tempo, observando as pessoas, o cenário e conversando sobre coisas bobas e banais. Era bom passar um tempo com Niall sem falarmos sobre nossas famílias, por mais que fosse um assunto importante. Evitar aquilo fazia-me sentir uma leveza nova e gostosa.

      Mal notamos quando uma garotinha ômega chegou até nós e, a julgar por seus cabelos ralos, ela deveria estar se recuperando de algum tratamento. Ela era linda com seus cabelos loiros num tom dourado, seus olhos castanhos grandes e sua pele morena. Inclinei para frente o máximo que minha barriga permitiu e acenei com uma mão.

      — Olá, benzinho. Qual é o seu nome?

      Ela olhou-me acuada, mas acenou de volta com seus dedinhos curtos para logo depois levar o indicador à boca e começar a mordê-lo. Supus que aquela menininha não tivesse muito mais que nove anos.

      — Luccia — murmurou com dificuldade por conta de sua mastigação. — Qual o nome de vocês?

      — Eu sou Louis, e meu amigo se chama Niall — apontei para o irlandês que ofereceu um sorriso caloroso para ela. — Quantos anos você tem?

      — Eu tenho oito — Luccia tirou a mão da boca e a secou na camisola lilás que estava usando. — Você tá grávido?

      — Sim, eu estou. Não vai demorar muito para eu ter os meus bebês.

      — Você vai dar nome e cuidar deles? — Ela chegou mais perto, encarando minha barriga.

      — Sim, eu vou, sim. Quer tocar?

      Os olhos castanhos se arregalaram de maneira gradual até que Luccia os subisse até os meus, mostrando uma surpresa inocente. Ela acenou positivamente, parecendo ansiosa, mas se conteve. Levantei o moletom que estava usando e, com a pele à mostra, segurei com delicadeza o pulso de Luccia para trazê-la para perto e tocar.

      Um arrepio percorreu a minha espinha, uma coisa sensitiva e estranha, para dizer a verdade. Porém, mantive a pequena mãozinha de Luccia sobre minha pele para que ela pudesse sentir um dos bebês chutar bem debaixo de sua palma. A pequena ômega acariciou minha barriga com cuidado, um brilho intenso em sua aura.

      — Eu queria conhecer eles — a voz de Luccia saiu baixa e melosa, quase como se ela estivesse a ponto de chorar.

      — Você pode, querida — sorri mais suavemente. — Não vai demorar mais que alguns dias para eles virem.

      — O médico disse pra mamãe que eu não tenho muito tempo — ela olhou novamente para mim. — Eu sei o que isso significa.

      Engoli em seco, perguntando-me o que seria o melhor a dizer. Como ela poderia saber o que aquilo significava? De toda forma, reergui meu sorriso, ainda que fosse óbvio que ele estava abatido.

      — Você pode melhorar, não coloque suas esperanças para fora — Niall falou, agora se inclinando para falar com Luccia.

      — Eu não sei — ela deu de ombros, se aproximando mais de nós. Para minha surpresa, a pequena ômega encostou seu corpo e cabeça em minha barriga, como um abraço de lado.

      Olhei para Niall, então ele apenas deu de ombros como se também não soubesse o que fazer. Por fim, coloquei minha mão sobre a cabeleira rasa de Luccia.

      — Eles tão agitados — ela murmurou. — São três?

      Suspendi minhas sobrancelhas em surpresa.

      — Quase lá, são quatro — falei. — Como consegue saber?

      — Eu tava num acampamento antes de vir pra cá por causa do bicho mau — Luccia deu de ombros.

      — Bicho mau? — Niall indagou. — O que é isso?

      Luccia saiu de perto de mim para ir até o irlandês, esticando seus bracinhos raquíticos para que ele a pegasse no colo. Feliz, o loiro atendeu ao pedido silencioso com um sorriso de carinho em sua boca; desde sempre, Niall era apaixonado por crianças e bebês. Luccia parecia alegre, também, por estar ali, mesmo que o assunto fosse mórbido.

      — Mamãe chama minha doença assim. Eu não sei o que é direito, mas tem alguma coisa a ver sobre as minhas costas.

      — Suas costas? — Niall soou confuso.

      — Você ouviu sua mamãe ou seu médico conversarem sobre algo como “aplasia”? Essa é uma palavra da qual você se lembra?

      — Sim! — Ela apontou o dedinho indicador para mim. — É esse o bicho mau.

