TERCEIRO CAPÍTULO

      De manhã, Niall veio me acordar. Ele estava preocupado e ficou perguntando o que tinha acontecido para eu ir dormir na sala e fumar um maço inteiro de cigarros. Eu assegurei que estava bem, que só tinha perdido o sono, e logo tomamos café da manhã e nos preparamos para o trabalho.

      Enquanto nos banhávamos, eu pensei sobre todas as memórias que eu tive na noite anterior. Normalmente, o passado costumava ser como uma cicatriz bem fechada, porém ainda presente, servindo para me lembrar daquilo que passei; mas outrora, essa cicatriz se abrira como nunca antes e exibiu o corte profundo que eu tinha bem lá no fundo do meu âmago.

      — Lou, cadê o inibidor? — Peguei o frasco já pela metade no suporte de vidro na parede e entreguei-o a Niall.

      Aquilo era um óleo especial para o corpo, feito à base de amêndoas, rosas e capim-limão, e tinha sido criado especialmente para disfarçar e até mesmo vedar o cheiro tão característico que nossos hormônios produziam. Apesar das marcas “I” em nossos corpos, Impuros não eram considerados suspeitos se usassem aquele óleo. Era ótimo para a pele e até mesmo lobisomens comuns usavam aquilo como cosmético.

      Cerca de alguns minutos depois, meu celular começou a tocar. Me sequei rapidamente e, depois de colocar a cueca, deixei Niall no banheiro para ir atender.

      — Aqui é Louis Tomlinson.

      — Oi, Tomtom — Roger me cumprimentou parecendo cansado. — Eu e Lina vasculhamos tudo ontem à noite e também conversamos com um contato dentro do Departamento de Contenção. Tá tudo limpo procês.

      — Muito obrigado, Roger. Eu vou depositar o dinheiro na conta de vocês ainda hoje — encerrei a chamada.

      Niall saiu do banheiro e virou para mim com a mão na cintura e ficou me encarando.

      — O quê?

      — Estou gordo — o irlandês virou de costas e tirou a toalha da cintura, expondo sua bunda branca para mim. — Olha, você não acha que está maior?

      Cravei, atônito, aquela cena durante alguns segundos que pareceram eternos e, ao retomar consciência, esfreguei as têmporas. Quando Niall estava perto do cio, ele ficava complexado com várias coisas sobre seu corpo. Era normal para ômegas e eu mesmo começava a ficar daquele jeito, mas tudo parecia ficar mais cômico quando se tratava daquele irlandês.

      — Niall, amor, você é lindo, OK? Mas lembre-se que as cortinas estão abertas — apontei para a janela enquanto andava até ele sorrindo. Peguei seu rosto entre as mãos e dei um selinho nele. — Agora, cubra seu lindo bumbum e vamos ao trabalho, certo?

      Ele fez beicinho e pediu outro beijo, então o fiz.

      Vestimos roupas bastante discretas e saímos de casa pontualmente, mas Niall teria que ir para outro lugar. Ele iria pelo metrô até o meio do caminho, e somente quando eu pegasse a mercadoria e desse o sinal ele poderia ir até o Winter Wonderland. Então, dei partida e saímos do prédio até a estação de metrô de Barking. Não falamos muito durante o trajeto, acredito que estávamos nervosos demais para aquilo. Quando estacionei na vaga específica para táxis, Niall saltou do carro e veio até meu lado da janela depois de bater a porta.

      — Você lembra o que fazer, não é? — Eu perguntei.

      Ele apoiou seus braços cruzados na janela e sorriu com sua carinha de lobo bebê e inclinou a cabeça.

       — Relaxa, Lou. Vou te esperar na entrada do parque e, se eu sentir algo de errado, eu saio correndo.

      — Certo — dei um beijo em sua bochecha, e Niall afastou-se. A estação não estava tão cheia, fazendo com que eu pudesse segui-lo com o olhar até que ele entrasse.