      Peguei um longo fôlego, tentando não deixar minha aura demonstrar minha tristeza e preocupação. Luccia era uma ômega tão bonita e que, aparentemente, devia ser muito boa no acampamento do qual participava antes de sua aplasia medular piorar. Eu queria poder fazer algo por ela, mas como era uma escolha inviável, olhei para Niall e mudamos de assunto.

      Nós conversamos sobre a família dela, os irmãos mais velhos e também sobre o gatinho chamado Bola-de-Pelo, que eles adotaram no Natal do ano anterior. Luccia era apaixonante, e quando seu irmão mais velho apareceu para buscá-la para uma sessão de radiografia, foi difícil não me sentir triste. Ainda assim, ela, Niall e eu combinamos de comer juntos na hora do almoço.

      Pelo jeito, ela contou sobre nós dois para o resto da família porque, enquanto eu e os meninos procurávamos uma mesa para sentar, Luccia veio até nós para nos levar até onde seus parentes estavam. Passamos o resto do dia conversando com eles e, para a minha surpresa, somente à noite notei que não tinha pensado sobre a busca por minha família naquele meio-tempo.

      Depois de tomar banho com Harry esfregando minhas costas e ensaboando meu cabelo com um xampu de lavanda, Liam bateu à nossa porta para se despedir. Ele iria para Doncaster a fim de encontrar a casa onde Maura, minha mãe e irmãs moravam; o alfa iria fazer promessas sobre aquilo dado o nervosismo que eu notei em sua aura, mas não dei brecha para aquilo.

      Eu só queria dormir um pouco e esquecer a busca por algumas horas.

      Na manhã seguinte, eu fui o primeiro a acordar. Harry e Niall ainda dormiam tranquilamente, entretanto não demorou muito para que Zayn despertasse, igualmente. Ele sempre tivera sono leve, pelo que Niall comentava, então aproveitei para pedi-lo por companhia. Na mesma hora, o alfa concordou.

      Enquanto eu o esperava do lado de fora do quarto, cruzei os braços dentro do casaco de moletom para proteger-me do clima mais frio que os corredores tinham àquele horário. Não levou muito tempo até que Zayn aparecesse vestindo algumas roupas quentes, oferecendo-me um segundo casaco.

      — Obrigado, Zayne — agradeci quando começamos a andar. — Como você se sente?

      — Cansado, mas bem mais preocupado com você, Niall e Liam. Espero que a Contenção não decida fazer nada contra essas buscas, e ainda que ele seja um superior, há pessoas poderosas lá dentro.

      Encarei meus pés enquanto fazíamos nosso caminho até o jardim externo, que ficava na lateral do hospital. Era todo aberto, diferentemente do jardim dos fundos, e um pouco menor por causa das árvores ali, mas ainda era tão acolhedor quanto. A neve tinha feito uma camada fina nos bancos, e não me incomodei ao passar a mão para limpar um deles e sentar ali com Zayn.

      — Acho que ele vai ficar bem — peguei sua mão e entrelacei nossos dedos. — Liam é um bom detetive, e é muito respeitado. Tente sair um pouco da sua mente.

      O alfa moreno sorriu e balançou a cabeça antes de dar um beijo sobre os nós brancos de meus dedos.

      — É, você tem razão. Acho que estou sendo muito neurótico.

      Ficamos alguns minutos em silêncio, mas somente até que Luccia chegou até nós. Ela estava acompanhada de seu irmão mais velho de novo, Jace, e os dois tinham trazido uma cesta pequena com comida. No final das contas, tomamos nosso café da manhã ali fora mesmo, comendo os pães doces que eles compraram na cafeteria do hospital.

      Infelizmente, Luccia teria uma sessão de quimioterapia logo cedo, por isso Jace a levou com uma despedida breve. Ele era um alfa bem reservado, mas gentil e simpático. Era bom saber que, na situação que a pequena ômega se encontrava, existiam pessoas que a amavam e cuidavam dela.

      Depois daquilo, Zayn deu um longo suspiro. Sua aura estava tensa pelo cansaço.

      — E você, lobinho grávido? — Sorriu. — Como isso tudo está sendo para você?

      Puxei algum fôlego, recostando mais no banco gelado. Mesmo com aquelas roupas, eu ainda tinha arrepios. Umedeci os lábios passando a língua sobre eles, piscando algumas vezes por mania nervosa.

      — É inusitado ter tanta atenção sobre mim — comecei. — Mesmo quando cheguei à mansão, estranhei toda a vigilância pela prisão domiciliar. Mas, isto é completamente estranho e novo. Sempre fui acostumado a precisar me esconder, ficar nas sombras e tudo mais. Não é ruim, porém.