      Engatei a ré e segui para as docas de Millwall, o que demorou cerca de vinte e cinco minutos. Desci da picape e encarei o cenário, uma sensação de dejavú me atravessando como quando as memórias da noite passada me assolaram, tirando meu sono. Mas, daquela vez, foi algo bom, porque eu e Niall íamos às docas quando éramos mais novos, já que nossas mães tinham um amigo — apenas me lembrava delas o chamando de Ray — que era barqueiro.

      Passar pelo caminho de blocos de concreto, cercado por árvores, me fez lembrar de quando eu e o irlandês pescamos pela primeira vez. Ele tinha conseguido fisgar um bagre, mas pelo tamanho e movimentos do peixe, Niall acabou caindo na água junto com o animal. 

      Mas já era outono, as embarcações estavam, em sua maioria, desativadas e o movimento se concentrava mais nos prédios. Anos haviam se passado desde a última vez que eu estive lá. Era como se eu pudesse enxergar as lembranças tomando forma e dançando para lá e para cá mas, de resto, tudo estava vazio. O dia estava ameno e, andando por ali, deixei a brisa leve passar pelo meu rosto como os dedos delicados.

      Em um momento, eu parei e encarei uma mulher que estava em pé ao lado de uma pequena cabana que tinha escrito DEPÓSITO DE ELETRÔNICOS DAS DOCAS em letras pretas e desbotadas acima da porta. Nenhum funcionário estava ali, e com certeza aquela mulher não era um deles.

      — Você é Louis Tomlinson? — A ômega perguntou quando cheguei mais perto.

      — Sim. Qual o seu nome?

      Enfiei minhas mãos nos bolsos da jaqueta, a observando. De perto, ela parecia ser muito mais nova do que eu pensava no início, talvez tivesse a minha idade, e seus olhos castanhos eram grandes e calorosos. Por algum motivo, ela assemelhava-se uma adolescente rebelde, com seus cabelos lilás-esbranquiçados. Ela sorriu e uma covinha surgiu em seu rosto.

      — Pode me chamar de Gem.

     Retribui o gesto e concordei com a cabeça. Existia algo na ômega que me dava uma certa inquietação, como se eu a conhecesse de algum outro lugar. Deixei aquilo de lado achando que era bobagem.

      — Certo, Gem. Você trabalha para o senhor Mickey? — Usei o codinome que Bartley tinha nos orientado. Ela concordou com a cabeça. — Mostre-me onde está a mercadoria, então.

      Quando ela virou, pude ver que carregava uma arma enfiada nas calças. Andamos ao longo da doca principal e chegamos até o meio das árvores. Era pouca vegetação e não escondia uma pessoa muito bem, mas aquela era uma das áreas menos movimentadas da doca externa.

      Gem levou-me até um arbusto alto e afastou alguns galhos no chão com o pé, e revelou um sulco bastante fundo na terra. Ali, havia uma maleta preta, surrada e suja de terra, mas que era bem grande; Gem se agachou e apoiou um joelho no chão e a maleta no outro. Ela abriu o fecho enferrujado de metal e virou para mim, mostrando os pacotes transparentes cheios de pó branco.

      A ômega fechou a maleta e me entregou.

      — Está tudo aí dentro.

      — Tudo bem. Obrigado, Gem. Você vai embora sozinha? Posso te dar carona, se for perto daqui.

      — Não, tudo bem — ela sorriu e fez um sinal de dispensa com a mão. Era contagiante vê-la sorrir. — Preciso resolver mais algumas coisas. Obrigada.

      Acenei com a cabeça e me despedi, voltando para a picape a passos largos. Olhei para o relógio de pulso em meu braço e suspirei ao ver que ainda tinha duas horas até ter que estar no Winter Wonderland. Abri a porta de trás e enfiei a maleta embaixo do banco, cobrindo a fenda com a manta de um jeito que não fosse possível ver o vão entre os bancos e o chão.

      Montei no carro logo depois, pondo-me a caminho do Parque Hyde. Como Niall havia ido para lá de metrô, seria inútil perguntar sobre o trânsito, mas eu gostaria de poder ter feito aquilo, pois após cinco minutos na avenida principal, me vi preso em um engarrafamento.

      Bufei e escutei as músicas tocando na rádio da cidade sem nenhum ruído do motor do carro, em ponto morto. Eu tinha minhas mãos juntas sobre o volante e minha testa apoiada sobre elas; esperei pelo que pareceu ser quarenta minutos, então resolvi procurar algum atalho pelo GPS. Tinha uma rua alternativa a dois metros, e divinamente os carros começaram a andar e logo pararam novamente, mas foi a distância suficiente para eu conseguir virar no atalho.

      Segui por algumas ruas e estava a dez minutos do Winter Wonderland, mas na terceira esquina que eu virei, me deparei com a pior coisa que poderia acontecer. Primeiro, eu vi a van preta e com a grande rosa de Tudor gravada na lateral e, nas portas dos fundos, as palavras DIEU ET MON DROIT estavam escritas em letras bonitas e douradas.

      Depois, eu vi o braço estendido e o oficial da Contenção balançou o dedo em riste. Desacelerei aos poucos e estacionei no acostamento, e ele veio até meu lado da janela. Abaixei o vidro e forcei o meu melhor sorriso.

      — Bom dia, Oficial. Dieu et mon droit e Deus salve a rainha.

      — Dieu et mon droit e Deus salve a rainha, rapaz — ele disse depois de olhar meu pescoço. Sua expressão não mudou, porém. — Posso dar uma olhada nos seus documentos?

      Prendi a respiração e concordei, peguei minha carteira de motorista e o documento do carro no quebra-sol; entreguei tudo para o Contentor e depois de ele agradecer, o vi indo até a van e pedir algo ao colega de trabalho. Havia uma tenda tapando o final de uma rua e uns seis Contentores fazendo a patrulha.

      Observei ele abrindo as portas da van e mexendo num aparelho corpulento. Era uma espécie de computador, e servia para checar os dados pessoais da minha carteira. Me arrepiei. Claro que eles veriam minha ficha criminal e aquilo seria um problema. Não tinha nada demais, somente algumas prisões por brigas de rua.

      Mas, eu era um lobo Impuro. Ter acusações como aquelas era relativamente grave. Pensei em mandar uma mensagem para Niall, mas antes que eu pudesse sequer tirar o celular do bolso, o Contentor voltou e me entregou os documentos.

      — Tudo certo, Oficial?

      — Saia do veículo, senhor Tomlinson. Se importa em darmos uma olhada nele?

      O mundo pareceu parar e meu corpo inteiro gelou, desde o mais profundo âmago até minha pele. O que eu poderia falar? Não? Sem chances. Desci, entreguei a chave e ele me orientou a ir até a tenda preta para esperar mais confortavelmente. Dei uma risada sem graça e fui.

      A tenda era muito maior por dentro do que parecia ser para quem olhasse de fora, com algumas cortinas de plástico preto levavam para salas feitas por tendas menores e haviam vários guardas por ali. Apesar de o lugar ser bizarramente enorme para uma espécie de barracão, não perdi tempo e tirei o celular para mandar mensagem para Niall.

Cara, fui pego numa patrulha da Contenção. Estão revistando o carro, mas não sei se encontraram a droga. Usei aquela manta que tira cheiros, mas não estou certo… Não diga nada aos caras de Bartley e nem a ele, OK? Vou tentar chegar aí logo.

      Guardei o telefone e suspirei; apesar de tudo que estava acontecendo, eu precisava pelo menos manter a calma. Caso eles tivessem alguma suspeita e resolvessem encrencar comigo, eu não podia arriscar piorar a situação a não ser que quisesse morrer. Olhei de um lado para o outro e vi três Impuros algemados, alfas, me olhando como se fossem pular em mim.