      — Acho que posso te entender — ele riu. — Eu era só um fisioterapeuta antes de começar a namorar com Liam. Depois que começamos a sair, comecei a ir a mais festas e encontros diplomáticos com ele. Isso me tornou mais visível e foi bem desconfortável no começo.

      — Deve ter sido estranho — ri baixinho. — Bom, mas não estou reclamando. É bom saber que vocês se preocupam comigo.

      — Você é da nossa família, Louis — Zayn piscou um olho. — Nós amamos você e Niall.

      Por birra, forcei-me a não chorar, mas deitei a cabeça sobre o ombro dele. Eu queria que meus pulmões fossem maiores para que eu conseguisse pegar mais ar.

      — Eu também amo vocês. Obrigado por serem os melhores amigos e família que eu tive depois de vinte e oito anos.
















      — Você acha que eles têm FIFA aqui? — Niall perguntou depois de terminarmos uma parte de Call of Duty no videogame que o hospital ofereceu.

      — Talvez — eu disse enquanto mastigava alguns morangos desidratados. Eram gostosos, ao contrário do que eu pensara quando Harry os comprara para mim. — Vou perguntar para algum enfermeiro.

      Niall ofereceu o braço para dar-me apoio e levantar-me. Dei alguns passos mancos por causa de minhas pernas doloridas, colocando a minha mão em minhas costas quando um certo incômodo surgiu ali. Entretanto, quando eu pus a mão sobre a maçaneta, uma pontada aguda acertou-me em meu baixo ventre e, então, senti minhas pernas molhadas.

      — Ah, meu Deus — ouvi Niall murmurar. — Louis!

      — Ugh! — Gemi de agonia, sentindo o líquido amniótico escorrer por entre as minhas coxas. — Acione o botão de emergência, Niall, minha bolsa estourou!

      As coisas que aconteceram depois disso foram muito caóticas para eu prestar atenção em cada uma delas. Harry entrou correndo junto com o médico, quase teve um ataque ao ver que também havia algum sangue saindo, Niall desmaiou pela hiperventilação, Zayn só sabia rir como um lunático pelo nervosismo e, quem realmente estava ajudando-me a sentar na maca de transferência era doutor Francis e uma enfermeira simpática.

      Ela estava empurrando a maca pelos corredores enquanto ajudava-me a regular minha respiração e Francis estava ajoelhado ao meu lado, em cima da maca, checando meus batimentos cardíacos. Quando chegamos à sala de parto, fui transferido para um colchão bem maior do que o que estava em meu quarto e, ali, Harry se juntou a mim.

      — Louis, preciso que você foque em mim por alguns minutos — Francis tirou seu estetoscópio dos ouvidos para pendurá-lo em seu pescoço. — Levará um tempo até que o parto demande sua transformação, algumas horas, porque precisamos esperar para que sua dilatação chegue aos dez centímetros. Quando isso acontecer, uma equipe virá para ajudá-lo com sua forma animal.

      Assenti, sentindo uma pontada.

      — É normal essas dores passageiras? E o sangue?

      Francis pediu licença antes de checar minhas calças e pedir a ajuda de Harry para tirá-las. Apenas de cueca, tremi de frio e encolhi meu corpo para mais perto de meu alfa. O médico pediu um cotonete à enfermeira simpática e, então, coletou um pouco do líquido em minhas pernas para mandá-lo para o laboratório.

      — As dores são comuns no caso de uma gravidez como a sua, mas o sangue será avaliado para sabermos se haverá necessidade de mais exames até que o parto realmente comece.

      — Há algo que devemos fazer até lá? — Harry perguntou com a voz falha. Era palpável a preocupação dele.

      — Na verdade, sim — Francis acomodou-se sobre seus calcanhares. — Nosso fisioterapeuta virá em intervalos de uma hora para fazer alguns exercícios pélvicos para facilitar as coisas.

      — OK, OK, OK — suspirei. — Consigo fazer isso.

      Harry me deu um beijo estalado na cabeça, pegando meu queixo para fazer-me olhá-lo. Seu sorriso veio acompanhado por suas adoráveis covinhas.

      — É claro que consegue, amor. Você é ótimo.

The Way You Love Me tá quase acabando, mas quem tiver interesse em ler outras obras minhas pode encontrar a segunda fanfic que eu escrevi no meu perfil, e eu vou adorar ver vocês por lá :)

Não esqueçam de VOTAR e COMENTAR pra que eu saiba o que estão achando até aqui. Isso não só aumenta meu ânimo pra continuar a escrever, mas também ajuda demais a história.

Até o próximo, eu amo vocês

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