      Mostrei os dentes e virei para frente de novo, deslizando na cadeira de plástico branca até eu estar largado nela. Cruzei os braços e apoiei a cabeça na parede, fechando os olhos. Nunca fui muito religioso, mas fosse lá quem estivesse comigo ali, eu esperava que pudesse me ajudar.

      Eu não fazia ideia do que poderia acontecer quando os capangas de Bartley se dessem conta do meu atraso, e principalmente se resolvessem ir atrás de Niall. Era para ser simples, e Roger tinha me garantido que tudo estava certo… Fechei as mãos em punho e rosnei baixo. Alguma falha tinha sido cometida e aquilo significava que a pele de Niall e a minha estavam em jogo.

      Talvez vinte minutos depois, o mesmo Contentor que tinha me parado, Oficial Joshua Petit, como seu crachá dizia, apareceu ali dentro. O nome dele era bastante irônico já que ele era um alfa enorme. De qualquer jeito, ele me pediu para acompanhá-lo e tivemos que passar pelos mesmos alfas que ficavam me encarando.

      — Você é bem bravo, não é, chico? — Um deles disse com um grave sotaque espanhol e ele sorriu ladino para mim. — Se me der uns beijinhos, garanto que esse mau humor passa rapidinho.

      Parei de andar bem na frente dele e o Oficial Petit também parou, nos olhando curiosamente. Não parecia impaciente, somente tinha um olhar cômico no rosto, como se esperasse que aquilo pudesse render-lhe algum entretenimento. Ômegas Impuros costumavam ter pavio curto. Cheguei mais perto do alfa algemado e me inclinei para olhá-lo nos olhos. Sorri como se estivesse cedendo, ladino.

      — Amor, prometo que quando eu sair daqui, eu vou dar um belo trato em você — ele sorriu, acreditando. Fechei a cara e rosnei mostrando os dentes. — Vou fazer questão de arrebentar o seu traseiro até você começar chorar como um bebê — suavizei a expressão de novo e dei dois tapinhas leve em seu rosto.

      Afastei-me de lá e ouvi ele rosnar baixo. Joshua Petit tinha um sorriso divertido em seu rosto, mas parecia se conter. Continuamos andando até uma das cortinas de plástico preto e entramos numa saleta que continha uma mesa e três cadeiras de plástico exatamente iguais às da tenda maior. Branco no preto.

      — Por favor, sente-se — Oficial Petit me apontou para uma das cadeiras e se sentou do outro lado. Me ajeitei. — Bom, não sei o que você faz da vida, senhor Tomlinson, mas devo dizer que fiquei impressionado com as técnicas que achou para esconder a cocaína dentro do seu carro. Só achamos a droga com a ajuda dos Cães.

      Torci o nariz. “Cães” era como a Contenção chamava os Impuros capturados que eles julgavam aptos a passarem por uma reabilitação. Usufruíam dos sentidos altamente apurados que tínhamos para achar drogas, pessoas, cadáveres e todo tipo de serviço de busca e apreensão. Olhei para o Joshua Petit e reparei melhor nele: era um homem corpulento, com a cabeça raspada e seus olhos castanho-esverdeados contrastavam de forma bastante bonita com sua pele escura.

      Ainda assim, aquele ar de superioridade e egocentrismo o faziam parecer feio. O alfa se inclinou sobre a mesa, apoiou os cotovelos e suspendeu o queixo sobre as mãos cruzadas.

      — Vejo que você é um homem de poucas palavras quando não precisa responder a alguém usando sarcasmo, senhor Tomlinson — seus olhos me percorreram de cima a baixo. — Sabe que está encrencado. Isso lhe daria uns bons anos na cadeia, sabia?

      — É, acho que eu tinha conseguido supor isso antes de você me falar.

      O Oficial Petit sorriu, levantou e veio até atrás de mim. Senti-me tenso no mesmo instante e, quando ele colocou a mão sobre meu ombro e deu um aperto de leve, meus ossos estalaram. O alfa soltou uma risada leve.

      — Calma, Tomlinson. Tem um jeito de você sair dessa, sabia?

      — Ah, é? — Eu disse. É claro que ele reconhecia o som dos ossos de um Impuro se esticando. — Como?

      Joshua inclinou-se e eu pude sentir sua boca tocar o lóbulo da minha orelha e reprimi um rosnado. Ele deslizou a mão que estava em meu ombro até meu peito e beijou meu pescoço, dando leves risadas. Naquela hora, a repugna que tomou meu corpo e eu ri em descrença.

      — Cara, você só pode estar brincando — respondi, enquanto minha coluna se estralava. Virei-me para ver o Oficial Petit. — É claro que eu não vou aceitar um absurdo desses, quem você…

      Antes que eu sequer concluísse o que queria falar, o alfa me acertou um soco no rosto que me lançou para o chão num baque. Meu ombro estalou e, por um momento, a dor foi paralisante. Impuros resistiam muito bem à ela, mas a anemia fazia com que meu corpo fosse muito mais frágil que o normal.

      Aquele Contentor começou a se aproximar e eu me distanciou ao mesmo passo, rastejando. Quando eu encostei na parede, largado no chão com aquele alfa vindo em minha direção, minha mente e visão começaram a embaçar, e senti que a qualquer hora eu iria perder o controle.

      — Você sabe que eu posso acabar com a sua raça, não sabe? — Ele disse ao que ficou acima de mim. Joshua agachou e apoiou o peso de um joelho sobre meu peito e tossi alto. Sua mão agarrou meu queixo e me fez encará-lo. — Não acho que você deva ter tanto cuidado com o seu corpo. Nenhum de vocês liga muito para isso.

      Urrei de dor ao que o Contentor forçou mais o joelho sobre meu peito. Reuni força o suficiente para empurrar sua perna e quase derrubá-lo. Tossi audivelmente e tentei levantar, mas não consegui. O ar voltando para os meus pulmões queimou e aquela dor foi imensa; mesmo assim, agradeci. Petit veio até mim e agarrou-me pela nuca e me levantou.

      No momento em que sua mão tocou minha nuca, eu rosnei alto. Aquele ato era considerado extremamente íntimo, uma demonstração clara de dominância por um alfa sobre seu ômega, mas eu não pertencia a Joshua Petit. Quando aquilo acontecia, quando um alfa tentava ter preponderância sobre um ômega que não era seu, ele cometia uma das maiores condutas de assédio e desrespeito que era imaginável. Não físico, mas mental e emocional.

      — Vai rosnar para mim de novo quando eu acabar com esse seu rabo, Tomlinson — ele disse entredentes.

      De repente, o Contentor fez uma cara de dor e seu aperto se desfez, fazendo-me cair. O corpo grandalhão de Petit estava estirado ao meu lado e me afastei depressa, para o outro lado da sala. Em suas costas estavam presos os eletrodos de um taser. Segui com os olhos os fios condutores e vi que um outro Contentor havia realizado o disparo, um homem um pouco mais alto que eu, barba por fazer e o único detalhe que eu reparei antes de desmaiar foi uma pinta em seu pescoço.

      Não sei quanto tempo fiquei desacordado, porém despertei numa cela; não parecia ser uma prisão, apenas uma delegacia. Levantei meu tronco daquela cama — se é que um pedaço de tábua sustentado por correntes poderia ser chamado assim — com meu corpo inteiro dolorido. Fiquei sentado por um tempo, esperando a zonzeira passar, minha visão escureceu e aquilo me custou mais alguns minutos.

       Quando me recuperei, fiquei de pé e estiquei todo o meu corpo. Aquela delegacia não estava escura, mas a luz estava bastante esmaecida por estar entardecendo. Estalei a língua no céu da boca ao lembrar de Niall e esfreguei as mãos no rosto; deslizei meus dedos até os cabelos e os puxei para trás.

      O que eu faço? Será que pegaram ele?

      Olhei ao redor mantendo os braços daquele jeito e, quando me virei para a saída, notei que havia uma mesa na bifurcação dos corredores e o mesmo Contentor bonito que apagara Joshua Petit estava sentado lá, parecendo imerso em papelada e num cigarro. Minha boca secou pela falta de nicotina e fui até as grades e me recostei nelas, relaxando os braços.

      — Ei, gatão — assobiei. Ele me olhou e arqueou uma sobrancelha. — É, você. Tem como me soltar daqui?

      Ele riu, pegou algo em cima da mesa e veio até minha cela. Abriu as grades a fim de pegar minhas mãos para prender meus pulsos nas algemas. Olhei para ele e suspirei.

      — Boca rápida, Tomlinson, mas suas gracinhas não te salvam desta encrenca — ele disse e se virou, chamando-me com o indicador.

      Você sabe que eu poderia facilmente te atacar pelas costas, certo?

      Guardei os pensamentos para mim, no entanto. Era uma coisa burra, eu estava numa delegacia e com certeza não havia só ele de Contentor ali. Às vista disso, acompanhei-o como um bom cachorrinho e sentei-me na cadeira de frente para ele. O Contentor remexeu em alguns papéis, empurrou outros para fora da mesa sem nem se importar com a bagunça e abriu uma pasta de papel pardo e ali dentro tinha uma foto minha.

      Fiz uma careta ao reconhecer aquilo como minha ficha criminal.

      — Vocês não têm nada mais moderno do que papel? Ouvi dizer que até as delegacias de Doncaster têm aqueles computadores que puxam o histórico do suspeito só com uma gota de saliva.

      — Sim, nós também temos isso e muito mais, contudo isto é parte de um acervo especial que fica no meu escritório.

      — Que honra, então.

      — Tomlinson — ele suspirou. Era um alfa, mas eu quase não percebi isso se não fosse pelo cheiro; ele não se portava quase como um. Olhei para sua roupa e notei o material diferente e franzi o cenho. Quando retornei meus olhos ao dele, vi que tinha um pequeno sorriso em sua boca. — Não sou patrulheiro, sou do Exército. General-de-Divisão.

      Primeiro, eu fiquei confuso. Numa delegacia não havia soldados. Vistoriei novamente seu uniforme e, aos poucos, a verdade foi batendo à porta: o uniforme em vinho escuro, os detalhes em branco e dourado, as medalhas de honra pregadas e, por fim, um pequeno crachá de platina com “Gen. Div. Liam Payne”.

      Aquilo aferreceu meu corpo e arregalei os olhos. Mexer com um Contentor que fazia parte da equipe da patrulha era uma coisa — obviamente, não era tranquilo, nada que se relacionasse à Contenção era —, mas, mexer com a divisão do Exército era como mexer com uma cobra, sem nunca saber o que aconteceria. Ou, melhor, era como desativar uma bomba: faça as combinações erradas, e seus miolos vão pelos ares.

      — Você sabe que tráfico de drogas é motivo de punição severa para lobisomens comuns, certo, senhor Tomlinson? — O Contentor se recostou na cadeira e cruzou os braços. — Você e seu amigo podem pegar até quinze anos de cadeia.

      — Comum? Eu não… — Liam se inclinou sobre a mesa e me encarou sugestivamente. Suspendi as sobrancelhas, entendendo. — Oh.

      — Mas acho que eu posso ajudar você e seu amigo loiro — fitei-o, atordoado. Então, Niall estava ali, também. — Nós enviamos um mandato, recebemos informações que vocês moram juntos.

      — Onde ele está?

      — Já foi interrogado, está na cela dos fundos — fiz menção de levantar para ir atrás de meu amigo, porém Liam assobiou alto o suficiente para minhas orelhas ficarem sensíveis. — Sente-se. Você pode vê-lo quando terminarmos aqui.

      Obedeci e abaixei um pouco a cabeça.

      — Você comentou sobre um modo de nos ajudar — passei a língua sobre os lábios novamente, sentindo meu organismo pedir por um cigarro. — Como?

      Liam ajeitou-se na cadeira e puxou uma garrafinha d’água de algum lugar debaixo da sua mesa e me entregou. Aceitei de bom grado, não percebendo o quão sedento eu estava até dar os primeiros goles.

      — Cá entre nós, eu não estou com saco para explicar como eu sei das coisas. Eu apenas sei que você e o senhor Horan fazem entregas de várias coisas, não apenas drogas. Vocês não têm nenhum registro de violência grave, muito menos de roubo, furto ou assalto. Basicamente, suas fichas poderiam ser consideradas limpas se não tivéssemos pegado vocês agora.

      Terminei de beber a água e amassei a garrafinha. Liam estendeu a mão e entreguei o plástico torcido para ele. Depois de jogar fora, ele ofereceu-me outra, e aceitei.

      — Por causa disso, e por claramente Niall ser um lobisomem comum — essa parte claramente foi dita sem um pingo de veracidade e Liam até piscou para mim — A pena de vocês é negociável. Claro, eu ter pegado o caso também ajuda bastante.

      — O quê? Por você ser do Exército da Coroa você tem benefícios com o juiz?

      Liam riu e balançou a cabeça.

      — Você, quem sabe, não precise comparecer ao tribunal, Louis. Mas seu caso irá de qualquer jeito para o Tribunal de Magistrados, eu não posso impedir isso — torci o nariz. — Contudo, caso colabore num interrogatório à parte, podemos investigar o mandante e, dependendo de quem for, será possível alegar indução ao crime.

      — OK, acredito que o que você queira dizer é que isso me daria certa vantagem?

      — Exato — ele fechou a pasta que continha minha ficha e suspirou, começou a falar mais baixo. — Eu vou precisar mexer bastante os pauzinhos para livrar vocês dessa, Tomlinson. Impuros têm punições muito severas e intolerantes. O que eu posso fazer é conseguir, no mínimo, prisão domiciliar por três anos e serviço comunitário integral, mas isso na melhor das hipóteses.

      — Bom, entre ficar em casa trabalhando para o governo e ficar confinado numa prisão para sempre até ser morto, eu estou bem com a primeira opção — cruzei as mãos atrás da cabeça. Franzi o cenho. — Por que está fazendo tudo isso?

      — Como?

      — Por que está livrando nossa pele? É uma dor de cabeça desnecessária.

      — As coisas só se casaram bem — ele sorriu pequeno. — Eu preciso de um favor a longo prazo e vocês precisam ficar vivos. Parece uma coisa boa, não é?

      — É — concordei, desconfiado. — Acho que sim. Que tipo de favor?

      Nessa hora, Liam pareceu ficar um pouco desconfortável. Ele aprumou-se na cadeira antes de inclinar-se sobre a mesa.

      — Há esse conhecido, um amigo. Por uma razão que não vem ao caso agora, ele precisa de assistência pessoal 24 horas por dia, então, eu acredito que seja perfeito para você.

      — E Niall? Como a situação dele fica?

      — Ele é mestiço, mas posso considerá-lo comum pelo sistema. Isso faz com que a prisão domiciliar seja reduzida a meses, ele ficaria submetido a trabalho comunitário, também.

      Minha cabeça estava girando um pouco. Eu não fazia ideia de como aquela bagunça fazia sentido, mas eu não poderia negar. Se o fizesse, muito provavelmente eu apodreceria na prisão, e não teria notícias de Niall nunca mais.

      — Como eu cuidar do seu amigo pode ser considerado um serviço comunitário?

      — Isso não importa agora, Tomlinson — disse ele sério. — A questão é: você aceita, ou não?

 Fechei os olhos e me concentrei; as coisas estavam acontecendo muito rápido. Uma negociação com um traficante havia se transformado em uma negociação com um Contentor. Nada fazia sentido, só que era pegar ou largar.

      — Claro — eu disse, por fim. — É claro que eu estou dentro.

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Até o próximo, eu amo vocês ♡

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